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Programa estimula alunos de pós-graduação a desenvolver pesquisas nas empresas : Revista Pesquisa Fapesp

Programa estimula alunos de pós-graduação a desenvolver pesquisas nas empresas : Revista Pesquisa Fapesp | Inovação Educacional | Scoop.it
Bolsas para inovação do CNPq, com orientador acadêmico e supervisor na indústria, desafiam estudantes a resolver problemas concretos
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Curadoria por Luciano Sathler. CLIQUE NOS TÍTULOS. Informação que abre caminhos para a inovação educacional.
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September 10, 2024 9:19 AM
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Igualdade Artificial, um risco para a educação. Por Luciano Sathler

Igualdade Artificial, um risco para a educação. Por Luciano Sathler | Inovação Educacional | Scoop.it

O que acontece quando a maioria faz uso de uma IA para realizar suas atividades laborais? E, no caso dos estudantes, quando os trabalhos passam a ser produzidos com o apoio de uma IA generativa?
Luciano Sathler
É PhD em administração pela USP e membro do Conselho Deliberativo do CNPq e do Conselho Estadual de Educação de Minas Gerais
As diferentes aplicações de Inteligência Artificial (IA) generativa são capazes de criar novos conteúdos em texto, imagens, áudios, vídeos e códigos para software. Por se tratar de um tipo de tecnologia de uso geral, a IA tende a ser utilizada para remodelar vários setores da economia, com impactos políticos e sociais, assim como aconteceu com a adoção da máquina a vapor, da eletricidade e da informática.
Pesquisas recentes demonstram que a IA generativa aumenta a qualidade e a eficiência da produção de atividades típicas dos trabalhadores de colarinho branco, aqueles que exercem funções administrativas e gerenciais nos escritórios. Também traz maior produtividade nas relações de suporte ao cliente, acelera tarefas de programação e aprimora mensagens de persuasão para o marketing.
O revólver patenteado pelo americano Samuel Colt, em 1835, ficou conhecido como o "grande equalizador". A facilidade do seu manuseio e a possibilidade de atirar várias vezes sem precisar recarregar a cada disparo foram inovações tecnológicas que ampliaram a possibilidade individual de ter um grande potencial destrutivo em mãos, mesmo para os que tinham menor força física e costumavam levar desvantagem nos conflitos anteriores. À época, ficou famosa a frase: Abraham Lincoln tornou todos os homens livres, mas Samuel Colt os tornou iguais.
Não fazemos aqui uma apologia às armas. A alegoria que usamos é apenas para ressaltar a necessidade de investir na formação de pessoas que sejam capazes de usar a IA generativa de forma crítica, criativa e que gerem resultados humanamente enriquecidos. Para não se tornarem vítimas das mudanças que sobrevirão no mundo do trabalho.
A IA generativa é um meio viável para equalizar talentos humanos, pois pessoas com menor repertório cultural, científico ou profissional serão capazes de apresentar resultados melhores se souberem fazer bom uso de uma biblioteca de prompts. Novidade e originalidade tornam-se fenômenos raros e mais bem remunerados.
A disseminação da IA generativa tende a diminuir a diversidade, reduz a heterogeneidade das respostas e, consequentemente, ameaça a criatividade. Maior padronização tem a ver com a automação do processo. Um resultado que seja interessante, engraçado ou que chama atenção pela qualidade acima da média vai passar a ser algo presente somente a partir daqueles que tiverem capacidade de ir além do que as máquinas são capazes de entregar.
No caso dos estudantes, a avaliação da aprendizagem precisa ser rápida e seriamente revista. A utilização da IA generativa extrapola os conceitos usualmente associados ao plágio, pois os produtos são inéditos – ainda que venham de uma bricolagem semântica gerada por algoritmos. Os relatos dos professores é que os resultados melhoram, mas não há convicção de que a aprendizagem realmente aconteceu, com uma tendência à uniformização do que é apresentado pelos discentes.
Toda Instituição Educacional terá as suas próprias IAs generativas. Assim como todos os professores e estudantes. Estarão disponíveis nos telefones celulares, computadores e até mesmo nos aparelhos de TV. É um novo conjunto de ferramentas de produtividade. Portanto, o desafio da diferenciação passa a ser ainda mais fundamental diante desse novo "grande equalizador".
Se há mantenedores ou investidores sonhando com a completa substituição dos professores por alguma IA já encontramos pesquisas que demonstram que o uso intensivo da Inteligência Artificial leva muitos estudantes a reduzirem suas interações sociais formais ao usar essas ferramentas. As evidências apontam que, embora os chatbots de IA projetados para fornecimento de informações possam estar associados ao desempenho do aluno, quando o suporte social, bem-estar psicológico, solidão e senso de pertencimento são considerados, isso tem um efeito negativo, com impactos piores no sucesso, bem-estar e retenção do estudante.
Para não cair na vala comum e correr o risco de ser ameaçado por quem faz uso intensivo da IA será necessário se diferenciar a partir das experiências dentro e fora da sala de aula – online ou presencial; humanizar as relações de ensino-aprendizagem; implementar metodologias que privilegiem o protagonismo dos estudantes e fortaleçam o papel do docente no processo; usar a microcertificação para registrar e ressaltar competências desenvolvidas de forma diferenciada, tanto nas hard quanto soft skills; e, principalmente, estabelecer um vínculo de confiança e suporte ao discente que o acompanhe pela vida afora – ninguém mais pode se dar ao luxo de ter ex-alunos.
Atenção: esse artigo foi exclusivamente escrito por um ser humano.
O editor, Michael França, pede para que cada participante do espaço "Políticas e Justiça" da Folha sugira uma música aos leitores. Nesse texto, a escolhida por Luciano Sathler foi "O Ateneu" de Milton Nascimento.

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Esforços de prevenção : Revista Pesquisa Fapesp

Esforços de prevenção : Revista Pesquisa Fapesp | Inovação Educacional | Scoop.it
Editoras colhem resultados do investimento em equipes de integridade e ferramentas de detecção de fraudes
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Tradições culturais de animais estão em risco e desafiam políticas de conservação #science #animals

Estudo destaca como aprendizado social em primatas e cetáceos influencia a sobrevivência das espécies diante de impactos ambientais #cienciabrasileira #pesquisacientifica #animais #meioambiente

Leia reportagem:
https://revistapesquisa.fapesp.br/tradicoes-culturais-de-animais-podem-contribuir-com-estrategias-para-protege-los/
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15% das adolescentes faltaram à escola ao menos uma vez no ano por falta de absorventes, aponta IBGE

15% das adolescentes faltaram à escola ao menos uma vez no ano por falta de absorventes, aponta IBGE | Inovação Educacional | Scoop.it
Pesquisa do IBGE revela desigualdade entre redes pública e privada. Santa Catarina tem maior oferta de absorventes nas escolas; Roraima, a menor.
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O que é o novo Plano Nacional de Educação? Veja metas - 26/03/2026 - Educação - Folha

O que é o novo Plano Nacional de Educação? Veja metas - 26/03/2026 - Educação - Folha | Inovação Educacional | Scoop.it
O texto prevê ainda que, até 2030, o país consiga garantir que 80% das crianças cheguem ao final do 2º ano do ensino fundamental alfabetizadas. Até 2035, a meta é de que 100% se alfabetizem até essa série. Atualmente, o Brasil só consegue garantir esse direito para 66% das crianças.

Em relação à proposta do governo, o relatório acrescenta a meta de assegurar o nível adequado de aprendizagem também em matemática até o final do segundo ano.

O parecer também estabelece o atendimento de 100% da demanda da EJA (Educação de Jovens e Adultos) e a elevação para 10% da população de 18 a 24 anos com formação de nível técnico.

O documento traz ainda uma novidade por propor uma meta sobre sustentabilidade socioambiental. Eles propõem que todas as redes de ensino tenham planos de prevenção, mitigação e adaptação às mudanças climáticas. E ainda que 100% das escolas brasileiras atendam a padrões de conforto térmico.
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March 29, 7:35 PM
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Brasil reduz pela metade escolas sem acesso a água - 22/03/2026 - Educação - Folha

Brasil reduz pela metade escolas sem acesso a água - 22/03/2026 - Educação - Folha | Inovação Educacional | Scoop.it
Em um ano, o Brasil reduziu pela metade o número de escolas públicas sem nenhum acesso a água. Em 2024, o país tinha 2.512 unidades sem água. Esse número caiu para 1.203, em 2025.

Os dados são de um levantamento do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e foram divulgados neste domingo (22), quando se comemora o Dia Mundial da Água.

Apesar do avanço, o Brasil ainda tem 75 mil estudantes matriculados em escolas sem acesso a água. Em 2024, eram 179 mil.
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March 29, 7:31 PM
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Raio-X da adolescência brasileira: veja dados do IBGE sobre estudantes de 13 a 17 anos

Raio-X da adolescência brasileira: veja dados do IBGE sobre estudantes de 13 a 17 anos | Inovação Educacional | Scoop.it
Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024 divulgada nesta quarta-feira (25) traz dados sobre saúde e fatores de risco entre estudantes de 13 a 17 anos.
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March 29, 7:29 PM
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MEC lança plataforma para registrar demanda por matrícula EJA no país —

MEC lança plataforma para registrar demanda por matrícula EJA no país — | Inovação Educacional | Scoop.it
Ministério da Educação (MEC) lançou, neste sábado, 28 de março, o Cadastro da Educação de Jovens e Adultos (CadEJA), uma plataforma que contém informações sobre a oferta e a demanda por matrículas de EJA em todo o território nacional. Por meio da nova ferramenta, qualquer pessoa com 15 anos ou mais que deseje concluir os estudos poderá registrar um pedido, facilitando o processo de matrícula. O lançamento ocorreu durante o Encontro Nacional da EJA, que também celebrou a formatura de 2 mil estudantes das áreas de reforma agrária e periferias do Nordeste, fruto de uma parceria do MEC lançada em 2024.  
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March 29, 10:45 AM
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Desacelerar não é sobre ser lento, é sair do automático

Desacelerar não é sobre ser lento, é sair do automático | Inovação Educacional | Scoop.it
Nunca fui reconhecida como uma pessoa a quem se pudesse atribuir a qualidade de desacelerada. Daí, que quando —em 2015/2016— comecei a articular pessoas em torno do movimento slow em São Paulo com a criação do Guia Desacelera SP, ouvi de muitos amigos próximos e queridos: "Logo você, Mi?".

Pois é. E eu adoro esta provocação, porque ela é uma oportunidade de eu explicar para as pessoas que esta brincadeira dos meus amigos carrega uma imprecisão.

É verdade que nunca fui uma pessoa devagar. Na realidade, está mais para o contrário. Mas sempre cultivei a busca por ser dos afetos, dos abraços, estar no aqui e agora, presente onde estou e ser uma pessoa consciente e atenta.

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Por isso, fui entendendo que desacelerar não é sobre ser devagar. Em um mundo que corre, desacelerar é justamente entender que somos gente e não máquina.

Tenho uma vida corrida, afinal de contas, assim como você, eu vivo neste mundo de pressa e produtividade: sou uma mulher trabalhadora, mãe de dois filhos, moradora da cidade de São Paulo e tenho uma série de atividades além do meu trabalho profissional, do trabalho de cuidado e dos meus ativismos.

Ou seja: minha vida não é nem um pouco lenta. Mas tenho aprendido que é perfeitamente possível (e nada contraditório) buscar saídas desaceleradoras possíveis para minha vida pessoal e também lutar para que todos/as possam acessar essas saídas individual e coletivamente.

É isso que eu faço desde que me reconheço como uma pessoa que está construindo o movimento slow em São Paulo e no Brasil. E isso aconteceu quando comecei a buscar o slow para a minha vida. O Desacelera foi acontecendo na medida em que a vida foi me convidando a entender o desacelerar em suas múltiplas dimensões.

A criação do Guia foi inspirada na ideia de que qualquer pessoa poderia buscar desaceleração na cidade. Mais tarde, percebemos que não era possível desacelerar apenas a partir de um desejo. Havia uma dimensão cultural e social que "impedia" as pessoas de desacelerarem na cidade de São Paulo.

Logo depois, foram surgindo os cursos e formações; e as reuniões e eventos; o festival Dia sem Pressa e as outras atividades que, em 2023, confluíram para a fundação do Instituto Desacelera.

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Ao longo deste tempo, fui percebendo que a compreensão sobre o slow estava focada no indivíduo, desconsiderava esta dimensão cultural e estava centrada em uma ideia de slow que vinha de países estrangeiros e, portanto, carecia de um "tratamento" para fazer sentido para as pessoas em um contexto como o nosso, totalmente diferente da Europa, onde nasceu o movimento slow.

O slow não é um movimento "oficial", não possui uma centralidade institucionalizada. É um movimento de contracultura, uma articulação de âmbito internacional que agrega indivíduos, grupos, coletivos e organizações da sociedade civil e busca promover modos de vida desacelerados em diversas esferas da vida, como na relação com as crianças, a cidade, a medicina e a comida.

Entre os movimentos articulados sob esta bandeira, o mais expressivo mundialmente é o Slow Food, precursor dos demais, que trata da desaceleração no campo da alimentação. Talvez dentro dos vários movimentos que o compõem, o movimento slow food seja o mais "formalizado" justamente por ser o precursor e o mais robusto entre eles.

A cultura do slow food diz respeito às tríades "bom, limpo e justo" que é aplicada à lógica dos alimentos, das cadeias produtivas dos alimentos e da cadeia de consumo dos alimentos. Por isso, está conectado ao debate da soberania alimentar e do direito à alimentação justa e digna.

Um alimento bom, limpo e justo respeita os tempos sazonais da natureza, os direitos e ritmos das pessoas produtoras e consumidoras.

A partir destas ideias, outros movimentos também se inspiram no "bom, limpo e justo" e também na tríade "pequeno, devagar e local", especialmente no que diz respeito às cadeias de produção e consumo (como acontece com o slow fashion, por exemplo, que debate as cadeias produtivas e de consumo da moda e a necessidade de renovação frenética das coleções nas grandes redes de fast fashion).

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Existem outras frentes do movimento como o slow kids (que zela pelo tempo das infâncias) ou o slow medicine (que busca agendar uma medicina integral e não conectada às demandas de mercado, especialmente no que diz respeito às indústrias da saúde suplementar e privada e à farmacêutica, que pressionam as agendas e as práticas médicas).

Meu trabalho como quem constrói este movimento em São Paulo e no Brasil tem sido o de articular um ecossistema de pessoas, organizações e práticas de democratização do cuidado, do bem-estar e da saúde mental a partir do debate sobre a aceleração do tempo e os efeitos sobre a nossa vida cotidiana, em especial nos grandes centros urbanos.

Por isso, busco com a minha pesquisa situar este movimento e seus valores e premissas em um contexto desigual como o nosso, buscando apontar como estas práticas por um mundo mais lento podem reforçar violências se entendermos elas como "lifestyle" e não como uma agenda conectada às saídas sistêmicas e ao bem viver.

Desacelerar não é ser devagar. É sair do automático e recobrar os sentidos. Estamos todos correndo e precisamos todos desacelerar. Mas prescrever desaceleração para indivíduos em contextos desiguais pode ser violento, por não considerarmos que muitas vezes isso não é uma escolha. Ao considerar o slow como estilo de vida é neste equívoco que estamos incorrendo.

Situar o movimento slow no contexto brasileiro é lidar o tempo todo com compreensão equivocada de que desacelerar é ter preguiça ou ficar descansando na rede. Desacelerar até pode ser isso também. Desde que, ao compreender a desaceleração nesta chave, situemos as diversas agendas do movimento slow em um contexto como o nosso, em que precisamos afirmar que desconexão, descanso, tempo, cuidado, bem-estar e saúde mental são direitos e não luxos, privilégios ou escolhas individuais.
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March 29, 10:44 AM
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Produtividade tóxica: por que viver correndo virou motivo de orgulho?

Produtividade tóxica: por que viver correndo virou motivo de orgulho? | Inovação Educacional | Scoop.it
Sabe aquela pessoa que parece estar reclamando da vida quando diz que está superocupada, mas na verdade está fazendo um autoelogio porque acha o máximo ser indisponível? Ou ainda aquela pessoa que julga o colega de trabalho que sai pontualmente (ou que sai mais cedo para buscar um filho na escola)?

Sabe aquele dia em que você, por mais que tenha produzido o dia todo, ainda acha que não fez o suficiente ou fez menos do que deveria?

Todos estes podem ser considerados sintomas de uma cultura de produtividade tóxica. Vivemos todos imersos nela hoje em dia. Por isso, é preciso desacelerar, dedicar atenção, consciência e algum esforço para fazer boas perguntas no cotidiano e não contribuir para que ela se reproduza.

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Se ficarmos no automático, a tendência é acharmos o máximo a pessoa superocupada, pensarmos que indisponibilidade é sinônimo de status e concordarmos com aquele julgamento de que a pessoa que sai pontualmente ou que precisa de flexibilidade de tempo no trabalho é menos produtiva.

Conversei sobre este tema com Mariane Santana, pesquisadora que admiro, parceira em uma abordagem sistêmica da saúde mental e coletiva e que tem desenvolvido um trabalho fabuloso ao buscar entender a cultura da produtividade tóxica.

Nesta entrevista ela me conta o que é esta cultura, como podemos lidar com isso no nosso cotidiano, fazendo escolhas possíveis e a pergunta que não quer calar: dá para conciliar bem viver e produtividade?

Para conhecer mais o trabalho de Mariane, recomendo o perfil dela nas redes sociais. Veja abaixo como foi nossa entrevista.

O que é a cultura da produtividade tóxica?

É aquela que transforma o ato de produzir em uma obrigação moral, como se o valor de uma pessoa pudesse ser medido apenas por sua capacidade de gerar resultados. Qualquer desvio dessa marcha é logo visto como sinal de fraqueza ou incompetência.

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Ela nos convence de que precisamos estar sempre ocupados, sempre rendendo, sempre alcançando mais. Sendo assim, o que essa cultura produtivista faz é fornecer uma base ideológica para a autoexploração.

Produzimos muito além do que nossos corpos tendem a suportar, mas vivemos em um sistema que não oferece um retorno proporcional a esse sacrifício. Estamos em um contexto de crescente precarização do trabalho e de erosão de direitos sociais, mas essa cultura nos faz acreditar que nossos problemas se resumem a uma questão de otimização de tempo e de gerenciamento das próprias capacidades individuais. Na realidade, estamos apenas alimentando um ciclo de exaustão e de inseguridade social.

Como podemos lidar com isso no dia a dia?

Acredito que o primeiro passo é sempre a conscientização, estarmos lúcidos de que a cobrança incessante por produtividade tem gerado um sofrimento psíquico e relacional devastador para a nossa sociedade. Essa consciência precisa se expandir em múltiplas esferas, desde o indivíduo que se culpa por não render "o suficiente", passando pelas famílias que naturalizam a exaustão feminina, até as organizações que glorificam o burnout e as políticas públicas que ignoram jornadas exaustivas e salários defasados.

Que escolhas são possíveis?

Em âmbito individual, é preciso descolonizar nosso imaginário, reaprender a descansar sem culpa, a dizer não, a apreciar o lúdico, a resguardar nosso direito ao sono, ao tempo livre e à desconexão, e a resgatar o convívio coletivo que nos proteja da lógica isolacionista.

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É crucial, contudo, levar em consideração diversos recortes sociais que não possuem essa liberdade de escolha, para os quais os momentos de pausa realmente significam a possibilidade de demissão, precariedade ou endividamento.

Nesses casos, é preciso considerar que a exaustão é um fracasso coletivo. A sociedade precisa estruturar direitos trabalhistas que protejam o tempo de viver, além de ampliar a infraestrutura do cuidado para sustentar a reprodução social sem depender do esgotamento de algumas pessoas.

Dá para conciliar produtividade e bem viver?

Produtividade só faz sentido quando está a serviço da vida, e não como um fim em si mesmo. Precisamos desnaturalizar a ideia de que produzir mais é sempre melhor e começar a questionar: O que estamos produzindo? Como estamos produzindo? E, sobretudo, para quem e a que custo?

Os custos implícitos são sentidos na nossa saúde, na falta de convívio com amigos e amores, na perda do sentido que damos à nossa própria existência.

O que quero dizer é que, apesar do caráter tecnicista do termo, a produtividade nunca é neutra. Ela pode ser uma ferramenta de realização ou de exploração, de autonomia ou de opressão. A dignidade humana precisa ser o nosso horizonte, e não a idolatria vazia do produtivismo.
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March 29, 10:39 AM
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Por que começamos acelerando áudios e agora queremos acelerar as pessoas?

Por que começamos acelerando áudios e agora queremos acelerar as pessoas? | Inovação Educacional | Scoop.it
Você se lembra de quando não existia a possibilidade de acelerar conteúdos? Não faz tanto tempo assim. A gente era "obrigado" a ouvir áudios, ver filmes, assistir a séries e ouvir músicas no tempo da duração que eles tinham. Foi em 2021, durante a pandemia, que a principal empresa fornecedora de serviço de conversação instantânea lançou a ferramenta de aceleração de áudios.

Na época, lembro que escrevi um texto falando que estamos doentes de velocidade e que acelerar os áudios era um sintoma. Ouvi muito desaforo. "Que chata. Basta não acelerar o seu. É uma escolha", me diziam. Sim, parecia ser, mas queria justamente chamar atenção para o fato de que o que parecia ser uma escolha era, na verdade, uma questão social, mais ampla, coletiva. E arrisquei dizer que aquilo iria acelerar nossa experiência.

Eu pesquiso tecnologias. E nesta pesquisa fui ao longos dos anos compreendendo pelo menos duas chaves de leitura que me fazem entender que as tecnologias aceleram nossa experiência e que não paramos para pensar nisso, quando aderimos a uma nova "febre tecnológica" (isso está acontecendo com a IA: estamos adotando uma suposta "ferramenta" meio sem entender muito bem que ela não é neutra e que se não tivermos intenção nesta adoção, estamos atendendo a um mero apelo de consumo de quem está interessado em que estas coisas se popularizem: as empresas que vendem estas soluções).

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Como as plataformas sequestraram nosso tempo


Tony Marlon

Entre 'Brasa' e rua, seleção vai se distanciando do povo

Não sou contra a tecnologia. Seria ingênua se fosse. Não se trata disso. Trata-se de pensar nos efeitos que estes dispositivos produzem em nossas mentes e corpos quando normalizamos e normatizamos seus usos sem nos perguntarmos para que estamos fazendo isso.

No caso dos aceleradores de áudio, tudo começou como se fosse uma escolha mesmo. As pessoas até se perguntavam quando fazia sentido acelerar e quando não fazia. Depois, elas passaram a deixar os dispositivos em velocidade x2 como modo padrão.

Hoje, em todos os lugares por onde eu circulo em aulas, palestras e conversas, ninguém mais acha estranho que isso seja o "normal". Algo que seria uma escolha se tornou um hábito. Acontece que quando este hábito é coletivo, ele não demora muito para se tornar uma regra. Ou seja, além de normalizado (virou normal), está normatizado (virou norma). E quando vira norma, exclui quem não acelera e fica pra trás.

Os pretextos são ótimos. "Acelere para liberar tempo para o que importa." Quando, na verdade, sabemos que estamos liberando tempo para produzir mais, trabalhar mais, entregar mais, consumir mais e ficar mais tempo rolando o feed.

Mas não fica por aí. Além de comprimir o tempo e acelerar os conteúdos, esta escolha (que vira hábito que vira regra que vira violência quando exclui quem fica pra trás) age em nossas mentes, gerando uma irritação com ritmos humanos.

Quem nunca ficou impaciente diante daquela pessoa que começa a contar lentamente uma história que parece sem fim? Ou ficou irritado por achar a pessoa devagar demais? Ou ainda se pegou falando "pode contar, que estou te ouvindo" enquanto mexia no celular, porque não deu conta de sustentar a atenção ao ritmo do outro?

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As tecnologias não são apenas recursos "técnicos". Elas carregam consigo uma cultura, um modo de viver, sistemas de pensamento. Estão, de alguma forma, banhadas em valores sobre os quais não temos pensado muito bem ao fazer nossas escolhas. E estes valores vão, de forma sutil, moldando nossas formas de viver e nos relacionar.

Quando aceleramos áudios e depois isso acelera nosso modo de nos relacionarmos com os outros, isso fica muito evidente.

O sociólogo alemão Hartmut Rosa, autor de "Aceleração: a transformação das estruturas temporais na modernidade", afirma que a aceleração é técnica, do ritmo de vida e das transformações sociais.

Basicamente, ele chama atenção para o fato de que ao longo do tempo temos realizado tarefas em menos tempo. Coisas que levavam séculos estão levando décadas. Coisas que levavam décadas, estão levando anos. Coisas que demandavam anos estão acontecendo em meses ou dias. Portanto, essa aceleração não é apenas uma percepção ou uma sensação. O que experimentamos no corpo é, de fato, a aceleração social do tempo.

E quando aceleramos áudios, séries, músicas ou vídeos, estamos dando nosso quinhão de contribuição para a reprodução desta doença de velocidade.

E veja bem. Isso não quer dizer que não devemos nunca acelerar. Às vezes aquele conteúdo mais rápido vai ser necessário em alguma situação que demanda de fato urgência.

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Desacelerar é justamente a atitude de se perguntar quando a velocidade faz sentido e quando ela não faz, mas estamos correndo, porque estamos no automático.

Então, que tal experimentar acelerar quando precisa e voltar a ouvir o tom, as pausas e a respiração das pessoas sempre que puder?

Tente observar se isso vai mexer na sua qualidade de presença e na disponibilidade de escuta. E se isso terá algum efeito na qualidade de suas relações.

Depois, eu te conto que talvez não baste apenas parar de ouvir acelerado. Seu corpo vai precisar de ações de regeneração da atenção, que está, de alguma forma, "treinada" para a aceleração. Mas isso é assunto para outro texto.
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March 29, 10:38 AM
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Algoritmo, algoz do ritmo: como as plataformas sequestraram nosso tempo

Algoritmo, algoz do ritmo: como as plataformas sequestraram nosso tempo | Inovação Educacional | Scoop.it

Esses dias, participei da gravação de um podcast sobre "vida offline" e anotei no meu caderno (sim, sou uma pessoa "analógica": minha agenda é impressa e anoto muitas coisas em muitos cadernos) uma questão que me surgiu quando estávamos no meio da conversa.
A apresentadora fez uma pergunta para o convidado que dividia a mesa conosco: Neste mundo superfragmentado, de experiências particulares, em que cada um de nós está nos nossos celulares, acessando múltiplas realidades, como fica a ideia de verdade? Existe uma verdade partilhada? E eu anotei em meu caderno "verdade sensível".
De fato, do ponto de vista dos temas, agendas e conteúdos, ou ainda quando pensamos em como era a realidade antes da internet e da plataformização da vida, tínhamos, talvez (ou seria uma fantasia de totalidade?) um conjunto de mecanismos midiáticos e veículos de comunicação que, de alguma forma, nos contavam as mesmas histórias.
E nós, públicos e audiências, assistíamos aos mesmos programas, nos mesmos horários; ou líamos os mesmos jornais e revistas; e, de alguma maneira, isso dava uma sensação (e vários estudos de mídia vão nessa linha) de que havia uma unidade, uma partilha de interesses, algo que poderíamos chamar de uma verdade partilhada. O tal consenso, ou senso comum ou ainda o "debate público" ou uma "agenda" de temas considerados relevantes e que todos partilhávamos. A informação funcionava como uma espécie de "cola social".
Isso não deixou de existir. Os veículos de mídia seguem selecionando, filtrando e nos contando o que são as informações mais relevantes do momento. Mas, de alguma forma, o modo de consumir essas informações mudou e — podemos dizer — se diversificou (para o bem e para o mal, claro. No mar de excessos, há muita desinformação).
Mas voltando à pergunta que a apresentadora fez no podcast e à minha anotação: será que as plataformas digitais estão criando múltiplas verdades? Será que a ideia de uma verdade comum e partilhada já era?
Eu fiquei pensando que talvez faça sentido, sim, pensar que sempre existiram múltiplas verdades e que a forma como vivemos hoje, especialmente na relação com as tecnologias e plataformas, é uma espécie de fermento dessa lógica: a esse universo, interessa que estejamos cada vez mais sozinhos, isolados, fragmentados, pois, assim, trabalhamos mais, consumimos mais e alocamos mais tempo para as próprias plataformas.
Mas também é verdade que ainda existem verdades comuns. E que elas coexistem com essas múltiplas verdades ou fragmentos de verdades. Uma dessas verdades (que podemos dizer "mais universais") é a velocidade. E talvez alguns dos consensos contemporâneos sejam aqueles grandes consensos relacionados a temas e agendas; mas existem verdades comuns que se dão no campo mais sutil. Daí minha anotação "verdade sensível".
Muitas vezes sem a gente perceber, os dispositivos tecnológicos são "disfarçados" de ferramentas, mas são, na realidade, dispositivos culturais. Eles "carregam" o que na minha pesquisa chamei de currículo oculto: conteúdos que não conseguimos perceber ou reconhecer, mas que estão ali impregnados nas ferramentas e, de alguma maneira, penetram nas realidades em que estas ferramentas são mobilizadas.
O pesquisador bielorrusso Evgeny Morozov chamou de "agenda Big Tech" o projeto das empresas de tecnologia do Vale do Silício. E essa ideia dialoga com a que chamei de currículo oculto: são valores, crenças, culturas e até práticas que as ferramentas tecnológicas imprimem em espaços que adentram — e muitas vezes de forma sub-reptícia, clandestina.
Por exemplo, quando um equipamento digital entra na escola (em geral por um argumento de "modernização"), ele acelera algumas dinâmicas, reconfigura relações, remodela a forma como se dão os vínculos, redimensiona a comunicação e a convivência naquele ambiente. De algum modo, é possível afirmar que esses aparelhos levam a velocidade para esse ambiente. Ou potencializam uma velocidade que já estava instalada ali, acelerando-a. Não é à toa que, anos depois de as escolas aderirem a toda sorte de tecnologias, avançamos para a proibição de aparelhos celulares, tendo em vista o reconhecimento de que eles comprometem dinâmicas essenciais da educação, como a atenção e a presença.
E isso acontece de forma mais global com nossas relações. Aqui, eu contei por que começamos acelerando áudios e queremos, agora, acelerar as pessoas. As tecnologias parecem aparatos "técnicos", mas são dispositivos de transmissão cultural.
O algoritmo não existe somente para sugerir produtos e conteúdos para você consumir. Ele também sugere comportamentos, padrões e parâmetros. Alguns estudos especulam se esses mecanismos operam para convencer as pessoas a desfazerem relacionamentos e a se distanciarem dos amigos, por exemplo. Porque quanto mais sozinhas, mais elas consomem as sugestões do próprio algoritmo.
Então, eu responderia à pergunta sobre a verdade talvez dizendo que sempre existiram múltiplas verdades, as diversidades, diferentes posições e modos de ver e entender o mundo (ufa, que bom!). Mas as tecnologias transformam essas verdades, conformam as famigeradas "bolhas" e reconfiguram o modo como acessamos e acolhemos nossas próprias verdades.
E elas fazem isso porque estão assentadas em uma verdade que nos é comum: a cultura que estas plataformas estabelecem muitas vezes sem a gente perceber. Por exemplo, é desejável que sejamos ágeis, produtivos, trabalhadores, bem-sucedidos, felizes, positivos, conectados, informados sobre tudo. Uma dessas "grandes verdades ocultas" é a de que precisamos ser velozes ou ficaremos para trás.
Daí vem o título trocadilho desse texto. A vida algoritmizada altera nossa percepção do tempo, sequestra nossa atenção, rouba nosso interesse e nossa disponibilidade para o outro, inibe a formação de comunidade e torna proibitivo o uso do tempo para o ócio, o lazer ou o descanso.
Claro que as tecnologias não são as únicas forças aceleradoras da experiência, mas a vida que levamos, tendo nosso comportamento guiado por essas estruturas (mercadológicas e opacas), está nos adoecendo de velocidade.
A produtividade tóxica, a nossa concepção de "vida útil", o consumo exagerado, a totalização do trabalho, a erosão dos espaços de convivência, as ansiedades algorítmicas, a forma como estamos acelerando os processos educacionais e as infâncias... são infinitos os exemplos que podemos listar de como a lógica do algoritmo se alastra para outros campos da vida, acelerando nossos tempos e ritmos.
A vida nas plataformas não é um "espaço" à parte, que acessamos enquanto estamos "online". As regras da vida nas plataformas se espraiaram para toda a nossa existência.
Essa "cartilha" não está publicada em nenhum lugar, mas ela está nos nossos corpos, condicionando a nossa existência. É o que chamei de verdade sensível comum. Desacelerar, então, não é ser devagar, mas sair do automático que esse modo de funcionar sugere. Sair do tempo ininterrupto. Sair do estado anestésico. Parar, pensar, sentir. Respirar e voltar a perceber. E descansar e ter tempo livre são direitos, porque isso não pode ser um privilégio para poucos.

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March 29, 10:21 AM
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Coletânea inédita aborda novas dinâmicas do trabalho na era dos algoritmos

Produzido pela FecomercioSP, livro analisa o tema sob a ótica do Direito e da Economia, contribuindo para o debate sobre modernização, automação e digitalização de forma responsável
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Today, 7:12 AM
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Programa estimula alunos de pós-graduação a desenvolver pesquisas nas empresas : Revista Pesquisa Fapesp

Programa estimula alunos de pós-graduação a desenvolver pesquisas nas empresas : Revista Pesquisa Fapesp | Inovação Educacional | Scoop.it
Bolsas para inovação do CNPq, com orientador acadêmico e supervisor na indústria, desafiam estudantes a resolver problemas concretos
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Today, 6:52 AM
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Carta de recomendação : Revista Pesquisa Fapesp

Carta de recomendação : Revista Pesquisa Fapesp | Inovação Educacional | Scoop.it
sde 21 de janeiro, o tradicional servidor de preprints arXiv impôs uma exigência extra para pesquisadores que submetem um manuscrito pela primeira vez ao repositório. Agora é necessário que o novato apresente o endosso de um autor de sua mesma área do conhecimento que já seja consagrado no arXiv. Até então, era possível publicar trabalhos no repositório sem esse tipo de carta de recomendação. Bastava ter um endereço de e-mail vinculado a uma instituição de pesquisa reconhecida.
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Today, 6:51 AM
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Ficção climática discute crise ambiental e novas formas de relação com a natureza : Revista Pesquisa Fapesp

Ficção climática discute crise ambiental e novas formas de relação com a natureza : Revista Pesquisa Fapesp | Inovação Educacional | Scoop.it
Mais tarde, em 2021, Polesso lançou A extinção das abelhas (Companhia das Letras), romance ambientado em um futuro próximo no qual o Brasil, sob o comando de um apresentador de televisão, enfrenta uma crise política e ambiental. Nesse contexto, as ruas são privatizadas, o trabalho se torna escasso e os insetos polinizadores não existem mais, comprometendo o equilíbrio dos ecossistemas. “Comecei a escrever o romance em 2016 e, aos poucos, a ideia do colapso da natureza foi se tornando central na narrativa”, afirma Polesso, professora da área de letras da Escola de Humanidades da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).

A obra é apontada pela escritora Ana Rüsche como parte de uma leva recente da literatura brasileira que aborda os efeitos das mudanças climáticas e a responsabilidade humana diante das catástrofes ambientais. Há, inclusive, um rótulo para classificar essa produção: ficção climática, termo que começou a ser utilizado por volta de 2007 e cuja veiculação é creditada ao jornalista norte-americano Daniel Bloom.

Para Rüsche, no entanto, não se trata propriamente de um novo gênero. “Prefiro chamá-la de uma ‘espécie literária’, porque pode transitar por diferentes formas, como romance, poesia, conto e teatro”, comenta a autora, que concluiu, em 2024, um estágio de pós-doutorado na Facul­dade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) sobre ficção científica e mudança climática. A pesquisa resultou no livro Quimeras do agora – Literatura, ecologia e imaginação política no Antropoceno (Bandeirola, 2025).

Nos Estados Unidos, um dos principais nomes associados ao movimento é o escritor Kim Stanley Robinson, que iniciou a carreira literária na década de 1980 e é autor de obras como The ministry for the future (Orbit, 2020), romance ainda inédito no Brasil no qual descreve os esforços para enfrentar as mudanças climáticas após uma onda de calor devastadora na Índia. Seu primeiro livro publicado no país foi Nova York 2140 (Editora Planeta, 2019).

Antes mesmo da consolidação do termo ficção climática, Robinson e outros autores, sobretudo norte-americanos, já produziam narrativas atravessadas por preocupações ambientais, então enquadradas no campo da ficção científica. É o caso de A parábola do semeador, de Octavia Butler (1947-2006), publicado originalmente em 1993 e lançado no Brasil em 2018 pela editora Morro Branco, e de Floresta é o nome do mundo, romance de 1972 de Ursula K. Le Guin (1929-2018), que saiu no país em 2020 pela mesma casa editorial.
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Today, 6:48 AM
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Lei prevê estrutura mínima obrigatória para escolas públicas; veja exigências

Lei prevê estrutura mínima obrigatória para escolas públicas; veja exigências | Inovação Educacional | Scoop.it
A norma determina que o poder público deve garantir infraestrutura adequada para o funcionamento das escolas. Entre as exigências estão:

número apropriado de alunos por turma
biblioteca
laboratórios de ciências
laboratórios de informática equipados e com acesso à internet
quadra poliesportiva coberta.
cozinha e refeitório
banheiros
condições de acessibilidade.
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Today, 6:47 AM
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Congresso aprova Plano Nacional de Educação; veja objetivos estabelecidos

Congresso aprova Plano Nacional de Educação; veja objetivos estabelecidos | Inovação Educacional | Scoop.it
Ampliar a oferta de matrículas em creche e universalizar a pré-escola para atender 100% da demanda;
Assegurar padrões de infraestrutura física, recursos pedagógicos, acessibilidade e práticas pedagógicas alinhadas à Base Nacional Curricular Comum (BNCC) em creches e pré-escolas;
Assegurar que 80% das crianças estejam alfabetizadas até o segundo ano do ensino fundamental até o quinto ano do PNE, e todas até o décimo ano;
Reduzir desigualdades entre grupos sociais definidos por raça/cor, sexo, nível socioeconômico, região e localização, para que os resultados sejam 90% iguais entre os diferentes grupos;
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March 29, 7:34 PM
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Escolas terão conteúdos de prevenção à violência contra a mulher

Os ministérios da Educação (MEC) e das Mulheres assinaram, nesta quarta-feira (25), em Brasília, a portaria de regulamentação da Lei Maria da Penha Vai à Escola (nº 14.164/2021, para incluir conteúdo sobre a prevenção a todas as formas de violência contra crianças, adolescentes e mulheres nos currículos da educação básica.
A lei determina que a produção de material didático relativo aos direitos humanos e à prevenção da violência contra a mulher deve ser adequada a cada nível de ensino.

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March 29, 7:30 PM
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Referências inventadas : Revista Pesquisa Fapesp

Referências inventadas : Revista Pesquisa Fapesp | Inovação Educacional | Scoop.it
As referências falsas vieram à tona depois de um alerta emitido por Erja Moore, pesquisadora finlandesa especializada em integridade científica. Ela investigava uma denúncia de má conduta na Etiópia quando se interessou pelas citações do artigo. Para sua surpresa, de um total de 29 referências, pelo menos 19 continham problemas. Algumas remetiam para artigos inexistentes, outras pareciam aludir a papers reais com títulos semelhantes, mas publicados por periódicos e autores diferentes. Os dados de alguns trabalhos, como volumes, números e páginas dos periódicos em que teriam sido publicados, levavam a artigos diversos dos citados. Onze das referências fabricadas citavam estudos do Journal of Business Ethics, outro título da Springer Nature. “Por um lado, é hilariante que um periódico de ética publique isso, mas, por outro, parece que esse é um problema muito maior nas publicações científicas”, disse Moore, ao site Retraction Watch.
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March 29, 10:45 AM
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Descanso não é luxo, nem prêmio por desempenho. Descanso é direito

Descanso não é luxo, nem prêmio por desempenho. Descanso é direito | Inovação Educacional | Scoop.it
Como trabalho com este tema na vida, no meu ativismo e na minha pesquisa, é comum que amigos próximos me contem causos relacionados à questão da desaceleração. E sempre acho estas histórias maravilhosas, porque além de inspiradoras, elas me ajudam a trazer bons exemplos para vocês entenderem meus pontos de vista aqui nos meus textos.

Os últimos episódios que me atravessaram nesse sentido foram conversas com duas pessoas muito queridas. Uma tinha acabado de voltar de férias com a família; outra tinha acabado de celebrar algumas horas seguidas de sono com seu bebê.

Minha amiga celebrava o fim de um longo período de privação de sono e me disse que só se lembrou do poder do descanso quando voltou a dormir.

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Ricardo Kotscho

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Michelle Prazeres

Como as plataformas sequestraram nosso tempo


Tony Marlon

Entre 'Brasa' e rua, seleção vai se distanciando do povo

A gente se adapta e isso é assustador.

Meu amigo, que saiu de férias e voltou encantado com o poder do descanso, ficou extasiado e desejando que aquele estado de contentamento e encantamento durasse mais alguns dias.

Mas a gente se adapta e isso é assustador.

Sabe por que estas duas histórias se conectam? Porque elas são histórias sobre o poder do descanso. O descanso nos faz ver as cores mais vivas. Nos faz ficarmos mais afetivos, mais conscientes, mais reflexivos, mais criativos, mais pacientes, mais disponíveis para o que importa, mais atentos, mais felizes, mais vibrantes.

Ao nos devolver ao nosso próprio corpo, trazendo de volta nossa condição de presença e atenção, o descanso nos devolve nossa humanidade em um mundo que corre, nos acelera e nos faz pensar que somos máquinas.

Tenho buscado afirmar a importância de nos reconectarmos com esse corpo, que é humano e precisa de ritmos diferentes do ritmo da aceleração; da importância de regenerarmos estes corpos, pois passamos do limite e estamos operando (a que custo?) apenas porque muitos de nós estão medicados.

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O que mais me assusta é a certeza de que estes corpos cansados não são consequência da aceleração, mas fazem parte deste projeto, deste mundo que corre, cresce, se desenvolve, avança e progride por meio de um projeto de "progresso" que nos trouxe até aqui e que já entendemos que deu errado.

Corpos cansados não tecem comunidade, não constroem vínculos, não se interessam pelos outros. Corpos cansados trabalham mais, produzem mais, competem mais, pensam mais "no seu", consomem mais e rolam mais os feeds buscando fórmulas prontas de felicidade.

Nosso cansaço não é consequência deste mundo. É condição para que ele exista e se reproduza.

E, apesar de estarmos todos exaustos e cansados e querendo desacelerar, quantas vezes, no nosso dia a dia, sem querer (ou sem uma reflexão profunda) reproduzimos ideias que reforçam a cultura da aceleração?

Quando falamos, por exemplo, que descanso é privilégio, estamos deixando de entender que descanso é um direito.

Quando falamos que vamos tirar "merecidas férias", está implícita uma noção de descanso como merecimento do esforço de trabalhar.

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E quando dizemos que vamos tirar uns dias de descanso e vamos voltar "com todo gás", sugerimos que a pausa é combustível da produtividade.

Em contextos desiguais como o nosso, é ainda mais importante afirmarmos que o descanso não é uma escolha (para poucos), mas deve ser um direito (de todos). Porque prescrever descanso em um contexto desigual é mais violento ainda com quem não tem condição de descansar.

O descanso é um direito poderoso. Que nos devolve nossa humanidade e nossa capacidade de viver em coletivo e construir afetos. Não é privilégio, não é merecimento e nem é combustível da produtividade.

Apenas é. Porque somos gente. E gente precisa descansar.
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March 29, 10:44 AM
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"Trabalhe enquanto eles dormem" e absurdos da cultura da produtividade

"Trabalhe enquanto eles dormem" e absurdos da cultura da produtividade | Inovação Educacional | Scoop.it
Tá bem, eu sei que esse título é daqueles meio chamativos, mas a vida é assim. Eu queria que vocês viessem até aqui, para eu contar uns causos e dizer por que algumas expressões e frases que enaltecem a cultura da produtividade particularmente me aborrecem.

Eu já contei que tenho nervoso com "basta se organizar que você consegue". E que esta aflição não é apenas uma sensação. É também fruto da minha experiência de pesquisa sobre a consciência temporal.

Já expliquei que não curto a ideia de que "todo mundo tem as mesmas 24 horas", porque também em pesquisa percebi que a experiência de tempo das pessoas (especialmente nas grandes cidades) é atravessada por marcadores sociais de desigualdades e em contextos desiguais como o nosso afirmar que todo mundo tem a mesma condição de tempo é um tipo de violência. Chamei essa ideia de cronomeritocracia.

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Ricardo Kotscho

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Michelle Prazeres

Como as plataformas sequestraram nosso tempo


Tony Marlon

Entre 'Brasa' e rua, seleção vai se distanciando do povo

Também já revelei meu desgosto com expressões que soam como reclamação, mas são, de fato, autoelogios e elogios à cultura da produtividade tóxica. Aquela coisa de quem diz que tá superocupado, parecendo que está mal com isso, mas na verdade está se achando o máximo.

A implicância de hoje é com a gloriosa "trabalhe enquanto eles dormem".

Essa frase é o puro suco da produtividade tóxica, porque ela traduz a ideia de que você deve estar sempre alerta e a serviço da performance e sugere que isso vai fazer de você uma pessoa melhor. Mais do que isso: sugere que você abra mão do seu sono em nome da performance e do desempenho.

É esta cultura que está nos levando à exaustão. A sermos o país campeão de notificações de afastamentos do trabalho e de questões de saúde mental.

E você já parou para reparar que as pessoas que entoam estes mantras da produtividade normalmente se beneficiam de privilégios que se amparam nela? Será que quem vive por aí promovendo estas ideias está acordado E trabalhando na hora de dormir? Então, que tal parar para pensar antes de reproduzir o próximo "trabalhe enquanto eles dormem"?

Esta expressão especificamente sugere que — ao usarmos para trabalhar um tempo que é um pacto coletivo de descanso (a hora de dormir) estaremos gerando um diferencial competitivo. E eu sei — também porque pesquiso isso — que as pessoas levam a sério esta espécie de "fórmula de sucesso" (qual sucesso mesmo?), e deixam de dormir, se medicam para virar noites trabalhando e chegar — o quanto antes aonde mesmo?

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Estas expressões são uma espécie de "cola" para a cultura da produtividade tóxica. Amparam, sustentam e ajudam estes modos de vida a continuarem existindo e expandindo. A sociedade do cansaço e do desempenho se alimenta destas ideias que se difundem no cotidiano, porque são de fácil digestão. Mas são falsas promessas. O mundo 24/7 se beneficia quando deixamos de dormir para trabalhar, consumir ou gastar tempo nas plataformas digitais. E não é porque este mundo está preocupado com seu sucesso; é porque você está fazendo a roda girar. E, provavelmente, tem alguém ganhando com a sua exaustão.

Este mundo se beneficia também de quando "compramos" estas ideias e as reproduzimos. Quando somos o colega de trabalho que se vangloria de que trabalhou no feriado; ou que fica trabalhando enquanto todo mundo saiu para comer na hora de almoçar; ou acha lindo dizer que trabalhou nas férias.

Isso gera uma distorção: as pessoas que desfrutam daquele feriado, do direito daquela hora de almoço ou das férias passam a se ver e a serem vistas como folgadas ou preguiçosas. Estas pessoas se sentem culpadas ou fracassadas por estarem simplesmente descansando.

Eu acho isso um escândalo. E já apresentei aqui para vocês em outros textos outros pesquisadores que denunciam esta lógica: Byung-Chul Han, sul-coreano que escreveu o célebre "Sociedade do Cansaço"; Tricia Hersey, poetisa estadunidense que escreveu o manifesto "Descansar é Resistir"; e Jonathan Crary, estadunidense que escreveu sobre a vida 24/7.

Quando afirmo "durma enquanto eles dormem", isso é muito mais uma provocação para pensarmos nestas ideias e no nosso papel ao reproduzi-las do que uma prescrição; afinal de contas, eu sei que justamente para quem precisa mesmo virar algumas madrugadas trabalhando é difícil escolher apenas dormir. Às vezes não temos escolha mesmo. E aí mora mais uma perversidade desta expressão. Transformar a exaustão a qual estamos sendo submetidos em algo a ser enaltecido como "força de guerreiro(a").

O que acontece com o sono não acontece apenas com o sono. Acontece com a arte, com a festa, com os rituais, com a convivência. Estamos assistindo ao tempo empenhado para coisas que nos fazem humanos ser comprimido e espremido, porque só é tolerável dedicar tempo ao que é útil ou produtivo.

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Somos pessoas e não máquinas. Precisamos do direito ao descanso, à desconexão digital e ao essencial.

Não é verdade que basta se organizar.

Não é verdade que todo mundo tem as mesmas 24 horas.

Não é verdade que você é um foguete, então, dê ré. Repense, reveja, reviva.

Não trabalhe enquanto eles dormem.

Especialmente nós, mulheres.

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Façamos o que quisermos enquanto eles dormem!

Descansemos.

Durmamos.

Amemos.

Brinquemos.

Façamos absolutamente nada.

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Nos cuidemos.

Desfrutemos.

E que isso possa ser direito de todos, para que não seja escolha apenas para alguns.
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March 29, 10:43 AM
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Se todos estamos cansados e sem tempo, quem vai conseguir cuidar do outro?

Se todos estamos cansados e sem tempo, quem vai conseguir cuidar do outro? | Inovação Educacional | Scoop.it

Estes dias, compartilhei um meme que dizia "ninguém tá 100%: toda minha rede de apoio está precisando de apoio". E fiquei pensando, primeiro, na incrível capacidade que a internet tem de fazer piada com tudo (algumas delas, inclusive - não me levem a mal -, terminam banalizando questões ultra sérias). Neste caso, uma piada com o que chamei aqui de dezembrite.
Segundo, fiquei pensando que é muito séria a percepção de que estamos todos precisando de ajuda e poucos de nós estamos em condição de oferecer. A conta do cuidado não fecha.
E isso não é um mero acaso. Tenho discutido a questão dos nossos corpos cansados. Eles não são consequências do mundo acelerado, mas o motor essencial, engrenagem para que este mundo funcione.
Um corpo exausto não tem condição de parar nem para reclamar. Se torna uma máquina. Se anestesia e entra no automático para não parar e segue trabalhando, produzindo, performando e consumindo. Corpo cansado e orientado à performance não cultiva relações, não cria vínculos, não tece comunidade.
Se estamos todos cansados, quem apoia quem? Quem ajuda quem a atravessar um momento difícil?
Acreditem: eu presenciei recentemente uma série de diálogos em que as pessoas pareciam "competir" pelo posto de mais exausto(a), para saber quem estava precisando de mais cuidado que quem; e como se isso fosse até um (doentio) status.
Em terceiro lugar, fiquei pensando que mais do que não fechar a conta do cuidado, se estamos todos sempre exaustos, como teremos tempo, energia e interesse em nutrir as relações desta suposta 'rede' que poderia nos apoiar nos momentos mais difíceis?
Serviço ou laço?
Comecei a pesquisar sobre o assunto, porque me mobilizei para escrever sobre ele e fiquei bem impactada por um conteúdo do perfil SouPagu, do Instagram, que discute justamente como - ao não construir os laços que sustentam uma rede, uma comunidade - somos utilitários com a ideia de que as pessoas precisam "nos atender" e nos socorrer nas nossas urgências.
O post que me intrigou dizia "rede não é serviço é laço; e laços não se sustentam se forem intermitentes, unidirecionais ou oportunistas". Sim, é isso. A este mundo não interessa que sejamos seres comunitários.
Somos interdependentes e a aceleração sequestra nossa humanidade e nos retira a condição de interesse pelo Outro, a capacidade de escuta, a capacidade de presença e atenção, que são condições para a vinculação.
Lembrei de uma obra do filósofo sul-coreano, Byung-Chul Han, referência nas minhas pesquisas sobre a sociedade do cansaço. No livro chamado "A expulsão do Outro", ele discute como a nossa capacidade de tecer comunidade foi capturada pela combinação entre cansaço, hipercomunicação e hiperindividualismo.
"O isolamento que caminha de mãos dadas com a falta de solidariedade e a concorrência total, produz angústia. A lógica pérfida do neoliberalismo enuncia: a angústia aumenta a produtividade", afirma o autor.
"Hoje, cada um está, de algum modo, sozinho consigo, com seus sofrimentos, com suas angústias. O sofrimento é privatizado e individualizado. Assim, ele se torna um objeto de terapia, que tenta curar o eu, sua psyché. Todos se envergonham, culpam apenas a si mesmos por fraqueza e insuficiência. Não se produz nenhuma ligação entre meu sofrimento e o seu sofrimento. Ignora-se assim, a socialidade do sofrimento".
O que Han afirma é um escândalo. Enquanto performamos comunidade nas redes, estamos, na verdade, hiperindividualizados, isolados e angustiados, incapazes de tecer vínculos significativos e laços profundos. E este adoecimento é ainda transformado em objeto de mercadoria terapêutica, em venda de soluções milagrosas e receitas de bem-estar que cuidam das pessoas como se estes problemas não fossem coletivos, sociais, sistêmicos.
Esta mesma sociedade nos vende a ideia de que o cuidado é individual e de que estaremos bem se cuidarmos de nós mesmos, de nosso corpo e de nossa mente. Uma falsa ideia de independência que, na verdade, alimenta o hiperindividualismo, que causa todos os adoecimentos pelos quais estamos passando. Falei aqui, inclusive, da solidão epidêmica.
A gente segue precisando de rede de apoio, mas não tem tempo, energia nem fôlego, nem interesse, nem disposição de nutrir relações, construir vínculos e tecer estas comunidades que nos amparam. Queremos amizades de baixa manutenção. E terminamos reclamando (como no meme que abre este texto) que não temos a quem recorrer, porque está todo mundo precisando de ajuda. Terminamos também, estabelecendo com a comunidade uma relação utilitária. E não uma relação de vinculação, intimidade e vida partilhada. Esta que se dá no tempo largo, no tempo do acontecer e não no tempo do "fabricar comunidade".
O que fazer?
A coisa é complexa, porque também não depende apenas de nossa suposta vontade. "Preciso de uma comunidade. Deixa eu ir ali e construir uma".
Não é bem assim que a coisa funciona. Porque para ser comunidade, como o nome diz, precisa ser comum. Precisa haver comunhão. Comunidade não se constrói no tempo urgência, ainda que seja esta comunidade que vai te acudir na emergência. Comunidade se constrói e se sustenta com vida junto, rituais, festejos, celebrações, política, arte, diálogo e tantas outras coisas (inúteis aos olhos deste mundo) que nos fazem gente que, quando em relação genuína, faz um grupo se tornar um coletivo.
O post que me impactou dizia ainda "comunidade não se improvisa no desespero". Sim. Comunidade se cultiva no cotidiano. Mas como vamos construir e ensinar comunidade - como sugere a autora norte-americana Bel Hooks, inspirada na pedagogia de Paulo Freire - se estamos mais preocupados em desempenhar, performar e "entregar tudo"? Hooks nos lembra que escutar, cuidar e criar comunidade é parte da existência e da resistência. Não é luxo.
Outros autores inspiram diálogos sobre a importância da comunidade e sobre como este mundo - ancorado na ideia de progresso, desenvolvimento e avanço - destrói a nossa humanidade e, com ela, a nossa capacidade de construir estas redes.
Ailton Krenak e Nêgo Bispo (que já citei em outros textos por aqui) nos lembram como as construções comunitárias são essenciais para a saúde e para nosso desenvolvimento como seres humanos. Não é à toa que este mundo acelerado condena tudo que nos faz gente e que nos desperta interesse em outras gentes. Angústia, solidão e cansaço são os motores deste mundo.
Eu costumo perguntar por aí o que precisa acontecer para a gente entender de uma vez por todas que este projeto não deu certo e precisamos parar. Para respirar, para pensar, para voltar a sonhar e para voltar a nutrir, ter e ser comunidade. Para mim, não precisa acontecer mais nada. Só precisamos começar a (re)agir. E rápido. Pois isso sim é urgente.

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March 29, 10:38 AM
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Nuvem, rede, memória, conexão: o repertório que as tecnologias sequestraram

Nuvem, rede, memória, conexão: o repertório que as tecnologias sequestraram | Inovação Educacional | Scoop.it
Se você ler ou ouvir a palavra nuvem, o que vem primeiro à sua mente? Uma nuvem branquinha no céu em formato divertido ou um ícone em formato triangular da ferramenta de armazenamento virtual?

Se eu falar em memória, isso te remete à sua capacidade de cultivar e resgatar lembranças ou você vai pensar primeiro em quantos gigabytes tem seu dispositivo, seja ele um computador ou um celular?

E redes? O que são redes? Para mim, que sou pernambucana, é aquele objeto magnífico de promoção do descanso. Mas talvez você tenha lido esta palavra e encontrado outro significado: as redes que são "sociais" no mundo digital.

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Tony Marlon

Entre 'Brasa' e rua, seleção vai se distanciando do povo

Conexão, então, nem se fala. Eita palavrinha desgastada. Conexão virou tudo. E nada. Originalmente, ela sugere vínculo, laço, tessitura, diálogo, troca. Mas terminou virando sinônimo de internet, wi-fi, capacidade de um dispositivo de estar em rede, na rede. Aquela outra rede. Não a de descansar.

São inúmeras as palavras que podem entrar neste rol, mas a última que eu queria trazer para esta lista é 'comunidade'. Comunidade é palavra tão linda. Vem de comum. Comungar, Comunhão. Construir comunidade é construir laços, vínculos genuínos, íntimos, de apoio e suporte, de vida coletiva. Comunidade virou qualquer grupo de pessoas conectado (olha ela aí: a conexão) por uma estrutura digital a partir de um interesse comum.

E nem são mais aquelas comunidades divertidas do extinto Orkut, em que a gente se conectava com muito humor. Comunidade se banalizou como produto. Hoje tem gente que trabalha com "community building". Gente! Fábrica de comunidade. É a transformação da comunidade em mercadoria, em produto, em serviço, em algo a ser consumido. E não a ser vivido ou experimentado como amparo e ancoragem afetiva.

A transformação do sentido destas palavras não é um acaso. O universo digital nasceu a partir de espelhos do mundo tal qual o conhecemos. Hoje, este mundo está absolutamente integrado ao nosso, de modo que nossa experiência é marcada pela cultura digital. As tecnologias não são apenas dispositivos. Elas carregam modos de viver, de ser e também de nomear a realidade.

Meu filho mais velho me diz que identifica que uma pessoa é 40+ quando ela diz que vai "entrar na internet". Não entramos mais na internet. A internet está entranhada em nós. Somos - como estas empresas gostam de dizer - "always on". Ou seja: estamos conectados (este tipo de conexão, a tecnológica) 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Pois bem. Se este universo nasceu inspirado na nossa vida e de alguma forma foi muito competente em espelhá-la, eu diria que existe um projeto de nomeação para que algumas palavras ganhem novos sentidos, ligados a este universo tecnológico-maquínico e menos ao universo humano-vital.

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As bigtechs mataram algumas palavras.

Ou - no mínimo - lhes roubaram vida.

E se queremos descolonizar a vida colonizada por estas empresas e pela lógica digital, precisamos descolonizar a linguagem (na mesma linha daqueles memes ótimos que brincam com a cafonice que é chamar de bowl a tigela, quando temos a lindeza da palavra cumbuca).

Como pessoa que trabalha com nomeação (afinal, fazer pesquisa e ciência é também isso) e se dedica a pensar nas palavras, acredito que elas não são apenas "tradutoras"; elas também plantam sentidos. Parte do caminho relacionado ao letramento digital e à leitura crítica deste universo digital passa por disputarmos palavras e termos que são fundamentais para nós. Não podemos deixar nossas palavras serem totalmente capturadas por esta lógica.

Alguns dirão que é um capricho.

Outros dirão que sou chata.

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Sou mesmo.

E penso que nossa língua não é neutra.

E parte do projeto de colonização digital que estamos vivendo passa pela colonização do nosso repertório.

Esse projeto colonizou nosso pensar e nosso dizer. Colonizou as redes, nuvens e conexões e também as janelas, as pastas, os arquivos.

Janela não é mais aquela lateral do quarto de dormir cantada por Milton na letra de Fernando Brant e Lô Borges. É um sistema operacional. Ou seus componentes. Ou um "pop-up" na sua tela. Ou ainda um "link" que te leva para o próximo conteúdo.

E compartilhar? Que não é mais a partilha de nada comum - nem tempo, nem espaço, nem comida -, mas "passar para a frente" ou retransmitir um conteúdo que te engajou. E engajar... o que virou a ideia de engajar? Do ativismo ao clique. Engajado sempre foi alguém politizado, interessado por bandeiras sociais, pessoa dedicada ao coletivo. Virou sinônimo de métrica. Os famigerados números de engajamento nas plataformas digitais.

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Descolonizar é também se perguntar o que e quem (e, portanto, quais interesses) moram em cada nova palavra e em cada sentido que vem sendo atribuído a "velhas" palavras. Que tal fazer isso sempre que uma velha palavra aparecer com outro sentido? Ou quando uma palavra em inglês for usada para nomear algo que tem um nome em português? Ou quando uma nova palavra surge para denominar algo para que já temos um bom nome?
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March 29, 10:35 AM
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IA não sabe o que sabe e não sabe o que não sabe 

IA não sabe o que sabe e não sabe o que não sabe  | Inovação Educacional | Scoop.it
Autor narra os debates a que assistiu no festival de inovação SXSW sobre o avanço da inteligência artificial. Palestrantes abordaram temas como o uso da tecnologia em ofícios criativos, a necessidade de encontros presenciais para impulsionar nossa saúde social e a compreensão sobre como os animais se comunicam.
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March 29, 10:18 AM
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Retrato do Brasil religião

Somos um país conservador e religioso. Ou que, ao menos, acredita muito no poder da fé, seja qual for. Segundo a pesquisa da More in Common, só 21% dos brasileiros declaram não ter religião, a maioria concentrada entre os “progressistas militantes”. A maior parte da população ainda é católica (46%), seguida dos evangélicos (28%). “Constatamos que o Brasil é bastante religioso e conservador. Uma parcela grande do País pensa que as leis devem estar de acordo com esses valores morais”, constata Ortellado. Ainda segundo ele, a crença atravessa a divisão entre grupos ideológicos, com exceção dos “progressistas militantes”. “O outro segmento progressista, que chamamos de “esquerda tradicional”, absorve essas ideias conservadoras e incorpora um pouco da influência dos valores religiosos na política”, aponta.

Embora o Brasil seja um país laico, cerca de 30% dos brasileiros da “esquerda tradicional” acreditam que “valores religiosos devem orientar as leis no Brasil” — os evangélicos são os que mais concordam com essa frase. E essa crença segue em alta, com metade dos “invisíveis” favorável a essa interferência, até chegar ao auge, com os “patriotas indignados”: 63% deles apoiam a influência da religião na legislação.

Outro levantamento corrobora as conclusões da More in Common. O cientista político Felipe Nunes, CEO da Quaest e autor do recém-lançado Brasil no espelho (Globo Livros, 2025), também entrevistou cerca de 10 mil pessoas. Desse universo, 97% afirmaram que “Deus é muito importante na minha vida”. Outros 96% concordaram com as frases “Deus está no comando da minha vida” e “Tenho fé em Deus e por isso acredito que tudo vai dar certo”. Outros 86% apostam que “A fé vale mais que a ciência”.

Dentro do espectro de características conservadoras, o brasileiro também se escora na família. A instituição familiar aparece em segundo lugar no ranking do que é mais importante na vida, segundo a Quaest. A imensa maioria (mais de 90%) define como objetivo de vida dar orgulho aos pais e declara que, antes de tomar qualquer decisão, pensa na família. E, para eles, essa instituição não é formada apenas por parentes. A base dela é o amor, mesmo entre pessoas que não compartilhem parentesco.
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