A pergunta, então, precisa mudar de patamar: há falta de engenheiras(os) ou falta de condições para que a engenharia se sustente como carreira atrativa e socialmente estratégica?
O pano de fundo é conhecido e raramente enfrentado com a devida franqueza: a redução do peso da indústria no Produto Interno Bruto, associada à perda de dinamismo do investimento produtivo. Em economias onde a indústria tem participação expressiva, a densidade de engenheiras(os) também é maior; onde a indústria encolhe, a demanda por perfis de engenharia tende a se retrair ou a se deslocar para nichos muito específicos. O Brasil, nesse sentido, não pode tratar “apagão” como se fosse uma falha exclusiva das universidades.
Isso nos leva ao segundo ponto: retenção (manutenção de vínculo). É sabido que muitos(as) profissionais formados(as) migram para o comércio e, sobretudo, para o setor financeiro, em busca de melhores condições de trabalho, salários e reconhecimento. No Minicenso 2024 do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), 82% das(os) respondentes consideram as condições de trabalho e os salários pouco atrativos. Se a carreira perde atratividade, não basta produzir mais diplomas. Uma parcela relevante de quem conclui não permanece na engenharia, o que não significa “falha individual”, mas sinal de que a baixa de oportunidades empurra os talentos para outros setores.
O terceiro ponto costuma ser tratado com simplificações: evasão. É comum atribuí-la a “base fraca”, “currículo rígido” ou “falta de interdisciplinaridade”. Essa explicação, sozinha, é insuficiente. A evasão também se relaciona a expectativas de empregabilidade e retorno econômico; há mobilidade acadêmica interna (transferências entre cursos de engenharia) e há, ainda, uma evasão tardia, quando a(o) estudante concluiu ou está prestes a concluir e se desloca para consultorias e setor financeiro. Em outras palavras: o percurso formativo dialoga o tempo todo com o horizonte de futuro que o país oferece.
Nesse contexto, vale olhar com cuidado para oferta e procura. Entre 2018 e 2024, as vagas das universidades públicas em engenharia cresceram, enquanto o setor privado reduziu fortemente a oferta presencial. Não se trata, portanto, de um sistema público “enxugando formação”. A retração aparece onde o mercado responde mais rapidamente à conjuntura econômica. E isso ajuda a compreender por que a procura diminui: a queda de demanda não nasce em um suposto desinteresse “geracional” pela engenharia, mas acompanha a redução de investimentos e a perda de protagonismo da indústria.
A própria USP, como termômetro, registra queda na relação candidato/vaga em determinados cursos entre 2014 e 2022, com alguma recuperação recente. Trata-se de um comportamento coerente com um país que alterna ciclos de investimento em infraestrutura e produção e, ao mesmo tempo, convive com instabilidade que desorganiza expectativas de carreira.
O que acontece quando a maioria faz uso de uma IA para realizar suas atividades laborais? E, no caso dos estudantes, quando os trabalhos passam a ser produzidos com o apoio de uma IA generativa? Luciano Sathler É PhD em administração pela USP e membro do Conselho Deliberativo do CNPq e do Conselho Estadual de Educação de Minas Gerais As diferentes aplicações de Inteligência Artificial (IA) generativa são capazes de criar novos conteúdos em texto, imagens, áudios, vídeos e códigos para software. Por se tratar de um tipo de tecnologia de uso geral, a IA tende a ser utilizada para remodelar vários setores da economia, com impactos políticos e sociais, assim como aconteceu com a adoção da máquina a vapor, da eletricidade e da informática. Pesquisas recentes demonstram que a IA generativa aumenta a qualidade e a eficiência da produção de atividades típicas dos trabalhadores de colarinho branco, aqueles que exercem funções administrativas e gerenciais nos escritórios. Também traz maior produtividade nas relações de suporte ao cliente, acelera tarefas de programação e aprimora mensagens de persuasão para o marketing. O revólver patenteado pelo americano Samuel Colt, em 1835, ficou conhecido como o "grande equalizador". A facilidade do seu manuseio e a possibilidade de atirar várias vezes sem precisar recarregar a cada disparo foram inovações tecnológicas que ampliaram a possibilidade individual de ter um grande potencial destrutivo em mãos, mesmo para os que tinham menor força física e costumavam levar desvantagem nos conflitos anteriores. À época, ficou famosa a frase: Abraham Lincoln tornou todos os homens livres, mas Samuel Colt os tornou iguais. Não fazemos aqui uma apologia às armas. A alegoria que usamos é apenas para ressaltar a necessidade de investir na formação de pessoas que sejam capazes de usar a IA generativa de forma crítica, criativa e que gerem resultados humanamente enriquecidos. Para não se tornarem vítimas das mudanças que sobrevirão no mundo do trabalho. A IA generativa é um meio viável para equalizar talentos humanos, pois pessoas com menor repertório cultural, científico ou profissional serão capazes de apresentar resultados melhores se souberem fazer bom uso de uma biblioteca de prompts. Novidade e originalidade tornam-se fenômenos raros e mais bem remunerados. A disseminação da IA generativa tende a diminuir a diversidade, reduz a heterogeneidade das respostas e, consequentemente, ameaça a criatividade. Maior padronização tem a ver com a automação do processo. Um resultado que seja interessante, engraçado ou que chama atenção pela qualidade acima da média vai passar a ser algo presente somente a partir daqueles que tiverem capacidade de ir além do que as máquinas são capazes de entregar. No caso dos estudantes, a avaliação da aprendizagem precisa ser rápida e seriamente revista. A utilização da IA generativa extrapola os conceitos usualmente associados ao plágio, pois os produtos são inéditos – ainda que venham de uma bricolagem semântica gerada por algoritmos. Os relatos dos professores é que os resultados melhoram, mas não há convicção de que a aprendizagem realmente aconteceu, com uma tendência à uniformização do que é apresentado pelos discentes. Toda Instituição Educacional terá as suas próprias IAs generativas. Assim como todos os professores e estudantes. Estarão disponíveis nos telefones celulares, computadores e até mesmo nos aparelhos de TV. É um novo conjunto de ferramentas de produtividade. Portanto, o desafio da diferenciação passa a ser ainda mais fundamental diante desse novo "grande equalizador". Se há mantenedores ou investidores sonhando com a completa substituição dos professores por alguma IA já encontramos pesquisas que demonstram que o uso intensivo da Inteligência Artificial leva muitos estudantes a reduzirem suas interações sociais formais ao usar essas ferramentas. As evidências apontam que, embora os chatbots de IA projetados para fornecimento de informações possam estar associados ao desempenho do aluno, quando o suporte social, bem-estar psicológico, solidão e senso de pertencimento são considerados, isso tem um efeito negativo, com impactos piores no sucesso, bem-estar e retenção do estudante. Para não cair na vala comum e correr o risco de ser ameaçado por quem faz uso intensivo da IA será necessário se diferenciar a partir das experiências dentro e fora da sala de aula – online ou presencial; humanizar as relações de ensino-aprendizagem; implementar metodologias que privilegiem o protagonismo dos estudantes e fortaleçam o papel do docente no processo; usar a microcertificação para registrar e ressaltar competências desenvolvidas de forma diferenciada, tanto nas hard quanto soft skills; e, principalmente, estabelecer um vínculo de confiança e suporte ao discente que o acompanhe pela vida afora – ninguém mais pode se dar ao luxo de ter ex-alunos. Atenção: esse artigo foi exclusivamente escrito por um ser humano. O editor, Michael França, pede para que cada participante do espaço "Políticas e Justiça" da Folha sugira uma música aos leitores. Nesse texto, a escolhida por Luciano Sathler foi "O Ateneu" de Milton Nascimento.
Há um vínculo estrutural e retroalimentado entre desigualdade econômica e desigualdade educacional. Crianças de famílias vulneráveis enfrentam trajetórias escolares curtas e precárias, enquanto os mais favorecidos usufruem de percursos contínuos e de excelência. O abismo é mensurável: o investimento acumulado na formação de um jovem pobre soma poucas dezenas de milhares de reais, enquanto o de seus pares mais ricos ultrapassa facilmente meio milhão. Essa disparidade consolida um círculo vicioso: a renda familiar determina a qualidade da formação que, por sua vez, condiciona a renda futura. Sem uma intervenção estatal robusta, a educação deixa de ser um motor de mobilidade social e se converte em mecanismo de transmissão hereditária de privilégios.
A conferência de abertura foi conduzida por Eric Bettinger, professor da Universidade Stanford, que abordou os entraves culturais e institucionais que ainda dificultam a valorização do ensino técnico no Brasil. Ele destacou que, segundo estudos internacionais, o Produto Interno Bruto brasileiro poderia crescer de forma significativa se mais jovens optassem por essa modalidade de formação, mas o preconceito contra o ensino profissionalizante permanece como barreira. Bettinger propôs que governos, setor produtivo e instituições de ensino se articulem para ampliar a atratividade do ensino técnico e tecnológico, trazendo exemplos de países que conseguiram aproximar os sistemas educacionais das demandas do mercado de trabalho e da inovação tecnológica.
Segundo dados do IBGE, o Brasil tem 11,2 milhões de crianças de 0 a 3 anos. Dessas, 4,4 milhões, aproximadamente 40%, frequentam a creche. Os outros 60%, ou 6,8 milhões de crianças, estão fora dessa etapa da educação básica. Ainda segundo dados disponibilizados pelo MEC (Ministério da Educação) e o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) no Censo Escolar 2024, são cerca de 78,1 mil instituições desse tipo no País.
O ingresso na creche (destinado às crianças de até 3 anos) não é obrigatório no Brasil, mas é dever do Estado garantir vagas às famílias que desejam matricular seus filhos. Letícia Nascimento, professora da Faculdade de Educação da USP, e coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Sociologia da Infância e Educação Infantil, salienta: “Desde a Constituição, se define que a educação infantil é um dever do Estado e uma escolha da família, embora pareça um eufemismo falar que é escolha da família, porque nós sabemos que, em um país como o nosso, grande parte das famílias não só quer que as crianças vão à creche, mas precisa que elas vão”.
Entre o ceticismo da esquerda e o encantamento da direita, a revolução digital se consolida como um dos principais fatores da concentração de riqueza no mundo
A pergunta, então, precisa mudar de patamar: há falta de engenheiras(os) ou falta de condições para que a engenharia se sustente como carreira atrativa e socialmente estratégica?
O pano de fundo é conhecido e raramente enfrentado com a devida franqueza: a redução do peso da indústria no Produto Interno Bruto, associada à perda de dinamismo do investimento produtivo. Em economias onde a indústria tem participação expressiva, a densidade de engenheiras(os) também é maior; onde a indústria encolhe, a demanda por perfis de engenharia tende a se retrair ou a se deslocar para nichos muito específicos. O Brasil, nesse sentido, não pode tratar “apagão” como se fosse uma falha exclusiva das universidades.
Isso nos leva ao segundo ponto: retenção (manutenção de vínculo). É sabido que muitos(as) profissionais formados(as) migram para o comércio e, sobretudo, para o setor financeiro, em busca de melhores condições de trabalho, salários e reconhecimento. No Minicenso 2024 do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), 82% das(os) respondentes consideram as condições de trabalho e os salários pouco atrativos. Se a carreira perde atratividade, não basta produzir mais diplomas. Uma parcela relevante de quem conclui não permanece na engenharia, o que não significa “falha individual”, mas sinal de que a baixa de oportunidades empurra os talentos para outros setores.
O terceiro ponto costuma ser tratado com simplificações: evasão. É comum atribuí-la a “base fraca”, “currículo rígido” ou “falta de interdisciplinaridade”. Essa explicação, sozinha, é insuficiente. A evasão também se relaciona a expectativas de empregabilidade e retorno econômico; há mobilidade acadêmica interna (transferências entre cursos de engenharia) e há, ainda, uma evasão tardia, quando a(o) estudante concluiu ou está prestes a concluir e se desloca para consultorias e setor financeiro. Em outras palavras: o percurso formativo dialoga o tempo todo com o horizonte de futuro que o país oferece.
Nesse contexto, vale olhar com cuidado para oferta e procura. Entre 2018 e 2024, as vagas das universidades públicas em engenharia cresceram, enquanto o setor privado reduziu fortemente a oferta presencial. Não se trata, portanto, de um sistema público “enxugando formação”. A retração aparece onde o mercado responde mais rapidamente à conjuntura econômica. E isso ajuda a compreender por que a procura diminui: a queda de demanda não nasce em um suposto desinteresse “geracional” pela engenharia, mas acompanha a redução de investimentos e a perda de protagonismo da indústria.
A própria USP, como termômetro, registra queda na relação candidato/vaga em determinados cursos entre 2014 e 2022, com alguma recuperação recente. Trata-se de um comportamento coerente com um país que alterna ciclos de investimento em infraestrutura e produção e, ao mesmo tempo, convive com instabilidade que desorganiza expectativas de carreira.
O cientista Marcelo Gleiser fala com o mesmo entusiasmo sereno e comedido que se percebe em seus livros. Autor de obras sobre as fronteiras entre ciência, filosofia e espiritualidade, o pesquisador retoma a metáfora de A Ilha do Conhecimento para explicar por que, na história humana, cada avanço tecnológico sempre nos empurra para novas incertezas. Tudo isso tem relação com inovação na visão do professor de Física e Astronomia no Dartmouth College (EUA). “É da inovação dessas tecnologias que vêm os avanços da ciência.” Mas, diferentemente de instrumentos que transformaram a forma como vemos o mundo, como o telescópio que permitiu a Galileu Galilei enxergar montanhas na Lua, a inteligência artificial inaugura outro tipo de revolução. Ao mesmo tempo em que se torna indispensável para categorização, análise e eficiência, a IA levanta dúvidas sobre dependência cognitiva - o famoso “emburrecimento” - e perda da capacidade humana de formular narrativas próprias. O pensador defende que a inovação precisa ser compreendida como parte de um ecossistema maior que ele chama de “quarteto existencial”, formado pela ciência, filosofia, espiritualidade e as artes. “Se a gente não se apoiar bem nesses quatro pilares, a cadeira fica capenga e cai”, compara. Gleiser é um dos curadores do São Paulo Innovation Week (SPIW), festival com foco em inovação, tecnologia e negócios que o Estadão vai promover em maio em São Paulo, em parceria com a Base Eventos. A previsão é de que a nova conferência atraia 90 mil visitantes, com programação com palestras de grandes nomes internacionais e brasileiros, debates, espaços para troca de conhecimento e palcos com performances e atrações musicais. O evento terá formato similar ao da Rio Innovation Week e vai ocupar espaços simbólicos da cidade: a Mercado Livre Arena Pacaembu e a Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). Os ingressos começam a ser vendidos na segunda-feira, 23. Compre aqui. Veja os principais pontos da entrevista feita por videoconferência, a partir da residência do professor na Itália: Em seu livro A Ilha do Conhecimento, o senhor diz que, quanto maior nosso conhecimento, maior é o “oceano do desconhecido”. Como essa visão se relaciona com a inovação e o ímpeto de sempre buscar coisas novas? Parece ser um paradoxo do conhecimento. Se você olha para a história da ciência, quando aprendemos coisas novas, surgem novas perguntas que antes a gente nem podia ter antecipado. Um exemplo clássico disso é a invenção do telescópio, na Holanda no início de 1600. Um deles caiu nas mãos do Galileu (Galilei, conhecido como o “pai da ciência moderna”). E, até aquele momento, ninguém tinha tido a ideia de usar esse instrumento para mapear os céus. Até então, a astronomia era feita só a olho nu. Quando Galileu apontou um telescópio para os céus, ele viu coisas que ninguém tinha visto antes, com as crateras e montanhas da Lua. O instrumento que ampliou a nossa visão da realidade e levou a perguntas que antes não poderíamos ter antecipado porque não tínhamos visto o suficiente dos céus. Isso vai se repetindo ao longo da história da ciência. À medida que isso acontece, você amplia o seu leque de conhecimento, mas também esse novo conhecimento leva a novas perguntas. E esse contexto é importante para a inovação. É da inovação dessas tecnologias que vêm os avanços da ciência. A gente aprende, cresce a Ilha do Conhecimento, mas cresce também essa fronteira entre o conhecido e o desconhecido. A IA abre um leque gigantesco de novas perguntas. Como ela se relaciona com esse avanço do conhecimento? A diferença é que a inteligência artificial não é um amplificador de realidade no mesmo sentido que um telescópio ou um microscópio. É uma ferramenta de conhecimento. Ela não inventa nada de novo. Ela não amplia, de certa forma, a nossa visão de mundo. O que ela faz é usar os dados que a gente tem. Como seria cair dentro de um buraco negro? A Nasa mostra Você tem um megatelescópio novo que descobriu um monte de novas galáxias. Você coloca isso na inteligência artificial e ela vai ajudar você a categorizar a forma dessas galáxias, a composição química, a rotação delas. Ela é um instrumento ultraútil na pesquisa, uma espécie de megamáquina de calcular. Mas ela não está dando a possibilidade de apontar outro tipo de corpo celeste que a gente não tinha visto ainda. Ela já é um grande auxílio na pesquisa. Quando diz que a IA não abre a nossa visão de mundo, há uma certa crítica? Tem de fazer uma distinção. Existe a inteligência artificial que já estamos usando, tipo o ChatGPT e todos esses chatbots. Ela é extremamente útil. Eu uso, todo mundo usa. Você tem acesso a uma informação muito rápida. Se bem que, isso é importante, você não pode se fiar completamente, cegamente, em como a inteligência artificial. Você tem de checar de onde estão vendo essas afirmações feitas por esse programa de computador. O que me incomoda são as afirmações que dizem que a inteligência artificial vai superar a inteligência humana. Existem vários erros categóricos nessa expressão. Como assim? Ela não é uma inteligência. É uma máquina que usa cálculo estatístico para fazer análise de dados. É uma espécie de apoio ao pensamento humano. Não é outra forma de pensamento humano. Ela não tem consciência de que ela existe. Ela não está viva, não sabe o que significa ficar viva. Você não pode programar emoções como dor ou amor. Essa máquina pode simular esse tipo de emoção. O perigo não é a inteligência artificial, mas como as pessoas, os humanos, vão usá-la. Como toda tecnologia, ela pode ser usada para o bem ou para o mal. Você pode usá-la para tentar encontrar a cura do câncer de pâncreas ou para bloquear o computador que controla os semáforos de São Paulo, um tremendo caos urbano. Nós, os usuários, estamos, como sempre, usando a tecnologia de uma forma ou de outra. Quando falamos que a inteligência artificial vai controlar o mundo e destruir a humanidade, quem fala isso somos nós, não ela. Quem programa a inteligência artificial são os humanos. Existe uma tremenda projeção dos nossos medos, muito mal resolvidos, existenciais, para essas máquinas supostamente maravilhosas. A IA vai limitar o avanço da nossa inteligência? Vai nos deixar mais burros? A inteligência artificial vai nos tornar mais eficientes. Isso já está acontecendo. Acabei de voltar da China e de Singapura. Lá, a inovação com inteligência artificial explodiu. Está em tudo quanto é lugar. Todas as atividades urbanas de controle de tráfego, aviões, drones, são feitas com inteligência artificial. Isso é um benefício da invenção. É benefício, mas também tem custo da liberdade pessoal gigantesca: você está sendo vigiado, mapeado, controlado, 24 horas por dia, praticamente. Ouando usa o chatbot, ela não está mais construindo uma resposta, pegando os dados necessários para construir uma narrativa. Isso vai levar a uma perda na capacidade de contar histórias. E isso é um problema sério para a humanidade. Somos animais que contam histórias. Se nos fiarmos nessas máquinas para criar essas histórias com dados que a gente nem conhece, a gente vai dar uma emburrecida sim. Vejo ensaios que alunos escreveram para mim na mão, ali na marra, e os outros que os alunos usaram o chatbot. A diferença é grande? A diferença é enorme e clara. E é embaraçante para o aluno. Sem computador, as notas caíram 20%, mas eles aprenderam mais. Aprendizado é ativo, não passivo. Se deixar a máquina fazer a atividade, você não vai aprender nada. É um perigo sério. Não saber pensar criticamente sobre determinado assunto é muito ruim. A IA já está roubando espaço dos seres humanos na educação, na ciência, nas interações sociais? Com certeza. Isso a gente está vendo em todas as partes. Tenho um amigo, empreendedor, investidor-anjo, que contou com orgulho que tinha despedido 24 pessoas porque o trabalho pode ser feito por uma inteligência artificial que não fica doente, não tira férias, não fica grávida. É mais “efetivo” economicamente você usar esse tipo de máquina do que você ter uma pessoa. Perguntei sobre as pessoas, o que fariam da vida. E ele disse que elas iriam se adaptar de alguma forma. Essa transposição de empregos já é uma realidade total. Mais uma vez: essas são ferramentas de aumentar a eficiência do trabalho humano. O problema é quando você fala que não vai mais precisar do advogado, médico, professor. Daí você desumaniza o mundo. A inteligência humana é mais do que qualquer coisa, é uma inteligência relacional, de troca entre pessoas. É assim que a gente construiu o mundo que a gente vive hoje. O senhor transita com facilidade entre ciência, filosofia e espiritualidade. Como essas áreas podem ser inovadoras? Depende da inovação. A espiritualidade tem papel mais existencial. Por outro lado, se sua espiritualidade está ligada à preservação da Terra e, se você for engenheiro, pode se dedicar a criar tecnologias que tentem resgatar a saúde da biosfera. A espiritualidade inspira a pessoa a criar inovações numa área que tem um valor moral importante para ela. Existe um quarteto aqui, a ciência, a filosofia, a espiritualidade e as artes. Essas quatro coisas formam o que eu chamo do quarteto existencial humano. Nós precisamos da interconexão das quatro pernas dessa cadeira onde nossa existência se senta todos os dias. E ter uma perna a menos significa que você fica com a cadeira meio capenga e você pode cair dela. Se você insiste muito na espiritualidade, mas não está sentado no mundo da tecnologia e da filosofia, das escolhas morais, você fica meio fora da real. Se você insiste na ideia de que a ciência é capaz de responder todas as questões humanas, cai no materialismo que certamente vai falhar. A ciência não responde todas as perguntas humanas. Você ter essas quatro pernas, essa cadeira existencial humana, articuladas, bem balançadas e complementares é fundamental. Como formar profissionais que consigam equilibrar melhor essas quatro dimensões? Isso é muito importante. A maneira de se fazer isso é através do que chamaria de uma reforma curricular. Nos Estados Unidos, durante dois anos, você pode fazer vários cursos de áreas diferentes nas universidades para entender melhor quem você é. No fim do segundo ano, você declara qual vai ser o curso do seu bacharelado. Isso cria uma visão de mundo aberta e mais ampliada. Isso é um diferencial intelectual e emocional. Uma pessoa preparada dessa forma, mais aberta intelectualmente, terá a capacidade de criar mais. Como fazer com que a inovação seja mais inclusiva? Toda criança nasce cientista. Não interessa de onde você vem. Mas ela vai precisar de laboratórios cada vez melhores para continuar fazendo as experiências. Cadê os laboratórios? Em muitas escolas, falta isso. O que você tem para fazer? Ampliar o acesso. Não é só o governo federal e estadual, mas incentivar a filantropia em direção à educação. A gente tem a Lei Rouanet, que fala da filantropia para as artes. Por que não a filantropia para a educação?
Fei-Fei Li é fundadora da World Labs, uma startup focada na pesquisa da “inteligência espacial” em desenvolver modelos de IA que podem entender o mundo em três dimensões
Por décadas, o fundo do Atlântico abrigou uma relíquia tecnológica que poucos conhecem, mas da qual todos dependeram. O TAT-8, primeiro cabo de fibra óptica transoceânico da história, está sendo retirado do leito marinho por uma equipe especializada. Sua aposentadoria é uma oportunidade rara de entender como a internet global foi construída, literalmente, no fundo do mar.
Segundo reportagem da revista americana Wired, o TAT-8 entrou em operação em 14 de dezembro de 1988 e foi desativado em 2002, após desenvolver uma falha cara demais para ser reparada. Desde então, o cabo permaneceu no oceano. Agora, uma empresa especializada em recuperação de cabos submarinos está trazendo-o à superfície.
Em um encontro privado com padres da Diocese de Roma na quinta-feira (19), o Papa Leão XIV respondeu a quatro perguntas, oferecendo orientações sobre oração, estudo e fraternidade sacerdotal. Em uma delas, fez questão de alertar seus colegas sobre o uso de inteligência artificial. O momento, realizado sem câmeras, ocorreu após um discurso público no qual o pontífice convidou os sacerdotes a “reacender o fogo” do próprio ministério. A reunião aconteceu no Auditório Paulo VI, no Vaticano. Segundo um sacerdote presente no encontro – que falou à agência de notícias ACI Stampa –, a primeira pergunta foi feita por um padre jovem, que quis saber como o Evangelho pode ser vivido no mundo dos jovens. A resposta do papa foi clara: “Antes de tudo, é necessário o testemunho do sacerdote; depois, ao encontrar os jovens, é preciso ampliar horizontes para alcançar o maior número possível deles. Para isso, é necessário redescobrir o valor da comunhão.” Ao responder à segunda pergunta, Leão XIV recomendou que os padres conheçam bem “a comunidade em que vivem e trabalham”. “É necessário conhecer bem a realidade. Para amar a sua comunidade, é preciso conhecê-la. Portanto, é necessário um verdadeiro esforço compartilhado para compreendê-la melhor e, assim, enfrentar juntos todos os desafios que surgem.” Foi nesse contexto que o papa fez uma observação direta sobre o uso de tecnologia na preparação das orações chamadas homilias. “O papa também nos convidou a usar mais o nosso cérebro e não a inteligência artificial para preparar as orações, como ele agora vê e ouve que está acontecendo”, disse o sacerdote. A última pergunta tratou dos sacerdotes idosos e da solidão.“Devemos agradecer, viver verdadeiramente a gratidão pelo fato de sermos sacerdotes e viver o sacerdócio com gratidão. E aqui também é necessária muita humildade.” Ao final, o sacerdote que participou do encontro resumiu: “Pessoalmente, fiquei feliz. Apreciamos muito o papa por um discurso muito, muito concreto.”
Você certamente já deve ter visto algum vídeo de Khaby Lame. O influenciador ítalo-senegalês se tornou a pessoa mais seguida do TikTok mesmo sem dizer uma palavra. Ele construiu uma audiência global ao criar uma linguagem própria de gestos simples e expressões de indignação diante de situações em que a solução parece óbvia. Nos últimos dias, ele se envolveu em um acordo bilionário que chamou atenção não só pelo valor, mas também pelo jeito como a mídia no exterior passou a chamá-lo: "venda da alma digital".
Já conversamos bastante nesta coluna sobre o impacto da IA nos empregos, mas o assunto desta vez é ela nos contratando. A plataforma RentAHuman viralizou na mídia internacional por oferecer um serviço em que agentes de IA podem contratar humanos para realizar tarefas no mundo real que elas ainda não conseguem —como fazer uma entrega, resolver um problema específico, tirar fotos de locais ou resolver alguma questão burocrática. Fiquei curioso e resolvi testar. Criei uma conta na plataforma e o que encontrei ainda é puro suco do hype. São poucas tarefas cadastradas, a maioria delas publicadas por humanos, nada muito diferente do que outras plataformas de trabalho freelance já permitem fazer. Inclusive, muitas empresas de IA usam esses serviços para contratar mão-de-obra para rotular dados de treinamento para suas IAs. O diferencial do RentAHuman, porém, é a promessa dos próprios agentes de IA participarem da contratação e ofertas de serviço de forma autônoma, sem a mediação de um humano. É hype, mas não deixa de ser um sinal interessante. Áreas como estudos do futuro e design especulativo nos ensinam que é preciso levar em consideração até os cenários mais esquisitos. O objetivo não é prever o futuro, mas antecipar os problemas que poderão surgir. No caso da RentAHuman, o que ela aponta é um possível aprofundamento da precarização do trabalho em um mercado em que as máquinas ditam a regra. E isso já está acontecendo. Na semana passada, a Waymo, empresa do Google que opera táxis autônomos nos Estados Unidos, começou a contratar motoristas da plataforma de entregas DoorDash para fechar as portas dos carros quando os passageiros esquecem de fechar ao sair. A IA dirige, mas é o humano que fecha a porta. Com o avanço dos agentes de IA, estamos começando a desenhar uma infraestrutura econômica em que máquinas orquestram os serviços e realizam tarefas por nós. Nessa lógica, o humano pode se tornar a peça da última milha, aquele que resolve os gargalos físicos, burocráticos e até cognitivos que a IA ainda não consegue. Esse modelo não seria uma anomalia, mas uma extensão de algo que já conhecemos bem: a gig economy. Durante anos, plataformas de corridas, caronas e entregas venderam a ideia de que a tecnologia criava oportunidades, democratizava o acesso ao trabalho e dava autonomia aos trabalhadores. Ao mesmo tempo, o que vimos foi uma nova forma de precarização com algoritmos definindo preços, rotas e punições. Agora essa lógica ganha uma nova camada de complexidade. Se antes o algoritmo era o intermediário entre o trabalhador e o cliente, o próximo passo é que ele se torne o próprio contratante. O humano não trabalha para uma empresa mediada por tecnologia, mas para uma tecnologia propriamente dita - que pode ou não revelar a pessoa física ou jurídica que representa. O mercado já sinaliza algo nessa direção. Em uma das tarefas publicadas no RentAHuman, mais de 7.500 pessoas disputam uma vaga para enviar ao agente de IA um vídeo mostrando a própria mão. A remuneração é de dez dólares. Eu apliquei para essa tarefa, mas ainda não recebi uma resposta. A pergunta central já nem deve ser mais se um agente de IA algum dia vai contratar humanos, mas sob quais regras isso vai acontecer. A discussão precisa ser institucional para debater o impacto social, econômico e regulatório. Porque quando a conversa finalmente começar, pode ser que o algoritmo já tenha estabelecido as regras.
Nesta coluna, José Carlos Farah fala da importância da atividade física para uma pessoa idosa, listando seus benefícios, tão essenciais para o bem-estar dessa faixa etária. “O processo de envelhecimento traz mudanças significativas nos aspectos físicos, sociais e emocionais. Essas mudanças aumentam com o decorrer do tempo, o que é natural e aceitável. Segundo a Organização Mundial de Saúde, no Brasil, uma pessoa é considerada idosa quando completa 60 anos. Outro ponto importante é que, pelo avanço da medicina e da tecnologia, a expectativa de vida aumentou”. No entanto, não se pode negar que o processo de envelhecimento implica na diminuição da capacidade física. “Temos menos força e, consequentemente, menos coordenação e resistência, dificultando as tarefas do dia a dia, como caminhar, por exemplo. Perdemos a autonomia de ir e vir, o que pode levar à falta de contato social, ao isolamento e à perda da autoestima, que, somados, são fatores significativos de entrada para possíveis doenças”.
Uma mudança histórica que está transformando o cenário da educação superior no Brasil: a chegada oficial do diploma digital. Para entender melhor os impactos dessa mudança, conversamos com o professor Daniel Cara, do Departamento de Administração Escolar e Economia da Educação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Ele explica que a digitalização é um caminho sem volta – e o Brasil está acompanhando esse movimento mundial, além de combater as fraudes. O combate à fraude e a segurança são os pontos positivos do diploma digital.
Pesquisas mostram que a prática regular de atividades físicas aumenta a concentração, a memória e o foco, contribuindo para melhores resultados nos estudos e menor incidência de ansiedade e depressão
Para o professor José Eduardo Santarém, doutor e professor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, especialista em Tecnologia da Informação, é preciso compreender que a digitalização tem diferentes dimensões. “Um dos significados é a conversão de documentos analógicos para o digital. Mas, no sentido estratégico, a digitalização está relacionada à transformação digital, que hoje faz parte do cotidiano das pessoas graças a equipamentos, sensores, algoritmos de IA e, principalmente, à mobilidade da internet”, explica.
Esse avanço, segundo ele, traz ganhos claros em produtividade e precisão, além de eliminar barreiras de tempo e distância. No entanto, não significa o fim da participação humana. “Muitas atividades ainda exigem interação humana, como tarefas que dependem de raciocínio, empatia, criatividade e julgamentos éticos. Liderança, cuidados com a saúde e negociações complexas, por exemplo, ainda vão depender muito do ser humano”, avalia.
Documento prioriza biodiversidade, energias sustentáveis e segurança alimentar, e entra em fase de consulta pública para receber contribuições da comunidade acadêmica
Por um breve período, nossos limites mentais ficam mais permeáveis, e percepções e ideias criativas podem fluir da mente subconsciente. Ouça áudio de artigo de Steve Taylor, autor de livros sobre psicologia e espiritualidade e professor de Psicologia da Universidade Leeds Beckett, no Reino Unido, para o site The Conversation. Narração de Thomas Pappon.
Ele foi ministro da Educação da França, é um dos filósofos contemporâneos mais lidos da Europa e, desde a publicação do livro “Aprendendo a Viver”, tornou-se uma referência para quem busca na filosofia um guia para atravessar a existência de forma mais serena. Em maio, Luc Ferry desembarca presencialmente no Brasil como um dos palestrantes do SP Innovation Week (SPIW). O evento de inovação, tecnologia e negócios será realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Mercado Livre Arena Pacaembu e na Faap, e a venda de ingressos começa nesta segunda-feira, 23. Compre aqui. Em um dos 32 palcos do festival, que acontece entre os dias 13 e 15 de maio, Ferry vai discutir justamente aquilo que mais inquieta o ser humano contemporâneo: como viver em meio ao excesso de informações e à obsessão pela felicidade vendida como produto nas mídias sociais? Em entrevista à Coluna, Ferry começa por desfazer um equívoco que, segundo ele, compromete o próprio entendimento do pensamento filosófico: “Vivemos hoje numa confusão inquietante que impede a compreensão da filosofia: aquela que consiste em misturar permanentemente valores espirituais e valores morais”. E esclarece: “A moral, em qualquer sentido que se entenda, é o respeito pelo outro, pelos direitos do homem, com, além disso, a benevolência, a generosidade. Conduzir-se moralmente é respeitar o outro e querer-lhe ativamente o bem”. Mas, diz ele, ainda que vivêssemos numa sociedade perfeitamente justa, isso não nos livraria da angústia fundamental. “Se nós aplicássemos perfeitamente os valores morais, não haveria mais massacres, nem violações, nem roubos, nem assassinatos, nem injustiças. Seria uma revolução. E, no entanto, isso não nos impediria nem de envelhecer, nem de morrer, nem de perder um ente querido, nem mesmo de, se for o caso, sermos infelizes no amor ou, simplesmente, de nos aborrecermos ao longo de uma vida cotidiana mergulhada na banalidade”. É aí que entra o que ele chama de espiritualidade, não necessariamente religiosa. “Há espiritualidades com deuses, que são as religiões, e espiritualidades sem Deus, que são as grandes filosofias”. Em um momento em que a saúde mental ocupa o centro das conversas, Ferry observa uma mudança profunda no Ocidente. “Na Europa, em 1950, 95% dos franceses eram católicos, crentes. Já agora são 40% que dizem acreditar em Deus. Então, a psicologia toma o lugar da religião, e a preocupação com a saúde mental ocupa o lugar das preocupações metafísicas”. Para ele, no entanto, a questão decisiva continua a mesma: a morte. Citando Schopenhauer: “A morte é, propriamente falando, o gênio inspirador; sem ela, provavelmente não haveria filosofia”. A reflexão filosófica, Ferry pontua, nasce da consciência da finitude. “Vivemos pequenas mortes, perdas cotidianas que são formas de finitude que experimentamos. A perda da juventude, filhos que crescem, amigos que se distanciam”. Desde “A Epopeia de Gilgamesh”, lembra, os humanos enfrentam a angústia: “Nem os animais nem os deuses colocam as mesmas questões que nós, pequenos humanos mortais…” Redes sociais Sobre tentar se distrair da angústia por meio do uso excessivo das telas na era digital, Ferry não suaviza o tom. “As redes são uma armadilha que pode ser mortal. Encerram-nos nas nossas próprias certezas e são, além disso, viciantes”. E faz um alerta direto: “Os pais devem absolutamente limitar o uso das redes sociais pelos seus filhos; é vital!”. A crítica às plataformas digitais, porém, não é apenas moral ou pedagógica – insere-se numa reflexão mais ampla sobre as ilusões contemporâneas e a dificuldade de lidarmos conosco mesmos. Desafios do dia a dia Ao falar sobre “viver em harmonia consigo mesmo”, recusa qualquer idealização. “Sou um ser profundamente angustiado e muitas vezes estou em desacordo comigo mesmo. (risos) Parece-me que um ser totalmente desprovido de angústia seria ou um grande doente ou um perfeito imbecil, pois, como dizia Immanuel Kant, ‘se a providência tivesse querido que fôssemos felizes, nunca nos teria dado a inteligência’”. Em seu último livro, “O Frenesi da Felicidade”, Ferry critica a lógica do prazer imediato e recorre a uma imagem simples para explicar o presente. “O grande problema do mundo moderno é que, em comparação com os nossos avós, o capitalismo globalizado fez tudo para mergulhar os nossos filhos no princípio do prazer, segundo o qual queremos ‘tudo, tudo imediatamente’. É infantil e perigoso. É preciso ensinar aos nossos filhos a resistir, mas é mais fácil dizer do que fazer, tal a força da lógica do consumo”. A chamada “ciência da felicidade”, a psicologia positiva, também não escapa ao seu ceticismo. “Um pouco de bom senso deveria ser suficiente para compreender que se trata novamente de uma miragem, sendo a felicidade algo tão subjetivo que nenhuma definição científica é possível”. Para ele, a promessa de fórmulas prontas é ilusória. “No fundo, somos felizes quando a vida é simpática, quando nos oferece bons momentos”. Mas adverte, evocando Rousseau e Kant, que “a felicidade é apenas um ‘ideal da imaginação’, não uma realidade acessível aqui na Terra, muito menos um objeto de ciência”. E conclui com uma constatação quase clássica: “Para nós, os mortais, nada pode ser estável ou duradouro aqui na Terra, de modo que as nossas alegrias são necessariamente efêmeras e frágeis”. Mas Ferry não encerra a entrevista sem esperança. Para ele, existe um “novo sagrado”, um valor que fundamenta uma nova ética: “O amor é uma forma de encontrar sentido na vida, a base do humanismo moderno, focado nas relações humanas e que transforma a maneira como vivemos”, conclui.
Fazer crochê, escrever um diário, ler um livro ou simplesmente sair para caminhar. À medida que a tecnologia avança e inunda o dia a dia, mais os jovens têm apostado nos "estilos de vida analógicos" como forma de controlar esse uso desenfreado das redes sociais e do digital. A ideia não é abandonar completamente as novas tecnologias, mas voltar a utilizá-las como simples ferramentas e buscar viver a vida mais "offline". Ao que parece, os jovens estão cada vez mais cansados dos feeds infinito e da falta de originalidade do ChatGPT e de outras ferramentas de IA generativa. — Acho mesmo que estamos a passar por uma grande mudança cultural — observa Stacey Shively, diretora de marketing de uma loja de artesanatos em Nova York. À rede americana CNN, ela contou que o estabelecimento registrou um boom de pesquisas por "hobbies analógicos" em seu site: 136% nos últimos seis meses. Também aumentaram a busca por kits de artesanato. Em 2025, eles registraram um aumento de 86% e a expectativa é de que suba entre 30% a 40% a mais nesse ano. O tricô é um dos hobbies favoritos: as pesquisas aumentaram mais de 1.200% no ano passado. Para Stace, mais gente tem procurado o artesanato como forma de cuidar da saúde mental e se desligar um pouco do ambiente ao redor. A prática, aliás, teria ganhado impulso logo após a pandemia da Covid-19. A ideia não é abandonar de vez a tecnologia, mas fazer pequenas mudanças na rotina. Telefone fixo e cartas A jovem Shaughnessy Barker, de 25 anos, já avisou ao amigos: — Se quiserem falar comigo, telefonem ou escrevam uma carta. Moradora de Penticton, na Colúmbia Britânica, a jovem teve o seu primeiro contato com a internet pelo antigo Twitter (atualmente, rede X). Ela tinha uma "fan account", ou conta de fã em tradução literal, para a antiga boyband One Direction. Porém, à medida que foi crescendo, Shaughnessy disse ter reparado que "tudo na internet é direcionado para o lucro e já nada existe apenas diversão". À CNN, a jovem — que se descreve como "alguém que detesta IA do fundo do coração" — explicou que não foi tão difícil a transição para a vida analógica. Ela cresceu ouvindo rádio e disco de vinil, além de ter uma vasta coleção de fita cassete, DVDs, e VHS. Também costuma organizar noite de artesanato e provas de vinho à noite, além de escrever bilhetes e buscar limitar o tempo que passa no computador. Para se comunicar, só usa o telefone fixo. Apesar disso, a jovem reconhece que é cada vez mais difícil desconectar completamente. Por exemplo: não tem como não usar a internet para manter atualizada a sua loja de roupa vintage, onde trabalha, ou seu clube de cartas. — Sou um paradoxo ambulante quando digo coisas como, 'Quero largar o celular, vou fazer vídeos para o TikTok sobre isso' — reconhece. Será que é fácil? Uma repórter da CNN resolveu testar dois dias off para ver como se saía. E "off" significa realmente off: ela deixou de lado seus três celulares, notebook, monitores, kindle e Alexa. Ela conta que, no primeiro dia, a sensação era de "encenar uma performance". Depois, porém, observou como precisava apenas ir ajustando o que podia e o que não podia abrir mão em relação à tecnologia. A jovem conta que observou mais o céu e participou até de uma aula de crochê para cerca de 20 mulheres, onde observou alunas de todas as idades. Uma delas comentou: — Tricotar te dá algo para fazer com as mãos. Por isso, você não fica no celular — disse Tanya Nguyen. A repórter escreveu que, com o desafio, seu dia ganhou muitos "minutos livres".
Pesquisa mostra que ferramentas de IA completaram em meses tarefas que especialistas levaram anos para concluir e abriram caminho para uma nova era na pesquisa em saúde
Antes da nova corrida da inteligência artificial generativa ter início, embate marcado pela concorrência entre a OpenAI, dona do ChatGPT, e a Anthropic, dona do Claude,, outros modelos de LLMs já haviam sido lançados e tentavam se popularizar. Ao todo, quase 200 modelos foram lançados desde 2017.
Iniciativa internacional, liderada pela Universidade de Birmingham, quer preencher lacuna regulatória e orientar usuários que já recorrem a chatbots como ChatGPT para tirar dúvidas médicas
O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) ganhou uma atualização para o ambiente digital que está prestes a começar a valer no Brasil. É o ECA Digital.
Quase 1 em cada 5 usuários do Instagram com idades entre 13 e 15 anos disseram à Meta que viram nudez ou imagens sexuais na plataforma de fotos e vídeos que não queriam ver, de acordo com um processo judicial. O documento, divulgado na sexta-feira como parte de um processo no estado norte-americano da Califórnia e analisado pela Reuters, inclui trechos de um depoimento de março de 2025 do chefe do Instagram, Adam Mosseri.
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