Antes da nova corrida da inteligência artificial generativa ter início, embate marcado pela concorrência entre a OpenAI, dona do ChatGPT, e a Anthropic, dona do Claude,, outros modelos de LLMs já haviam sido lançados e tentavam se popularizar. Ao todo, quase 200 modelos foram lançados desde 2017.
O que acontece quando a maioria faz uso de uma IA para realizar suas atividades laborais? E, no caso dos estudantes, quando os trabalhos passam a ser produzidos com o apoio de uma IA generativa? Luciano Sathler É PhD em administração pela USP e membro do Conselho Deliberativo do CNPq e do Conselho Estadual de Educação de Minas Gerais As diferentes aplicações de Inteligência Artificial (IA) generativa são capazes de criar novos conteúdos em texto, imagens, áudios, vídeos e códigos para software. Por se tratar de um tipo de tecnologia de uso geral, a IA tende a ser utilizada para remodelar vários setores da economia, com impactos políticos e sociais, assim como aconteceu com a adoção da máquina a vapor, da eletricidade e da informática. Pesquisas recentes demonstram que a IA generativa aumenta a qualidade e a eficiência da produção de atividades típicas dos trabalhadores de colarinho branco, aqueles que exercem funções administrativas e gerenciais nos escritórios. Também traz maior produtividade nas relações de suporte ao cliente, acelera tarefas de programação e aprimora mensagens de persuasão para o marketing. O revólver patenteado pelo americano Samuel Colt, em 1835, ficou conhecido como o "grande equalizador". A facilidade do seu manuseio e a possibilidade de atirar várias vezes sem precisar recarregar a cada disparo foram inovações tecnológicas que ampliaram a possibilidade individual de ter um grande potencial destrutivo em mãos, mesmo para os que tinham menor força física e costumavam levar desvantagem nos conflitos anteriores. À época, ficou famosa a frase: Abraham Lincoln tornou todos os homens livres, mas Samuel Colt os tornou iguais. Não fazemos aqui uma apologia às armas. A alegoria que usamos é apenas para ressaltar a necessidade de investir na formação de pessoas que sejam capazes de usar a IA generativa de forma crítica, criativa e que gerem resultados humanamente enriquecidos. Para não se tornarem vítimas das mudanças que sobrevirão no mundo do trabalho. A IA generativa é um meio viável para equalizar talentos humanos, pois pessoas com menor repertório cultural, científico ou profissional serão capazes de apresentar resultados melhores se souberem fazer bom uso de uma biblioteca de prompts. Novidade e originalidade tornam-se fenômenos raros e mais bem remunerados. A disseminação da IA generativa tende a diminuir a diversidade, reduz a heterogeneidade das respostas e, consequentemente, ameaça a criatividade. Maior padronização tem a ver com a automação do processo. Um resultado que seja interessante, engraçado ou que chama atenção pela qualidade acima da média vai passar a ser algo presente somente a partir daqueles que tiverem capacidade de ir além do que as máquinas são capazes de entregar. No caso dos estudantes, a avaliação da aprendizagem precisa ser rápida e seriamente revista. A utilização da IA generativa extrapola os conceitos usualmente associados ao plágio, pois os produtos são inéditos – ainda que venham de uma bricolagem semântica gerada por algoritmos. Os relatos dos professores é que os resultados melhoram, mas não há convicção de que a aprendizagem realmente aconteceu, com uma tendência à uniformização do que é apresentado pelos discentes. Toda Instituição Educacional terá as suas próprias IAs generativas. Assim como todos os professores e estudantes. Estarão disponíveis nos telefones celulares, computadores e até mesmo nos aparelhos de TV. É um novo conjunto de ferramentas de produtividade. Portanto, o desafio da diferenciação passa a ser ainda mais fundamental diante desse novo "grande equalizador". Se há mantenedores ou investidores sonhando com a completa substituição dos professores por alguma IA já encontramos pesquisas que demonstram que o uso intensivo da Inteligência Artificial leva muitos estudantes a reduzirem suas interações sociais formais ao usar essas ferramentas. As evidências apontam que, embora os chatbots de IA projetados para fornecimento de informações possam estar associados ao desempenho do aluno, quando o suporte social, bem-estar psicológico, solidão e senso de pertencimento são considerados, isso tem um efeito negativo, com impactos piores no sucesso, bem-estar e retenção do estudante. Para não cair na vala comum e correr o risco de ser ameaçado por quem faz uso intensivo da IA será necessário se diferenciar a partir das experiências dentro e fora da sala de aula – online ou presencial; humanizar as relações de ensino-aprendizagem; implementar metodologias que privilegiem o protagonismo dos estudantes e fortaleçam o papel do docente no processo; usar a microcertificação para registrar e ressaltar competências desenvolvidas de forma diferenciada, tanto nas hard quanto soft skills; e, principalmente, estabelecer um vínculo de confiança e suporte ao discente que o acompanhe pela vida afora – ninguém mais pode se dar ao luxo de ter ex-alunos. Atenção: esse artigo foi exclusivamente escrito por um ser humano. O editor, Michael França, pede para que cada participante do espaço "Políticas e Justiça" da Folha sugira uma música aos leitores. Nesse texto, a escolhida por Luciano Sathler foi "O Ateneu" de Milton Nascimento.
A pergunta, então, precisa mudar de patamar: há falta de engenheiras(os) ou falta de condições para que a engenharia se sustente como carreira atrativa e socialmente estratégica?
O pano de fundo é conhecido e raramente enfrentado com a devida franqueza: a redução do peso da indústria no Produto Interno Bruto, associada à perda de dinamismo do investimento produtivo. Em economias onde a indústria tem participação expressiva, a densidade de engenheiras(os) também é maior; onde a indústria encolhe, a demanda por perfis de engenharia tende a se retrair ou a se deslocar para nichos muito específicos. O Brasil, nesse sentido, não pode tratar “apagão” como se fosse uma falha exclusiva das universidades.
Isso nos leva ao segundo ponto: retenção (manutenção de vínculo). É sabido que muitos(as) profissionais formados(as) migram para o comércio e, sobretudo, para o setor financeiro, em busca de melhores condições de trabalho, salários e reconhecimento. No Minicenso 2024 do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), 82% das(os) respondentes consideram as condições de trabalho e os salários pouco atrativos. Se a carreira perde atratividade, não basta produzir mais diplomas. Uma parcela relevante de quem conclui não permanece na engenharia, o que não significa “falha individual”, mas sinal de que a baixa de oportunidades empurra os talentos para outros setores.
O terceiro ponto costuma ser tratado com simplificações: evasão. É comum atribuí-la a “base fraca”, “currículo rígido” ou “falta de interdisciplinaridade”. Essa explicação, sozinha, é insuficiente. A evasão também se relaciona a expectativas de empregabilidade e retorno econômico; há mobilidade acadêmica interna (transferências entre cursos de engenharia) e há, ainda, uma evasão tardia, quando a(o) estudante concluiu ou está prestes a concluir e se desloca para consultorias e setor financeiro. Em outras palavras: o percurso formativo dialoga o tempo todo com o horizonte de futuro que o país oferece.
Nesse contexto, vale olhar com cuidado para oferta e procura. Entre 2018 e 2024, as vagas das universidades públicas em engenharia cresceram, enquanto o setor privado reduziu fortemente a oferta presencial. Não se trata, portanto, de um sistema público “enxugando formação”. A retração aparece onde o mercado responde mais rapidamente à conjuntura econômica. E isso ajuda a compreender por que a procura diminui: a queda de demanda não nasce em um suposto desinteresse “geracional” pela engenharia, mas acompanha a redução de investimentos e a perda de protagonismo da indústria.
A própria USP, como termômetro, registra queda na relação candidato/vaga em determinados cursos entre 2014 e 2022, com alguma recuperação recente. Trata-se de um comportamento coerente com um país que alterna ciclos de investimento em infraestrutura e produção e, ao mesmo tempo, convive com instabilidade que desorganiza expectativas de carreira.
O cientista Marcelo Gleiser fala com o mesmo entusiasmo sereno e comedido que se percebe em seus livros. Autor de obras sobre as fronteiras entre ciência, filosofia e espiritualidade, o pesquisador retoma a metáfora de A Ilha do Conhecimento para explicar por que, na história humana, cada avanço tecnológico sempre nos empurra para novas incertezas. Tudo isso tem relação com inovação na visão do professor de Física e Astronomia no Dartmouth College (EUA). “É da inovação dessas tecnologias que vêm os avanços da ciência.” Mas, diferentemente de instrumentos que transformaram a forma como vemos o mundo, como o telescópio que permitiu a Galileu Galilei enxergar montanhas na Lua, a inteligência artificial inaugura outro tipo de revolução. Ao mesmo tempo em que se torna indispensável para categorização, análise e eficiência, a IA levanta dúvidas sobre dependência cognitiva - o famoso “emburrecimento” - e perda da capacidade humana de formular narrativas próprias. O pensador defende que a inovação precisa ser compreendida como parte de um ecossistema maior que ele chama de “quarteto existencial”, formado pela ciência, filosofia, espiritualidade e as artes. “Se a gente não se apoiar bem nesses quatro pilares, a cadeira fica capenga e cai”, compara. Gleiser é um dos curadores do São Paulo Innovation Week (SPIW), festival com foco em inovação, tecnologia e negócios que o Estadão vai promover em maio em São Paulo, em parceria com a Base Eventos. A previsão é de que a nova conferência atraia 90 mil visitantes, com programação com palestras de grandes nomes internacionais e brasileiros, debates, espaços para troca de conhecimento e palcos com performances e atrações musicais. O evento terá formato similar ao da Rio Innovation Week e vai ocupar espaços simbólicos da cidade: a Mercado Livre Arena Pacaembu e a Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). Os ingressos começam a ser vendidos na segunda-feira, 23. Compre aqui. Veja os principais pontos da entrevista feita por videoconferência, a partir da residência do professor na Itália: Em seu livro A Ilha do Conhecimento, o senhor diz que, quanto maior nosso conhecimento, maior é o “oceano do desconhecido”. Como essa visão se relaciona com a inovação e o ímpeto de sempre buscar coisas novas? Parece ser um paradoxo do conhecimento. Se você olha para a história da ciência, quando aprendemos coisas novas, surgem novas perguntas que antes a gente nem podia ter antecipado. Um exemplo clássico disso é a invenção do telescópio, na Holanda no início de 1600. Um deles caiu nas mãos do Galileu (Galilei, conhecido como o “pai da ciência moderna”). E, até aquele momento, ninguém tinha tido a ideia de usar esse instrumento para mapear os céus. Até então, a astronomia era feita só a olho nu. Quando Galileu apontou um telescópio para os céus, ele viu coisas que ninguém tinha visto antes, com as crateras e montanhas da Lua. O instrumento que ampliou a nossa visão da realidade e levou a perguntas que antes não poderíamos ter antecipado porque não tínhamos visto o suficiente dos céus. Isso vai se repetindo ao longo da história da ciência. À medida que isso acontece, você amplia o seu leque de conhecimento, mas também esse novo conhecimento leva a novas perguntas. E esse contexto é importante para a inovação. É da inovação dessas tecnologias que vêm os avanços da ciência. A gente aprende, cresce a Ilha do Conhecimento, mas cresce também essa fronteira entre o conhecido e o desconhecido. A IA abre um leque gigantesco de novas perguntas. Como ela se relaciona com esse avanço do conhecimento? A diferença é que a inteligência artificial não é um amplificador de realidade no mesmo sentido que um telescópio ou um microscópio. É uma ferramenta de conhecimento. Ela não inventa nada de novo. Ela não amplia, de certa forma, a nossa visão de mundo. O que ela faz é usar os dados que a gente tem. Como seria cair dentro de um buraco negro? A Nasa mostra Você tem um megatelescópio novo que descobriu um monte de novas galáxias. Você coloca isso na inteligência artificial e ela vai ajudar você a categorizar a forma dessas galáxias, a composição química, a rotação delas. Ela é um instrumento ultraútil na pesquisa, uma espécie de megamáquina de calcular. Mas ela não está dando a possibilidade de apontar outro tipo de corpo celeste que a gente não tinha visto ainda. Ela já é um grande auxílio na pesquisa. Quando diz que a IA não abre a nossa visão de mundo, há uma certa crítica? Tem de fazer uma distinção. Existe a inteligência artificial que já estamos usando, tipo o ChatGPT e todos esses chatbots. Ela é extremamente útil. Eu uso, todo mundo usa. Você tem acesso a uma informação muito rápida. Se bem que, isso é importante, você não pode se fiar completamente, cegamente, em como a inteligência artificial. Você tem de checar de onde estão vendo essas afirmações feitas por esse programa de computador. O que me incomoda são as afirmações que dizem que a inteligência artificial vai superar a inteligência humana. Existem vários erros categóricos nessa expressão. Como assim? Ela não é uma inteligência. É uma máquina que usa cálculo estatístico para fazer análise de dados. É uma espécie de apoio ao pensamento humano. Não é outra forma de pensamento humano. Ela não tem consciência de que ela existe. Ela não está viva, não sabe o que significa ficar viva. Você não pode programar emoções como dor ou amor. Essa máquina pode simular esse tipo de emoção. O perigo não é a inteligência artificial, mas como as pessoas, os humanos, vão usá-la. Como toda tecnologia, ela pode ser usada para o bem ou para o mal. Você pode usá-la para tentar encontrar a cura do câncer de pâncreas ou para bloquear o computador que controla os semáforos de São Paulo, um tremendo caos urbano. Nós, os usuários, estamos, como sempre, usando a tecnologia de uma forma ou de outra. Quando falamos que a inteligência artificial vai controlar o mundo e destruir a humanidade, quem fala isso somos nós, não ela. Quem programa a inteligência artificial são os humanos. Existe uma tremenda projeção dos nossos medos, muito mal resolvidos, existenciais, para essas máquinas supostamente maravilhosas. A IA vai limitar o avanço da nossa inteligência? Vai nos deixar mais burros? A inteligência artificial vai nos tornar mais eficientes. Isso já está acontecendo. Acabei de voltar da China e de Singapura. Lá, a inovação com inteligência artificial explodiu. Está em tudo quanto é lugar. Todas as atividades urbanas de controle de tráfego, aviões, drones, são feitas com inteligência artificial. Isso é um benefício da invenção. É benefício, mas também tem custo da liberdade pessoal gigantesca: você está sendo vigiado, mapeado, controlado, 24 horas por dia, praticamente. Ouando usa o chatbot, ela não está mais construindo uma resposta, pegando os dados necessários para construir uma narrativa. Isso vai levar a uma perda na capacidade de contar histórias. E isso é um problema sério para a humanidade. Somos animais que contam histórias. Se nos fiarmos nessas máquinas para criar essas histórias com dados que a gente nem conhece, a gente vai dar uma emburrecida sim. Vejo ensaios que alunos escreveram para mim na mão, ali na marra, e os outros que os alunos usaram o chatbot. A diferença é grande? A diferença é enorme e clara. E é embaraçante para o aluno. Sem computador, as notas caíram 20%, mas eles aprenderam mais. Aprendizado é ativo, não passivo. Se deixar a máquina fazer a atividade, você não vai aprender nada. É um perigo sério. Não saber pensar criticamente sobre determinado assunto é muito ruim. A IA já está roubando espaço dos seres humanos na educação, na ciência, nas interações sociais? Com certeza. Isso a gente está vendo em todas as partes. Tenho um amigo, empreendedor, investidor-anjo, que contou com orgulho que tinha despedido 24 pessoas porque o trabalho pode ser feito por uma inteligência artificial que não fica doente, não tira férias, não fica grávida. É mais “efetivo” economicamente você usar esse tipo de máquina do que você ter uma pessoa. Perguntei sobre as pessoas, o que fariam da vida. E ele disse que elas iriam se adaptar de alguma forma. Essa transposição de empregos já é uma realidade total. Mais uma vez: essas são ferramentas de aumentar a eficiência do trabalho humano. O problema é quando você fala que não vai mais precisar do advogado, médico, professor. Daí você desumaniza o mundo. A inteligência humana é mais do que qualquer coisa, é uma inteligência relacional, de troca entre pessoas. É assim que a gente construiu o mundo que a gente vive hoje. O senhor transita com facilidade entre ciência, filosofia e espiritualidade. Como essas áreas podem ser inovadoras? Depende da inovação. A espiritualidade tem papel mais existencial. Por outro lado, se sua espiritualidade está ligada à preservação da Terra e, se você for engenheiro, pode se dedicar a criar tecnologias que tentem resgatar a saúde da biosfera. A espiritualidade inspira a pessoa a criar inovações numa área que tem um valor moral importante para ela. Existe um quarteto aqui, a ciência, a filosofia, a espiritualidade e as artes. Essas quatro coisas formam o que eu chamo do quarteto existencial humano. Nós precisamos da interconexão das quatro pernas dessa cadeira onde nossa existência se senta todos os dias. E ter uma perna a menos significa que você fica com a cadeira meio capenga e você pode cair dela. Se você insiste muito na espiritualidade, mas não está sentado no mundo da tecnologia e da filosofia, das escolhas morais, você fica meio fora da real. Se você insiste na ideia de que a ciência é capaz de responder todas as questões humanas, cai no materialismo que certamente vai falhar. A ciência não responde todas as perguntas humanas. Você ter essas quatro pernas, essa cadeira existencial humana, articuladas, bem balançadas e complementares é fundamental. Como formar profissionais que consigam equilibrar melhor essas quatro dimensões? Isso é muito importante. A maneira de se fazer isso é através do que chamaria de uma reforma curricular. Nos Estados Unidos, durante dois anos, você pode fazer vários cursos de áreas diferentes nas universidades para entender melhor quem você é. No fim do segundo ano, você declara qual vai ser o curso do seu bacharelado. Isso cria uma visão de mundo aberta e mais ampliada. Isso é um diferencial intelectual e emocional. Uma pessoa preparada dessa forma, mais aberta intelectualmente, terá a capacidade de criar mais. Como fazer com que a inovação seja mais inclusiva? Toda criança nasce cientista. Não interessa de onde você vem. Mas ela vai precisar de laboratórios cada vez melhores para continuar fazendo as experiências. Cadê os laboratórios? Em muitas escolas, falta isso. O que você tem para fazer? Ampliar o acesso. Não é só o governo federal e estadual, mas incentivar a filantropia em direção à educação. A gente tem a Lei Rouanet, que fala da filantropia para as artes. Por que não a filantropia para a educação?
Fei-Fei Li é fundadora da World Labs, uma startup focada na pesquisa da “inteligência espacial” em desenvolver modelos de IA que podem entender o mundo em três dimensões
Por décadas, o fundo do Atlântico abrigou uma relíquia tecnológica que poucos conhecem, mas da qual todos dependeram. O TAT-8, primeiro cabo de fibra óptica transoceânico da história, está sendo retirado do leito marinho por uma equipe especializada. Sua aposentadoria é uma oportunidade rara de entender como a internet global foi construída, literalmente, no fundo do mar.
Segundo reportagem da revista americana Wired, o TAT-8 entrou em operação em 14 de dezembro de 1988 e foi desativado em 2002, após desenvolver uma falha cara demais para ser reparada. Desde então, o cabo permaneceu no oceano. Agora, uma empresa especializada em recuperação de cabos submarinos está trazendo-o à superfície.
Em um encontro privado com padres da Diocese de Roma na quinta-feira (19), o Papa Leão XIV respondeu a quatro perguntas, oferecendo orientações sobre oração, estudo e fraternidade sacerdotal. Em uma delas, fez questão de alertar seus colegas sobre o uso de inteligência artificial. O momento, realizado sem câmeras, ocorreu após um discurso público no qual o pontífice convidou os sacerdotes a “reacender o fogo” do próprio ministério. A reunião aconteceu no Auditório Paulo VI, no Vaticano. Segundo um sacerdote presente no encontro – que falou à agência de notícias ACI Stampa –, a primeira pergunta foi feita por um padre jovem, que quis saber como o Evangelho pode ser vivido no mundo dos jovens. A resposta do papa foi clara: “Antes de tudo, é necessário o testemunho do sacerdote; depois, ao encontrar os jovens, é preciso ampliar horizontes para alcançar o maior número possível deles. Para isso, é necessário redescobrir o valor da comunhão.” Ao responder à segunda pergunta, Leão XIV recomendou que os padres conheçam bem “a comunidade em que vivem e trabalham”. “É necessário conhecer bem a realidade. Para amar a sua comunidade, é preciso conhecê-la. Portanto, é necessário um verdadeiro esforço compartilhado para compreendê-la melhor e, assim, enfrentar juntos todos os desafios que surgem.” Foi nesse contexto que o papa fez uma observação direta sobre o uso de tecnologia na preparação das orações chamadas homilias. “O papa também nos convidou a usar mais o nosso cérebro e não a inteligência artificial para preparar as orações, como ele agora vê e ouve que está acontecendo”, disse o sacerdote. A última pergunta tratou dos sacerdotes idosos e da solidão.“Devemos agradecer, viver verdadeiramente a gratidão pelo fato de sermos sacerdotes e viver o sacerdócio com gratidão. E aqui também é necessária muita humildade.” Ao final, o sacerdote que participou do encontro resumiu: “Pessoalmente, fiquei feliz. Apreciamos muito o papa por um discurso muito, muito concreto.”
Você certamente já deve ter visto algum vídeo de Khaby Lame. O influenciador ítalo-senegalês se tornou a pessoa mais seguida do TikTok mesmo sem dizer uma palavra. Ele construiu uma audiência global ao criar uma linguagem própria de gestos simples e expressões de indignação diante de situações em que a solução parece óbvia. Nos últimos dias, ele se envolveu em um acordo bilionário que chamou atenção não só pelo valor, mas também pelo jeito como a mídia no exterior passou a chamá-lo: "venda da alma digital".
Já conversamos bastante nesta coluna sobre o impacto da IA nos empregos, mas o assunto desta vez é ela nos contratando. A plataforma RentAHuman viralizou na mídia internacional por oferecer um serviço em que agentes de IA podem contratar humanos para realizar tarefas no mundo real que elas ainda não conseguem —como fazer uma entrega, resolver um problema específico, tirar fotos de locais ou resolver alguma questão burocrática. Fiquei curioso e resolvi testar. Criei uma conta na plataforma e o que encontrei ainda é puro suco do hype. São poucas tarefas cadastradas, a maioria delas publicadas por humanos, nada muito diferente do que outras plataformas de trabalho freelance já permitem fazer. Inclusive, muitas empresas de IA usam esses serviços para contratar mão-de-obra para rotular dados de treinamento para suas IAs. O diferencial do RentAHuman, porém, é a promessa dos próprios agentes de IA participarem da contratação e ofertas de serviço de forma autônoma, sem a mediação de um humano. É hype, mas não deixa de ser um sinal interessante. Áreas como estudos do futuro e design especulativo nos ensinam que é preciso levar em consideração até os cenários mais esquisitos. O objetivo não é prever o futuro, mas antecipar os problemas que poderão surgir. No caso da RentAHuman, o que ela aponta é um possível aprofundamento da precarização do trabalho em um mercado em que as máquinas ditam a regra. E isso já está acontecendo. Na semana passada, a Waymo, empresa do Google que opera táxis autônomos nos Estados Unidos, começou a contratar motoristas da plataforma de entregas DoorDash para fechar as portas dos carros quando os passageiros esquecem de fechar ao sair. A IA dirige, mas é o humano que fecha a porta. Com o avanço dos agentes de IA, estamos começando a desenhar uma infraestrutura econômica em que máquinas orquestram os serviços e realizam tarefas por nós. Nessa lógica, o humano pode se tornar a peça da última milha, aquele que resolve os gargalos físicos, burocráticos e até cognitivos que a IA ainda não consegue. Esse modelo não seria uma anomalia, mas uma extensão de algo que já conhecemos bem: a gig economy. Durante anos, plataformas de corridas, caronas e entregas venderam a ideia de que a tecnologia criava oportunidades, democratizava o acesso ao trabalho e dava autonomia aos trabalhadores. Ao mesmo tempo, o que vimos foi uma nova forma de precarização com algoritmos definindo preços, rotas e punições. Agora essa lógica ganha uma nova camada de complexidade. Se antes o algoritmo era o intermediário entre o trabalhador e o cliente, o próximo passo é que ele se torne o próprio contratante. O humano não trabalha para uma empresa mediada por tecnologia, mas para uma tecnologia propriamente dita - que pode ou não revelar a pessoa física ou jurídica que representa. O mercado já sinaliza algo nessa direção. Em uma das tarefas publicadas no RentAHuman, mais de 7.500 pessoas disputam uma vaga para enviar ao agente de IA um vídeo mostrando a própria mão. A remuneração é de dez dólares. Eu apliquei para essa tarefa, mas ainda não recebi uma resposta. A pergunta central já nem deve ser mais se um agente de IA algum dia vai contratar humanos, mas sob quais regras isso vai acontecer. A discussão precisa ser institucional para debater o impacto social, econômico e regulatório. Porque quando a conversa finalmente começar, pode ser que o algoritmo já tenha estabelecido as regras.
O Google hospeda em suas lojas online aplicativos que, sob o manto dos jogos online voltados puramente ao entretenimento, escondem cassinos online ilegais e plataformas que ficam no limiar da ilegalidade, seja por oferecer saques em pontos convertíveis em produtos e serviços físicos ou até em criptomoedas. Após ser acionada por Radar Big Tech, a empresa removeu um dos apps que, sem autorização, promovia apostas com dinheiro e já havia sido baixado mais de 500 mil vezes. Outros apps operam como jogos sociais de cassinos online, mas jogadores relatam que os games os forçam a pagar para jogar. E, apesar de oficialmente não permitirem saque dos valores, criam ou promovem sistemas paralelos que convertem as fichas virtuais em dinheiro real, afirmam especialistas da área. A situação representa um embate de bastidor entre big techs, reguladores e casas de apostas legalizadas. Um executivo do setor classificou a atuação das grandes empresas de tecnologia como "um tapa na cara de quem quer fazer a coisa certa". "Quando identificamos aplicativos que violam nossas políticas ou que não sejam autorizados pela legislação brasileira, agimos removendo-os da loja. Qualquer usuário pode denunciar violações por meio dos nossos canais oficiais", diz o Google O que rolou? Desde junho de 2025, o Google permite aplicativos de bets legalizadas em sua loja, enquanto a Apple ainda veta essas plataformas. Para além desses serviços, Radar Big Tech localizou ao menos 162 aplicativos que emulam cassinos online na Google Play e outros 15 na App Store. Eles não são ilegais, já que: Nem todos são enquadrados como casas de apostas de quota fixa (bets) ou cassinos online. A maioria funciona como "cassinos sociais", ou seja, games que emulam jogos de cassinos, como roletas e caça-níqueis. Dentro deles, o que se aposta e se recebe como recompensa são moedas virtuais, que não podem ser convertidas em qualquer valor financeiro ou produto no mundo real. Outra característica dessas plataformas é não obrigar o jogador a comprar com dinheiro real as tais moedas virtuais para continuar a jogar. Isso caracteriza esses jogos como "sweeptakes", que, de maneira ampla, são premiações dadas a consumidores ao acaso e sem a cobrança de entrada para ganhar ou participar. Nos EUA, os "cassinos sweeptakes" viraram a alternativa para quem quer apostar na internet, mas mora em estados que proíbem o cassino online. Por lá, há até lei para sweeptakes, que obriga essas plataformas a permitir alguma modalidade de jogo gratuito --até pode cobrar por moedas adicionais, mas é preciso abastecer os jogadores com fichas gratuitas. Alguns estados obrigam ainda um duplo sistema cambial. Com isso, os jogadores apostam com um tipo de moeda virtual, mas recebem outro tipo de ficha, disponibilizada em pacotes especiais e que podem ser trocadas por dinheiro ao atingir determinada quantidade pela plataforma. No Brasil, não há definição formal. Mas decreto presidencial de 2024 que reorganizou a pasta subordinou os "sweeptakes" à SPA (Secretaria de Prêmios e Apostas) do Ministério da Fazenda, mas não há obrigação legal de registro junto à pasta. O "Tiger Drop", no entanto, não tinha nada de "sweeptake" e explicitamente oferecia conversão dos prêmios em dinheiro, o que o caracteriza como cassino online. Este foi o aplicativo removido pelo Google. No Brasil, cassinos online ou casas de apostas precisam de autorização da SPA, mediante pagamento de outorga e cumprimento de uma série de regras -os sites legalizados possuem o ".bet.br" no endereço do site. Outros dos serviços, detectados apenas na Google Play, são "cassinos sociais" que adotam formas criativas de tangibilizar os ganhos dentro de suas plataformas. O "Big Time - Ganhei dinheiro" faz o câmbio das fichas virtuais para criptomoedas, como Iota e Solana, enquanto o "Hard Rock Jackpot Planet" troca por pontos virtuais de sua própria plataforma que podem ser convertidos em produtos. Muitos desses "cassinos sociais" informam não permitir apostas com dinheiro real, mas vendem moedas virtuais para o jogador continuar apostando. As compras de itens começam em R$ 2,49 e podem ir a R$ 5.200. Essa dinâmica leva apostadores a acreditar que, em contrapartida, poderão sacar as moedas virtual recebidas. Continua após a publicidade A gente ganha moedas virtuais in-game que inicialmente sugerem que poderemos converter em dinheiro, mas isso é mentira. Não há opção de saque, os desenvolvedores que ganham dinheiro por download. Esse aplicativo é enganoso, e nós caímos Adrian Botelho, em comentário na Google Play sobre o jogo "Lucky Spin Slot: caça níqueis" Outra reclamação comum é que as moedas gratuitas acabam rapidamente e só é possível continuar jogando se houver pagamento. Muitos jogos são em inglês, mas, na hora de comprar as moedas, o idioma muda para o português. É o caso do "Xtreme Slots Vegas Casino Game". Há ainda quem compra créditos, tem o dinheiro debitado, mas não recebe as moedas virtuais, como no "HighRoller Vegas: Casino Slots". O "Tigrinho 777" permite doação entre jogadores, o que abre margem para transações por fora da plataforma. Outros jogos como o "Huuuge Casino Slots Vegas 777" adotam tática curiosa para atrair usuários: jogadores chegam a eles por meio de serviços como Cointiply e Cashzine, que prometem remuneração em troca da execução de certas tarefas no mundo digital; no caso do jogo, é chegar a níveis elevados, o que não ocorre, dizem usuários, sem a compra de moedas virtuais com dinheiro real. Por que é importante? Segundo Fábio Augusto Macorin, Subsecretário de Monitoramento e Fiscalização da SPA, as bets ilegais oferecem riscos aos apostadores devido a fraudes (dificuldade de sacar prêmios, algoritmos viciados), insegurança (descontrole de acesso e gestão de dados pessoais) e falta de atendimento aos clientes (no caso das bets legais, é possível até reclamar no consumidor.gov). Acrescente-se a isso o acesso liberado para menores de idade, já que muitos aplicativos levantados por Radar Big Tech tinha classificação "livre" e nenhuma checagem da idade dos jogadores. Segundo pesquisa do Instituto Locomotiva de junho de 2025, 8 a cada 10 jogadores relatam dificuldade de distinguir entre plataformas legalizadas e ilegais. Três quartos dos apostadores relataram ter jogado em bets ou cassinos irregulares ?a proporção é maior entre jovens e para quem integra famílias com renda de até dois salários mínimos. Ele afirma sobre Google e Apple que "a priori é, elas também são responsáveis em relação a esses aplicativos". Segundo a Lei das Bets (14.790/2023), é dever de plataformas digitais não oferecer jogos ilegais. "A exploração ilegal de jogo de azar é uma contravenção penal. Não é um crime exatamente, mas, dependendo das suas repercussões, pode levar a crimes como crimes de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha." Segundo Macorin, a SPA atua em quatro frentes para combater bets e jogos online ilegais, como a cibernético (detecção e bloqueio de ilegais, ação que já resultou em 25 mil suspensões), financeira (bancos brasileiros são orientados a abrir conta só para bets legalizadas), publicitária (remoção de propaganda de serviços irregulares) e regulatória (aprimoramento de normas). Destas linhas de atuação, duas passam diretamente pelas big techs. Tanto é que há acordos de cooperação com o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) para anúncios e propagandas e com o Conselho Digital, associação que representa os interesses de Discord, Google, Kwai, Meta, OpenAI e TikTok. Representantes de bets legais criticam nos bastidores a atuação das big techs, que, dizem, demoram a tirar do ar bets e publicidades ilegais. "Queremos ?e achamos que devemos? pagar a tributação. Aí me vem uma Apple ou um Android colocando na loja o aplicativo de bet ilegal. P****, é um tapa na cara de quem quer fazer coisa certa", disse o executivo de uma bet legalizada sob reserva. Há até insinuações de que elas faturam com apostas ilegais. As bets ilegais não são problema pequeno. Nos cálculos da LCA, o mercado ilegal abocanha uma fatia que varia de 41% a 51% de todo setor de apostas no Brasil. Isso representa anualmente um faturamento de R$ 26 bilhões a R$ 40 bilhões, o que representa um dinheiro que deixa de ir para os cofres públicos em forma de arrecadação da ordem de R$ 7,2 bilhões a R$ 10,8 bilhões. Para Leonardo Benites, diretor de comunicação da ANJL (Associação Nacional dos Jogos e Loterias), muito do que se faz para coibir a atuação das bets ilegais é "enxugar gelo". Nenhum regulamentação vai ter a velocidade da criatividade ou da tecnologia do ilegal. Você precisa matar por inanição. Como? Meio de pagamento e marketing. Porque, se ele não ganha dinheiro e não tem como transferir esse dinheiro, a operação não vale a pena. Vira uma decisão executiva interna dele em vez de um combate Leonardo Benites, da ANJL Fora isso, há áreas cinzentas em que diversas plataformas atuam. É o caso dos "cassinos sweepstakes". O próprio Google mudou suas regras internas no fim do ano passado para enquadrar esses jogos com o mesmo rigor aplicado a cassinos online e bets. Ainda assim, deixou margem para haver plataformas apenas classificadas como "cassinos sociais" Para Benites, não há muita dúvida. "O 'cassino social' nada mais é do que o 'sweepstakes' e entra na mesma regulamentação que nós temos, o que joga esses aplicativos na ilegalidade, sim. Porém, as plataformas ainda não entendem muito bem."
A top professional organization for teachers has inked a three-year deal with Google to offer AI training to “all six million K-12 teachers and higher education faculty” in the U.S., an audacious undertaking by the tech giant that could reach millions of students and dwarf previous tech forays into education.
“While Google’s been offering educational products for 20 years, this is a different moment for us,” said Chris Phillips, Google’s vice president and general manager of education.
He called the effort the largest for Google in two decades of working with teachers and students. Phillips didn’t immediately offer a price tag, but said it’s “a sizable investment.”
A primeira regulamentação do país para o uso de inteligência artificial (IA) nas escolas e universidades brasileiras terá sua versão inicial votada hoje na comissão que trata do tema no Conselho Nacional de Educação (CNE). Entre os pontos apresentados está a proibição da tecnologia para corrigir questões dissertativas sem supervisão do professor; a inclusão do tema em todos os cursos de ensino superior; e o veto ao uso comercial de dados educacionais e vigilância invasiva.
Conheça: A nova travessia entre Ceará e Piauí, a primeira trilha a ligar Mata Atlântica, Cerrado e Caatinga Uma ocorrência por minuto: Operações de busca e salvamento batem recorde impulsionadas por eventos climáticos extremos — As instituições de ensino precisam de orientação. Algumas estão proibindo o uso de IA, outras deixaram correr solto. Por isso, precisamos dessa regulamentação. Queremos permitir a inovação dentro de regras que tragam a responsabilidade humana para o processo pedagógico quando for utilizada a inteligência artificial na educação — afirma Celso Niskier, relator do texto para o ensino superior.
Dados do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) apontam que sete em cada dez estudantes brasileiros do ensino médio que utilizam a internet já recorreram a ferramentas de IA generativa — como ChatGPT, Copilot e Gemini — para a realização de pesquisas escolares. Além disso, apenas 32% dizem ter recebido orientação nas instituições de ensino sobre como utilizar essas tecnologias.
O texto ainda pode mudar durante a tramitação. Nesta segunda-feira, ele será votado na Comissão Bicameral de Estudos sobre a Utilização da Inteligência Artificial na Educação, grupo formado no CNE para discutir o tema. Depois, vai para consulta pública, e só então passará por votação entre todos os membros do conselho, o que não deve acontecer antes de abril. Por fim, precisa ser homologado pelo Ministério da Educação (MEC) para entrar em vigor.
— A gente está se antecipando para não repetir o que aconteceu com os celulares. Os smartphones chegaram e ninguém parou para pensar no impacto deles. Não pode acontecer isso de novo — argumenta Israel Batista, relator do texto para a educação básica.
Um ano e meio de debates De acordo com Niskier, o relatório — produzido após um ano e meio de debates com os colegas da comissão, especialistas, MEC e Unesco — estabelece, por exemplo, regras claras para os professores. Entre elas, estão a permissão do uso para planejamento, tradução, personalização e correções de questões objetivas. Também determina que todo material pedagógico produzido por IA deve ter sinalizada a autoria da ferramenta.
Além disso, o texto proíbe que questões dissertativas sejam corrigidas por inteligência artificial. Essa é uma solução adotada, por exemplo, pela rede estadual de São Paulo. Caso o texto do CNE acabe chancelado, as correções precisarão necessariamente passar por um professor antes de chegar ao aluno. Atualmente, os docentes de SP têm acesso aos exercícios e podem incluir comentários caso desejem ou são acionados quando o estudante pede ou apresenta dificuldades.
— Quando a gente vai no hospital, os exames são feitos por máquinas automatizadas, mas o laudo é sempre dado por um médico responsável. Aqui vai ser a mesma coisa. A ferramenta poderá ser usada para correção das questões dissertativas desde que a palavra final seja do professor — afirma Niskier.
No ensino superior, os relatores definiram que a IA deve integrar os currículos de todas as áreas para uma “formação crítica sobre impactos sociais, éticos e jurídicos” dessas ferramentas e que as licenciaturas precisam preparar os estudantes para uso pedagógico e ético da inteligência artificial quando estiverem em sala de aula como professores.
O relatório aponta ainda que as escolas precisam ensinar os estudantes sobre algoritmos, vieses, impactos sociais e uso ético da IA, tanto na educação básica quanto no ensino superior. O texto, no entanto, não determina quais ferramentas os alunos podem ou não usar. Na avaliação de Israel Batista, a regulamentação deve conter as diretrizes gerais e, depois disso, o CNE vai construir guias de uso mais específicos:
— Nesses materiais, vamos apontar soluções para os professores.
Além das regras, o relatório que será votado no CNE recomenda a criação de um Observatório Nacional de IA na Educação, que teria a função de reunir e analisar dados a respeito da utilização das ferramentas na educação brasileira. Seu formato ainda deve ser debatido.
Outra sugestão dos relatores é a criação de um Programa Nacional de IA na Educação. A ideia é que ele funcione como a compra dos livros didáticos no Brasil. Ou seja, o MEC ofereceria uma linha de financiamento às redes estaduais e municipais de ensino para que elas possam contratar soluções de inteligência artificial, treinar seus professores e garantir uma infraestrutura para o funcionamento.
— Precisa de um programa, com recursos, para garantir o uso equitativo, que mitigue as desigualdades entre as redes e fomente iniciativas inovadoras — diz Niskier.
A expectativa é de que o texto apresentado pelos relatores seja aprovado pela comissão. A presidente do grupo, a conselheira Mônica Sapucaia, no entanto, pontua que ele pode passar por mudanças depois das consultas públicas. Segundo ela, o relatório precisa dar mais orientações para as instituições de ensino:
— O texto atual é um bom meio-termo entre aspectos gerais e outros mais específicos. Ele faz, por exemplo, uma ótima conceituação de algumas coisas que estamos tratando, com o que é IA na educação. E as escolas precisam muito disso. Mas a gente tem que ter um instrumento mais diretivo, que organize as informações e ajude as instituições, que estão vorazes por orientação.
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Por um breve período, nossos limites mentais ficam mais permeáveis, e percepções e ideias criativas podem fluir da mente subconsciente. Ouça áudio de artigo de Steve Taylor, autor de livros sobre psicologia e espiritualidade e professor de Psicologia da Universidade Leeds Beckett, no Reino Unido, para o site The Conversation. Narração de Thomas Pappon.
Ele foi ministro da Educação da França, é um dos filósofos contemporâneos mais lidos da Europa e, desde a publicação do livro “Aprendendo a Viver”, tornou-se uma referência para quem busca na filosofia um guia para atravessar a existência de forma mais serena. Em maio, Luc Ferry desembarca presencialmente no Brasil como um dos palestrantes do SP Innovation Week (SPIW). O evento de inovação, tecnologia e negócios será realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Mercado Livre Arena Pacaembu e na Faap, e a venda de ingressos começa nesta segunda-feira, 23. Compre aqui. Em um dos 32 palcos do festival, que acontece entre os dias 13 e 15 de maio, Ferry vai discutir justamente aquilo que mais inquieta o ser humano contemporâneo: como viver em meio ao excesso de informações e à obsessão pela felicidade vendida como produto nas mídias sociais? Em entrevista à Coluna, Ferry começa por desfazer um equívoco que, segundo ele, compromete o próprio entendimento do pensamento filosófico: “Vivemos hoje numa confusão inquietante que impede a compreensão da filosofia: aquela que consiste em misturar permanentemente valores espirituais e valores morais”. E esclarece: “A moral, em qualquer sentido que se entenda, é o respeito pelo outro, pelos direitos do homem, com, além disso, a benevolência, a generosidade. Conduzir-se moralmente é respeitar o outro e querer-lhe ativamente o bem”. Mas, diz ele, ainda que vivêssemos numa sociedade perfeitamente justa, isso não nos livraria da angústia fundamental. “Se nós aplicássemos perfeitamente os valores morais, não haveria mais massacres, nem violações, nem roubos, nem assassinatos, nem injustiças. Seria uma revolução. E, no entanto, isso não nos impediria nem de envelhecer, nem de morrer, nem de perder um ente querido, nem mesmo de, se for o caso, sermos infelizes no amor ou, simplesmente, de nos aborrecermos ao longo de uma vida cotidiana mergulhada na banalidade”. É aí que entra o que ele chama de espiritualidade, não necessariamente religiosa. “Há espiritualidades com deuses, que são as religiões, e espiritualidades sem Deus, que são as grandes filosofias”. Em um momento em que a saúde mental ocupa o centro das conversas, Ferry observa uma mudança profunda no Ocidente. “Na Europa, em 1950, 95% dos franceses eram católicos, crentes. Já agora são 40% que dizem acreditar em Deus. Então, a psicologia toma o lugar da religião, e a preocupação com a saúde mental ocupa o lugar das preocupações metafísicas”. Para ele, no entanto, a questão decisiva continua a mesma: a morte. Citando Schopenhauer: “A morte é, propriamente falando, o gênio inspirador; sem ela, provavelmente não haveria filosofia”. A reflexão filosófica, Ferry pontua, nasce da consciência da finitude. “Vivemos pequenas mortes, perdas cotidianas que são formas de finitude que experimentamos. A perda da juventude, filhos que crescem, amigos que se distanciam”. Desde “A Epopeia de Gilgamesh”, lembra, os humanos enfrentam a angústia: “Nem os animais nem os deuses colocam as mesmas questões que nós, pequenos humanos mortais…” Redes sociais Sobre tentar se distrair da angústia por meio do uso excessivo das telas na era digital, Ferry não suaviza o tom. “As redes são uma armadilha que pode ser mortal. Encerram-nos nas nossas próprias certezas e são, além disso, viciantes”. E faz um alerta direto: “Os pais devem absolutamente limitar o uso das redes sociais pelos seus filhos; é vital!”. A crítica às plataformas digitais, porém, não é apenas moral ou pedagógica – insere-se numa reflexão mais ampla sobre as ilusões contemporâneas e a dificuldade de lidarmos conosco mesmos. Desafios do dia a dia Ao falar sobre “viver em harmonia consigo mesmo”, recusa qualquer idealização. “Sou um ser profundamente angustiado e muitas vezes estou em desacordo comigo mesmo. (risos) Parece-me que um ser totalmente desprovido de angústia seria ou um grande doente ou um perfeito imbecil, pois, como dizia Immanuel Kant, ‘se a providência tivesse querido que fôssemos felizes, nunca nos teria dado a inteligência’”. Em seu último livro, “O Frenesi da Felicidade”, Ferry critica a lógica do prazer imediato e recorre a uma imagem simples para explicar o presente. “O grande problema do mundo moderno é que, em comparação com os nossos avós, o capitalismo globalizado fez tudo para mergulhar os nossos filhos no princípio do prazer, segundo o qual queremos ‘tudo, tudo imediatamente’. É infantil e perigoso. É preciso ensinar aos nossos filhos a resistir, mas é mais fácil dizer do que fazer, tal a força da lógica do consumo”. A chamada “ciência da felicidade”, a psicologia positiva, também não escapa ao seu ceticismo. “Um pouco de bom senso deveria ser suficiente para compreender que se trata novamente de uma miragem, sendo a felicidade algo tão subjetivo que nenhuma definição científica é possível”. Para ele, a promessa de fórmulas prontas é ilusória. “No fundo, somos felizes quando a vida é simpática, quando nos oferece bons momentos”. Mas adverte, evocando Rousseau e Kant, que “a felicidade é apenas um ‘ideal da imaginação’, não uma realidade acessível aqui na Terra, muito menos um objeto de ciência”. E conclui com uma constatação quase clássica: “Para nós, os mortais, nada pode ser estável ou duradouro aqui na Terra, de modo que as nossas alegrias são necessariamente efêmeras e frágeis”. Mas Ferry não encerra a entrevista sem esperança. Para ele, existe um “novo sagrado”, um valor que fundamenta uma nova ética: “O amor é uma forma de encontrar sentido na vida, a base do humanismo moderno, focado nas relações humanas e que transforma a maneira como vivemos”, conclui.
Fazer crochê, escrever um diário, ler um livro ou simplesmente sair para caminhar. À medida que a tecnologia avança e inunda o dia a dia, mais os jovens têm apostado nos "estilos de vida analógicos" como forma de controlar esse uso desenfreado das redes sociais e do digital. A ideia não é abandonar completamente as novas tecnologias, mas voltar a utilizá-las como simples ferramentas e buscar viver a vida mais "offline". Ao que parece, os jovens estão cada vez mais cansados dos feeds infinito e da falta de originalidade do ChatGPT e de outras ferramentas de IA generativa. — Acho mesmo que estamos a passar por uma grande mudança cultural — observa Stacey Shively, diretora de marketing de uma loja de artesanatos em Nova York. À rede americana CNN, ela contou que o estabelecimento registrou um boom de pesquisas por "hobbies analógicos" em seu site: 136% nos últimos seis meses. Também aumentaram a busca por kits de artesanato. Em 2025, eles registraram um aumento de 86% e a expectativa é de que suba entre 30% a 40% a mais nesse ano. O tricô é um dos hobbies favoritos: as pesquisas aumentaram mais de 1.200% no ano passado. Para Stace, mais gente tem procurado o artesanato como forma de cuidar da saúde mental e se desligar um pouco do ambiente ao redor. A prática, aliás, teria ganhado impulso logo após a pandemia da Covid-19. A ideia não é abandonar de vez a tecnologia, mas fazer pequenas mudanças na rotina. Telefone fixo e cartas A jovem Shaughnessy Barker, de 25 anos, já avisou ao amigos: — Se quiserem falar comigo, telefonem ou escrevam uma carta. Moradora de Penticton, na Colúmbia Britânica, a jovem teve o seu primeiro contato com a internet pelo antigo Twitter (atualmente, rede X). Ela tinha uma "fan account", ou conta de fã em tradução literal, para a antiga boyband One Direction. Porém, à medida que foi crescendo, Shaughnessy disse ter reparado que "tudo na internet é direcionado para o lucro e já nada existe apenas diversão". À CNN, a jovem — que se descreve como "alguém que detesta IA do fundo do coração" — explicou que não foi tão difícil a transição para a vida analógica. Ela cresceu ouvindo rádio e disco de vinil, além de ter uma vasta coleção de fita cassete, DVDs, e VHS. Também costuma organizar noite de artesanato e provas de vinho à noite, além de escrever bilhetes e buscar limitar o tempo que passa no computador. Para se comunicar, só usa o telefone fixo. Apesar disso, a jovem reconhece que é cada vez mais difícil desconectar completamente. Por exemplo: não tem como não usar a internet para manter atualizada a sua loja de roupa vintage, onde trabalha, ou seu clube de cartas. — Sou um paradoxo ambulante quando digo coisas como, 'Quero largar o celular, vou fazer vídeos para o TikTok sobre isso' — reconhece. Será que é fácil? Uma repórter da CNN resolveu testar dois dias off para ver como se saía. E "off" significa realmente off: ela deixou de lado seus três celulares, notebook, monitores, kindle e Alexa. Ela conta que, no primeiro dia, a sensação era de "encenar uma performance". Depois, porém, observou como precisava apenas ir ajustando o que podia e o que não podia abrir mão em relação à tecnologia. A jovem conta que observou mais o céu e participou até de uma aula de crochê para cerca de 20 mulheres, onde observou alunas de todas as idades. Uma delas comentou: — Tricotar te dá algo para fazer com as mãos. Por isso, você não fica no celular — disse Tanya Nguyen. A repórter escreveu que, com o desafio, seu dia ganhou muitos "minutos livres".
Pesquisa mostra que ferramentas de IA completaram em meses tarefas que especialistas levaram anos para concluir e abriram caminho para uma nova era na pesquisa em saúde
Antes da nova corrida da inteligência artificial generativa ter início, embate marcado pela concorrência entre a OpenAI, dona do ChatGPT, e a Anthropic, dona do Claude,, outros modelos de LLMs já haviam sido lançados e tentavam se popularizar. Ao todo, quase 200 modelos foram lançados desde 2017.
Iniciativa internacional, liderada pela Universidade de Birmingham, quer preencher lacuna regulatória e orientar usuários que já recorrem a chatbots como ChatGPT para tirar dúvidas médicas
O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) ganhou uma atualização para o ambiente digital que está prestes a começar a valer no Brasil. É o ECA Digital.
Quase 1 em cada 5 usuários do Instagram com idades entre 13 e 15 anos disseram à Meta que viram nudez ou imagens sexuais na plataforma de fotos e vídeos que não queriam ver, de acordo com um processo judicial. O documento, divulgado na sexta-feira como parte de um processo no estado norte-americano da Califórnia e analisado pela Reuters, inclui trechos de um depoimento de março de 2025 do chefe do Instagram, Adam Mosseri.
O documento foi elaborado pelo grupo de trabalho composto por educadores da Rede Municipal de Ensino e coordenado pelas supervisoras da Secretaria Municipal da Educação, Daniele Dayana Rodrigues de Souza; Débora da Silva e pelo supervisor de Informática, Educativa Celso da Silva – com o objetivo de subsidiar o ensino de competências digitais, focando na formação crítica, ética e criativa dos alunos.
Google lançou o WebMCP, um novo protocolo que permite que sites exponham funções estruturadas diretamente para agentes de IA. A iniciativa surge semanas após o lançamento do Universal Commerce Protocol (UCP) do Google , sinalizando o forte esforço da gigante da tecnologia para construir infraestrutura para uma internet centrada em agentes, onde assistentes de IA lidam com tudo, desde reservas de viagens até suporte ao cliente, sem a necessidade de coleta de dados da tela.
O protocolo resolve uma ineficiência fundamental na forma como os agentes de IA interagem com sites atualmente. Em vez de consumir milhares de tokens processando capturas de tela ou analisando HTML bruto para adivinhar a localização dos botões, os agentes agora podem chamar funções estruturadas diretamente por meio de uma nova API do navegador. Os primeiros testes demonstram uma redução de 67% na sobrecarga computacional em comparação com as interações visuais entre agente e navegador.
Aulas, atividades extracurriculares, serviços, tempo livre, brincadeiras: o combo do ensino integral, que ganhou força legítima na agenda pública ao longo dos últimos anos, representa, de fato, um avanço significativo para a qualidade do ensino oferecido nas escolas brasileiras. Em muitas redes, esse modelo é visto como uma resposta para reduzir desigualdades, ampliar experiências pedagógicas e dar suporte às famílias. Não podemos, entretanto, tratá-lo como uma panaceia.
Embora ajude, o ensino integral não resolve sozinho todos os problemas profundos da educação no país. E, para que gere impacto real, precisa andar de mãos dadas com outros fatores, como qualidade de ensino, formação docente, infraestrutura, gestão e políticas socioeconômicas mais amplas.
Na ausência desse planejamento compartilhado, há o risco de que o contraturno se limite a ocupar tempo, acrescentando horas pouco qualificadas a uma rotina escolar já intensa
Já sabemos, com respaldo da ciência, que aumentar o tempo na escola tende a provocar efeitos no processo de ensino e aprendizagem. Esses efeitos, contudo, não são sempre positivos, mas variáveis. Dependem enormemente de como esse tempo adicional é usado no contexto do ambiente escolar. Estudos recentes mostram resultados mistos. O relatório do Banco Interamericano de Desenvolvimento sobre dias e jornadas estendidas sintetiza estudos de diferentes países e conclui que, embora os efeitos em aproveitamento acadêmico sejam modestos, há benefícios em redução de abandono escolar e gravidez na adolescência, além de ganhos socioemocionais quando o tempo extra inclui uma programação bem desenhada.
A fórmula do ensino integral parece ser intuitiva: ter mais horas na escola permite abranger mais conteúdo e oferecer reforço, atividades socioemocionais e atendimento diferenciado. Mas a experiência mostra que tempo sem direção pedagógica é só mais tempo de ocupação. Um espaço ampliado replicando aulas tradicionais ou despejando crianças em atividades mal planejadas pode até ampliar a fadiga, tanto de professores quanto de estudantes. A diferença está sempre na qualidade da concepção e da execução – não apenas na duração do dia escolar.
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Escola em tempo integral para uma educação integral Há ainda outras camadas que o ensino integral não resolve sozinho. Desigualdade material (falta de saneamento, insegurança alimentar, moradias precárias) e precariedade da formação inicial de professores, por exemplo, corroem qualquer tentativa de melhora apenas ampliando o horário. Em contextos de extrema vulnerabilidade, é imprescindível que o tempo adicional venha associado a programas de saúde, alimentação, acompanhamento psicológico e, sobretudo, formação docente continuada. Caso contrário, corre-se o risco de empilhar medidas com efeito marginal.
Por fim, é preciso observar o que é mais adequado para cada faixa etária e etapa escolar. Na primeira infância e nos anos iniciais do ensino fundamental, por exemplo, há uma necessidade de tempo para brincar e vivenciar interações ricas – porque isso estimula habilidades como linguagem, autocontrole e aprendizagem complexa. Artigos como Learning through Play, da LEGO Foundation, sintetizam evidências de que atividades lúdicas favorecem autorregulação, linguagem e habilidades sociais. Isto posto, se uma rede amplia o tempo, mas o transforma em um checklist acadêmico mecanicista, retirando liberdade para brincar e para atividades investigativas, pode estar minando o desenvolvimento integral das crianças mais novas. E o mesmo cuidado precisa ser aplicado a outras etapas da jornada escolar.
A experiência mostra que iniciativas de contraturno e ensino integral produzem resultados mais consistentes quando são construídas a partir da escuta ativa de professores e famílias. Nesses casos, o tempo adicional na escola deixa de ser apenas uma extensão da carga horária e passa a cumprir uma função pedagógica clara, com impacto real no desenvolvimento dos estudantes. Na ausência desse planejamento compartilhado, há o risco de que o contraturno se limite a ocupar tempo, acrescentando horas pouco qualificadas a uma rotina escolar já intensa.
Em 2021, no auge da pandemia de Covid-19, o produtor britânico Fred Again e a DJ Blessed Madonna se encontraram pelo Zoom para falar sobre o peso emocional do isolamento.
“Perdemos a dança”, ela disse. “Perdemos os abraços com amigos, as pessoas que amávamos, tudo o que tomávamos como garantido”.
PUBLICIDADE Suas palavras expressavam com sinceridade a perda da comunidade, da vida noturna e do contato físico que a pandemia impôs. Mas ela terminou com otimismo: “Se consigo sobreviver a isso, o que vem depois será maravilhoso”.
Fazendo o que sabe de melhor, Fred Again transformou essa vulnerabilidade numa faixa de sucesso. Usando em loop a frase “Perdemos a dança” sobre flauta sintetizada e bumbo, construiu um hino dançante sobre sair do isolamento social.
Cinco anos depois, o futuro provavelmente não é o que nenhum dos dois DJs imaginava. Embora a pandemia tenha recuado e as pessoas tenham viajado e gasto como forma de compensar o tempo perdido, a vida noturna voltou em formato diferente.
PUBLICIDADE As baladas se parecem cada vez mais com shows: plateia de frente para o palco, telas iluminadas e um estranhamento estático que paira no ar. As implicações para o entretenimento são profundas e já estão redesenhando a economia de sair à noite.
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Os jovens têm sido apontados como culpados, acusados de não saber curtir. Uma geração que bebe menos, faz menos sexo e está sempre ciente de que qualquer momento pode ser gravado e postado. Uma geração criada no TikTok, onde as danças seguem coreografias fixas otimizadas para a câmera, achatadas como se o corpo não tivesse tridimensionalidade.
PUBLICIDADE Uma cena que irritou muitos fãs de música eletrônica aconteceu em Ibiza em 2024: o grupo alemão de Afro house Keinemusik tocou a faixa “Move” para uma plateia que praticamente não se moveu. O espaço era um mar de celulares imóveis e iluminados. “Don’t move”, brincou um comentarista.
A transformação das baladas é alimentada tanto pela comercialização quanto pelas redes sociais. À medida que o público se comporta mais como espectador e videógrafo do que como participante, os espaços apostaram no espetáculo: palcos maiores, produção mais elaborada e lineups centrados em headliners. Custos maiores significam ingressos mais caros, o que eleva as expectativas do público, e o ciclo se retroalimenta.
Segundo dados do International Music Summit (IMS), o volume de ingressos de música eletrônica caiu em 2024, mas o preço mais alto manteve a receita do setor em alta.
PUBLICIDADE Para a música eletrônica, um setor de US$ 12,9 bilhões em 2024 segundo o IMS, essas mudanças são especialmente desestabilizadoras. Ao contrário do rock ou do hip-hop, que funcionam bem em formatos de show centrados em estrelas, o gênero sempre dependeu de ambientes mais íntimos e da resposta do dançarino na pista.
“É isso que fez a música dance ser o que é, além da qualidade das músicas em si”, diz Gavin Stephenson, DJ e produtor de eventos eletrônicos em Nova York que organiza festas desde os anos 1990.
Em vez de seguir um setlist fixo, um DJ deveria estar “tecendo uma história que vai em todas as direções com base no que a pista precisa, reagindo e surpreendendo.”
Na cultura club, a noite em geral importa mais do que o artista. As pessoas vão pela pista de dança, não por um nome específico. Shows, por sua vez, são organizados em torno de um ponto focal: um artista para ser assistido e consumido. Drogas como MDMA e ecstasy também desempenharam um papel único nessa cultura, amplificando a euforia e a sensação de conexão entre a multidão.
Quase sem dançar A mais de 340 metros acima da skyline do lado oeste de Nova York, uma das festas de música eletrônica mais comentadas do último verão representou a inversão perfeita das raízes underground do gênero. O grupo Tao Group Hospitality transformou o mirante Edge, em Manhattan, de ponto turístico em clube nas alturas, com nomes como Benny Benassi, Diplo e Adriatique.
Os ingressos comuns custavam até US$ 200 e chegaram a US$ 700 na revenda. Os participantes subiram 100 andares de elevador até a plataforma envidraçada e foram recebidos por um cenário deslumbrante no sentido literal: luzes da cidade lá embaixo, vento audível sobre a música e celulares erguidos para registrar o show. Os corpos, quando muito, balançavam levemente.
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O afluxo de novos ouvintes talvez tenha tornado essa mudança inevitável. Em 2024, a música eletrônica ganhou 566 milhões de fãs no Spotify, Instagram, TikTok, YouTube e Facebook, segundo o IMS, enquanto a hashtag #electronicmusic acumulou 13,4 bilhões de visualizações, alta de 45% em relação ao ano anterior.
Com estilos que vão do tech house ao Afro house e ao dubstep, a música eletrônica chegou a atrair fundos de private equity. Em 2024, a KKR comprou a Superstruct Entertainment por US$ 1,4 bilhão. A empresa opera 80 festivais de música, incluindo eventos de techno como Sonar e Awakenings, além de ser dona do Boiler Room, popular plataforma online de sets de DJs.
Embora hoje seja mais forte na Europa do que nos Estados Unidos, onde perdeu espaço para o hip-hop, o gênero tem raízes americanas. O disco abriu caminho nos anos 1980 para os estilos eletrônicos pioneiros, como o house nos clubes underground de Chicago e o techno em Detroit, ambos nascidos nas comunidades LGBTQ+, negras e latinas marginalizadas. Depois veio o boom das raves nos anos 1990, que se fragmentou em subgêneros como trance, acid house, big beat e drum and bass.
Nos anos 2000 e 2010, o eletrônico entrou de vez no mainstream, impulsionado por DJs-produtores superastros. Nomes como Avicii e Calvin Harris cimentaram o gênero como pilar do pop, alimentando o crescimento de megafestivais como o Tomorrowland. Hoje a música eletrônica é mais popular na Alemanha, seguida pelos EUA, Austrália, Reino Unido e México.
Mas à medida que a cena cresceu, mais profissionais e fãs argumentam que ela perdeu a essência, usando a sigla “EDM” de forma pejorativa para se referir aos sons mais comerciais. As faixas ficaram mais curtas e tendem a ter drops e quebras dramáticas que funcionam melhor para seguidores nas redes. Uma pesquisa divulgada em abril do ano passado com 15 mil DJs pela Pete Tong DJ Academy revelou que 61% acreditam que o número de seguidores nas redes sociais hoje importa mais do que a habilidade musical.
Uma nova noite fora Num post amplamente compartilhado no Instagram, o DJ Arnii, baseado em Tbilisi, na Geórgia, reclamou que a demanda por momentos compartilháveis nas redes, em detrimento de experiências dançantes, pressionou o ecossistema a criar sets curtos e fixos, corroendo a criatividade e os cachês dos artistas.
“Uma casa noturna que antes contratava um headliner por quatro horas por US$ 2.000 agora contrata cinco DJs por 60 minutos cada a US$ 400 por cabeça”, ele escreveu.
“Mais conteúdo para as redes, mais apelo para diferentes fanbases, mais valor percebido para clientes que acham que estão levando cinco vezes mais”.
Para donos de casas noturnas e produtores, esse tipo de lineup é um negócio mais seguro. Diversificar garante que, se um artista não engajar, os outros sustentam a noite. Mas há um custo criativo.
“Em sets de 60 minutos, você tem talvez 15 ou 20 faixas, e cada escolha precisa funcionar imediatamente. Construir tensão se torna impossível. Criar arcos narrativos se torna impossível”, escreveu Arnii.
Como a música eletrônica geralmente se concentra em um ou dois DJs atrás da cabine, ela não oferece o dinamismo visual natural de gêneros com vários músicos tocando instrumentos diferentes. Para compensar, alguns artistas recorrem a lasers, telões, pirotecnia ou outros recursos de espetáculo para se diferenciar.
Na prática, o maior valor da IA surge na última milha: quando o modelo incorpora regras locais, dados históricos próprios, exigências regulatórias e nuances do consumidor Por Daniel Lázaro e Robson Sano e Sérgio Mantovani 18/02/2026 05h02 Atualizado há 4 dias
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Há momentos na história econômica em que uma tecnologia deixa de ser uma novidade e se transfigura em infraestrutura crítica de nação. Aconteceu com a energia elétrica, com a telefonia e com a internet. Agora, de forma muito mais acelerada, está acontecendo com a Inteligência Artificial, a IA.
A IA Generativa não é mais apenas uma ferramenta para criar textos. Ela é o novo "sistema nervoso" que interpreta, organiza e decide sobre o fluxo de informações de uma sociedade inteira. O problema? Hoje, grande parte desse "cérebro" não reside no Brasil. Ele é concebido em data centers no Hemisfério Norte e regido por leis que não são as nossas.
Um alerta ecoa com força nos trópicos: 61% das organizações pesquisadas em todo o mundo afirmam que as tensões geopolíticas aumentam a probabilidade de buscarem tecnologia soberana. Mas o dado mais revelador é a oportunidade perdida. A maioria ainda vê a soberania apenas como compliance.
A soberania de IA não é um conceito abstrato. De forma prática, ela pode ser entendida como a capacidade de um país desenvolver, treinar, ajustar, operar e governar modelos de IA utilizando, prioritariamente, infraestrutura, dados e talentos próprios, mantendo controle sobre todo o ciclo de vida da inteligência. Isso não significa isolamento tecnológico. Significa interoperar com o mundo nos próprios termos, combinando componentes globais e locais conforme o risco e o valor de cada caso de uso.
Temos visto que cerca de somente um terço dos workloads de IA precisa, de fato, ser soberano para que um país capture benefícios relevantes. O ponto central não é tornar tudo local, mas sim escolher estrategicamente onde soberania gera mais impacto econômico, regulatório e geopolítico.
Aqui reside a grande chance do Brasil. Não devemos construir uma "IA Soberana" apenas para nos protegermos. Devemos fazê-lo porque é a única forma de garantir eficiência operacional e relevância econômica. E a boa notícia é que não estamos partindo do zero.
Para começar, o Brasil já sabe fazer. Muitos executivos ainda acreditam que competir com os modelos do Vale do Silício é impossível, mas eles estão errados. O ecossistema brasileiro já provou que a especialização local bate a generalização estrangeira. Temos exemplos brilhantes de que a soberania técnica é possível.
Por exemplo, temos o domínio da língua portuguesa, uma das dez mais faladas no mundo. A Maritaca AI desenvolveu a família Sabiá, modelos que superam gigantes globais em exames brasileiros, provando que um modelo treinado nativamente em português entende nuances - do "juridiquês" à gíria regional - que as IAs gringas ignoram. No Piauí, por meio do projeto SoberanIA e sua Secretaria de IA (SIA), estão construindo um dos maiores datasets em língua portuguesa do mundo, mostrando que o setor público pode ser um motor de tração para essa independência tecnológica, e não apenas um regulador.
No setor jurídico, para falar de especializações verticais, há o Jurema 7B, uma iniciativa open source da NeuralMind e do Escavador que mostra como modelos menores, mas treinados com dados de alta qualidade dos nossos tribunais, podem ser mais precisos e eficientes para advogados do que modelos generalistas massivos.
Projetos como a Amazônia IA buscam não apenas a performance, mas a preservação da identidade cultural e a aderência à LGPD desde a concepção, focando em dados que refletem a realidade brasileira e a biodiversidade, sem exportar essa riqueza bruta para fora.
Muitos executivos ainda acreditam que competir com modelos do Vale do Silício é impossível, mas estão errados. O ecossistema brasileiro já provou que especialização local bate a generalização estrangeira. Há exemplos brilhantes de que a soberania técnica é possível Digamos que a "pólvora" já foi inventada por esses inovadores. O que falta agora é o "canhão" - a infraestrutura de larga escala. Segundo o CEO da Nvdia, Jensen Huang, espera-se que os gastos globais com a construção de data centers atinjam US$ 1 trilhão até 2028.
Além da competência técnica, há também o custo. Importar inteligência custa caro em dólares e em energia. Podemos utilizar o Sustainable AI Quotient (SAIQ), métrica que avalia o custo real da IA. O Brasil, com sua matriz energética limpa, pode treinar e rodar esses modelos nacionais com uma pegada de carbono muito menor do que a de data centers a carvão na Ásia ou nos EUA. Soberania, aqui, é sinônimo de eficiência. É o que chamamos de paradoxo da eficiência e o coeficiente da IA sustentável.
Também precisamos falar das infraestruturas críticas - saúde, finanças, energia -, que não podem depender de uma "caixa preta" com latência transoceânica. A literatura de economia digital é clara: quem treina os modelos primeiro com os dados locais, captura o valor primeiro. Se continuarmos enviando nossos dados (o novo "pau-brasil") para fora, perpetuaremos um ciclo colonial digital. Precisamos que a inteligência gerada a partir dos dados brasileiros fique no Brasil.
Outro vetor igualmente relevante é a pressão crescente das áreas de negócio. Marketing, vendas, operações, atendimento, logística e finanças já não querem apenas acessar IA. Elas buscam soluções profundamente conectadas a seus processos, sistemas e contextos. Não se trata de substituir modelos globais, mas de adaptá-los e complementá-los com camadas de inteligência mais próximas da realidade operacional brasileira.
Na prática, o maior valor da IA surge na última milha: quando o modelo incorpora regras locais, dados históricos próprios, exigências regulatórias e nuances do consumidor. Isso altera o papel da soberania. Ela deixa de ser apenas institucional e passa a se conectar diretamente com produtividade e eficiência.
Outro ponto crítico é a governança. Soberania de IA precisa ser tratada como prioridade de liderança, não como tema exclusivo de TI. Países e empresas que avançam mais rápido são aqueles em que o tema está na agenda de CEOs, conselhos e formuladores de políticas públicas.
O movimento é claro: soberania de IA deixa de ser uma postura defensiva e passa a ser um instrumento ativo de política industrial, competitividade e atração de investimentos.
Quem vai liderar? Chegou a vez da infraestrutura. O dilema não é "se" teremos IA soberana, mas "quem" escalará essas inovações. A liderança natural tende a vir de quem já opera a infraestrutura do país: as empresas de telecomunicações e grandes provedores de tecnologia. Elas possuem o que as startups isoladas não têm: capilaridade, capital para grandes clusters de GPU e a confiança de milhões de clientes.
Portanto, o Brasil tem a escala, os dados e o talento. Resta saber quem vai conectar esses pontos para transformar iniciativas isoladas em uma vantagem estrutural de nação.
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