Além de efeitos emocionais e psicológicos negativos nos candidatos, recrutar profissionais usando inteligência artificial é pouco eficiente para avaliar aspectos subjetivos
O que acontece quando a maioria faz uso de uma IA para realizar suas atividades laborais? E, no caso dos estudantes, quando os trabalhos passam a ser produzidos com o apoio de uma IA generativa? Luciano Sathler É PhD em administração pela USP e membro do Conselho Deliberativo do CNPq e do Conselho Estadual de Educação de Minas Gerais As diferentes aplicações de Inteligência Artificial (IA) generativa são capazes de criar novos conteúdos em texto, imagens, áudios, vídeos e códigos para software. Por se tratar de um tipo de tecnologia de uso geral, a IA tende a ser utilizada para remodelar vários setores da economia, com impactos políticos e sociais, assim como aconteceu com a adoção da máquina a vapor, da eletricidade e da informática. Pesquisas recentes demonstram que a IA generativa aumenta a qualidade e a eficiência da produção de atividades típicas dos trabalhadores de colarinho branco, aqueles que exercem funções administrativas e gerenciais nos escritórios. Também traz maior produtividade nas relações de suporte ao cliente, acelera tarefas de programação e aprimora mensagens de persuasão para o marketing. O revólver patenteado pelo americano Samuel Colt, em 1835, ficou conhecido como o "grande equalizador". A facilidade do seu manuseio e a possibilidade de atirar várias vezes sem precisar recarregar a cada disparo foram inovações tecnológicas que ampliaram a possibilidade individual de ter um grande potencial destrutivo em mãos, mesmo para os que tinham menor força física e costumavam levar desvantagem nos conflitos anteriores. À época, ficou famosa a frase: Abraham Lincoln tornou todos os homens livres, mas Samuel Colt os tornou iguais. Não fazemos aqui uma apologia às armas. A alegoria que usamos é apenas para ressaltar a necessidade de investir na formação de pessoas que sejam capazes de usar a IA generativa de forma crítica, criativa e que gerem resultados humanamente enriquecidos. Para não se tornarem vítimas das mudanças que sobrevirão no mundo do trabalho. A IA generativa é um meio viável para equalizar talentos humanos, pois pessoas com menor repertório cultural, científico ou profissional serão capazes de apresentar resultados melhores se souberem fazer bom uso de uma biblioteca de prompts. Novidade e originalidade tornam-se fenômenos raros e mais bem remunerados. A disseminação da IA generativa tende a diminuir a diversidade, reduz a heterogeneidade das respostas e, consequentemente, ameaça a criatividade. Maior padronização tem a ver com a automação do processo. Um resultado que seja interessante, engraçado ou que chama atenção pela qualidade acima da média vai passar a ser algo presente somente a partir daqueles que tiverem capacidade de ir além do que as máquinas são capazes de entregar. No caso dos estudantes, a avaliação da aprendizagem precisa ser rápida e seriamente revista. A utilização da IA generativa extrapola os conceitos usualmente associados ao plágio, pois os produtos são inéditos – ainda que venham de uma bricolagem semântica gerada por algoritmos. Os relatos dos professores é que os resultados melhoram, mas não há convicção de que a aprendizagem realmente aconteceu, com uma tendência à uniformização do que é apresentado pelos discentes. Toda Instituição Educacional terá as suas próprias IAs generativas. Assim como todos os professores e estudantes. Estarão disponíveis nos telefones celulares, computadores e até mesmo nos aparelhos de TV. É um novo conjunto de ferramentas de produtividade. Portanto, o desafio da diferenciação passa a ser ainda mais fundamental diante desse novo "grande equalizador". Se há mantenedores ou investidores sonhando com a completa substituição dos professores por alguma IA já encontramos pesquisas que demonstram que o uso intensivo da Inteligência Artificial leva muitos estudantes a reduzirem suas interações sociais formais ao usar essas ferramentas. As evidências apontam que, embora os chatbots de IA projetados para fornecimento de informações possam estar associados ao desempenho do aluno, quando o suporte social, bem-estar psicológico, solidão e senso de pertencimento são considerados, isso tem um efeito negativo, com impactos piores no sucesso, bem-estar e retenção do estudante. Para não cair na vala comum e correr o risco de ser ameaçado por quem faz uso intensivo da IA será necessário se diferenciar a partir das experiências dentro e fora da sala de aula – online ou presencial; humanizar as relações de ensino-aprendizagem; implementar metodologias que privilegiem o protagonismo dos estudantes e fortaleçam o papel do docente no processo; usar a microcertificação para registrar e ressaltar competências desenvolvidas de forma diferenciada, tanto nas hard quanto soft skills; e, principalmente, estabelecer um vínculo de confiança e suporte ao discente que o acompanhe pela vida afora – ninguém mais pode se dar ao luxo de ter ex-alunos. Atenção: esse artigo foi exclusivamente escrito por um ser humano. O editor, Michael França, pede para que cada participante do espaço "Políticas e Justiça" da Folha sugira uma música aos leitores. Nesse texto, a escolhida por Luciano Sathler foi "O Ateneu" de Milton Nascimento.
If you want to live in a world where people read, novelist Ann Patchett has news for you: it's your job to help create that reality. Tracing her path from a chance airport encounter through a career writing iconic novels and opening a beloved independent bookstore, she makes the case that reading isn't a private pleasure but a civic act that builds empathy, sustains a "long-format brain" and pulls people out of isolation. Ready to lose yourself in a book? (Recorded at TED2026 on April 16, 2026)
O CIEB, em parceria com a Fundação Telefônica Vivo, atualizou a Nota Técnica sobre a Matriz de Descritores e a Ferramenta de Autoavaliação de Competências Digitais de Professores.
A matriz, criada em 2019, apoia professores e redes de ensino a compreenderem seus perfis digitais e avançarem no uso pedagógico da tecnologia. A nova versão preserva a comparabilidade com a versão anterior e incorpora atualizações importantes, como a inclusão de Inteligência Artificial de forma transversal, a entrada das competências de Prática Inclusiva e Gestão de Dados, além da reorganização de descritores.
O Brasil já reúne evidências concretas de que a transformação digital da educação pública está avançando em escala. Nos últimos dois anos, o percentual de escolas com conectividade adequada para fins pedagógicos passou de 49,2% para 74,1%, enquanto 29 redes do G73 — grupo que reúne as 27 redes estaduais e distrital, as 26 capitais e os 20 municípios brasileiros com mais de 500 mil habitantes — já alcançaram patamares superiores a 80% de cobertura de conectividade em suas escolas. Os dados também mostram que um número crescente de redes começa a avançar em competências digitais docentes e na integração de recursos educacionais digitais, indicando que o país dispõe hoje de bases sólidas para consolidar uma política de tecnologia voltada à aprendizagem e à redução das desigualdades.
Em meio à expansão da inteligência artificial, escola e professores seguem essenciais para formar estudantes críticos, éticos, criativos e capazes de construir sentido no mundo digital
Em sua 3ª edição, o Prêmio Professor Porvir reconheceu experiências pedagógicas criativas, inclusivas e conectadas aos desafios reais das escolas brasileiras.
Neste e-book gratuito, você vai conhecer 10 projetos vencedores, selecionados entre mais de 600 projetos de todo o país, que mostram como professores têm mobilizado ciência, tecnologia, cultura, memória, democracia, território e cuidado para transformar a aprendizagem.
Com apoio da gestão escolar e de plataformas como a ubbu, professores podem trabalhar programação, pensamento computacional e cidadania digital desde os primeiros anos do ensino fundamental, mesmo sem experiência prévia na área
Sensibilizamos a sociedade por meio de uma comunicação de impacto, autoral e investigativa, sempre apoiada na força de comunidades. Para provocar a transformação é preciso comunicar com excelência – a ponto de transformar a vida de uma pessoa.
Codiretor da Data Privacy Brasil discute a “Copa das Bets”, a plataformização do vício e por que o tema deve ser tratado como questão de direitos digitais e saúde
Nos últimos anos, ficou difícil, para não dizer impossível, assistir a uma partida de futebol sem esbarrar em alguma publicidade de apostas. Elas estão nas transmissões, estampadas nas camisas dos atletas, nos intervalos comerciais, em vídeos que circulam nas redes sociais — e, cada vez mais, na própria forma como o esporte é consumido. Na Copa do Mundo de 2026, apelidada por críticos Brasil afora de “Copa das Bets”, essa presença ganhou ainda mais visibilidade com milhares de pessoas acompanhando os jogos de 48 seleções pela TV e, sobretudo, pelo streaming.
LEIA MAIS NA GAMA
Questionário Proust: Erick Jacquin O museu na era da selfie Como criar meninos mais sensíveis Desde o início do Mundial deste ano, no dia 11 de junho, o assunto se tornou um dos principais debates da competição, colocando em pauta que tipo de relação está sendo construída entre o futebol, torcedores e as bets.
Para Rafael Zanatta, codiretor da Data Privacy Brasil, organização que se dedica à produção de conhecimento voltado à construção de um ecossistema informacional justo, o fenômeno não pode ser lido apenas como uma questão de escolha individual. Pesquisador de direitos digitais e proteção coletiva de dados, e mestre em direito e economia política, ele enxerga nas bets uma engrenagem mais ampla da economia digital: sistemas desenhados para capturar atenção, estimular repetição, perfilar usuários e transformar comportamentos de risco em receita recorrente e bilionária.
“Plataformização do vício” é como Zanatta chama esse processo. A expressão aproxima as apostas esportivas de outros ambientes digitais organizados por retenção, predição e design persuasivo, do Instagram às plataformas de predição, como as plataformas norte-americanas Kalshi e a Polymarket. Em entrevista a Gama, o especialista afirma que o ponto central é que a aposta já não depende apenas do desejo do apostador. Ela passa por arquiteturas digitais capazes de induzir comportamentos, reduzir fricções e explorar vulnerabilidades.
A visibilidade da Copa, segundo Zanatta, tornou mais evidente uma fronteira que vinha sendo borrada, a que separa publicidade, experiência esportiva e estímulo ao consumo de risco, inclusive em ambientes amplamente acessados por crianças e adolescentes.
A preocupação, no entanto, não se limita à propaganda. Ao longo da conversa, ele também relaciona esse avanço a uma série de elementos: o endividamento, a ludopatia — transtorno de compulsão por jogos de azar —, os impactos sobre as famílias, a erosão da economia popular e o aumento da pressão sobre a saúde pública. Também discute o papel dos dados pessoais, do perfilamento e de designs manipulativos em plataformas que aprendem com o comportamento dos usuários. E que podem, a partir disso, predizer quem está mais vulnerável a continuar apostando.
Para enfrentar esse fenômenos, Zanatta defende no papo com Gama uma coalizão entre diferentes áreas. Não se trata só de debater se a publicidade deve ser mais restrita, como ocorreu com o tabaco e o álcool décadas atrás, mas de entender como é possível uma economia inteira se organizar em torno da atenção, da recorrência e do risco. “A sociedade precisa discutir se não houve uma negligência coletiva sobre as bets.”
G |A Data Privacy Brasil usa a expressão “plataformização do vício” para falar de bets e outros mercados digitais de risco. Qual é o significado desse conceito?
Rafael Zanatta | Essa é uma temática que discuto há bastante tempo com o professor Ricardo Abramovay — orientador do meu doutorado —, que começou a escrever sobre economia do vício por volta de 2017, 2018, e a gente trabalhou academicamente esse tema antes mesmo de ele entrar no escopo da Data Privacy Brasil. O professor identificou que a transformação digital e a plataformização produzem uma economia específica, fundada em uma ciência comportamental, psicológica, basicamente behaviorista, inspirada em estudos sobre comportamento repetitivo, prazer e adicção. Existe uma ciência voltada a organizar a retenção da atenção e a maximizar o tempo de permanência do usuário nas plataformas. É a captologia [estudo de tecnologias projetadas para persuadir e mudar comportamentos ou hábitos dos usuários], disciplina oferecida pela Universidade Stanford que foi cursada por ex-funcionários da Meta e do Google. É isso que o Abramovay chama de economia do vício. Esse debate me influenciou a levar o tema para a Data Privacy, porque a nossa agenda trata de direitos digitais e da defesa de um ecossistema informacional justo. G |Por que a plataformização do vício é também um problema de direitos digitais?
RZ | Os ecossistemas informacionais e as arquiteturas digitais fazem parte da nossa vida social, econômica e cívica. Por isso, os elementos de justiça também aparecem aí. Um design pode ser injusto ou ilícito; a arquitetura que modula nosso comportamento pode produzir consequências detrimentais para valores como autonomia e dignidade. A plataformização do vício não é um fenômeno novo ou restrito às bets, é um processo estrutural, de décadas, ligado ao modelo mais amplo da economia digital. Instagram, YouTube, bets e plataformas de mercados de predição operam com designs voltados à retenção da atenção e à repetição cotidiana de comportamentos, nesse jogo entre design e corpo humano, com pequenas doses de prazer, liberação química e produção de dopamina. G |Como entram os dados pessoais e o perfilamento nessa economia do vício?
RZ | A utilização de dados pessoais é central nessa economia, porque permite induzir comportamentos a partir do encaixe de cada pessoa em um grupo social abstrato. É o que chamamos de perfilamento. A partir de sinais sobre preferências, classe social, dinâmica de trabalho ou hábitos cotidianos, é possível observar empiricamente milhões de usuários com perfis semelhantes e predizer comportamentos. Esse é o modo de organização da economia digital. A estrutura da economia do vício é constitutiva da plataformização. Por isso, no projeto de pesquisa da Data Privacy Brasil sobre a plataformização do vício, a gente estuda escolhas de design e a fronteira entre o lícito e o ilícito nesses desenhos de arquiteturas digitais. Há uma linha de continuidade entre o que já era problemático nas redes sociais e o que agora migra para a economia das apostas. Tudo está conectado pelo eixo do vício. Tudo está conectado pelo eixo do vício
G |Quais são as diferenças entre as bets e as plataformas de predição — essas em que é possível apostar sobre qualquer assunto, de BBB e finais de novelas a resultados de eleições —, como Kalshi e Polymarket?
RZ | As bets são apostas de cota fixa. É como se houvesse um balcão de venda de apostas, semelhante ao modelo clássico de aposta em cavalos ou outros eventos. A empresa intermediadora define um preço, organiza a aposta, estabelece o valor de pagamento e cobra uma taxa de intermediação sobre as transações. Em geral, essas apostas de cota fixa se dão majoritariamente em eventos esportivos, com apostas predefinidas a partir de elementos do próprio esporte: quem vai vencer, quantos gols serão marcados, quem vai marcar. A Kalshi e a Polymarket radicalizam esse mercado porque tentam se posicionar como se não fossem apostas de cota fixa, mas um novo tipo de ativo financeiro ou de investimento em evento futuro. Esse argumento não me convence. Elas estão muito próximas do mesmo tipo de economia e poderiam ser enquadradas como apostas de cota fixa, porque também fazem intermediação e cobram taxas sobre os ganhos. G |O que essas plataformas de predição tentam apresentar como diferente?
RZ | A diferença que elas alegam é que não criam o evento nem o preço: dizem que isso surge das transações entre usuários, como em uma bolsa de valores. Nas bets, a empresa cria a aposta sobre um jogo; nessas plataformas, o usuário poderia criar um evento como “vai chover no Paraguai amanhã”, e se forma um mercado de sim ou não em torno disso, com contratos contingenciais. O problema é que essas plataformas inventam uma financeirização sobre qualquer evento, mesmo sem acoplamento com a economia real. É diferente do agronegócio, por exemplo, em que eventos futuros, como condições climáticas, afetam concretamente a produção e o preço de produtos. Ali há uma relação entre finança e economia real. No caso da Kalshi e da Polymarket, pode ser qualquer fenômeno político ou mundano. No Brasil, há uma disputa importante sobre a competência regulatória: elas querem tratar esses ativos como uma nova modalidade financeira, próxima de uma bolsa de valores; o governo federal tende a ver isso como algo muito próximo das apostas. G |A Copa do Mundo 2026 tem sido chamada de “Copa das Bets”. Como você vê esse fenômeno, que não é novo, mas ganhou outras camadas pela visibilidade do evento?
RZ | Nas últimas semanas, houve uma percepção de que uma fronteira foi cruzada. A Copa deu uma visibilidade imensa a algo que já vinha acontecendo: a presença das bets no futebol, nas transmissões e na experiência de torcer. Houve um levante difuso nas redes sociais, um incômodo com o modo como o incentivo ao jogo passou a se misturar ao entretenimento esportivo. Esse debate é também uma discussão sobre moralidade dos mercados. O que é correto, do ponto de vista moral, quando um negócio ganha dinheiro com bets e, ao mesmo tempo, incentiva as pessoas a jogar, misturando narração, evento esportivo e apostas? A Copa não criou esse fenômeno, mas tornou muito mais evidente a escala dessa presença e o quanto ela passou a fazer parte do ambiente midiático do esporte. G |O Ministério da Fazenda abriu um processo administrativo contra bets que anunciaram na CazéTV durante jogos da seleção brasileira neste Mundial. Esse caso ajuda a mostrar quais os limites entre entretenimento, publicidade e indução ao consumo de risco?
RZ | A questão com a CazéTV trouxe uma discussão jurídica importante sobre a Lei das Bets. Os artigos 28 e 29 da Lei 14.790/2023 dizem que a publicidade deve ser regulada pelo Ministério da Fazenda e precisa circular com avisos de desestímulo ao jogo, advertência de malefícios e ações informativas de prevenção. E, em hipótese alguma, pode chegar a crianças e adolescentes. No entanto, quando há um streaming alcançando dezenas de milhões de pessoas, e o Brasil tem 25 milhões de crianças e adolescentes que usam a internet [segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil], é evidente que uma parte desse público será afetada por aquela publicidade. Para mim, isso gera um curto-circuito com o ECA Digital. A CazéTV deveria separar melhor o que é conteúdo para crianças e adolescentes, mas está tudo misturado. Há ainda outro ponto: a lei veda afirmações infundadas sobre probabilidade de ganhar. Você não pode induzir uma pessoa, de forma infundada, à ideia de que ela tem chance de ganho. Isso se soma à responsabilidade editorial de não produzir indução ao jogo e de ser mais vocal sobre o vício e os efeitos detrimentais que podem decorrer das apostas. Hoje, a menção de que o conteúdo é apenas para maiores de 18 anos aparece de forma muito rápida e minimalista. A discussão se aproxima do que ocorreu com o tabaco e o álcool: setores em que a publicidade precisou ser regulada para evidenciar riscos e mitigar danos. Bets são, de fato, um assunto de saúde pública
G |Como o Executivo tem reagido a esse debate?
RZ | No Executivo, há uma movimentação entre o Ministério da Fazenda e a Secretaria Nacional de Direitos Digitais em torno de um acordo de cooperação técnica sobre dark patterns, ou padrões manipulativos de design. A ideia é discutir publicidade responsável, transparência das plataformas e recomendações para combater o design manipulativo em jogos. Isso mira claramente jogos como o “tigrinho”, em que o design usa luzes coloridas, botões grandes, pouca fricção e forte indução ao vício, inclusive para idosos. O caminho provável é recomendar formas de instituir fricção e tornar o design menos manipulativo. Para a Data Privacy, esse é um ponto central de pesquisa: acompanhamos o Legislativo, mas nosso interesse principal está nessa movimentação do Executivo, porque ela mira o design. G |E quais caminhos aparecem hoje no Legislativo?
RZ | No Legislativo, há muitos projetos em discussão, especialmente sobre publicidade, patrocínio e presença das bets em TVs, sites, uniformes de times e estádios. Muitos parlamentares querem reduzir o domínio das bets no esporte, mas isso deve gerar uma disputa grande com confederações e clubes, que já estão entrincheirados nesse dinheiro. Também aparecem propostas sobre autoexclusão, bloqueio de marketing, alertas obrigatórios de vício e vedação de expressões como “jogue e faça renda extra”, “lucro certo”, “grupo VIP” ou “recupere suas perdas”. Essas expressões são problemáticas porque induzem uma expectativa ilícita de ganho. O Legislativo pode disputar as regras do jogo, mas não acho que esse processo será rápido. G |Você defende que a sociedade discuta se a publicidade de bets deveria seguir restrições semelhantes às do cigarro ou às das bebidas alcoólicas. O que aproxima esses mercados?
RZ | Nós da Data Privacy somos signatários da campanha Brasil Contra Bets, que reúne ativistas e entidades, como a ACT e o Idec, com tradição em pesquisa em saúde pública. Tudo o que recebi e li dessas entidades nos últimos meses ajudou a Data Privacy a se posicionar: bets são, de fato, um assunto de saúde pública. A dimensão dos danos já é notória e tende a ficar ainda mais explícita. Também há um problema de estruturação das famílias. Em comunidades, relatos de pessoas que perdem móveis, fazem dívidas, pegam dinheiro emprestado e destroem relações familiares mostram que a questão é grave. Dada essa gravidade, a sociedade precisa discutir se não houve uma negligência coletiva sobre as bets. Todo mundo achou bom enquanto havia dinheiro circulando, mas agora estamos colhendo os danos. Tabaco e álcool oferecem exemplos de mitigação de danos e enfrentamento de grandes indústrias difíceis de erradicar. Acho que as bets se aproximam disso. G |Como elaborar uma política pública realmente robusta para enfrentar a plataformização do vício?
RZ | Acho que isso já está acontecendo. Não é algo que ainda precisa começar, mas há uma interconexão de campos disciplinares em curso. A saúde pública está dialogando com direitos digitais, pensando design e uso da informação, e também com o Executivo, forçando uma visão mais holística, que não fique restrita à Secretaria de Prêmios e Apostas. Esse diálogo pode envolver o sistema de saúde pública, a Fiocruz, o Ministério da Saúde e entidades de pesquisa. O quebra-cabeça ainda está um pouco esparramado, mas as peças se encaixam. Não dá para resolver o problema como se fosse só uma questão de Fazenda, só de saúde pública ou só de direitos digitais. G |Por que essa agenda exige uma coalizão entre diferentes áreas?
RZ | O problema é complexo justamente pela interdependência das partes. É o design que produz a maximização da atenção; essa maximização produz ludopatia e vício; a ludopatia e o vício produzem um problema de saúde pública; e esse problema se liga à erosão da economia popular, tornando-se também um problema econômico. Há um espírito de coalizão que precisa ser construído, como ocorreu em outras agendas públicas. Nos últimos meses, várias iniciativas começaram em unidades governamentais, centros de pesquisa e entidades civis. A campanha contra as bets reúne defesa do consumidor, direitos digitais e saúde pública. Esse levante popular e a preocupação coletiva abrem uma janela de oportunidade para formular políticas públicas.
Para antropólogo que pesquisa o efeito das apostas online nas favelas, bets sequestrarão paixão pelo futebol e, mesmo se banidas, deixarão dependência social. Além da catástrofe financeira, você já parou para pensar que as bets estão mudando o jeito de muita gente olhar para a vida e as suas paixões? No caso do futebol, agora na Copa do Mundo, ficou bem óbvio. “O futebol sempre foi o nosso ritual mais coletivo, aquele momento raro em que a favela, o asfalto e o condomínio fechado torcem ao mesmo tempo para a seleção. E as bets quebraram esse desejo único em centenas de pequenos mercados, de pequenas transações. Hoje, a pessoa não vai torcer só para um gol, vai torcer para um escanteio, um cartão amarelo, os minutos de acréscimo. As bets sequestraram essa paixão brasileira”, diz o antropólogo David Nemer, o convidado do Podcast da Semana da edição sobre bets. Nemer é professor nos departamentos de Estudos de Mídia, de Antropologia e do programa de Estudos Latino-Americanos da Universidade da Virgínia. Ele pesquisa tecnologia nas favelas e, nos últimos anos, se dedica a entender os efeitos das bets no Brasil. Na entrevista que você ouve abaixo, ele fala sobre como as bets têm um modelo de negócios que tira proveito da vulnerabilidade e defende que é errado pensarmos em vício, pois assim “individualizamos” o problema e culpabilizamos o usuário. “A questão, tanto do iludido quanto do viciado, não dá conta do que realmente acontece. Ela individualiza uma coisa que é estrutural, que é um produto desenhado para extrair, inclusive de quem é informado”, afirma o pesquisador. Segundo Nemer, a Copa funciona como uma grande campanha de recrutamento, trazendo gente nova para as plataformas. “Depois dessa festa, vem a conta, que vai ser o endividamento, o empréstimo com o amigo que não vai conseguir pagar, com agiota. Em lares precarizados, há um abandono familiar. O homem na favela se apropria do dinheiro da mulher, sendo que sete em cada dez lares são mantidos por mulheres. E as mulheres, claro, ao lutar pelo seu dinheiro para sustentar a casa, acabam em confronto e são agredidas.” Ele defende o banimento total e diz que, ainda assim, as bets deixarão um triste legado. “Uma dependência social foi criada e as pessoas buscarão outras formas de aposta.”
Juliana Prates transformou o luto em causa pública. Em dezembro do ano passado, a advogada e auditora do Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE-BA) perdeu o irmão, o também auditor Otacílio Prates, vítima do vício em apostas online desde 2023. “Ele dizia que estava fazendo investimentos arriscados em day trade e que havia gasto dinheiro em criptomoedas”, conta a Gama. Juliana só descobriu a gravidade do quadro horas antes da tragédia, ao acessar o celular do irmão em busca de pistas de seu paradeiro e encontrar um histórico de plataformas de apostas.
MAIS SOBRE O ASSUNTO Como identificar o vício em jogos de azar online e o que fazer Pedro Ambra: “Existe a masculinidade hegemônica, mas as formas de vivê-la podem ser muito diferentes” André Perfeito: “Ter um planejamento financeiro é tomar as rédeas da sua vida” Depois que o irmão tirou a própria vida, Juliana publicou um alerta em suas redes sociais que viralizou. A partir de então, ela passou a receber mensagens de famílias que contam histórias parecidas com a sua, sobre perdas de filhos, cônjuges e outros parentes para o mesmo vício, conhecido como ludopatia, ou jogo patológico. Em pouco tempo, contabilizou 25 suicídios ligados a jogos online. “Percebi que era um problema público gravíssimo, mas que ainda carrega um estigma de que ‘só quem é pobre joga no tigrinho'”, afirma.
Criado por Giselle Santos, gestora de inovação e pesquisadora do Rio de Janeiro, Os Códigos de Sofia não é um jogo tradicional nem uma sequência didática rígida: trata-se de um kit narrativo desplugado, formado por cartas, histórias e perguntas que funcionam como disparadores de conversas sobre inteligência artificial (IA), cultura digital, dados e território. Cada carta apresenta um fragmento da vida de Sofia, uma personagem fictícia de 14 anos que vive no Morro Dona Marta. Ao escrever suas próprias histórias, ela provoca reflexões sobre como a tecnologia atravessa o cotidiano.
Mais do que conduzir uma atividade, Sofia promove um encontro. “Não se trata de ensinar a operar ferramentas digitais, mas de abrir espaço para pensar quem projeta as tecnologias que usamos? Quem toma decisões por meio delas? Quem acaba não sendo visto pelos sistemas?”, provoca Gisele.
Os dados fazem parte do estudo inédito “Para onde vão os egressos do Ensino Médio e EPT? Empregabilidade e acesso ao ensino superior no Brasil”, realizado pelo Itaú Educação e Trabalho (IET). O estudo analisa a trajetória de concluintes do Ensino Médio em diferentes modalidades, considerando a inserção no mundo do trabalho formal e o ingresso no ensino superior.
A metodologia combina bases nacionais como o Censo Escolar, a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) e o Censo da Educação Superior, permitindo acompanhar os egressos em diferentes momentos após a formatura e construir indicadores comparáveis ao longo do tempo. O estudo foi elaborado pelos pesquisadores Alysson Portella e Carolina Veronesi.
Apesar das restrições previstas na lei, o uso pedagógico desses dispositivos pode ocorrer, desde que seja supervisionado por professores — conforme texto escrito ipsis litteris, sem pôr ou tirar qualquer vírgula. Entretanto, desde sua sanção, escolas em todo o território nacional têm criado uma espécie de “terrorismo” atrapalhado e mal interpretado, caminhando no sentido da proibição das tecnologias em sala de aula, mesmo para fins educacionais, além de promover o desmantelamento de equipes de tecnologia educacional sob falsas prerrogativas.
Baixe a Nota Técnica "Tecnologia como aliada aos avanços na educação: As experiências de Paraná e Piauí no aprimoramento dos resultados educacionais e no fortalecimento da gestão das redes de ensino"
Neste episódio do CIEBCast, a diretora-executiva do CIEB, Julia Sant'Anna, conversa com o diretor do Centro Estadual de Tempo Integral - CETI Augustinho Brandão, Darkson Machado, e com a diretora do Colégio Estadual em Tempo Integral Newton Ferreira da Costa, Tânia Bendlin, sobre como o uso estratégico da tecnologia vem contribuindo para fortalecer a gestão educacional e impulsionar os resultados de aprendizagem.
A conversa parte das transformações aceleradas pela pandemia e aborda os desafios enfrentados pelas redes para ampliar a conectividade, qualificar professores, integrar soluções digitais à gestão escolar e consolidar políticas de educação digital com impacto pedagógico.
Participam do episódio: • Julia Sant'Anna – Diretora-executiva do CIEB • Tânia Bendlin representante da rede estadual do Paraná • Darkson Machado representante da rede estadual do Piauí
O episódio aprofunda os principais achados da Nota Técnica, apresentando experiências concretas das duas redes de ensino, os desafios superados, as estratégias adotadas e os aprendizados que podem inspirar outras redes na implementação de políticas de educação digital.
🎧 A Nota Técnica está disponível no site do CIEB e o episódio completo do CIEBCast pode ser acessado pelo link acima.
This article argues that artificial intelligence and automation should be treated not as peripheral technological trends, but as forces reshaping the pedagogic and professional foundations of development studies. Bringing together scholarship on digital development, AI governance, higher education, and graduate employability, the paper contends that development studies must respond to AI in three interconnected ways: as an object of critical inquiry, as a condition transforming teaching and assessment, and as a factor reshaping graduate futures. The article develops a pedagogic framework centred on critical AI literacy, curriculum-wide integration, assessment redesign, applied capability formation, and institutional pedagogic governance. It argues that the future relevance of development studies will depend less on adopting technological novelty than on preserving and renewing its distinctive strengths: contextual analysis, ethical reflexivity, socio-technical critique, and the preparation of graduates able to interpret, question, and shape AI-mediated development practice.
O ECA Digital atualiza os direitos de crianças e adolescentes para o ambiente online. Entenda o que diz a nova lei, quais são seus impactos no cotidiano escolar e qual é o papel da escola na educação digital e na proteção dos estudantes
Pesquisa mostra que a lei que limita o uso não pedagógico de celulares já mudou a rotina das escolas: 92% dos gestores relatam mais foco, participação e convivência, e apontam que o próximo passo é ampliar o apoio das famílias para consolidar essa mudança cultural.
Ao mostrar que dados e tecnologias não são neutros, o feminismo de dados convida professores e estudantes a discutir poder, desigualdades e vieses da inteligência artificial
Diploma de ensino superior aumenta salário em R$ 5 mil O relatório mostra que trabalhadores com nível superior, embora representem apenas 23,6% dos assalariados, recebem em média cerca de R$ 5 mil a mais que aqueles com formação até o ensino médio.
Enquanto trabalhadores com ensino superior ganhavam, em média, R$ 7.776,59, os que tinham formação até o ensino médio recebiam cerca de R$ 2.742,41.
🔎 Isso significa que, na prática, trabalhadores com ensino superior ganham quase três vezes mais do que aqueles sem graduação.
“Só não tenho uma tela na minha frente quando estou no banho”, me disse uma amiga por esses dias, quando debati em alguns grupos o tema deste texto. A impressão de quase todas as pessoas com quem conversei era parecida: “Acho que sou levemente viciada em internet, mas talvez um pouco mais do que isso” — eu mesma me identifiquei com a amiga que só descansa os olhos dos pixels quando embaixo do chuveiro. Por aquelas conversas, parecíamos uma horda de viciados digitais, sobretudo nestes tempos em que muitos ainda estão trabalhando de casa, sem encontrar amigos e familiares fisicamente. Mas será que podemos nos considerar assim, viciados? Qual é a fronteira entre o uso desmedido e o diagnóstico real de dependência da internet?
A fala veio logo em seguida à publicidade de uma casa de apostas online que divulgou uma odd de 4.2 caso os dois times, Canadá e Catar, marcassem gol na partida. Em outras palavras, devido à baixa probabilidade de isso acontecer, a bet multiplicaria por 4,2 o valor da aposta. O jogo, no entanto, acabaria terminando em seis a zero para o Canadá, frustrando quem se fiou nas palavras do comentarista.
Para diversos internautas e especialistas, a emissora induziu o telespectador a apostar em uma possibilidade pouco provável, levando muitos a perderem dinheiro. E a cena é só um dos destaques na enxurrada de críticas que recebeu o único canal no Brasil liberado para reproduzir todos os jogos desta Copa do Mundo.
“É um negócio tão agressivo na direção das bets, com propaganda o tempo todo, estímulo ativo para que as pessoas joguem, que eu parei de assistir à CazéTV”, criticou o jornalista César Calejon no ICL Notícias, em vídeo que viralizou nas redes. Após as reclamações, o Ministério da Justiça e Segurança Pública chegou a abrir uma investigação da publicidade que vem sendo feita para as bets no canal. Com isso, a CazéTV reduziu as propagandas de jogos de aposta da sua programação de Copa do Mundo.
Há ainda outro aspecto preocupante. Muitos influenciadores educacionais, especialmente jovens, falam com enorme convicção sobre temas altamente complexos sem qualquer preocupação científica ou acadêmica consistente. Seu objetivo principal nem sempre é a formação do público, mas a ampliação de alcance, relevância digital e número de seguidores. Isso altera sutilmente a relação com o conhecimento. O saber corre o risco de tornar-se espetáculo. Quando isso acontece, a autoridade deixa de estar vinculada ao estudo sério, à pesquisa, à produção científica e à responsabilidade intelectual, passando a depender de métricas de visibilidade. Mas seguidores não certificam competência. Likes não substituem pesquisa. Viralização não é critério de verdade. E o choque com a realidade costuma aparecer no momento das avaliações. Então vem o desastre. Não porque o estudante faltou fisicamente às aulas, mas porque, de fato, não esteve presente. Não ouviu. Não anotou. Não acompanhou o desenvolvimento dos argumentos. Não percebeu distinções conceituais fundamentais. Não se deixou formar. Estava ali em corpo, mas ausente em atenção. E sem atenção não há aprendizagem profunda. Aprender exige presença. Exige disciplina interior. Exige esforço cognitivo. Exige suportar o tédio inicial que acompanha todo aprendizado sério. Nem tudo será imediatamente estimulante. Nem todo conhecimento virá embalado em formatos agradáveis. Há momentos em que aprender implica atravessar dificuldade, repetição, leitura densa e concentração prolongada. Formar-se nunca foi apenas acumular conteúdos. Formar-se é transformar-se. E isso exige presença integral: corpo, mente e espírito. Em tempos de distração permanente, a atenção é uma das formas mais altas de inteligência. Por isso, o maior risco da universidade hoje não é a falta de informação, mas a incapacidade de discernir entre conteúdo e conhecimento.
Este curso forma os professores para integrarem os pilares do pensamento computacional em suas práticas pedagógicas, desenvolvendo habilidades essenciais como resolução de problemas, raciocínio lógico, investigação e aprendizagem criativa. O curso destaca que o pensamento computacional vai além do uso de computadores, podendo ser aplicado em diversos contextos, incluindo disciplinas tradicionais, e sendo fundamental para o desenvolvimento de habilidades em programação e outras áreas do conhecimento. Alinhado à BNCC e à BNCC Computação, o curso utiliza desafios práticos, jogos e recursos digitais para explorar o pensamento computacional de forma lúdica e interativa.
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