Smartphones mudaram a experiência de visita a instituições culturais, mas discutir fotos, vídeos e multidões exige cuidado para não transformar a arte em privilégio de poucos
O que acontece quando a maioria faz uso de uma IA para realizar suas atividades laborais? E, no caso dos estudantes, quando os trabalhos passam a ser produzidos com o apoio de uma IA generativa? Luciano Sathler É PhD em administração pela USP e membro do Conselho Deliberativo do CNPq e do Conselho Estadual de Educação de Minas Gerais As diferentes aplicações de Inteligência Artificial (IA) generativa são capazes de criar novos conteúdos em texto, imagens, áudios, vídeos e códigos para software. Por se tratar de um tipo de tecnologia de uso geral, a IA tende a ser utilizada para remodelar vários setores da economia, com impactos políticos e sociais, assim como aconteceu com a adoção da máquina a vapor, da eletricidade e da informática. Pesquisas recentes demonstram que a IA generativa aumenta a qualidade e a eficiência da produção de atividades típicas dos trabalhadores de colarinho branco, aqueles que exercem funções administrativas e gerenciais nos escritórios. Também traz maior produtividade nas relações de suporte ao cliente, acelera tarefas de programação e aprimora mensagens de persuasão para o marketing. O revólver patenteado pelo americano Samuel Colt, em 1835, ficou conhecido como o "grande equalizador". A facilidade do seu manuseio e a possibilidade de atirar várias vezes sem precisar recarregar a cada disparo foram inovações tecnológicas que ampliaram a possibilidade individual de ter um grande potencial destrutivo em mãos, mesmo para os que tinham menor força física e costumavam levar desvantagem nos conflitos anteriores. À época, ficou famosa a frase: Abraham Lincoln tornou todos os homens livres, mas Samuel Colt os tornou iguais. Não fazemos aqui uma apologia às armas. A alegoria que usamos é apenas para ressaltar a necessidade de investir na formação de pessoas que sejam capazes de usar a IA generativa de forma crítica, criativa e que gerem resultados humanamente enriquecidos. Para não se tornarem vítimas das mudanças que sobrevirão no mundo do trabalho. A IA generativa é um meio viável para equalizar talentos humanos, pois pessoas com menor repertório cultural, científico ou profissional serão capazes de apresentar resultados melhores se souberem fazer bom uso de uma biblioteca de prompts. Novidade e originalidade tornam-se fenômenos raros e mais bem remunerados. A disseminação da IA generativa tende a diminuir a diversidade, reduz a heterogeneidade das respostas e, consequentemente, ameaça a criatividade. Maior padronização tem a ver com a automação do processo. Um resultado que seja interessante, engraçado ou que chama atenção pela qualidade acima da média vai passar a ser algo presente somente a partir daqueles que tiverem capacidade de ir além do que as máquinas são capazes de entregar. No caso dos estudantes, a avaliação da aprendizagem precisa ser rápida e seriamente revista. A utilização da IA generativa extrapola os conceitos usualmente associados ao plágio, pois os produtos são inéditos – ainda que venham de uma bricolagem semântica gerada por algoritmos. Os relatos dos professores é que os resultados melhoram, mas não há convicção de que a aprendizagem realmente aconteceu, com uma tendência à uniformização do que é apresentado pelos discentes. Toda Instituição Educacional terá as suas próprias IAs generativas. Assim como todos os professores e estudantes. Estarão disponíveis nos telefones celulares, computadores e até mesmo nos aparelhos de TV. É um novo conjunto de ferramentas de produtividade. Portanto, o desafio da diferenciação passa a ser ainda mais fundamental diante desse novo "grande equalizador". Se há mantenedores ou investidores sonhando com a completa substituição dos professores por alguma IA já encontramos pesquisas que demonstram que o uso intensivo da Inteligência Artificial leva muitos estudantes a reduzirem suas interações sociais formais ao usar essas ferramentas. As evidências apontam que, embora os chatbots de IA projetados para fornecimento de informações possam estar associados ao desempenho do aluno, quando o suporte social, bem-estar psicológico, solidão e senso de pertencimento são considerados, isso tem um efeito negativo, com impactos piores no sucesso, bem-estar e retenção do estudante. Para não cair na vala comum e correr o risco de ser ameaçado por quem faz uso intensivo da IA será necessário se diferenciar a partir das experiências dentro e fora da sala de aula – online ou presencial; humanizar as relações de ensino-aprendizagem; implementar metodologias que privilegiem o protagonismo dos estudantes e fortaleçam o papel do docente no processo; usar a microcertificação para registrar e ressaltar competências desenvolvidas de forma diferenciada, tanto nas hard quanto soft skills; e, principalmente, estabelecer um vínculo de confiança e suporte ao discente que o acompanhe pela vida afora – ninguém mais pode se dar ao luxo de ter ex-alunos. Atenção: esse artigo foi exclusivamente escrito por um ser humano. O editor, Michael França, pede para que cada participante do espaço "Políticas e Justiça" da Folha sugira uma música aos leitores. Nesse texto, a escolhida por Luciano Sathler foi "O Ateneu" de Milton Nascimento.
A pesquisa “A chegada da IA na educação na América Latina: em construção” apresenta um panorama das primeiras iniciativas que estão sendo desenvolvidas na região para entender as direções, os ritmos e os significados das transformações tecnológicas no processo de ensino e aprendizagem.
O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) divulgou, nesta quinta-feira (26/02), os resultados do Censo Escolar 2025, pesquisa anual que coleta informações sobre as instituições de ensino, turmas, alunos e profissionais da Educação Básica no país.
Em 2025, foram contabilizadas 46 milhões de matrículas nas 178,8 mil escolas de Educação Básica no Brasil. Entre os anos de 2024 e 2025, a rede pública teve uma redução de 2,1%.
“Os artigos aqui apresentados buscam mapear as tradições, as permanências e as inovações que moldam o desenvolvimento profissional e pessoal de educadores, intelectuais e estudantes.” É o que escrevem a professora Katiene Nogueira da Silva e o professor Roni Cleber Dias de Menezes, ambos da Faculdade de Educação da USP, na apresentação do dossiê Tempos e Espaços de Formação, publicado na edição 149 da Revista USP, que acaba de ser lançada. O dossiê reúne seis artigos que questionam tempos e espaços de formação humana e, ao fazer isso, refletem sobre a própria essência da educação, como afirmam Katiene e Menezes. “O resultado é um conjunto de textos que dialoga com inúmeras possibilidades de ensino, estendendo a experiência formativa para além dos muros e das horas escolares”, escreve no editorial o jornalista Jurandir Renovato, editor da publicação. A nova edição da Revista USP – publicação trimestral da Superintendência de Comunicação Social (SCS) da USP – está disponível gratuitamente no Portal de Revistas USP.
O dossiê é aberto pela professora Denice Barbara Catani, também da Faculdade de Educação da USP, com uma reflexão sobre os sentidos no ato da releitura a partir das ideias do escritor e crítico literário francês Émile Faguet (1847-1916) e da historiadora francesa Laure Murat, que ela expõe no artigo Reler: Transitar entre Tempos e Obras. “A releitura aprofunda a compreensão, amplia o prazer estético e permite comparar quem fomos e quem somos. Em tempos acelerados, reler torna-se resistência: uma prática que sustenta a atenção, a memória e a construção de si”, escreve Denice Catani. A professora faz uma relação entre a releitura e o ato de estudar com base nos livros A Arte de Ler, de Faguet, e Relire – Enquête sur Une Passion Littéraire, de Murat.
Teria havido uma expansão sem precedente nas taxas de frequência das populações ao ensino superior. Dos 100 milhões de estudantes de faculdades existentes no ano de 2000, saltamos para um conjunto de 269 milhões de estudantes de ensino superior em 2024. Esse nível de democratização de ensino não foi, porém, acompanhado da diminuição dos níveis de desigualdade entre as várias regiões do mundo. Mais do que isso, não foi também acompanhado da mesma proporção se pensarmos os índices de permanência e de conclusão dos cursos.
Entre sonhos e expectativas, escolher uma graduação é uma grande e, muitas vezes, difícil decisão. Mas o que realmente importa na hora de escolher a vida profissional? A pesquisa exclusiva da Globo, Decisões e influências: a jornada do jovem para o ensino superior, investiga e traz insights decisivos para entender essa decisão. O que dizem os jovens que querem ingressar no ensino superior Do desejo à escolha, o estudo revela percepções sobre instituições de ensino, o papel da mídia e fatores centrais para futuros universitários. 70% dizem que campanhas de instituições de ensino superior na TV, durante períodos como ENEM e vestibulares, influenciam sua decisão; 49% têm os pais como principais influenciadores nas decisões relacionadas à educação; 52% colocam o ENEM como método pretendido para ingresso no ensino superior; 31% apontam saúde e bem-estar entre as áreas de graduação mais consideradas.
A grande maioria das empresas brasileiras (98%) tem dificuldade para encontrar profissionais de tecnologia qualificados. Esse é um dos destaques da pesquisa “Mercado de Trabalho Tech: Raio-X e Tendências”, desenvolvida pela Ford em parceria com o Datafolha.
O levantamento foi divulgado nesta quinta (23) em evento na sede da Ford no Brasil, em São Paulo. Foram entrevistados 250 líderes de RH e tecnologia da informação de empresas de todos os portes para compreender os desafios do setor.
Sete em cada dez empresas consultadas dizem a falta de conhecimento técnico é uma das principais dificuldades enfrentadas. Em seguida, aparece a ausência de experiência, citada por 54% das companhias.
Ao mesmo tempo, a pesquisa aponta que 37% das empresas frequentemente rejeitam candidatos tecnicamente aptos devido à falta de soft skills. Nesse sentido, metade das empresas acredita que as soft skills serão ainda mais difíceis de se encontrar no futuro. “As empresas procuram por profissionais completos”, diz Paulo Alves, gerente de pesquisa do Instituto Datafolha. A habilidade comportamental mais difíceis de encontrar, de acordo com o levantamento, é a inteligência emocional (36%), além do pensamento crítico e da capacidade de resolver problemas (33%).
Jogo de tênis ganha novo espaço na agenda de executivos A avaliação de desempenho virou teatro corporativo Roblox tem novo gerente geral para a América Latina Para Fernanda Ramos, diretora de recursos humanos da Ford na América do Sul, estes desafios não se aplicam apenas à área de tecnologia. Ela também observa que uma das dificuldades no treinamento das competências se dá pela velocidade nos avanços do setor. “As habilidades de hoje não são as mesmas de amanhã”, destaca.
Pesquisa aponta dificuldade generalizada para preencher vagas de tecnologia — Foto: Rafaela Zampolli Raphael Henrique, gerente regional LatAm do Top Employers Institute, e Djalma Brighenti, diretor de TI da Ford na América do Sul, reforçam a análise de Ramos. “Estamos falando da velocidade que a tecnologia está mudando versus a velocidade da capacitação dos profissionais”, declara Henrique. Já Brighenti complementa dizendo que a IA muda em uma velocidade maior do que a nossa capacidade de lidar com ela.
O levantamento também avaliou o tempo de preenchimento das vagas. Segundo a análise, 14% das empresas conseguem fazer a contratação em menos de um mês, enquanto 50% levam entre um e dois meses, 25% demoram de dois a três meses e 11% chegam a exceder quatro meses de busca.
O LinkedIn consolida-se como a principal ferramenta de recrutamento para 60% das organizações entrevistadas; 16% dos selecionados vêm de indicações; e 15% dos contratados chegam a partir de currículos anexados em banco de talentos.
Quando o assunto são as habilidades técnicas, a pesquisa aponta que as posições mais difíceis de preencher são as de especialistas em IA (35%), engenheiros de software (31%), desenvolvedores (21%), analista de dados (18%) e engenheiros de nuvem (18%). Já as hard skills mais escassas são conhecimentos em segurança da informação (30%) e IA aliada ao machine learning (29%).
Outro ponto destacado pela pesquisa é o idioma. Ao todo, 78% das empresas relatam desclassificar candidatos que não possuem domínio do inglês. “É um número bastante relevante e há décadas vejo isso como uma situação complicada de se resolver no mercado do Brasil", afirma Alves.
Para Rodrigo Stefanini, CEO do Stefanini Group para América Latina e Espanha, o conhecimento da língua inglesa deixou de ser um diferencial e os impactos da falta deste domínio são comprovados pela pesquisa. Em relação às empresas, o executivo questiona a necessidade da fluência para cargos de entrada e sugere mais estratégia no momento de exigir a habilidade.
O estudo também revela as prioridades da geração Z. Para os jovens recém-chegados ao mercado de tecnologia, o salário (53%), a flexibilidade na jornada de trabalho (49%) e equilíbrio entre vida pessoal e profissional (39%) são os principais fatores na hora de decidir onde trabalhar.
Quase a totalidade das empresas brasileiras enfrenta dificuldades para contratar profissionais de tecnologia. É o que aponta um levantamento inédito feito pelo Datafolha em parceria com a Ford. Foram entrevistados 250 líderes de Recursos Humanos e Tecnologia de médias e grandes companhias de todas as regiões do Brasil. São profissionais responsáveis pela contratação nas áreas de tecnologia, varejo, serviços, educação, finanças e saúde.
Segundo o estudo, 98% das empresas relatam entraves na hora de preencher vagas, um cenário que pode limitar o crescimento e a capacidade de inovação das organizações. A pesquisa, intitulada "Mercado de Trabalho Tech: Raio X e Tendências", traça o retrato de um setor aquecido, mas ainda incapaz de formar profissionais na velocidade exigida.
Programa social da Ford já formou 1.000 alunos em tecnologia no Brasil desde 2022. - Eduardo Tarran/Divulgação A principal barreira apontada é a falta de conhecimento técnico, citada por 72% dos entrevistados. Em seguida, aparecem a ausência de experiência prática (54%) e lacunas em competências comportamentais. O resultado é um processo de contratação mais lento: apenas 14% das empresas conseguem preencher vagas em menos de um mês, enquanto metade leva entre um e dois meses.
"Os dados revelados por este estudo inédito com o Datafolha reforçam que o descompasso entre a velocidade da inovação e a disponibilidade de profissionais qualificados é um dos grandes desafios do mercado hoje. Na Ford, acreditamos que enfrentar esse cenário exige democratizar o acesso ao conhecimento tecnológico conectado às demandas do mercado", comenta Pamela Paiffer, diretora de Comunicação e Responsabilidade Social da Ford América do Sul.
"O programa Ford , criado em 2022, foi desenhado para servir como uma ponte, capacitando talentos em situação de vulnerabilidade com as habilidades que as empresas buscam. O propósito dessa pesquisa é justamente identificar as lacunas de competências que o mercado apresenta e aprimorar o conteúdo do curso para acompanhar essa evolução", completa Pamela.
A dificuldade para encontrar profissionais se intensifica em áreas estratégicas. Funções como especialistas em inteligência artificial (35%) e engenheiros de software (31%) lideram a lista das mais difíceis de preencher. Entre as habilidades técnicas mais escassas estão segurança da informação (30%) e inteligência artificial e machine learning (29%).
Mas não é apenas o domínio técnico que preocupa. De acordo com o levantamento, 37% das empresas afirmam rejeitar com frequência candidatos tecnicamente qualificados por falta de habilidades socioemocionais. Inteligência emocional (36%) e pensamento crítico e capacidade de resolver problemas (33%) aparecem como as competências mais escassas.
"A pesquisa mostra que precisamos ir além da qualificação técnica. A demanda por habilidades como inteligência emocional e pensamento crítico é imensa e continuará crescendo. Com o Ford , focamos uma formação abrangente que prepara o indivíduo não apenas para a atuação técnica, mas para os desafios de um mercado em constante evolução", afirma Fernanda Ramos, diretora de Recursos Humanos da Ford América do Sul.
Outro fator de exclusão relevante é o domínio do inglês: 78% das empresas afirmam descartar candidatos que não possuem domínio do idioma, o que evidencia uma barreira adicional para profissionais em início de carreira ou oriundos de contextos mais vulneráveis.
GERAÇÃO Z E IA A pesquisa também revela o perfil dos trabalhadores mais jovens. Segundo as empresas entrevistadas, para esses jovens talentos, o salário (53%), flexibilidade na jornada de trabalho (49%) e equilíbrio entre vida pessoal e profissional (39%) são os principais critérios na escolha de emprego. Ao mesmo tempo, 93% das empresas reconhecem dificuldade em contratar pessoas de grupos sub-representados, indicando um desafio persistente em diversidade e inclusão, o que reforça a importância de iniciativas como o Ford , que oferece oportunidade para esses grupos.
Ao serem questionados sobre as perspectivas para os próximos dois anos, 46% dos entrevistados apontaram a Inteligência Artificial como o principal motor de mudança no mercado de tecnologia. A necessidade de qualificação profissional aparece em segundo lugar (29%), seguida por menções a inovações tecnológicas (17%). A pesquisa ainda projeta que os soft skills serão as habilidades mais difíceis de se encontrar no futuro, citada por 50% dos ouvidos, seguida por hard skills (44%).
"A pesquisa mostra que a Inteligência Artificial já está mudando o mercado, mas para que ela entregue valor real, é preciso ter dados organizados, contexto e profissionais preparados para transformar informação em decisão. Quando vemos que IA, Machine Learning e Segurança da Informação estão entre as áreas mais difíceis de contratar, fica claro que o desafio das empresas é duplo: investir em tecnologia e, ao mesmo tempo, desenvolver talentos e fortalecer sua base de dados", complementa Djalma Brighenti, diretor de TI da Ford América do Sul.
FORD
A Ford, por meio do programa Ford , já atua ativamente para mitigar essa lacuna de talentos. Criado em 2022, o programa oferece formação gratuita em tecnologia a pessoas em situação de vulnerabilidade social, com cursos voltados a áreas como programação e análise de dados.
Desenvolvido em parceria com a Ford Philanthropy, a Global Giving, o SENAI-SP, o SENAI-BA e a Rede Cidadã, o projeto combina capacitação técnica com apoio financeiro para transporte e alimentação, além de acompanhamento social e encaminhamento ao mercado de trabalho.
A iniciativa, que começou em São Paulo, foi posteriormente expandida para a Bahia e outros países da América Latina, como Argentina, Chile, Peru e Colômbia.
Desde o lançamento, o programa registrou mais de 15 mil inscritos e formou 1.000 alunos no Brasil, parte deles já empregada antes mesmo da conclusão dos cursos.
Atualmente, o Ford está com inscrições abertas até 3 de maio para o curso em São Paulo. São 40 vagas e as inscrições podem ser feitas pelo site: https://www.ford.com.br/sobre-a-ford/ford-enter/.
A pesquisa realizada pelo Datafolha é um estudo quantitativo, feito por meio de questionário online de autopreenchimento pelos próprios profissionais. A margem de erro máxima é de 6 pontos percentuais, para mais ou para menos, considerando um nível de confiança de 95%.
não há indícios nos dados de que a ia esteja custando o emprego de alguém neste momento”, disse Kevin Hassett, assessor da Casa Branca, em 11 de maio. Alguém deveria avisar a turma de formandos de 2026 dos Estados Unidos. “É sombrio”, disse um professor sobre o mercado de trabalho para graduados. A inteligência artificial é a vilã da vez. Em uma recente cerimônia de formatura na Flórida, um palestrante foi vaiado por mencioná-la. E não sem razão: nossa análise sugere que a ia pode, de fato, estar prejudicando as perspectivas de emprego de alguns graduados.
Um diploma universitário já não parece oferecer muita proteção contra o desemprego: recém-formados têm maior probabilidade de estarem desempregados do que a média dos americanos. A geração atual se sente particularmente pessimista. Menos de um quinto deles acredita que este seja um bom momento para encontrar um bom emprego — a menor porcentagem em mais de uma década, e bem abaixo da média dos americanos em geral, que é de mais de um quarto. A queda no recrutamento em universidades não ajuda. As vagas de emprego anunciadas no Handshake, uma plataforma de busca para estudantes universitários, estão 50% abaixo do pico de 2022.
Muitos suspeitam que a ia seja a culpada. Mais da metade dos empregadores afirma ter considerado substituir funcionários iniciantes por essa tecnologia. Uma pesquisa recente do Instituto de Política da Escola Kennedy da Universidade Harvard constatou que, da mesma forma, mais da metade dos jovens americanos vê a ia como uma ameaça às suas perspectivas de emprego.
Os economistas estão mais divididos. Um estudo de Erik Brynjolfsson, da Universidade de Stanford, e seus colegas, publicado em 2025, analisou o emprego entre jovens trabalhadores em áreas expostas à ia , como desenvolvimento de software. Os autores constataram uma queda de 16% em relação a setores menos expostos.
Mas um artigo publicado este ano por Zanna Iscenko e Fabien Curto Millet, dois economistas do Google, lança dúvidas sobre a ideia de que os trabalhadores jovens, em particular, estejam sendo substituídos pela ia . Eles descobriram que as vagas de emprego em ocupações expostas à ia diminuíram tanto para trabalhadores seniores quanto para juniores, e que essa tendência antecedeu o lançamento do Chat gpt no final de 2022. Outro estudo, de Morgan Frank, da Universidade de Pittsburgh, e seus colegas, mostrou que os resultados no mercado de trabalho pioraram para os funcionários expostos à ia , mas que essa tendência também começou antes do lançamento do Chat gpt .
gráfico: the economist A revista The Economist realizou sua própria análise, utilizando uma fonte de dados amplamente negligenciada: dez anos de pesquisas com recém-formados da Associação Nacional de Faculdades e Empregadores (National Association of Colleges and Employers). Anualmente, as universidades americanas perguntam aos seus novos ex-alunos se estão trabalhando, desempregados ou cursando pós-graduação. Com base em suas respostas, comparamos os resultados no mercado de trabalho em áreas com diferentes níveis de exposição à ia antes e depois da chegada de grandes modelos de linguagem.
Constatamos que os graduados em áreas mais expostas à ia sofreram resultados significativamente piores. Entre 2022 e 2024, os graduados no quintil menos exposto — que estudaram disciplinas como educação, filosofia e engenharia civil — viram sua taxa média de emprego em tempo integral cair apenas 1,5 ponto percentual. Já aqueles no quintil mais exposto — incluindo ciência da computação, engenharia da computação e ciência da informação — sofreram uma queda de 6,6 pontos percentuais (ver gráfico 1).
Atualizamos esses números para as áreas mais expostas, usando dados de 13 universidades, e constatamos que a tendência continuou para a turma de 2025 (veja o gráfico 2). A taxa de emprego em tempo integral caiu de quase 70% para 55% em três anos — notavelmente, nos três anos seguintes ao lançamento do Chat gpt em 2022. Antes disso, havia se mantido estável.
gráfico: the economist Os estudantes já estão mudando de rumo. Dados do National Student Clearinghouse, um grupo de pesquisa, mostram que a matrícula de alunos de graduação em ciência da computação caiu 11% em 2025. A matrícula em programação de computadores, que se concentra em habilidades de codificação em vez de teoria, caiu 26%.
O trabalho realizado por graduados em ciência da computação também está mudando. Menos tempo é gasto escrevendo código; mais tempo é dedicado ao projeto e à organização de sistemas de software em um nível mais elevado. Lana Yarosh, diretora de estudos de graduação em ciência da computação na Universidade de Minnesota, diz que entende as ansiedades dos alunos. “É sempre difícil quando as coisas mudam. Mas a ciência da computação é uma área onde tudo muda o tempo todo. ”
Um estudo da Fundação Seade analisou o exercício do trabalho autônomo no Estado de São Paulo entre 2014 e 2025 e apontou que 25% de todos os ocupados no mercado de trabalho paulista estão nessa categoria, o que significa que um a cada quatro realiza atividade econômica por conta própria, sem vínculo empregatício formal e, consequentemente, sem acesso a direitos previstos na CLT, como férias remuneradas, 13º salário e FGTS. As mulheres são praticamente um terço dos autônomos paulistas e sua participação têm aumentado desde o início do período analisado, passando de 33,5%, em 2014 para 36%, em 2025.
O estudo também aponta para um aumento no porcentual de trabalhadoras informais na condição de chefes de domicílio, que foi de 34% para 51%. Esse crescimento sugere mudanças na composição das famílias e transformações na dinâmica familiar ao longo dos anos, com o trabalho autônomo sendo uma estratégia feminina para conciliar atividades remuneradas com tarefas domésticas e cuidado com os filhos. A carência de infraestrutura pública de apoio, como creches e centros de convivência, e a persistência da desigualdade na divisão do trabalho domiciliar pesam ainda mais na decisão.
Hélio Zylberstajn, professor sênior do Departamento de Economia da FEA-USP e coordenador do Salariômetro, iniciativa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, destaca a baixa qualificação da mão de obra como um dos principais causadores da baixa competitividade. “O trabalhador brasileiro tem um nível de escolaridade relativamente baixo e de qualidade muito ruim. A produtividade desse trabalhador está muito relacionada com a escolaridade, com a qualificação.” O professor ainda destaca uma carência de investimentos na atividade econômica e na infraestrutura. “Abrir uma nova fábrica, abrir uma filial em outro Estado, é um investimento. O Brasil é um continente sem ferrovias, com muitos caminhões. Um caminhão precisa pegar uma estrada de terra entre o Mato Grosso e o Pará para levar soja para ser exportada, leva oito dias de viagem. Se houvesse uma estrada de ferro, chegaria lá em um dia. Mais produtividade, menor custo, mais competitividade. Isso reforça o papel da infraestrutura, que, apesar de ser um investimento que o governo sempre realizou, vivemos uma crise fiscal enorme, o governo não tem mais dinheiro”, explicou Zylberstajn.
Uma equipe de pesquisadores da Universidade de Minnesota, criou cápsulas microscópicas de DNA sintético que se alimentam, crescem e se multiplicam dentro de um tubo de ensaio. Batizadas de SpudCells, elas seriam as primeiras células criadas do zero capazes de crescer e se multiplicar. Ou, como diriam os cientistas, as primeiras estruturas artificiais a reproduzir o ciclo celular completo — crescimento, cópia do material genético e divisão em duas células-filhas. As informações são do The Guardian. Em vez de alterar organismos já existentes, o grupo liderado pela pesquisadora Kate Adamala partiu do zero. A base das estruturas são lipossomos — esferas ocas, preenchidas por água, com poucos milésimos de milímetro de diâmetro —, às quais foi acrescentada uma pequena quantidade de DNA sintético responsável pelas funções básicas da célula. O nome SpudCells remete ao satélite Sputnik e ao início da corrida espacial, mas tem um segundo motivo, mais pessoal: de acordo com Ademala, a bolha é "feita majoritariamente de batata" — fazendo referência ao uso do amido do legume para extrair os lipossomos; e o termo “spud” significa batata em polonês, língua natal da pesquisadora. Para crescer, as SpudCells se fundem com lipossomos menores, chamados de "alimentadores", que carregam enzimas, outras moléculas e ribossomos, estruturas celulares que fabricam proteínas. É o genoma sintético dessas células que contém as instruções para copiar o próprio DNA e se dividir. Os pesquisadores também testaram um princípio evolutivo básico dentro do experimento. De acordo com a publicação, os SpudCells com vantagem genética para crescer se espalharam mais rápido pela população, deixando as versões originais para trás — uma reprodução em miniatura da seleção natural. Algumas barreiras a superar Apesar do avanço, as SpudCells dependem inteiramente do caldo de nutrientes em que são mantidas. Elas não conseguem montar sua própria “fábrica” de produção de proteínas, regular o metabolismo ou eliminar resíduos. Além disso, ao se dividir, com frequência distribuem quantidades erradas de DNA entre as células-filhas, e a linhagem se esgota depois de poucas gerações. Adamala reconhece que o resultado ainda está longe de uma célula natural. "Não é tão robusta, rápida ou eficiente quanto uma célula natural, mas é a prova de que moléculas podem reconstituir esse comportamento", disse a cientista ao Guardian. Especialistas se dividem entre empolgação e ceticismo Tom Ellis, professor do Imperial College London ouvido pelo jornal, classificou o estudo como o “maior avanço recente” na área, por oferecer um sistema totalmente compreendido para testar circuitos biológicos e modelos computacionais da vida celular. Já o filósofo John Dupré, da Universidade de Exeter, questionou se as SpudCells seriam realmente mais eficientes do que bactérias modificadas para produzir remédios, alimentos e combustíveis. Para ele, falta a esses sistemas artificiais a dimensão relacional da vida — a constatação, cada vez mais aceita na biologia, de que organismos vivos dependem de relações simbióticas para existir. Adamala e outros pesquisadores já lançaram uma organização chamada Biotic para reunir especialistas de diferentes países e aprimorar as SpudCells. Segundo Drew Endy, bioengenheiro da Universidade Stanford e cofundador da iniciativa, a meta é desenvolver o que ele descreve como um "sistema operacional para a vida", construído a partir de genes e bioquímica.
O avanço da inteligência artificial está redesenhando as expectativas das empresas e a remuneração no mercado de trabalho global. Segundo o relatório 2026 Global AI Jobs Barometer, da PwC, que analisou mais de 1 bilhão de anúncios de emprego em 27 países, as habilidades exigidas em cargos expostos à tecnologia mudaram 66% mais rápido do que no ano anterior. O domínio dessas ferramentas também se tornou um diferencial financeiro, e profissionais com competências em IA recebem, em média, salários 62% superiores aos demais trabalhadores. A pesquisa ainda aponta que a tecnologia não está apenas automatizando tarefas, mas gerando um ganho de produtividade 40% maior nas empresas mais expostas à IA. Nessas organizações, o crescimento do quadro de funcionários e dos salários também supera a média das companhias com menor adoção tecnológica. Porém, essa transformação traz um desafio estrutural importante: o desaparecimento da curva tradicional de aprendizado para profissionais em início de carreira. "Seniorização" dos juniores Historicamente, profissionais juniores desenvolviam maturidade corporativa e julgamento crítico ao executar tarefas operacionais e repetitivas. Como a IA passou a absorver essas atividades, a "escada" tradicional de carreira está encurtando. O relatório levanta a questão de como as organizações formarão novos líderes se a base prática da aprendizagem está sendo automatizada. A resposta do mercado tem sido a antecipação de competências. Vagas de entrada em setores expostos à IA têm hoje sete vezes mais chances de exigir habilidades tradicionalmente associadas a profissionais experientes, como pensamento estratégico, liderança motivacional e gestão de partes interessadas. Esse fenômeno, chamado de "seniorização", reflete uma mudança nas funções de nível inicial: as posições de entrada que exigem tais competências cresceram 35% desde 2019, enquanto as vagas juniores convencionais registraram queda. Caminho para o desenvolvimento de talentos Para responder ao fim do modelo de aprendizagem lenta, o relatório sugere que as empresas reinventem seus programas de integração e mentoria. Em vez de focar apenas na execução técnica, o treinamento inicial deve acelerar o desenvolvimento de competências humanas intensivas. De acordo com o estudo, novas tarefas adicionadas aos cargos expostos à IA têm 2,5 vezes mais probabilidade de depender de empatia, criatividade e julgamento do que funções menos tecnológicas. Essa mudança cria um mercado de trabalho de duas vias: as ocupações "profissionalizadas" pela IA, nas quais a tecnologia executa o trabalho básico e libera o humano para tarefas de alta especialização, crescem duas vezes mais rápido do que as funções "democratizadas", onde a IA assume a complexidade do trabalho. A pesquisa conclui que, para os profissionais, a sobrevivência no mercado depende de aprender a comandar a IA como uma ferramenta parceira e desenvolver rapidamente as habilidades de liderança que o algoritmo não consegue replicar.
Desenvolvido de forma colaborativa pela União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) e instituições que integram a Coalizão Tec Educação, Fundação Telefônica Vivo, Centro de Inovação para a Educação Brasileira (Cieb), Instituto Natura e MegaEdu, o “Guia de Conectividades e BNCC Computação nos currículos municipais” é uma ferramenta prática para apoiar gestores e educadores na inclusão da Computação nos currículos escolares, em alinhamento com a BNCC.
O material apresenta os passos para incluir a Computação na grade curricular e seu uso pedagógico, seja como componente curricular ou de forma transversal. Além de oferecer orientações sobre conectividade, infraestrutura tecnológica e formação docente.
O Marco Conceitual de Inteligência Artificial na Educação apresenta o posicionamento da Fundação Telefônica Vivo sobre o papel da IA na transformação da educação pública brasileira.
O documento parte do entendimento de que a Inteligência Artificial já faz parte do cotidiano e tem potencial para impactar profundamente os processos de ensino e aprendizagem, desde a personalização do aprendizado até o apoio às decisões pedagógicas, sempre com as relações humanas no centro.
Organizado em diferentes frentes de análise, o material traz um diagnóstico do contexto educacional brasileiro, discute oportunidades e desafios do uso da IA e propõe caminhos para sua integração de forma responsável, ética e alinhada às necessidades da educação pública.
O Marco também apresenta a visão da Fundação para a escola que queremos: centrada nas relações humanas, voltada ao desenvolvimento de competências para a vida e comprometida com inclusão e equidade.
Por outro lado, Sílvia defende que as mudanças do NEM fizeram com que os alunos ficassem mais perdidos diante de um ensino médio “nebuloso”. “No momento em que o ensino médio se propôs a mudar, foram muitos movimentos diferentes, tenho a impressão que os alunos não entendem mais o que é. Antes, como era um modelo muito rígido, pelo menos os jovens sabiam o que é que a escola iria lhes oferecer, mas hoje fica um ambiente nebuloso, não entendem como se ajustar a esse novo projeto da escola.”
“É claro que muitos aderiram, a gente não pode generalizar, mas eu acho que esses jovens que escapam são jovens justamente que não se veem nesse modelo educacional. Acredito que a escola deveria se abrir mais, alguns exemplos seriam campeonatos esportivos, exposições artísticas, projetos sociais ou festivais de música, justamente para criar na escola um ambiente de convivência, discussão, diálogo, reflexão e um espaço no qual o jovem sentisse que ele pode criar, fazer e, principalmente em grupos colaborativos, participar de movimentos de pesquisa, trabalho etc.”, comenta Sílvia.
Menos da metade das crianças brasileiras está na creche. Dificuldade no acesso é um dos principais obstáculos no alcance da meta do Plano Nacional de Educação
Apenas 10% dos jovens têm a graduação como primeira opção quando consideram as opções para o futuro. É o que mostra a 3ª edição da pesquisa Decisões e Influências: a Jornada do Jovem para o Ensino Superior, realizada pela Globo e divulgada nesta terça-feira (28).
A pesquisa online ouviu mil pessoas que pretendem ingressar no ensino superior, de 16 a 29 anos, de todas as regiões do país, entre outubro de 2025 e janeiro de 2026.
Na ocasião, todos os entrevistados haviam cursado, estavam cursando ou queriam cursar o ensino superior. Dentre eles:
27% estão terminando o ensino médio para ingressar, pela primeira vez, no ensino superior. 27% concluíram o ensino médio e, na época, optaram por não cursar uma graduação. 19% já se formaram em outra graduação, mas resolveram fazer um novo curso. 17% estão cursando uma graduação, mas querem trocar antes de concluir. 10% trancaram a graduação que faziam, mas agora pretendem retomar.
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No entanto, a grande maioria (90%) não considerou a graduação como primeira alternativa, e o ensino superior aparecia em outras colocações de prioridade. Para essa parcela, os principais objetivos eram:
Empreender ou abrir o próprio negócio: 28% Ingressar diretamente no mercado de trabalho: 27% Fazer um curso técnico: 27% Realizar cursos livres ou de curta duração: 24% Prestar concurso público ou seguir carreira militar: 23% Fazer intercâmbio ou viajar antes de decidir: 15% Administrar ou trabalhar nos negócios da família: 12% Seguir carreira como influenciador: 12% Desenvolver carreira como autodidata: 11% Virada de chave Mesmo que, inicialmente, o ensino superior não fosse o objetivo principal de boa parte dos entrevistados, o cenário mudou:
40% das pessoas afirmam que, mesmo após concluir a graduação, é fundamental continuar estudando. 38% acreditam que as oportunidades profissionais surgem para pessoas capacitadas, independentemente do tipo de curso que escolham fazer. Além disso, 9 em cada 10 jovens afirmaram que pretendem fazer outro curso, além da graduação, no próximo ano. As principais escolhas foram por curso de idiomas online (43%) ou presencial (30%), e cursos livres online (43%) ou presenciais (33%).
Para aqueles que têm interesse em cursos livres, as principais alternativas são:
Idiomas: 42% Finanças e Contabilidade: 37% Tecnologia, Desenvolvimento e Software: 36% Desenvolvimento pessoal: 34% Negócios: 33% Marketing: 31% Saúde e fitness: 27% Ferramentas específicas: 27% Gastronomia: 22% Preparatório para Enem ou Vestibular: 21%
a Revista USP traz agora “Tempos e Espaços de Formação”, uma espécie de continuação (ou seria expansão?) daquele dossiê de 2023. A diferença é que, enquanto ali o tema era tratado de forma indireta, a partir da visão de autores que pensaram o universo escolar, então evocados como matrizes teóricas, aqui a proposta é ainda mais contundente, a ponto de se pretender reinventar o tempo e o espaço da escola, o que levaria, nas palavras dos organizadores, a refletir sobre a própria essência da educação. Os instrumentos dos quais se valem os artigos não são necessariamente os mais ortodoxos, tais como a viagem, a releitura, o relato de vida ou mesmo a literatura de autoajuda. O resultado é um conjunto de textos que dialoga com inúmeras possibilidades de ensino, estendendo a experiência formativa para além dos muros e das horas escolares.
O estudo inédito revela as principais lacunas de qualificação e outros desafios que as organizações enfrentam para preencher as vagas no setor Resultados reforçam a importância de iniciativas como o programa social Ford , criado para capacitar pessoas em situação de vulnerabilidade para atender às demandas do mercado O Ford já formou mais de 1.000 alunos desde 2022 e está com inscrições abertas para novas turmas em São Paulo O mercado de tecnologia no Brasil enfrenta um cenário desafiador: 98% das empresas têm dificuldade para encontrar profissionais qualificados, uma realidade que freia o crescimento e a inovação. Esse dado é um dos destaques da pesquisa “Mercado de Trabalho Tech: Raio-X e Tendências”, desenvolvida pela Ford em parceria com o Datafolha, um dos mais renomados institutos de pesquisa do Brasil.
No estudo, foram entrevistados 250 líderes de RH e Tecnologia da Informação de médias e grandes empresas para compreender os principais desafios e tendências do setor. A amostra abrange profissionais responsáveis por contratações em todas as regiões do país, em segmentos como tecnologia, varejo, serviços, educação, finanças e saúde.
“Os dados revelados por este estudo inédito com o Datafolha reforçam que o descompasso entre a velocidade da inovação e a disponibilidade de profissionais qualificados é um dos grandes desafios do mercado hoje. Na Ford, acreditamos que enfrentar esse cenário exige democratizar o acesso ao conhecimento tecnológico conectado às demandas do mercado”, comenta Pamela Paiffer, diretora de Comunicação e Responsabilidade Social da Ford América do Sul.
Para enfrentar esse desafio, a Ford criou o Ford , programa social de capacitação em tecnologia que já soma mais de 1.000 alunos formados desde 2022. “O programa foi desenhado para servir como uma ponte, capacitando talentos em situação de vulnerabilidade com as habilidades que as empresas buscam. O propósito dessa pesquisa é justamente identificar as lacunas de competências que o mercado apresenta e aprimorar o conteúdo do curso para acompanhar essa evolução”, completa Pamela.
Lacunas de qualificação A pesquisa revela que a dificuldade em encontrar profissionais na área de tecnologia é quase unânime no Brasil. Para 72% das empresas, a falta de conhecimento técnico é um dos principais desafios enfrentados, seguido pela ausência de experiência (54%), o que acende um alerta sobre a formação e o desenvolvimento de talentos no país.
Consequentemente, o tempo para preencher vagas se estende. Apenas 14% das empresas conseguem fazer a contratação em menos de um mês, enquanto 50% levam entre um e dois meses, 24% demoram de dois a três meses e 11% chegam a exceder quatro meses de busca. O LinkedIn consolida-se como a principal ferramenta de recrutamento para 60% das organizações.
Além da competência técnica Quando o assunto são as habilidades técnicas, a pesquisa aponta que as posições mais difíceis de preencher são as de especialistas em IA (35%) e engenheiros de software (31%). Em linha com essa demanda, conhecimentos em Segurança da Informação (30%) e Inteligência Artificial e Machine Learning (29%) são os mais escassos.
Porém, ter competência técnica já não é suficiente. A pesquisa destaca que 37% das empresas frequentemente, ou sempre, rejeitam candidatos tecnicamente aptos devido à falta de “soft skills”. As habilidades comportamentais mais difíceis de encontrar são Inteligência Emocional (36%) e Pensamento Crítico e Capacidade de Resolver Problemas (33%). Outro ponto crítico é o idioma: 78% das empresas desclassificam candidatos que não possuem domínio do inglês.
"A pesquisa mostra que precisamos ir além da qualificação técnica. A demanda por habilidades como inteligência emocional e pensamento crítico é imensa e continuará crescendo. Com o Ford , focamos em uma formação abrangente que prepara o indivíduo não apenas para a atuação técnica, mas para os desafios de um mercado em constante evolução", diz Fernanda Ramos, diretora de Recursos Humanos da Ford América do Sul.
Geração Z no setor tech O estudo também revela as prioridades da Geração Z e os desafios da diversidade. Segundo as empresas entrevistadas, para esses jovens talentos o salário (53%), a flexibilidade na jornada de trabalho (49%) e equilíbrio entre vida pessoal e profissional (39%) são os principais fatores na hora de decidir onde trabalhar. Paralelamente, 93% das companhias admitem ter dificuldades em encontrar candidatos de grupos sub-representados, o que reforça a relevância de programas como o Ford , que oferece oportunidades de qualificação para pessoas em condição de vulnerabilidade.
O futuro do trabalho e IA Projetando os próximos dois anos, a Inteligência Artificial é citada por 46% das empresas como o principal motor de mudança no mercado de tecnologia. A necessidade de qualificação profissional aparece em segundo lugar (29%), seguida por inovações tecnológicas (17%). A pesquisa prevê ainda que as “soft skills” serão as habilidades mais difíceis de encontrar no futuro (citadas por 50% das empresas), superando as “hard skills” (44%).
“A pesquisa mostra que a Inteligência Artificial já está mudando o mercado, mas para que ela entregue valor real é preciso ter dados organizados, contexto e profissionais preparados para transformar informação em decisão. Quando vemos que IA, Machine Learning e Segurança da Informação estão entre as áreas mais difíceis de contratar, fica claro que o desafio das empresas é duplo: investir em tecnologia e, ao mesmo tempo, desenvolver talentos e fortalecer sua base de dados”, diz Djalma Brighenti, diretor de TI da Ford América do Sul.
O Roda Viva recebe, nesta segunda-feira (29), o escritor, pesquisador e ativista norte-americano Peter Schmidt. Cofundador do coletivo internacional Amigos da Atenção e diretor da Strother School of Radical Attention, sediada no bairro do Brooklyn, em Nova York (EUA), Schmidt propõe o chamado "ativismo da atenção" contra a soberania das big techs. O autor defende o resgate de espaços de encontro sem telas para combater o "human fracking" - termo que compara a mineração da subjetividade humana à extração agressiva de petróleo. Schmidt acaba de lançar o livro Attensity! A Manifesto of the Attention Liberation Movement, obra escrita a 60 mãos que alerta sobre como a indústria digital fragmenta a cognição e põe em risco a própria democracia. 00:00 - Introdução 04:31 - Origens da Economia da Atenção 08:10 - O Espetáculo na Vida Política 12:37 - Algoritmos versus Mídias Tradicionais 14:47 - Metáfora do Fracking Humano 19:29 - Impactos nas Crianças e Santuários 22:21 - Inteligência Artificial e Exploração 25:58 - Colonialismo Digital das Big Techs 28:44 - Justiça e Direitos Atencionais 33:24 - Ativismo, Mobilização e Comunidade 40:20 - Mudanças Sistêmicas na Sociedade 43:50 - Desafios da Regulação de Dados 53:38 - Escola de Atenção Radical 56:47 - Relação entre Arte e Humanidade 01:11:44 - Tecnologia nos Espaços de Aprendizagem #RodaViva #TVCultura #SomosCultura
Nova publicação da coleção Agenda Política Pública destaca a urgência de financiamento, inclusão de novas vozes e o papel dos governos locais no empoderamento de jovens diante da vulnerabilidade socioambiental
Um aspecto que orbitou o campo da inteligência artificial (IA) desde o boom do ChatGPT é a aura de "tecnologia mágica", algo que surgiu quase espontaneamente e que carrega promessas e preocupações tão grandiosas e inevitáveis quanto a ficção científica pode imaginar.
Não é como a jornalista americana Karen Hao enxerga o campo. Para ela, trata-se de um projeto com traços de um império, que consome recursos globais de maneira avassaladora para favorecer uma minúscula elite do Vale do Silício, nos EUA. Em suas pesquisas, ela concluiu que a IA não é compatível com a democracia. E defendeu isso em um livro que chamou a atenção no ano passado.
Ela é autora de "O Império da IA" (Editora Rocco, R$ 99,90) que conta em detalhes a história da companhia cofundada por seu atual CEO, Sam Altman. A obra ganhou recentemente uma versão em português.
A visão dela vem de uma posição única: ex-editora de IA do MIT Technology Review e repórter do Wall Street Journal, Hao acompanhou de perto o surgimento e a ascensão da OpenAI, que, em poucos anos, deixou de ser um laboratório sem fins lucrativos para se tornar uma companhia que atualmente persegue um IPO de US$ 1 trilhão.
A obra mapeia todos os nomes, empresas, tecnologias, dilemas e problemas mais importantes da área, e serve como um guia para entender como uma tecnologia que parecia papo de filme se tornou um dos principais catalisadores de influência política, econômica, cultural e comportamental das últimas décadas.
Hao está no Brasil, onde participa nesta terça (30), do evento que antecede o 21º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. A palestra acontece a partir das 16h no Centro Cultural Camargo Guarnieri, na Cidade Universitária da Universidade de São Paulo (USP), e é promovido pela Abraji, pela Editora Rocco e o pelo GEIA (Grupo de Pesquisa em IA e Culturas Digitais), da Escola de Comunicação e Artes, da USP.
Ontem, ela recebeu o GLOBO em um hotel na Zona Oeste de São Paulo e, além de falar do livro, discutiu alguns dos temas mais recentes do universo da IA. Entre eles está a legislação de data centers, a posição da OpenAI no mercado, o fortalecimento da Anthropic, a proibição do governo americano a modelos avançados, a encíclica papal, a ausência de diversidade nas pesquisas de IA e o papel de influência global de empresas do Vale do Silício.
Leia a seguir os melhores momentos da conversa.
Ao longo do livro, Sam Altman, e as pessoas ao redor dele, falam como se tudo sobre a IA fosse inevitável e a senhora rebate isso. Existe algo sobre a IA que seja realmente inevitável?
Não acho que nada seja inevitável em geral, mas quando se trata de IA, uma das coisas que eu realmente tentei destacar no livro é o quanto cada decisão envolvida sobre ChatGPT foi baseada em escolhas completamente subjetivas. E é interessante quando você olha para o início da OpenAI.
A abordagem que eles adotaram de escalar seus LLMs era algo visto como cientificamente anômalo na época. Eles adotaram uma abordagem de força bruta, intelectualmente barata, que não era o caminho predominante de outros pesquisadores na área. E foi em parte porque eles tinham uma quantidade extraordinária de dinheiro que conseguiram tornar a abordagem deles a abordagem dominante. Então, como se pode dizer que uma tecnologia que surgiu desse tipo de história seja de alguma forma inevitável?
De que maneiras a IA prejudica a democracia?
Eu chamo essas empresas, como a OpenAI, de impérios da IA por causa dos paralelos marcantes que elas têm com os impérios do passado e como acumulam uma quantidade extraordinária de poder econômico e político.
Isso acontece por meio da desapropriação da maioria. Elas desapropriam as pessoas de seus dados, de suas terras — para hospedar esses data centers —, de recursos hídricos — para alimentar e resfriar esses data centers —, do trabalho das pessoas, de oportunidades econômicas futuras, de oportunidades educacionais.
E é por isso que o império consegue obter uma quantidade extraordinária de valor tão rapidamente: ele o extrai e não o distribui proporcionalmente de volta. E a razão pela qual acho que isso ameaça a democracia é porque impérios e democracia são incompatíveis.
O império se baseia na ideia de que existe uma hierarquia natural no mundo, de que existem grupos superiores e grupos inferiores, e as pessoas no topo do império merecem estar lá e merecem se apoderar de todos esses recursos por causa de algum direito divino ou ordem natural. Enquanto a democracia se baseia na premissa exatamente oposta. É a ideia de que somos todos iguais e todos merecemos participar coletivamente da autodeterminação do nosso futuro. E assim, apenas filosoficamente, há oposição completa entre a ideologia que guia o desenvolvimento da indústria de IA e a maneira como as sociedades democráticas se organizaram.
Livro de Karen Hao conta os bastidores da fundação e ascensão da OpenAI — Foto: Editora Rocco/Divulgação O Brasil está trabalhando em uma legislação para atrair data centers. Portanto, ao oferecer energia renovável barata e incentivos fiscais, o país está se colocando como uma “colônia digital”, como você descreve no livro. O que o Brasil pode aprender com países como o Chile, que receberam e rejeitaram data centers?
Uma coisa notável que vimos acontecer no último ano é o surgimento da resistência contra data centers em todo o mundo. Começou na América Latina, em lugares como o Chile, e se espalhou por EUA, Europa e Brasil. Esse tipo de organização de base está realmente começando a pressionar a indústria da IA a mudar sua abordagem.
Por exemplo, a OpenAI cancelou o (gerador de vídeos de IA) Sora. Quando anunciaram esse produto, eles a enquadraram como o segundo lançamento mais importante desde o ChatGPT e, em poucos meses, tiveram que cancelar. E o motivo é a organização de base. Quando você olha para as três razões que foram relatadas para a OpenAI tomar essa decisão, a primeira foi que eles tinham um enorme gargalo no poder computacional.
A segunda razão foi a estagnação da demanda dos consumidores. Portanto, trata-se de uma ação coletiva dos consumidores. E a terceira é que a OpenAI está tentando se preparar para o IPO e está enfrentando um cenário financeiro muito mais incerto. Cada vez mais, Wall Street tem dúvidas sobre se a indústria de IA pode, de fato, cumprir as promessas que fez, dado o enorme retrocesso político e social que está acontecendo.
É disso que o Brasil pode tirar proveito: reconhecer que, quando há esse tipo de organização de base, esse tipo de resistência, seja contra a infraestrutura, seja contra a forma como eles pegam seus dados ou sua propriedade intelectual, ou sejam os danos psicológicos que causam nas crianças, isso tem um efeito na trajetória do desenvolvimento da IA.
O governo dos EUA está deixando muito claro que determina quem tem acesso à tecnologia mais moderna, como no caso do Claude Fable. O que os países deveriam fazer para preservar a soberania e ainda acompanhar os avanços mais recentes?
Há uma grande questão aqui sobre por que realmente queremos acompanhar as tecnologias mais recentes. Se essas tecnologias mais recentes são as mesmas que estão explorando e extraindo recursos de comunidades em todo o mundo, é algo bom acompanhar? Ou deveríamos, na verdade, reformular o problema sobre quais são as regras do jogo? Se fôssemos redefinir os objetivos, não apenas para buscar o que há de mais recente, mas para buscar os objetivos de cada comunidade — seja melhorando o custo de vida, melhorando a qualidade da educação e da saúde, melhorando suas oportunidades econômicas —, você rapidamente perceberá que não precisamos de nenhuma das tecnologias de IA que o Vale do Silício está tentando empurrar goela abaixo das pessoas.
Há um conjunto completamente diferente de tecnologias de IA que deveríamos, de fato, estar desenvolvendo. E, nesse caso, há muitas maneiras diferentes de desenvolver essas tecnologias sem se envolver nas práticas exploratórias do Vale do Silício. E isso ajudaria a comunidade a continuar progredindo no verdadeiro sentido da palavra, não apenas o progresso tecnológico pelo progresso tecnológico, mas o progresso humano, social e econômico.
Atualmente, a OpenAI está espremida entre a Anthropic, que tem a plataforma mais popular no momento, e a SpaceX, que potencialmente tem a capacidade de construir sua própria infraestrutura. Essas são duas coisas que não vejo acontecendo com a OpenAI. O império vai cair?
Se definirmos o império da IA apenas como a OpenAI, então sim. Há muita pressão agora sobre a OpenAI, e não parece que ela esteja em uma posição muito forte. Mas acho que a pergunta mais importante é: os impérios, no plural, da IA vão cair? E também estou muito esperançosa nesse sentido, porque defino OpenAI, Anthropic, SpaceX, Amazon, Microsoft, Google e Meta como impérios da IA. Fazer com que a OpenAI deixe de ser um império, mas que a Anthropic ocupe seu lugar, não resolveria de fato o problema central do que vejo na natureza destrutiva e exploratória do desenvolvimento da IA.
O que espero que aconteça não é que continuemos apenas trocando quem é o império dominante, mas sim que, por meio de toda essa organização de base, por meio dessa resistência, consigamos uma responsabilidade real de todos os impérios — que todas essas empresas acabem deixando de ser impérios e se tornem apenas empresas que oferecem um valor equivalente pelo que recebem em troca. Meu objetivo não é fazer com que todas essas empresas deixem de existir. É apenas trazê-las de volta ao papel de empresas que não sejam extremamente exploratórias e que não degradem o nosso meio ambiente. Podemos ter empresas que apenas forneçam produtos e serviços de boa qualidade sem também causar uma quantidade extraordinária de danos.
Qual é a sua opinião sobre a postura de Dario Amodei de persistentemente alertar para os problemas da IA ao mesmo tempo em que a Anthropic continua lançando novos produtos?
Eu não acho que o Dario tenha dito alguma vez que deveríamos pausar a IA. Ele é de um grupo específico que acredita que existem riscos catastróficos potenciais, até mesmo existenciais, que podem surgir com o avanço das tecnologias de IA, se esse avanço for feito pelas pessoas erradas. E ele define “pessoas erradas” como qualquer um que não seja ele. Então, ele vem dessa ideologia de que se ele, Dario Amodei, e a sua empresa avançarem mais rápido do que qualquer outra pessoa, então os padrões que utilizam para avançar estes sistemas terão uma espécie de atração gravitacional sobre todo o desenvolvimento da IA, estabelecerão os padrões e, em seguida, serão capazes de elevar a qualidade e a responsabilidade do desenvolvimento da IA em todo o mundo.
Essa abordagem é incrivelmente circular e desconcertante, porque quando você olha para o que a Anthropic está fazendo, é praticamente a mesma coisa que a OpenAI. Dario Amodei e os executivos da Anthropic deixaram a OpenAI, copiaram e colaram, e apenas se repaginaram como os "mocinhos", sem realmente atingir a verdadeira raiz dos problemas. Tanto a OpenAI quanto a Anthropic abordam a IA por meio da escala, e assim você ainda se depara com os mesmos problemas de danos à privacidade de dados, degradação da propriedade intelectual, danos ambientais e danos à saúde pública. Portanto, eles estão apenas fazendo pequenos ajustes e dizendo "é por isso que somos moralmente superiores", quando, na verdade, são apenas outro império.
O que a senhora acha do fato de o Papa se apoiar em alguém da Anthropic para ajudar a apresentar sua encíclica, Magnifica Humanitas? Leão XIV alertou sobre a ameaça que a IA representa para a dignidade humana, para a justiça e para o trabalho, mas tinha alguém de uma empresa com ele.
Esse foi um momento muito confuso para mim, porque achei a encíclica um documento incrivelmente profundo e muito bem escrito. Ela fala sobre como a IA é uma nova fase do colonialismo e como está perpetuando a exploração do trabalho a ponto de potencialmente dar origem a novas formas de escravidão, e fala sobre as formas como a indústria da IA está avançando com base em uma ideologia que supõe que as máquinas serão sempre melhores do que os humanos e que, de alguma forma, aperfeiçoarão as falhas da espécie humana. E uma das minhas falas favoritas diz: "nós florescemos dentro de nossas limitações, não apesar de nossas limitações". Mas aí, você tem esse esse executivo da Anthropic, Chris Olah, que está lado a lado com o Papa.
Inicialmente, fiquei bastante desapontada e pensei: “ok, até o Vaticano, a Igreja Católica, de certa forma se rendeu a essas empresas”. Mas quando o Olah falou, ele enquadrou o documento como uma crítica. Ele não disse "apoiamos totalmente este documento". Ele, na verdade, disse: "Precisamos de críticos como o Papa para responsabilizar empresas como a Anthropic". Então, ele tratou como uma dinâmica de oposição.
Por um lado, a Anthropic está tentando trazer o Vaticano para mais perto de sua esfera de poder e influência, mas, ao mesmo tempo, o Vaticano está tentando fazer o mesmo, colocando a indústria da IA na linha. Não está muito claro quem realmente ganhou mais com esse arranjo. Foi a indústria da IA ou foi o Papa? No final, talvez o Papa tenha conseguido dar a última palavra.
A inteligência artificial geral (AGI) é uma mentira? Por que não se fala mais disso com a mesma intensidade?
É um mito, no sentido de que é uma história incrivelmente convincente na qual muitas pessoas acreditam, e que também serve a uma enorme utilidade política para essas empresas justificarem toda a destruição que promovem. Se elas conseguirem fazer com que todos acreditem que existe, de alguma forma, uma AGI, então elas podem simplesmente continuar fazendo o que quiserem. Mas a realidade bateu à porta e os mitos só funcionam em vácuos de informação. Quanto mais a IA é implantada na sociedade, mais as comunidades sofrem com o impacto do desenvolvimento dessa tecnologia, mais esse vácuo de informação é preenchido com fatos reais sobre o que essa tecnologia realmente representa, e mais esse mito começa a desmoronar.
A senhora argumenta que o campo científico da IA perdeu transparência e diversidade de pesquisa com a ascensão da IA generativa. Como é possível recuperar isso?
A razão pela qual tanta diversidade entrou em colapso é que a indústria de IA se tornou a financiadora dominante, mesmo fora das empresas. Eles são os financiadores dominantes dos laboratórios acadêmicos, enquanto o financiamento estatal representa uma fração menor do financiamento.
É preciso algumas coisas para mudar isso. Uma delas são pessoas que têm visões alternativas sobre desenvolvimento de IA, que não aceitem financiamento dessas empresas. E também serão necessárias novas fontes de recursos, que podem unir financiamento estatal, financiamento de fundações e, talvez, até financiamento coletivo. Será preciso também uma constelação mais rica de startups. Isso vai levar tempo.
Replantar a diversidade que foi destruída vai exigir muito esforço cuidadoso e também muito sacrifício, porque há pesquisadores de IA e outros talentos que terão que escolher ativamente, nos primeiros anos de carreira, abrir mão do pacote de remuneração de US$ 1 milhão para investir em uma abordagem diferente de desenvolvimento de IA.
Há alguma área específica da IA na qual a senhora gostaria de ver mais pesquisas que vão além do deep learning/machine learning e da IA generativa?
Antes de o deep learning se tornar o foco principal de praticamente todo o desenvolvimento de IA, havia um campo chamado IA neurossimbólica. Esse grupo codificava conhecimento e bancos de dados em sistemas de computador para que se pudesse ter um sistema mais determinístico, que recuperasse esse conhecimento e raciocinasse por meio do banco de dados para chegar a certos tipos de respostas. Essa abordagem tinha seus pontos fracos e acabou ficando de lado porque era muito lenta e cara. Mas a corrente neurossimbólica funde os pontos fortes do deep learning com os pontos fortes da abordagem simbólica. Ela permite que um sistema aprenda rapidamente a partir de dados, como se faz com o deep learning, mas também defina certas regras básicas que não precisam ser aprendidas. Nós já sabemos que 1 mais 1 é igual a 2, então não precisamos alimentar o sistema com uma quantidade enorme de dados mostrando isso. Essa é parte da razão pela qual esses sistemas de deep learning são tão ineficientes. Eles meio que reinventam a roda toda a vez. Então, me interessa ver mais sobre IA neurossimbólica.
Mas, dentro do deep learning, havia outras vertentes interessantes para tornar os sistemas mais eficientes, consumindo menos dados e poder computacional. Então, acho que há bastante pesquisa que pode ser feita tanto dentro quanto fora do paradigma atual para apenas explorar que tipos de novas técnicas, novas metodologias podemos usar para obter as capacidades que desejaríamos desses sistemas sem uma cadeia extrativista.
E a última coisa que eu acrescentaria é que não se trata apenas de como conseguimos sistemas melhores, mas também do que estamos definindo como o objetivo final. A indústria já há algum tempo define isso como replicar a inteligência humana. Eu não acho que esse seja o objetivo certo. O objetivo do desenvolvimento tecnológico é complementar o que não podemos fazer, não substituir o que podemos fazer. Quando tivemos os primeiros computadores e calculadoras, parte da razão pela qual isso foi ótimo é porque os humanos não conseguem calcular números tão rápido quanto os computadores. Então, transferimos esse trabalho para o computador, mas há tantas outras coisas que os humanos podem fazer que jamais seríamos capazes de transferir para uma máquina. Por que não focar apenas no desenvolvimento de sistemas de IA voltados para as coisas que nunca conseguiríamos fazer, em vez de tentar nos superar em todas as formas?
A senhora usa ferramentas de IA? Quais e para quê?
Eu não uso ferramentas comerciais de IA generativa. Não uso o ChatGPT, o Claude, o Gemini, nenhum deles, e há três razões. Primeiro, porque eu investigo essas empresas e, portanto, de uma perspectiva ética, não quero participar da perpetuação das cadeias prejudiciais em que elas se envolvem. Segundo, por motivos de privacidade. Eu investigo essas empresas, então não quero dar todos os meus dados para elas. E terceiro, porque acho que, em última análise, os pontos fortes do meu trabalho são simplesmente incompatíveis com o que eu obteria de uma ferramenta de IA generativa.
Mas eu uso ferramentas de IA especializadas. Por exemplo, uma das coisas que eu queria fazer com o meu livro era detalhar como a OpenAI passou a estar mais capitalizada depois que passou de uma organização sem fins lucrativos para um empreendimento financiado pela Microsoft, e notei que eles tiveram uma enorme melhoria em seu mobiliário.
As cadeiras do escritório que visitei em comparação com as cadeiras que tinham no escritório seguinte eram simplesmente muito diferentes. Então, tirei fotos de cada uma das cadeiras e passei por uma pesquisa de imagem do Google, que é uma ferramenta de IA especializada que não está tentando gerar nada, não está consumindo todos esses recursos para realizar essa tarefa. E descobri que, na verdade, as cadeiras do escritório antigo custavam US$ 2 mil cada, e as cadeiras do escritório mais novo eram, na verdade, de um designer brasileiro famoso, custando US$ 10 mil a cadeira. Então adicionei isso ao livro e senti que isso ajuda a ilustrar esse ponto.
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