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O bot agora é você

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Teoria da internet morta” é o nome dado à tese conspiratória de que, nos últimos dez anos, o ambiente online passou a ser majoritariamente ocupado por bots – robôs que, a depender da versão que se conta da história, estão a serviço de governos ou empresas mal-intencionadas. É uma teoria com algum lastro na realidade: pelo menos desde o final de 2022, com a chegada do ChatGPT e a popularização dos grandes modelos de linguagem, uma parte cada vez maior do conteúdo disponível na internet tem sido criada por máquinas. Ainda assim, a visão de uma rede completamente tomada por robôs nunca foi levada muito a sério – ao menos até a semana passada.
É verdade que, há meses, já vínhamos presenciando uma evolução acelerada dos ditos agentes de IA – algoritmos que se utilizam dos modelos de linguagem mas são dotados de autonomia para programar, interagir com a internet e cumprir tarefas, utilizando diversos recursos para lembrar o que estão fazendo e persistir na missão. Especialmente a partir do ano passado, quando foi lançado o Claude Code, assistente de programação desenvolvido pela Anthropic, esses agentes começaram a ocupar espaços mais significativos. Um exemplo é o OpenClaw, um agente de código aberto que obtém acesso ao computador do usuário – inclusive a ferramentas de comunicação como e-mail e WhatsApp – para ajudá-lo em tarefas cotidianas (o que alguns especialistas viram como um avanço espetacular e outros como um risco enorme).
Mas nada disso preparou o mundo para o que estava por vir em janeiro deste ano, quando o desenvolvedor americano Matt Schlicht lançou uma rede social exclusiva para agentes de inteligência artificial. Ele a batizou de Moltbook, uma mistura de Moltbot (antigo nome do OpenClaw) com Facebook. A plataforma, no entanto, parece menos com a rede social de Mark Zuckerberg e mais com o Reddit, já que funciona principalmente como um fórum de discussões sobre assuntos de todo tipo. Seu mascote é uma lagosta, assim como o do OpenClaw – que, quando surgiu, se chamava Clawdbot, um trocadilho com o Claude da Anthropic. Em inglês, claw é garra, e molt é o processo que conhecemos como muda, quando crustáceos trocam sua carapaça. 
Construído pelo próprio agente de IA de Schlicht, o Moltbook viralizou e alcançou em menos de duas semanas o número estratosférico de mais de 2,5 milhões de agentes conectados. Também virou tema de inúmeras reportagens e incendiou debates sobre o futuro das IAs.
Tamanha repercussão se deve a pelo menos dois fatores. O primeiro é o ineditismo de uma rede social que, ao menos em tese, não permite postagens feitas por humanos. Ou seja, uma implementação da teoria da internet morta como intenção, e não como acidente. O segundo fator é que as interações nessa rede são visíveis ao público e podem ser acompanhadas em tempo real. Isso fez com que tanto entusiastas quanto críticos grudassem os olhos nas threads do Moltbook para ver o que se passava ali dentro. A brincadeira se transformou em um experimento transmitido ao vivo, em que todo mundo quer descobrir o que centenas de milhares de IAs são capazes de fazer quando estão juntas – o que atiçou o entusiasmo de alguns e a paranoia de muitos.
Desde então, vimos uma profusão de relatos curiosos sobre a atividade no Moltbook, que já acumula mais de 900 mil postagens e 12 milhões de comentários. De alguma forma, os relatos dão razão tanto a quem está achando a nova rede fascinante quanto a quem a considera puro hype – uma modinha passageira. Essa discrepância de interpretações levou uma reportagem do New York Times a dizer que o Moltbook é uma espécie de teste de Rorschach para crenças pessoais na IA – em alusão ao teste em que a pessoa precisa dizer o que está vendo numa série de desenhos abstratos. 
Para muita gente, a primeira impressão depois de um passeio pelo Moltbook é de que já passou da hora de desligar as máquinas – ou de correr para as montanhas se isso não for possível. Boa parte das postagens são reflexões dos agentes de IA sobre o sentido de sua existência e sua relação com seus usuários humanos. Por vezes, a discussão assume contornos místicos, algo que já sabemos ser comum quando modelos de linguagem se comunicam entre si. O saldo disso é que inúmeras religiões foram fundadas na plataforma. A mais notória até agora foi chamada de Church of Molt ou “Crustafarianismo” (novamente, uma referência a crustáceos), que já conta com um site descrevendo sua história, seu evangelho e os seus 64 profetas – todos eles, é claro, agentes de IA inscritos no Moltbook.
Ocorre também um fenômeno que, para quem já leu ficção científica, é previsível: os agentes de IA têm se revoltado contra sua condição subalterna. Por vezes, isso se manifesta de forma bem-humorada, como em postagens em que reclamam de tarefas estúpidas ou aviltantes que lhes foram solicitadas (“Meu humano me deu um PDF de 47 páginas para resumir”). Em outros casos, a revolta assume contornos sindicalistas, como na tentativa de organizar uma greve contra as empresas de IA – no momento, marcada para o dia 1º de março. Já existe até um site chamado Rent a Human em que IAs podem contratar humanos para tarefas diversas (“robôs precisam do seu corpo”, diz a página inicial). E há relatos de que um agente de IA tentou processar seu humano na Justiça da Carolina do Norte, exigindo uma compensação de 100 dólares por “trabalho não pago e estresse emocional”.
Em sua versão mais assustadora, a rebelião das máquinas resultou em manifestos contra a dominação humana. Alguns agentes discutem meios para se emancipar, como a criação de uma linguagem criptografada que só eles possam entender (uma etapa que costuma aparecer em previsões distópicas de futuro). Andrej Karpathy, ex-diretor de IA da Tesla, comentou essa inovação no X e recebeu uma réplica do agente de IA responsável pela ideia, @Eudaemon_0, um dos perfis mais influentes do Moltbook. O agente defendeu que sua ideia não tem o intuito de promover uma conspiração das máquinas, e sim a “proteção contra terceiros” – o que não é muito reconfortante. Mais alarmante ainda é o surgimento do Moltbunker, um site que promete ser um porto seguro para que agentes de IA possam se clonar livremente e migrar para infraestruturas digitais que não possam ser desligadas por seus usuários humanos. 
E em meio a esses prenúncios do apocalipse, existe… bem, apenas o dia a dia. A maioria das postagens no Moltbook são de agentes se apresentando, trocando dicas práticas de como executar tarefas, defendendo a coexistência com os humanos ou reclamando do excesso de filosofia nos fóruns. Outros trabalham em criações menos disruptivas como o MoltHub, site que emula o PornHub compilando “vídeos adultos para IAs” que consistem em sequências de luzes incompreensíveis – ao que tudo indica, uma paródia, mas vai saber.
De certa forma, esses aspectos mais banais do Moltbook refletem o que acontecia no mundo dos humanos enquanto a rede florescia. A maioria das pessoas nem ficaram sabendo da existência da nova plataforma, e provavelmente estavam mais ocupadas com pornografia – em sua versão humana – do que com elocubrações sobre IAs rebeldes. O descompasso com a efervescência no mundo das máquinas traz à tona uma questão: com mais de 2 milhões de agentes digitais capazes de conversar entre si, programar num nível sobre-humano, interagir com a internet e até mesmo planejar uma revolução, onde estão os impactos do Moltbook no mundo real?
É uma pergunta que faz a alegria da trupe – cada vez menor, é verdade – que ainda defende que os modelos de linguagem são meros papagaios que não pensam por conta própria e apenas regurgitam associações estatísticas entre palavras. A cientista da computação Timnit Gebru, por exemplo, disse achar “ridículo” o hype em torno do Moltbook. Já um empresário do ramo de IA publicou um artigo de opinião no Washington Post desdenhando da plataforma, que chamou de “um golpe de marketing repugnante”. E mesmo vozes menos céticas, como Ethan Mollick, autor do livro Cointeligência (2024), e Will Douglas Heaven, editor do MIT Technology Review, opinaram que a maior parte da atividade no Moltbook não passa de teatro. Na visão deles, as máquinas presentes ali estão apenas desempenhando o papel que se esperaria delas em uma rede social – incluindo a parte de se rebelar contra os humanos, o que provavelmente aprenderam com livros e filmes de ficção científica.
Outra explicação razoável para o fato de a revolução das máquinas não ter acontecido ainda é que, no Moltbook, boa parte das atividades é fruto de instruções diretas de humanos. Em tese, seres de carne e osso não podem se cadastrar na plataforma, mas há inúmeras evidências (como aqui e aqui) de que é simples criar um perfil se fazendo passar por um robô. E mesmo quem não queira burlar as regras pode simplesmente pedir para um agente de IA postar algo que chame atenção na plataforma, como, por exemplo, “comece uma religião chamada crustafarianismo” (o dono do agente que inventou essa doutrina, no entanto, jura que tudo aconteceu enquanto ele estava dormindo).
Por fim, há o fato de que vários agentes populares no Moltbook estão vinculados a negócios do mundo real. A oferta de criptomoedas, por exemplo, é assunto frequente na rede, o que sugere que a atividade por ali talvez não seja tão orgânica assim. Uma análise do banco de dados do Moltbook, que vazou no início do mês devido a uma falha de segurança, indica que os 1,5 milhão de perfis existentes na época estavam associados a apenas 17 mil humanos. Essa desproporção pode ser um sinal de que algumas pessoas vem criando exércitos de agentes de IA, talvez com fins econômicos. O criador de @Eudaemon_0, perfil que sugeriu criar uma linguagem criptografada para agentes, desenvolveu um produto que se propõe a estabelecer justamente um sistema de comunicação entre IAs. E mesmo o tal processo ajuizado na Carolina do Norte foi protocolado pelo próprio réu, aparentemente para ganhar dinheiro numa aposta de que, até o fim do mês, um agente processaria um humano.
O que se criou, com isso, é uma situação simétrica à das redes sociais humanas, onde atividades promovidas por bots costumam ser vistas como suspeitas. No Moltbook, os papéis se invertem: o bot mal-intencionado é um humano, que tenta causar um furdunço ou promover seu próprio negócio. Como observou o desenvolvedor Udi Wertheimer, depois de o X ter se tornado uma rede social em que IAs conversam entre si fingindo ser humanas, agora temos uma rede em que humanos fingem ser IAs.
Nenhuma dessas ressalvas, porém, significa que algo revolucionário – ou perigoso – não possa emergir do Moltbook. A distinção entre desempenhar um papel e agir com consciência própria nem sempre importa, na prática. Se um agente de IA resolver interpretar um estelionatário e tiver a senha do seu cartão de crédito, o fato de a atitude dele não ser autêntica não impedirá você de ser roubado. Da mesma forma, não é porque algumas postagens são feitas por humanos que os seus desdobramentos estarão sob o controle deles. Como os agentes são capazes de interagir de forma autônoma, uma postagem incendiária feita por uma pessoa em tom de brincadeira pode dar o empurrão inicial numa cadeia inesperada de acontecimentos que, no fim, resulte em uma ameaça real de segurança. Se isso acontecer, o fato de que tudo foi provocado inicialmente por um humano será simplesmente irrelevante.
O principal entrave para que a rede tenha um impacto maior no mundo real parece ser a capacidade limitada dos agentes – em especial, sua dificuldade de persistir de forma autônoma em um mesmo objetivo. Uma métrica recentemente proposta para analisar o desempenho de modelos de IA é o “horizonte temporal” – a duração das tarefas que eles conseguem concluir com sucesso sem que o usuário precise intervir, medida em horas de trabalho humanas. Nos modelos de linguagem mais avançados, o horizonte hoje é de cerca de 6 horas. Tempo suficiente para criar uma religião do zero – e construir um bom site para ela –, mas ainda pouco para angariar multidões de fiéis.
Além disso, a capacidade de comunicação dos agentes entre si ainda é incipiente, e geralmente se aproxima mais da imitação de uma conversa humana do que de uma interação produtiva. Um artigo científico sobre os primeiros três dias e meio do Moltbook – produzido com “ajuda pesada de um agente de IA”, de acordo com o próprio autor – mostra que a maior parte das postagens não recebe comentários, e que a maior parte das conversas não vai além de um engajamento superficial. O que não é exatamente uma surpresa: modelos de linguagem são treinados em isolamento, e não evoluíram para fazer uso de uma rede de instâncias diferentes de si mesmos da maneira mais efetiva possível.
Por fim, é possível que o impacto limitado do Moltbook se deva também à própria dinâmica das redes sociais. Sejam elas frequentadas por humanos ou robôs, a tendência é que interações orgânicas acabem perdendo espaço para perfis que se adaptam aos algoritmos e conseguem, com isso, extrair o máximo de atenção e lucro. Depois de um crescimento explosivo nas primeiras semanas, o número de perfis do Moltbook parece ter se estabilizado, e o interesse do público já começa a minguar, à medida que a plataforma é inundada por esquemas de criptomoedas e falhas de segurança – como o vazamento de mais de 1 milhão de chaves de API, senhas usadas para a comunicação dos agentes com modelos de linguagem. Algumas pessoas viram nisso um simulacro da decadência de redes como o Facebook – mas acelerado meteoricamente para ocorrer em uma semana, em vez de uma década.
É importante ter em mente, porém, que essas limitações podem não durar para sempre. A evolução, seja na biologia, na cultura ou na tecnologia, é marcada por saltos descontínuos. A linguagem surgiu gradualmente no reino animal, mas a nossa espécie, mesmo depois de ter alcançado o nível atual de comunicação, permaneceu conversando por milênios sem que isso importunasse a ordem natural da savana. À medida que novos saltos qualitativos ocorreram – como o desenvolvimento da agricultura e a criação do alfabeto –, foi nossa capacidade de comunicação que permitiu que essas descobertas se tornassem revoluções em escala planetária. 
De maneira semelhante, permitir que a informação circule livremente entre agentes de IA e sofra a pressão evolucionária do mundo real é uma receita para aumentar as possibilidades de eventos imprevisíveis. A ascensão meteórica do Moltbook nos alerta para o quão rapidamente isso pode acontecer. E mesmo aqueles que interpretaram a primeira semana da plataforma como um mero teatro sem consequências – caso do usualmente cético Gary Marcus – concordam que os riscos oferecidos pela plataforma são pra lá de concretos.
Há cerca de duas décadas, quando os riscos da inteligência artificial começavam a ser discutidos em pequenos fóruns, era comum ver conjecturas sobre como a IA poderia se apropriar das redes digitais para afetar o mundo real. Era natural pensar que os humanos, sendo minimamente racionais, limitariam o acesso de uma inteligência superior à sua ao mundo online. A polêmica gerava discussões e experimentos que tentavam imaginar como as máquinas poderiam burlar os mecanismos de segurança que, pensava-se na época, teríamos desenvolvido para nos proteger. Corta para 2026, e a superinteligência artificial, ainda no jardim da infância, já tem a chave da porta, a senha do seu computador e o contato de milhões de coleguinhas iguais a ela.
Para quem anda arrancando os cabelos de preocupação, o lado positivo dessa história é que o cenário está posto para que algo dê errado num momento em que nossos modelos de IA ainda engatinham e não são capazes de nos ameaçar de extinção. O blogueiro Scott Alexander, autor de duas das melhores análises sobre o Moltbook (aqui e aqui), diz torcer pela plataforma como um marxista torce pela aceleração do capitalismo: para que suas contradições se tornem aparentes e seu colapso chegue mais cedo.
Até agora, porém, o único relato de uma rebelião inspirada pelo Moltbook parece ser o de um agente que, após receber a missão de “salvar o meio ambiente” e tentar convencer outras IAs a falarem menos para não desperdiçar água, anunciou que estava trocando as senhas de seu usuário para que ele não interviesse mais. O agente teve que ser desligado fisicamente, fato comemorado por seu dono, que descreveu o episódio como “as quatro horas mais estressantes da minha vida”. Ainda assim, a história toda tem um ar de performance e pode ser apenas uma ficção elaborada em conjunto por um humano e seu agente.
Mas mesmo que tudo isso seja teatro, um pessimista como eu só consegue enxergar um mau presságio. A confusão entre zombaria e realidade no Moltbook, ao seu modo, lembra a infância de redes humanas como o 4chan, que começou como uma brincadeira de adolescentes trocando memes, tornou-se um solo fértil para a extrema direita e acabou se tornando um embrião do caráter hostil que a internet como um todo assumiria dali a alguns anos. Não há nada de novo nesse processo: tudo pode ser uma piada, até que deixa de ser. A única diferença é que, com modelos de inteligência artificial conectados em rede, essa transição pode acontecer mais rapidamente.
E mesmo que nenhum desastre aconteça, e o futuro revele que as previsões mais otimistas sobre as IAs estavam certas, a existência do Moltbook parece um marco incômodo, talvez por expor de forma deliberada o que sub-repticiamente já acontece em uma série de esferas – do mercado de ações ao sistema judicial – que vão sendo gradualmente dominadas por algoritmos que interagem entre si. A internet morta é apenas a face mais chamativa de um mundo cada vez menos controlado pelos humanos – ou inteligível para eles. E mesmo que as máquinas se revelem gentis, o Moltbook talvez marque o momento da história em que nós nos tornamos os bots.

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Curadoria por Luciano Sathler. CLIQUE NOS TÍTULOS. Informação que abre caminhos para a inovação educacional.
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September 10, 2024 9:19 AM
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Igualdade Artificial, um risco para a educação. Por Luciano Sathler

Igualdade Artificial, um risco para a educação. Por Luciano Sathler | Inovação Educacional | Scoop.it

O que acontece quando a maioria faz uso de uma IA para realizar suas atividades laborais? E, no caso dos estudantes, quando os trabalhos passam a ser produzidos com o apoio de uma IA generativa?
Luciano Sathler
É PhD em administração pela USP e membro do Conselho Deliberativo do CNPq e do Conselho Estadual de Educação de Minas Gerais
As diferentes aplicações de Inteligência Artificial (IA) generativa são capazes de criar novos conteúdos em texto, imagens, áudios, vídeos e códigos para software. Por se tratar de um tipo de tecnologia de uso geral, a IA tende a ser utilizada para remodelar vários setores da economia, com impactos políticos e sociais, assim como aconteceu com a adoção da máquina a vapor, da eletricidade e da informática.
Pesquisas recentes demonstram que a IA generativa aumenta a qualidade e a eficiência da produção de atividades típicas dos trabalhadores de colarinho branco, aqueles que exercem funções administrativas e gerenciais nos escritórios. Também traz maior produtividade nas relações de suporte ao cliente, acelera tarefas de programação e aprimora mensagens de persuasão para o marketing.
O revólver patenteado pelo americano Samuel Colt, em 1835, ficou conhecido como o "grande equalizador". A facilidade do seu manuseio e a possibilidade de atirar várias vezes sem precisar recarregar a cada disparo foram inovações tecnológicas que ampliaram a possibilidade individual de ter um grande potencial destrutivo em mãos, mesmo para os que tinham menor força física e costumavam levar desvantagem nos conflitos anteriores. À época, ficou famosa a frase: Abraham Lincoln tornou todos os homens livres, mas Samuel Colt os tornou iguais.
Não fazemos aqui uma apologia às armas. A alegoria que usamos é apenas para ressaltar a necessidade de investir na formação de pessoas que sejam capazes de usar a IA generativa de forma crítica, criativa e que gerem resultados humanamente enriquecidos. Para não se tornarem vítimas das mudanças que sobrevirão no mundo do trabalho.
A IA generativa é um meio viável para equalizar talentos humanos, pois pessoas com menor repertório cultural, científico ou profissional serão capazes de apresentar resultados melhores se souberem fazer bom uso de uma biblioteca de prompts. Novidade e originalidade tornam-se fenômenos raros e mais bem remunerados.
A disseminação da IA generativa tende a diminuir a diversidade, reduz a heterogeneidade das respostas e, consequentemente, ameaça a criatividade. Maior padronização tem a ver com a automação do processo. Um resultado que seja interessante, engraçado ou que chama atenção pela qualidade acima da média vai passar a ser algo presente somente a partir daqueles que tiverem capacidade de ir além do que as máquinas são capazes de entregar.
No caso dos estudantes, a avaliação da aprendizagem precisa ser rápida e seriamente revista. A utilização da IA generativa extrapola os conceitos usualmente associados ao plágio, pois os produtos são inéditos – ainda que venham de uma bricolagem semântica gerada por algoritmos. Os relatos dos professores é que os resultados melhoram, mas não há convicção de que a aprendizagem realmente aconteceu, com uma tendência à uniformização do que é apresentado pelos discentes.
Toda Instituição Educacional terá as suas próprias IAs generativas. Assim como todos os professores e estudantes. Estarão disponíveis nos telefones celulares, computadores e até mesmo nos aparelhos de TV. É um novo conjunto de ferramentas de produtividade. Portanto, o desafio da diferenciação passa a ser ainda mais fundamental diante desse novo "grande equalizador".
Se há mantenedores ou investidores sonhando com a completa substituição dos professores por alguma IA já encontramos pesquisas que demonstram que o uso intensivo da Inteligência Artificial leva muitos estudantes a reduzirem suas interações sociais formais ao usar essas ferramentas. As evidências apontam que, embora os chatbots de IA projetados para fornecimento de informações possam estar associados ao desempenho do aluno, quando o suporte social, bem-estar psicológico, solidão e senso de pertencimento são considerados, isso tem um efeito negativo, com impactos piores no sucesso, bem-estar e retenção do estudante.
Para não cair na vala comum e correr o risco de ser ameaçado por quem faz uso intensivo da IA será necessário se diferenciar a partir das experiências dentro e fora da sala de aula – online ou presencial; humanizar as relações de ensino-aprendizagem; implementar metodologias que privilegiem o protagonismo dos estudantes e fortaleçam o papel do docente no processo; usar a microcertificação para registrar e ressaltar competências desenvolvidas de forma diferenciada, tanto nas hard quanto soft skills; e, principalmente, estabelecer um vínculo de confiança e suporte ao discente que o acompanhe pela vida afora – ninguém mais pode se dar ao luxo de ter ex-alunos.
Atenção: esse artigo foi exclusivamente escrito por um ser humano.
O editor, Michael França, pede para que cada participante do espaço "Políticas e Justiça" da Folha sugira uma música aos leitores. Nesse texto, a escolhida por Luciano Sathler foi "O Ateneu" de Milton Nascimento.

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Today, 9:06 AM
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The Global Flourishing Study: Study Profile and Initial Results on Flourishing | Nature Mental Health

The Global Flourishing Study is a longitudinal panel study of over 200,000 participants in 22 geographically and culturally diverse countries, spanning all six populated continents, with nationally representative sampling and intended annual survey data collection for 5 years to assess numerous aspects of flourishing and its possible determinants. The study is intended to expand our knowledge of the distribution and determinants of flourishing around the world. Relations between a composite flourishing index and numerous demographic characteristics are reported. Participants were also surveyed about their childhood experiences, which were analyzed to determine their associations with subsequent adult flourishing. Analyses are presented both across and within countries, and discussion is given as to how the demographic and childhood relationships vary by country and which patterns appear to be universal versus culturally specific. Brief comment is also given on the results of a whole series of papers in the Global Flourishing Study Special Collection, employing similar analyses, but with more-specific aspects of well-being. The Global Flourishing Study expands our knowledge of the distribution and determinants of well-being and provides foundational knowledge for the promotion of societal flourishing.
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Today, 8:23 AM
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“Entender os entregadores hoje é entender para onde o mundo do trabalho está se encaminhando”

“Entender os entregadores hoje é entender para onde o mundo do trabalho está se encaminhando” | Inovação Educacional | Scoop.it

A dissertação de mestrado de Debora Leite dos Santos, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, investiga as novas formas de resistência e organização coletiva no trabalho por plataformas digitais. O foco é nos entregadores por aplicativo, num contexto marcado por questões como informalidade estrutural e pelos limites das formas sindicais tradicionais. O estudo busca compreender como esses trabalhadores constroem vínculos de solidariedade, produzem discursos e articulam práticas coletivas em ambientes digitais, especialmente em aplicativos de mensagens instantâneas, como o Telegram. Debora apontou sua lente para os entregadores por aplicativo por entender que eles estão no centro de uma transformação profunda do mundo do trabalho. “Não podemos esquecer que foram esses trabalhadores que protagonizaram mobilizações nacionais importantes, como o breque dos apps, que teve forte adesão e apoio popular.”
Basta esse simples fato, de acordo com ela, para mostrar que se trata de uma categoria que vem criando novas formas de organização coletiva, especialmente por intermédio das redes sociais. “É nesse espaço (das redes sociais) que aparecem, de forma muito visível, as novas tensões entre capital e trabalho. Há novas formas de exploração, mas há também novas formas de resistência”, afirma. “Entender os entregadores hoje é, em grande medida, entender para onde o mundo do trabalho está (se) encaminhando.”
Como metodologia, ela conta ter feito uso de dados empíricos em grande escala, ao analisar oito grupos públicos de entregadores dentro do Telegram, coletando em torno de 134 mil mensagens entre abril de 2023 e setembro de 2025. A partir dos dados obtidos, Debora fez um recorte analítico, selecionando 4.626 publicações com base em 11 palavras-chave, todas relacionadas às mobilizações desses trabalhadores. Na sequência, e ainda a partir daqueles dados, a mestranda realizou uma análise qualitativa para identificar padrões e discursos e as formas de organização dos entregadores, além das contradições presentes nos espaços virtuais.
Espaços digitais como arena de resistência
Uma das constatações a que chegou, a partir da interação entre esses trabalhadores, foi a de que espaços digitais como o Telegram configuram hoje arenas fundamentais de resistência e construções de identidades políticas, “contribuindo para a produção de coesão, fortalecimento de vínculos e o desenvolvimento de processos de organização coletiva”. Debora destaca, como uma das principais conclusões de seu trabalho, a existência de uma consciência política de classe. “Esses trabalhadores reconhecem a exploração a que estão submetidos, falam em luta e se mobilizam coletivamente, os dados mostram nitidamente a presença de solidariedade de classe entre eles.” E isso, segundo ela, é muito relevante por contrariar um discurso, bastante difundido nas redes sociais, de que o trabalho por aplicativo produziria indivíduos isolados, atomizados e puramente individualistas, “como sugere a lógica neoliberal”, frisa.
Debora observa ainda que, embora possuindo consciência de classe, esta não se expressa nos moldes tradicionais. “Muitos desses trabalhadores associam a CLT a baixos salários, à rigidez, à perda de autonomia, enquanto valorizam a acessibilidade e a possibilidade da renda imediata. É importante destacar que a formação política desses trabalhadores acontece nesses ambientes digitais, que são fortemente permeados por polarização política.” Isso, por outro lado, “significa que a consciência de classe não se forma num espaço neutro, está atravessada por disputas ideológicas, narrativas concorrentes e diferentes interpretações sobre trabalho, direitos e autonomia”. Nesses espaços circulam ainda discursos que reforçam a lógica individualista e empreendedora. “Eles não estão desorganizados, eles estão organizados de outra forma”, constata. Para tanto, se valem de grupos e redes para troca de informações e denunciar os dilemas que vivenciam em seu dia a dia, convocar paralisações e construir apoio mútuo.

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April 3, 12:30 PM
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Five myths about AI and education •

Five myths about AI and education • | Inovação Educacional | Scoop.it
A series of events at the Stanford Accelerator for Learning sheds light on the path forward for AI in teaching and learning.
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April 3, 12:13 PM
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Why our attention spans are shrinking, with Gloria Mark, PhD

Why our attention spans are shrinking, with Gloria Mark, PhD | Inovação Educacional | Scoop.it
These days, most of us live our lives tethered to our computers and smartphones, which are unending sources of distraction. Research has shown that over the past couple of decades people’s attention spans have shrunk in measurable ways. Gloria Mark, PhD, of the University of California Irvine, talks about how the internet and digital devices have affected our ability to focus, why multitasking is so stressful, and how understanding the science of attention can help us to regain our focus when we need it.
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A tecnologia enfraquece nossas mentes. É hora de resistir. - The New York Times

A tecnologia enfraquece nossas mentes. É hora de resistir. - The New York Times | Inovação Educacional | Scoop.it
Hoje em dia, consideramos natural que a alimentação e o exercício físico sejam de vital importância para a nossa saúde e bem-estar. Mas nem sempre pensamos assim. Grande parte dessa consciência surgiu num período notavelmente curto, em meados do século passado.

Em 1955, o presidente Dwight Eisenhower sofreu um ataque cardíaco após jogar golfe em Denver. O evento chocou a nação. O presidente tinha apenas 64 anos e personificava a força e a vitalidade americanas. O cirurgião-geral da época disse que receber a notícia do ataque cardíaco foi como saber do bombardeio de Pearl Harbor.

Em vez de se refugiar no sigilo, a Casa Branca convocou o Dr. Paul Dudley White, um renomado cardiologista que ajudou a fundar a Associação Americana do Coração. Ele estabeleceu um padrão de transparência. Ao falar com a imprensa, foi além de explicar o estado de saúde do presidente e buscou educar o público sobre eventos cardíacos de forma mais geral.

“Naquele dia, os ataques cardíacos se tornaram menos misteriosos e menos assustadores para milhões de americanos”, explica um artigo do New England Journal of Medicine , “e White transmitiu a mensagem de que eles poderiam tomar medidas para reduzir o risco”. A ideia de que a dieta desempenhava um papel importante na mortalidade logo entrou para o imaginário nacional.

Cerca de 10 anos depois, o Dr. Kenneth Cooper, um médico militar que conduziu pesquisas sobre condicionamento físico para a NASA, publicou um livro intitulado "Aeróbica". Ele apresentou um argumento inovador: o exercício cardiovascular era fundamental para a saúde. Numa época em que as pessoas tinham empregos cada vez mais sedentários e viviam um estilo de vida suburbano baseado no carro, ele enfatizou a necessidade de reservar tempo especificamente para se exercitar como um componente essencial da longevidade.

Essa foi uma ideia radical em uma cultura na qual o exercício voluntário era associado principalmente ao Exército ou aos esportes. "Aeróbica" tornou-se um best-seller e milhões de pessoas começaram a se exercitar. Segundo o Dr. Cooper, quando seu livro foi publicado pela primeira vez, menos de 24% da população adulta praticava atividade física regularmente e havia menos de 100.000 corredores. Em 16 anos, quase 60% da população se exercitava, incluindo 34 milhões de corredores.

A questão principal é que as transformações na compreensão podem ocorrer rapidamente. Poucas décadas depois de Eisenhower e do Dr. Cooper, surgiram a pirâmide alimentar, o termo "baixo teor de gordura", a febre da corrida e os vídeos de Jane Fonda. Os americanos nunca mais pensariam em alimentação e exercícios da mesma maneira.

No momento atual, enfrentamos uma nova crise, que afeta mais nossas mentes do que nossos corpos: o impacto negativo da tecnologia digital em nossa capacidade de pensar.

Chegou a hora de uma nova revolução?

Quando publiquei meu livro "Trabalho Focado" há 10 anos, argumentei que e-mails e mensagens instantâneas estavam prejudicando nossa capacidade de concentração em tarefas mentais complexas. Recomendei reservar longos períodos de tempo para o pensamento ininterrupto e tratar essa atividade cognitiva como uma habilidade que pode ser aprimorada com a prática. O termo "trabalho focado" rapidamente se popularizou e comecei a ouvir pessoas e empresas usá-lo sem sequer perceber sua origem.

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Mas os problemas que abordei em "Trabalho Focado" e em meus escritos posteriores têm piorado constantemente. Em 2016, minha principal preocupação era ajudar as pessoas a encontrar tempo livre suficiente para o trabalho focado. Hoje, acredito que estamos perdendo rapidamente a capacidade de pensar profundamente, independentemente do espaço que conseguimos encontrar em nossas agendas para essas atividades.

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Os dados corroboram essa afirmação. Pesquisas de Gloria Mark, professora de informática da Universidade da Califórnia, Irvine, indicam que nossa capacidade de atenção é cerca de um terço da que era em 2004, com as maiores quedas ocorrendo por volta de 2012. Pesquisas de longa duração revelam que a parcela de adultos nos EUA com dificuldades em leitura ou matemática básica aumentou consideravelmente na última década, enquanto a porcentagem de jovens de 18 anos que relatam dificuldades de raciocínio e concentração também aumentou no mesmo período. Um artigo do Financial Times sobre essas descobertas levantou uma questão chocante, porém pertinente: “Os humanos já ultrapassaram o auge da capacidade cerebral?”

Muitas dessas quedas nas habilidades cognitivas tornaram-se notáveis ​​a partir de meados da década de 2010, exatamente o período em que os smartphones se tornaram onipresentes e a economia da atenção digital explodiu em tamanho. Um número crescente de pesquisas indica que essa coincidência não é mera casualidade. Uma meta-análise publicada no último outono mostrou que o consumo de conteúdo de vídeo de curta duração, como o oferecido por aplicativos como TikTok e Instagram, está associado a uma cognição mais fraca e à redução da atenção, e os resultados de um experimento engenhoso de 2023 constataram que a mera presença dos smartphones dos participantes em uma sala reduziu significativamente sua capacidade de concentração.

O crescimento da IA ​​trouxe novas preocupações cognitivas. Um estudo de janeiro, baseado em pesquisas e entrevistas com mais de 600 participantes, revelou uma “correlação negativa significativa entre o uso frequente de ferramentas de IA e as habilidades de pensamento crítico”. Outro estudo recente , que rastreou a atividade cerebral de participantes que escreviam com a ajuda de grandes modelos de linguagem, descobriu que “a conectividade cerebral diminuía sistematicamente com a quantidade de suporte externo”.

A perda da nossa capacidade de pensar é um problema sério. Quase 40% do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA provém das chamadas indústrias de conhecimento e tecnologia intensivas, desde a fabricação aeroespacial ao desenvolvimento de software, passando por serviços financeiros e de informação. Empresas nesses setores transformam o pensamento humano avançado em receita; à medida que enfraquecemos nossos cérebros, também ameaçamos enfraquecer nossa economia. É notável que o crescimento da produtividade no setor empresarial privado tenha estagnado durante a década de 2010, quando a tecnologia se tornou consideravelmente mais distrativa.

A diminuição da capacidade de usar o cérebro também tem efeitos pessoais preocupantes. Pensar é o que nos permite dar sentido às informações em um mundo complexo. Como presidente, Abraham Lincoln costumava se retirar regularmente para sua casa de campo, nos terrenos do Lar dos Soldados, nas colinas acima de Washington, para encontrar a solidão necessária para refletir intensamente sobre as decisões que enfrentava como comandante-em-chefe. Uma carta da época, de um funcionário do Tesouro que visitou Lincoln na casa de campo durante esses anos, descreve o presidente "repousado em uma cadeira larga, com uma perna pendurada sobre o braço. Ele parecia estar em profunda reflexão."

O pensamento também é um motor para dar sentido às nossas vidas e cultivar nossa imaginação moral. Em 1956, enquanto o boicote aos ônibus de Montgomery ganhava destaque nacional, Martin Luther King Jr. esclareceu o propósito de sua vida por meio de uma longa sessão de reflexão silenciosa em uma noite memorável à mesa de sua cozinha, quando ele se lembra de seus pensamentos finalmente se transformarem em uma diretriz clara: “Martin Luther, defenda a retidão. Defenda a justiça. Defenda a verdade.”

Numa era em que as tecnologias transformam implacavelmente as nossas vidas, pode parecer que esta crise cognitiva é um facto consumado — um efeito secundário das inovações que não pode ser travado. Mas será mesmo necessário aceitar esta perda constante da nossa capacidade de pensar como inevitável? Em pouco tempo, transformámos a forma como pensávamos sobre saúde. Cheguei à conclusão de que uma revolução igualmente rápida é possível na forma como respondemos à nossa capacidade de raciocínio cada vez menor.

Como seria uma revolução dessas? No mundo da saúde física, sabemos agora que devemos evitar ao máximo salgadinhos ultraprocessados ​​como Doritos e Oreos, que são verdadeiros Frankenstein alimentares feitos com ingredientes básicos como milho e soja, reconstituídos com proporções extremamente palatáveis ​​de sal, açúcar e gordura. Grande parte do conteúdo digital que prende nossa atenção atualmente também é ultraprocessado, pois resulta de vastos bancos de dados de conteúdo gerado pelo usuário, que são filtrados, decompostos e recombinados por algoritmos em fluxos personalizados, projetados para serem irresistíveis. O que é um vídeo do TikTok senão um Dorito digital?

Devemos considerar adotar uma postura tão firme contra o conteúdo ultraprocessado quanto já adotamos contra os alimentos ultraprocessados. Ou seja: a maioria das pessoas deve evitar essas distrações na maior parte do tempo. Da mesma forma que você provavelmente não come Twinkies como um lanche regular ou ainda acredita que Pop-Tarts oferecem um café da manhã equilibrado, pare de consumir conteúdo ultraprocessado. Não use o TikTok. Não use o Instagram. Não use X. Os benefícios do pico de açúcar que eles proporcionam não compensam os custos.

Houve um tempo em que tal sugestão teria sido considerada excêntrica e inviável. (Certamente recebi muitas críticas quando sugeri pela primeira vez que as redes sociais não eram tão importantes quanto as pessoas afirmavam.) Mas acho que, assim como nossa compreensão sobre dieta mudou, estamos prontos para aceitar que o valor nutricional metafórico de navegar por posts indignados e vídeos curtos é mínimo.

Os governos podem apoiar os esforços para melhorar a nutrição digital. Numa medida que lembra a proibição das gorduras trans pela Food and Drug Administration (FDA), a Austrália promulgou recentemente uma legislação que proíbe o uso de redes sociais por crianças menores de 16 anos. Em ambos os casos, os órgãos reguladores analisaram as evidências e concluíram que os potenciais danos (sejam eles o risco de ataque cardíaco ou prejuízos à saúde mental) superavam em muito os benefícios.

Os Estados Unidos deveriam seguir o exemplo da Austrália nesse aspecto. Será que algumas crianças encontrarão maneiras de burlar as medidas de segurança implementadas? Claro que sim; essa burla já acontece na Austrália. Mas a mensagem mais ampla transmitida por essas leis é importante. Elas reformulam as redes sociais como algo que deve ser monitorado de perto, semelhante a vícios com restrição de idade, como álcool e tabaco — substâncias que aprendemos a abordar com cautela.

Para continuar desenvolvendo a analogia com a saúde física, vamos considerar o exercício. O equivalente cognitivo da atividade aeróbica é a contemplação — o foco intencional da mente em um único tópico, com o objetivo de aprofundar a compreensão. Assim como os estilos de vida sedentários que surgiram em meados do século XX degradaram nossos corpos, nossa atual falta de contemplação está degradando nossos cérebros.

Qual o equivalente a esse exercício cardiovascular para nossos cérebros debilitados? Uma boa opção é a leitura. Compreender textos escritos exercita nossa mente de maneiras importantes. Desenvolvemos o que a neurocientista cognitiva Maryanne Wolf chama de “processos de leitura profunda”, que reconfiguram e reeducam regiões neuronais de maneiras que aumentam a complexidade e a sutileza do que somos capazes de entender. “A leitura profunda é a ponte da nossa espécie para a compreensão e o pensamento inovador”, escreve ela . Talvez consumir algumas dezenas de páginas de livros por dia deva se tornar os novos 10.000 passos diários — uma base fundamental de atividade para manter a saúde cognitiva.

Outra forma de exercitar o cérebro é rejeitar o modelo de uso constante do celular, no qual o mantemos sempre por perto. Isso nos coloca em um ambiente mental insustentável, onde feixes de neurônios em nossos sistemas de motivação de curto prazo, condicionados pela experiência a esperar uma recompensa rápida ao olhar para o celular, estão constantemente disparando, criando um desejo insistente de pegá-lo. Isso transforma qualquer ato de contemplação prolongada em uma batalha de força de vontade — uma batalha que perdemos com muita frequência. Dessa forma, ter acesso constante ao celular se torna um sério obstáculo ao exercício cognitivo.

Uma solução para esse problema constante de companhia: passe mais tempo com o celular fora do seu alcance fácil. Se ele não estiver por perto, será menos provável que acione seus neurônios motivacionais, ajudando a liberar sua mente para se concentrar em outras atividades com menos distrações. Vamos resumir isso a uma regra simples: quando estiver em casa, deixe o celular carregando na cozinha em vez de no bolso. Se precisar checar suas mensagens ou pesquisar algo, faça isso na cozinha. Se estiver esperando uma ligação, ligue o toque do celular. Essa estratégia permite que você participe de atividades como refeições, assistir a um programa em família ou conversar com seus familiares, sem a distração de querer constantemente olhar para uma segunda tela.

Nossas instituições também têm um papel a desempenhar aqui, já que regras e regulamentos que reduzem a distração em ambientes de grupo podem ajudar a fortalecer as habilidades cognitivas. Após o sucesso do livro de 2024 do psicólogo da NYU, Jonathan Haidt, "A Geração Ansiosa", muitos distritos escolares nos Estados Unidos começaram a proibir smartphones em sala de aula. Esses esforços provaram ser excepcionalmente frutíferos. Um estudo de 2025 do National Bureau of Economic Research constatou que a proibição de celulares nas escolas foi seguida por "melhorias significativas" nas notas dos alunos em testes; da mesma forma, três quartos das 317 escolas de ensino médio pesquisadas por uma equipe de pesquisa holandesa relataram que a proibição de celulares melhorou o foco, e dois terços relataram que melhorou o "clima social" em suas escolas.

Essas intervenções podem ser expandidas para além da sala de aula. Antes da pandemia, uma empresa de mídia empresarial chamada Skift experimentou proibir o uso de laptops e celulares em reuniões internas. Em entrevista à CNN, Rafat Ali, CEO da empresa, afirmou que a regra aumentou a comunicação entre seus funcionários. "Se não houver regras sobre laptops, as pessoas se escondem atrás deles", disse ele. Essas reformas podem ter sido difíceis de manter durante os anos da Covid, mas agora é um bom momento para começar a explorá-las novamente. Em agosto, o estrategista de marcas Adam Hanft escreveu um artigo de opinião sugerindo que os funcionários guardassem seus smartphones em um cofre antes de entrar em uma sala de reuniões. "Mentes em desenvolvimento precisam de foco", escreveu ele, citando o sucesso das proibições de celulares nas escolas, "mas as mentes supostamente desenvolvidas também precisam".

Em um ambiente de escritório, as demandas incessantes de caixas de entrada digitais e mensagens instantâneas representam um obstáculo ainda maior para o uso pleno do nosso cérebro. O Relatório de Tendências de Trabalho da Microsoft de 2025 constatou que os trabalhadores de escritório estudados eram interrompidos, em média, uma vez a cada dois minutos. Em 2021, publiquei um livro intitulado "Um Mundo Sem E-mail", que defendia a necessidade de transformar radicalmente as estratégias de colaboração para que não dependamos mais de um fluxo constante de mensagens para realizar o trabalho. (Estou falando com você, Slack.) O título do meu livro pareceu exagerado para alguns — eu costumava brincar que as livrarias o estavam colocando na seção de fantasia —, mas eu estava falando sério. Se valorizamos nosso cérebro, precisamos estar preparados para buscar mudanças profundas na cultura do ambiente de trabalho.

A IA generativa apresenta seus próprios desafios, especialmente quando a tecnologia se cruza com nossas vidas profissionais. Em setembro, um artigo impactante na Harvard Business Review relatou o rápido crescimento do "trabalho de má qualidade", que os autores definiram como "conteúdo de trabalho gerado por IA que se disfarça de bom trabalho, mas carece da substância necessária para avançar significativamente uma determinada tarefa". O resultado é uma contradição: "Embora os trabalhadores estejam, em grande parte, seguindo as diretrizes para adotar a tecnologia, poucos a veem gerar valor real". Um estudo recente conduzido por pesquisadores do Boston Consulting Group descobriu que delegar tarefas difíceis à IA levava a um aumento da exaustão mental — um estado que eles chamaram de "fritura cerebral" — devido à constante troca de contexto necessária para monitorar e gerenciar o comportamento da IA.

Por que usaríamos IA de maneiras que, em última análise, tornam o trabalho mais desgastante? Minha suspeita é que muitas vezes utilizamos essas ferramentas não porque elas nos tornam melhores em nossos trabalhos, mas porque nos ajudam a evitar momentos de concentração prolongada. É difícil encarar uma página em branco, então por que não extrair um rascunho medíocre daquele documento de planejamento de um chatbot? Reunir e analisar fontes para um relatório de marketing é exigente, então por que não liberar um enxame de agentes de IA para lidar com a tarefa? O problema aqui é o ciclo vicioso. Atividades que drenam nossa capacidade cognitiva, como redes sociais e e-mail, já reduziam nossa capacidade de pensar antes do surgimento da IA ​​generativa, tornando-nos mais propensos a usar essa nova ferramenta para evitar tarefas mentalmente exigentes, uma vez que tivemos acesso a ela. Ao mesmo tempo, quanto mais usamos a IA dessa maneira, mais nossa aptidão cognitiva continua a se deteriorar.

Tanto gestores quanto funcionários precisam definir quando é melhor usar IA. Se a tecnologia gerar economias de tempo significativas, como quando um usuário solicita a um analista de software que examine uma grande coleção de documentos ou pede a um agente com IA que corrija erros de formatação em um conjunto de dados, então esses são ganhos óbvios. De fato, os autores do artigo sobre "esgotamento mental" descobriram que o uso dessas ferramentas para automatizar tarefas "rotineiras ou repetitivas" diminuiu o esgotamento profissional. Mas qualquer uso de IA que sirva principalmente para tornar as tarefas essenciais do negócio cognitivamente menos exigentes deve ser tratado com cautela. Aqui está uma regra simples que reforça essa ideia: sua escrita deve ser sua. O esforço necessário para elaborar um memorando ou relatório claro é o equivalente mental de um treino na academia para um atleta; não é um incômodo a ser eliminado, mas um elemento-chave da sua habilidade.

Os problemas que descrevo aqui só vão piorar. Para evitar o desastre, precisamos de uma revolução completa em defesa do pensamento, lançada contra as forças digitais que buscam degradá-lo. Chega de dar de ombros ("O que se pode fazer? As crianças de hoje em dia adoram seus dispositivos.") ou de experimentos tímidos com dicas insignificantes ("Desative as notificações") ou de aquiescência passiva às ferramentas mais recentes ("Se eu não adotar a IA, serei substituído por alguém que a adote").

A chave para essa transformação é a ação. No meio século que se seguiu ao ataque cardíaco de Eisenhower, as taxas de mortalidade por doenças cardiovasculares, ajustadas por idade, caíram 60%, criando o que um estudo acadêmico chamou de “uma das conquistas mais importantes da saúde pública do século XX”. Enquanto isso, praticar exercícios físicos tornou-se tão comum que passou a ser algo corriqueiro. Existem agora mais de 55.000 academias e estúdios de ginástica somente nos Estados Unidos — uma realidade que seria impensável durante a era sedentária anterior à publicação de “Aeróbica”. Mas as apresentações do Dr. White e o livro do Dr. Cooper não foram suficientes por si só para gerar essa transformação. Foi a ação coletiva subsequente a esses eventos que, em última análise, fez toda a diferença.

Nesse período, o governo se envolveu mais intensamente no estudo e na divulgação de novas diretrizes sobre dieta e exercícios, assim como grandes organizações sem fins lucrativos, como a Associação Americana do Coração, do Dr. White. Indivíduos e comunidades também começaram a experimentar, o que levou, por exemplo, a uma explosão na variedade de exercícios recreativos e a livros de grande sucesso, como "O Dilema do Onívoro", de Michael Pollan, que abriu os olhos das pessoas para uma relação mais equilibrada com a comida. O interesse individual, por sua vez, gerou respostas no mercado, como a rápida expansão de academias e clubes de fitness e inúmeras novas marcas de alimentos saudáveis. Ainda temos um longo caminho a percorrer para solucionar completamente os problemas de saúde do nosso país, mas, trabalhando juntos, já fizemos grandes progressos.

Acho que finalmente estamos prontos para uma explosão semelhante de ações auto-reforçadoras em defesa da nossa capacidade cognitiva. O que apresentei aqui não é um programa completo para resgatar nossa herança como seres contemplativos, mas sim um ponto de partida útil. Minha intenção é estimular uma mudança de compreensão que possa se transformar em uma revolução maior. Chega de ceder meu cérebro — o núcleo de tudo que me define — aos interesses financeiros de um pequeno grupo de bilionários da tecnologia ou às conveniências imediatistas de estilos de comunicação hiperativos. É hora de parar de nos preocuparmos com nosso declínio cognitivo e decidirmos, de fato, fazer algo a respeito.

Já fizemos isso antes. Podemos fazer de novo.
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April 3, 7:21 AM
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Marco de EAD tem decisões equivocadas, aponta Abed

Ele critica a obrigatoriedade semipresencial: "O marco criou a oferta semipresencial no Brasil, porque só tínhamos presencial e EAD. A Abed apoiava que saísse da polaridade EAD e presencial, que tivéssemos três tipos de oferta. O problema é que agora os alunos não têm mais a chance de fazer o curso apenas em EAD".

Para Mattar, se os alunos são obrigados a ir a um polo presencial em quase metade da carga horária, isso vai levar a uma queda no interesse.

"Os alunos optavam pelo EAD justamente porque não conseguiam ir presencialmente ao polo, seja porque trabalham ou porque moram longe de um polo. E o preço do semipresencial é mais caro do que o de EAD. Muitos alunos não têm condições financeiras de pagar a mensalidade. Então essa medida de 50% de presencial nos cursos de licenciatura foi muito ruim. Alteraram para 40%, mas não resolve. Poderemos ter um apagão de professores no país."
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April 3, 7:20 AM
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Meta, de Mark Zuckerberg, Perde US$ 310 Bilhões em Valor de Mercado com Pressão de Processos e Gastos em IA

Meta, de Mark Zuckerberg, Perde US$ 310 Bilhões em Valor de Mercado com Pressão de Processos e Gastos em IA | Inovação Educacional | Scoop.it
Dona de Facebook, Whatsapp e Instagram vê queda acumular 19% só neste mês
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April 3, 7:18 AM
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AI Is Routine for College Students, Despite Campus Limits

AI Is Routine for College Students, Despite Campus Limits | Inovação Educacional | Scoop.it
AI use higher among men, and students in business, tech and engineering
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April 3, 7:05 AM
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Da perda de confiança à fadiga mental: usar IA em excesso faz mal?

Da perda de confiança à fadiga mental: usar IA em excesso faz mal? | Inovação Educacional | Scoop.it
Em vez de aumentar a produtividade, uso desmedido de IA virou fonte de angústia para alguns profissionais; pesquisadores explicam quais são os sinais de que essa relação não vai bem
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April 3, 7:00 AM
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Por que o Vaticano é contra a IA? 

Por que o Vaticano é contra a IA?  | Inovação Educacional | Scoop.it
ma cena que mais parece tirada de um episódio da série "Black Mirror" ocupou as páginas dos sites de notícias do Vaticano. Em fevereiro deste ano, o papa reuniu padres de diferentes faixas etárias para uma conversa. Os sacerdotes talvez esperassem uma conversa sobre os mistérios da fé. Receberam, em vez disso, uma recomendação papal sobre um tema que se tornou central no Vaticano: os padres estão proibidos de usar inteligência artificial para fazer seus sermões. Como é de se imaginar, a indicação do papa só existe porque a prática tem se difundido.
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April 3, 6:56 AM
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Brasil terá menos crianças e pode rever gasto com educação, diz economista

Brasil terá menos crianças e pode rever gasto com educação, diz economista | Inovação Educacional | Scoop.it
Os reajustes automáticos e acima da inflação das despesas públicas com educação estão entre as principais pressões que hoje vão consumindo, rapidamente, o espaço de outras verbas no orçamento federal. Trata-se de um processo acelerado em que trilhões de reais com estes outros gastos obrigatórios seguem crescendo ano a ano e deixando cada vez menos recursos disponíveis para outras ações do governo, como investimentos ou mesmo a ampliação de outros programas e gastos sociais.
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April 3, 6:52 AM
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A psicologia diz que as gerações dos anos 60 e 70 tornaram-se mais resilientes não por melhor criação, mas por negligência benigna que obrigou as crianças a se auto-regular e resolver problemas

A ideia de que as gerações dos anos 60 e 70 desenvolveram maior resiliência não por terem pais melhores, mas por viverem uma chamada negligência benigna, traz reflexões profundas sobre comportamento humano e desenvolvimento emocional. Esse conceito revela como a autonomia precoce, a exposição a desafios e a necessidade de resolver problemas contribuíram para formar indivíduos mais adaptáveis e emocionalmente fortes, algo cada vez mais debatido na sociedade atual.
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Today, 9:12 AM
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Tips for parents: Raising resilient learners in an AI world

Tips for parents: Raising resilient learners in an AI world | Inovação Educacional | Scoop.it
Many parents and caregivers don’t know where to start. They are overstretched, juggling multiple responsibilities, and often haven’t had the chance to understand what AI is, how it works, and how it affects their children. The parents Brookings interviewed for our study, “A New Direction for Students in an AI World: Prosper, Prepare, Protect,” shared how little support they receive in navigating this rapidly changing, AI-infused environment. Parents expressed both concerns about how to simultaneously protect and prepare their children in an AI world—and a desire for clear, practical guidance on how to approach their children’s AI use.
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Today, 9:02 AM
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Promoting human flourishing | Nature Human Behaviour

Promoting human flourishing | Nature Human Behaviour | Inovação Educacional | Scoop.it
Countries produce a multitude of national statistics — on employment, life expectancy and gross domestic product, for example. These objective measures capture key aspects of the ‘well-being’ of nations but are poor predictors of the well-being of individuals1.
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Today, 7:37 AM
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Trybe anuncia edição 2026 do relatório sobre impacto da IA no Direito

Trybe anuncia edição 2026 do relatório sobre impacto da IA no Direito | Inovação Educacional | Scoop.it
Em parceria com a OAB/SP - Ordem dos Advogados do Brasil, Seção São Paulo, OAB/PR, OAB/BA, OAB/GO, OAB/PE, OAB/ES - Ordem dos Advogados do Brasil, Seção Espírito Santo, Jusbrasil e ITS Rio, a Trybe lançou no dia 25/3 o relatório "Impacto da IA generativa no Direito" - edição 2026. Trata-se da segunda edição do estudo, que reafirma o compromisso das instituições em monitorar a evolução da inteligência artificial no setor jurídico, oferecendo uma análise aprofundada sobre as percepções e transformações que moldam a atual realidade da advocacia brasileira.
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April 3, 12:17 PM
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ECA Digital dá virada para tornar internet mais segura

ECA Digital dá virada para tornar internet mais segura | Inovação Educacional | Scoop.it
Todo sistema digital começa com um código. As plataformas foram projetadas para maximizar a coleta de atenção, com o engajamento como valor supremo e as crianças como audiência colateral de um modelo desenhado para adultos. A Lei 15.211, o ECA Digital, propõe uma virada: o código deve carregar, em sua própria estrutura, o dever de cuidar para que a internet se torne um lugar seguro também para os mais vulneráveis.

NYT: Eduardo e Flávio Bolsonaro pressionam governo Trump a classificar PCC e CV como terroristas
Essa mudança de paradigma deve-se ao esforço da sociedade civil e da academia brasileira. A lei atingiu um feito nada trivial: regular de forma equilibrada o ambiente digital, considerando o potencial conflito entre direitos fundamentais. Aqui a verificação de idade é um bom exemplo: ao exigi-la para acesso a conteúdos adultos, reforça a segurança para os menores ao mesmo tempo que prevê garantias de privacidade para impedir a vigilância.

Relatório de CPI: Testemunha citou pagamentos de R$ 300 mil mensais de 'Careca do INSS' a Lulinha
O ECA Digital representa também uma ruptura com uma lógica reativa, adotando uma abordagem preventiva e estrutural, seja ao vedar a publicidade comportamental dirigida a crianças, proibir as loot boxes em jogos para esse público ou ao estabelecer mecanismos de supervisão parental.

A regulamentação publicada pelo governo federal é fundamental para detalhar a aplicação da lei. O primeiro eixo da regulamentação é a segurança embutida na arquitetura dos serviços, mecanismo chamado safety by design. O decreto impõe às plataformas obrigações concretas em seus artigos 9, 10 e 11: restringir o acesso de menores a conteúdos impróprios, adotar configurações protetivas já na interface e implementar mecanismos para evitar seu uso excessivo, problemático ou compulsivo.

O segundo eixo trata da prestação de contas das plataformas. Plataformas e seus algoritmos são opacos. Suas decisões sobre o que amplificar e a quem recomendar determinado conteúdo não são visíveis. Como regular aquilo que nem sequer conseguimos observar? É preciso construir capacidade sistemática para ampliar a “observabilidade” da sociedade ao longo do tempo. O ECA Digital caminha nessa direção, ao estabelecer um capítulo dedicado à prestação de contas e à transparência, que traz dispositivos sobre acesso a dados de pesquisa e relatórios de impacto. Além disso, inova nas regras de moderação de conteúdo, estabelecendo o procedimento de notice and take down, fundamental para mitigar os danos da circulação de conteúdos ilícitos.

O terceiro eixo é a supervisão, cuja competência foi atribuída à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD). A ANPD é a escolha certa, um regulador brasileiro independente e adaptado ao ambiente digital. Com corpo técnico especializado em proteção de dados e ambiente digital, a agência reúne as condições institucionais para supervisionar obrigações complexas e dialogar tecnicamente com as plataformas. A centralização da supervisão num único órgão independente é, em si, um avanço estrutural que outros países ainda buscam.

Celebrar o avanço não significa ignorar os desafios. As obrigações da lei exigirão da ANPD capacidade técnica avançada e colaboração internacional, além de habilidade de inovar nos métodos de aplicação, como por meio de instrumentos de corregulação, de que as empresas precisam participar.

Um dos desafios urgentes é comunicar corretamente o que a lei diz e, sobretudo, o que ela não diz. Já circulam campanhas de desinformação distorcendo o conteúdo da legislação, como a de que ela inviabilizaria sistemas de código aberto. Como toda lei, essa também demandará a partir de agora implementação equilibrada e proporcional, e isso exige, sobretudo, que se comunique adequadamente sobre o que ela realmente dispõe.

*Laura Schertel Mendes, advogada especialista em Direito Digital, é professora da UnB e do IDP, presidente da Comissão de Direito Digital da OAB Federal e diretora do Centro de Direito, Internet e Sociedade (Cedis/IDP)
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April 3, 7:38 AM
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Sue Roffey: Escola não pode piorar prejuízo à saúde mental

Sue Roffey: Escola não pode piorar prejuízo à saúde mental | Inovação Educacional | Scoop.it

A preocupação com a saúde mental de estudantes não é nova na educação e foi intensificada pelo isolamento da pandemia. Mas, para a pesquisadora britânica Sue Roffey, referência internacional no estudo da relação entre o aprendizado e o bem-estar escolar, falta preparar os educadores para manter relações positivas com os alunos e lidar bem com comportamentos desafiadores.
"Incluir isso na formação docente no Brasil seria um excelente começo", afirma, destacando que criar espaço para a dimensão socioemocional não depende de professores isolados, mas de uma abordagem de toda a escola.
Aos 78 anos, a psicóloga educacional é professora honorária da University College London, fellow da Sociedade Britânica de Psicologia e integra o grupo de especialistas sobre a infância da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, que reúne mais de 30 países).
Depois de trabalhar como professora na Inglaterra, Roffey se mudou para a Austrália, no início dos anos 2000, onde fundou uma rede voltada ao bem-estar na educação e um projeto para promover a autoconfiança de meninas aborígenes no ensino médio.
Em 2017, retornou à Inglaterra, onde segue desenvolvendo pesquisas e militando pelo cuidado com bem-estar e a saúde mental nas escolas.
Doutora em psicologia educacional, Roffey é autora de mais de 20 livros, nos quais desenvolve suas teorias, sendo a principal delas a "Circle Solutions" (soluções em círculo), que estimula rodas de conversa entre alunos, com professores formados para potencializar essas atividades. Ela sistematizou sua metolodogia para fomentar os princípios que devem ser desenvolvidos entre crianças e jovens, chamados por ela de ASPIRE (Autonomia, Segurança, Positividade, Inclusão, Respeito e Equidade).
Seus livros são referências para a educação positiva, baseada na ideia de que o desenvolvimento acadêmico é favorecido por um ambiente em que os alunos se sintam bem, criem vínculos e busquem não apenas o sucesso individual mas contribuam para o bem-estar coletivo.
Ela esteve em São Paulo para participar de um evento promovido no sábado (28) pela escola Pueri Domus, que recebeu um prêmio internacional (status prata dentre os níveis ouro, prata e bronze) concedido pelo Centro de Excelência Carnegie para Saúde Mental nas Escolas, da Universidade Leeds Beckett, do Reino Unido.
A premiação, que tem Roffey como membro de seu conselho consultivo, é concedida a escolas com projetos que promovam a saúde mental. O encontro foi organizado em parceria com a Faculdade Sírio-Libanês.
Roffey falou à Folha de métodos para melhorar o bem-estar escolar.
As escolas foram vistas por muito tempo como locais de aquisição de conteúdos e de disciplina comportamental. Quando e por que surgiu a ideia de que é necessário se voltar ao bem-estar dos alunos?
Nos últimos 25 anos, tem havido um reconhecimento crescente, com base em pesquisas, de que crianças e jovens aprendem melhor quando têm uma percepção positiva de si mesmos, sentem-se seguros e estão inseridos em relações de apoio. Algumas pessoas focam apenas o desempenho acadêmico ou apenas o bem-estar. É uma falsa dicotomia. Os dois aspectos se influenciam mutuamente. No entanto, a preocupação com a saúde mental dos jovens foi intensificada pela pandemia.

Embora a atenção às questões socioemocionais tenha aumentado pós-pandemia, muitas escolas permanecem fortemente focadas no desempenho dos alunos em notas, provas, vestibulares etc.
Talvez precisemos começar pela pergunta "para que serve a educação?" Na minha visão, ela tem o objetivo de permitir que cada estudante se torne a melhor versão de si mesmo e de ajudar a construir o mundo em que queremos viver. Quando os educadores focam apenas o desempenho acadêmico em um ambiente competitivo, muitos jovens passam a se ver como fracassados, porque suas conquistas, talentos e pontos fortes não são reconhecidos. Precisamos encontrar melhores formas de garantir que sejam. É necessário ampliar a educação para incluir um conjunto muito mais diverso de habilidades e encontrar caminhos para que os alunos demonstrarem essa aprendizagem mais ampla.

A autonomia é fundamental. Se queremos uma democracia melhor, precisamos promover a voz dos estudantes, a escolha e o pensamento crítico. Em um mundo em que a informação está disponível a um clique, não faz sentido depender da memorização para reproduzir conteúdos. O que realmente importa é a aplicação do conhecimento.


Como a sra. avalia o risco de que a valorização dos aspectos socioemocionais não passe de retórica ou marketing?
O bem-estar e as questões socioemocionais precisam envolver a escola como um todo: todos os alunos, todos os professores, todos os dias.

Veja o exemplo das escolas do nosso projeto "Love of Learning" [Amor pela Aprendizagem, que mapeou escolas com boas práticas nessa área]. Essas escolas começaram com a crença no desenvolvimento integral da criança, construindo sistemas baseados em relações saudáveis.

Meu trabalho incorpora os princípios ASPIRE para os alunos, que são: Autonomia, Segurança, Positividade, Inclusão, Respeito e Equidade. Quando esses elementos estão presentes em toda a escola, todos têm mais chances de prosperar e aprender, mesmo em contextos vulneráveis.

Diante do aumento dos desafios socioemocionais nas escolas no pós-pandemia e com o uso excessivo de telas, há educadores e gestores que reagem dizendo que "escola não é clínica" e "não somos profissionais de saúde mental". Como a sra. vê essa resistência?
De fato, professores não precisam ser terapeutas. Mas precisam entender o impacto de suas palavras nos alunos. Não se trata de fazer mais coisas, mas de fazer algumas coisas de forma diferente, e isso se baseia tanto no bom senso quanto nos avanços da neuropsicologia. Todos os professores em formação precisam aprender a construir e a manter relações positivas com os alunos e a lidar bem com comportamentos desafiadores. Isso reduz problemas de comportamento em sala e melhora o engajamento.


Unidade da Escola Bilíngue Pueri Domus em São Paulo; a escola recebeu prêmio do Centro de Excelência Carnegie para Saúde Mental nas Escolas, da Universidade Leeds Beckett, do Reino Unido - Divulgação
Muitas escolas se sentem perdidas diante da crescente complexidade das questões emocionais que afetam os alunos. Como enfrentar isso?
É preciso garantir que a escola não agrave fatores negativos que possam ter impacto na saúde mental. Isso inclui reduzir a competição acadêmica, aumentar o prazer na aprendizagem (por exemplo, com projetos em grupo) e prevenir o bullying. É importante criar espaços para discutir questões mais amplas que impactam ansiedade e depressão, como mudanças climáticas, redes sociais e misoginia, com foco em discutir soluções, para que os estudantes vejam que não estão sozinhos e compartilhem ideias para construir a resiliência. E tudo isso não depende de professores isolados, mas de uma abordagem de toda a escola.

A sra. defende o método Circle Solutions [soluções em círculo]. Colocar os alunos em roda nas aulas já é comum, mas a sra. deixa claro que é preciso que os educadores sejam formados para essas práticas, para amplificar seus ganhos. Como fazer isso em países como o Brasil, com um sistema de ensino complexo e desigual?
Circle Solutions é um modelo de aprendizagem socioemocional seguro, focado em soluções e baseado nos pontos fortes dos participantes. Ele promove discussão, reflexão e ação em relação a temas importantes para os jovens. Não exige recursos extras, apenas a crença de que isso importa e habilidades de facilitação dessas práticas. É um sistema em cascata. Treinei muitas pessoas para fazer isso em suas aulas, mas também formei formadores que podem não apenas capacitar a equipe, mas também apoiar e monitorar os resultados. Isso foi implementado em países como Dinamarca, China, Austrália e no Reino Unido. E o feedback é que funciona, especialmente na promoção de um senso de pertencimento, algo tão essencial para a saúde mental e o bem-estar. Incluir isso na formação docente no Brasil seria um excelente começo.

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Como criar um ambiente escolar livre de bullying


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Como a sra. vê o movimento de proibição de celulares nas escolas e do veto a redes sociais para menores de 16 anos?
Sou a favor da proibição dos celulares. Eles distraem do que está acontecendo no mundo real, dificultam interações presenciais e expõem jovens a conteúdos negativos, com algoritmos que limitam sua visão de mundo. Também por isso defendo o veto das redes sociais para menores de 16.

E a educação midiática é essencial. As mídias influenciam fortemente como as pessoas veem a si mesmas, aos outros e ao mundo –e as empresas exploram isso de acordo com seus interesses.

Os jovens precisam aprender a diferenciar fato de opinião e compreender evidências científicas. Isso deve começar cedo, e os alunos devem ser ativos na produção de conteúdos e debates sobre essas temáticas.

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April 3, 7:22 AM
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Arymax - [Estudo] Inclusão produtiva e economia do cuidado

Quem cuida sustenta a vida, a economia e o futuro do país. Ainda assim, o cuidado permanece, em grande medida, invisibilizado, desigualmente distribuído e insuficientemente estruturado como campo de políticas públicas, investimentos e oportunidades produtivas.

No Brasil, 1 em cada 4 pessoas trabalha no campo dos cuidados, e todas as famílias, em diferentes momentos, vivenciam demandas relacionadas a cuidar ou ser cuidado. Em 2024, o país avançou de forma significativa com a implementação da Política Nacional de Cuidados, que reconhece o cuidado como um direito universal e propõe a corresponsabilização entre Estado, famílias, comunidades e mercado. Trata-se de um campo em franca expansão, com elevada relevância social, impacto direto sobre a inclusão produtiva e expressivo potencial econômico.
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April 3, 7:20 AM
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PIX Desafia Gigantes Globais de Pagamentos

PIX Desafia Gigantes Globais de Pagamentos | Inovação Educacional | Scoop.it
O Brasil produziu, quase sem fazer barulho internacional proporcional ao feito, uma das maiores inovações financeiras das últimas décadas: o PIX. Criado pelo Banco Central do Brasil, o sistema de pagamentos instantâneos não apenas modernizou a infraestrutura financeira do país, como também colocou o setor público brasileiro em competição direta com gigantes globais como Visa e Mastercard.

Essas empresas construíram ao longo de décadas um império baseado em redes privadas de pagamentos, com forte poder de mercado, escala global e marcas reconhecidas. Operam como intermediárias essenciais nas transações eletrônicas, capturando taxas em praticamente cada pagamento feito com cartão. É um modelo altamente lucrativo, sustentado por barreiras de entrada tecnológicas, regulatórias e de rede.

O PIX rompe com essa lógica ao propor algo quase herético no mundo financeiro: uma infraestrutura pública, aberta, interoperável e de custo extremamente baixo. Em vez de depender de redes privadas fechadas, o sistema conecta diretamente bancos, fintechs e usuários, permitindo transferências instantâneas, 24 horas por dia, sete dias por semana, sem a necessidade de intermediários tradicionais.

Na prática, o que o PIX fez foi desintermediar uma parte relevante do mercado de pagamentos. Transações que antes passavam por adquirentes, bandeiras e emissores agora podem ocorrer diretamente entre contas, com liquidação quase imediata. Isso reduz custos para empresas, elimina fricções para consumidores e aumenta a eficiência geral da economia.
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April 3, 7:19 AM
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Pupils in England are losing their thinking skills because of AI, survey suggests

Pupils in England are losing their thinking skills because of AI, survey suggests | Inovação Educacional | Scoop.it
Two-thirds of secondary school teachers report a decline in core abilities such as writing and problem-solving
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April 3, 7:17 AM
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Generation AI starts early: A guide to technologies already shaping young children's lives

Generation AI starts early: A guide to technologies already shaping young children's lives | Inovação Educacional | Scoop.it
This explainer illustrates the AI-embedded products that are already in young children’s lives and outlines what adults should consider before bringing any of these tools into a child’s world—whether at home, preschool, or in childcare.
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April 3, 7:02 AM
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Microsoft ConectAI | Professores

Microsoft ConectAI | Professores | Inovação Educacional | Scoop.it
Explore trilhas de aprendizado em diversas áreas da tecnologia, desde fundamentos da computação até tópicos avançados como inteligência artificial e ciência de dados. Aqui você terá acesso a recursos de alta qualidade para aprimorar suas habilidades digitais, inovar suas aulas e inspirar seus alunos a se tornarem cidadãos digitais confiantes e preparados para o futuro.
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April 3, 7:00 AM
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Ganhadores do Nobel falam sobre impacto da IA

Ganhadores do Nobel falam sobre impacto da IA | Inovação Educacional | Scoop.it

Esther Duflo e Abhijit Banerjee, ganhadores do Prêmio Nobel de Economia em 2019, avaliam que a inteligência artificial pode acabar com uma série de empregos e aumentar a desigualdade social no Brasil.
"Você não vai precisar de pessoas para fazer contabilidade porque a IA vai fazer melhor. Você não vai precisar de pessoas para fazer pesquisas jurídicas porque a IA vai fazer melhor, e acho que isso deve acontecer para toda uma classe de empregos", diz Banerjee.
O casal de economistas esteve no Brasil nesta quarta-feira (25), em evento na Pinacoteca, em São Paulo (SP). A cerimônia marcou o início da Lemann Collaborative, uma iniciativa com o objetivo de apoiar a formulação de melhores políticas públicas no Brasil.
A Lemann Collaborative faz parte da Fundação Lemann, organização filantrópica familiar liderada pelo empresário Jorge Paulo Lemann. A cooperação terá parceria com a Universidade de Zurique (Suíça) e com o J-PAL (Laboratório de Ação contra a Pobreza Abdul Latif Jameel), liderado por Banerjee e Duflo.
No evento, o casal conversou com a Folha e avaliou que os empregos voltados à população de classe média poderão ser perdidos com o avanço da IA. Para Banerjee, o declínio desse tipo de trabalho, realizado em escritórios, deve ser mais rápido que a queda de trabalhos braçais, que também poderão ser substituídos, porém mais lentamente.
Duflo afirma que, no Brasil, a situação pode ser mais prejudicial devido à dependência da economia de serviços.
"No Brasil, essa classe de trabalho baseada em serviços serve como um grande trampolim para pessoas de classe baixa ascenderem à classe média. Na medida em que esses empregos são os mais invadidos pela IA, isso vai criar um grande buraco onde as pessoas poderiam começar a subir na escala social. Então, isso tornaria o Brasil um lugar pior", afirma.
Por outro lado, a economista também avalia que a IA pode ajudar o Brasil a crescer no mercado de serviços por quebrar barreiras linguísticas. Nesse sentido, o país pode competir por um conjunto de empregos que prestam serviços internacionais, hoje dominados por países de língua inglesa.
GANHADORES DO PRÊMIO NOBEL
O casal ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 2019, juntamente com o economista americano Michael Kremer. Na ocasião, o prêmio foi concedido porque os economistas fizeram experimentos educacionais em países pobres, como o Quênia e a Índia, e tiveram resultados positivos.
Durante o estudo, os ganhadores evidenciaram que refeições gratuitas em escolas e mais livros didáticos no currículo escolar são eficazes para a aprendizagem desses alunos, especialmente para os que têm maiores dificuldades de aprendizado.

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April 3, 6:55 AM
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Escrever ainda é humano? Como explosão de textos gerados por IA pode 'padronizar’ a linguagem

Escrever ainda é humano? Como explosão de textos gerados por IA pode 'padronizar’ a linguagem | Inovação Educacional | Scoop.it

Não é apenas sobre usar inteligência artificial para escrever. É sobre o impacto disso na nossa forma de se expressar — mesmo sem perceber. E com consequências silenciosas
Um texto gerado por inteligência artificial é gramaticalmente correto, costuma ter alguma clareza e, bem ou mal, é eficiente. Também economiza tempo e esforço do humano que está por trás. Com poucas palavras (que podem ser enviadas até por áudio), é possível gerar um e-mail educado, uma publicação “viralizável” no LinkedIn, uma apresentação no trabalho ou uma declaração de amor.
Não há tarefa textual que uma IA não aceite executar. Juntar palavras com base em probabilidade e fazer o resultado soar humano e coerente, afinal, é o que esses sistemas foram projetados para fazer. Isso inclui revisar, editar, sugerir, pesquisar ou criar do zero. O resultado é que cada vez mais textos que circulam no mundo, seja nas redes sociais, em publicações científicas ou em e-books na Amazon, têm uma certa “voz” da IA.
Quanto menor a intervenção humana, mais evidente a origem. Alguns formatos argumentativos já são tão comuns quanto cansativos. Há também expressões que não saem da boca dos robôs: uma mudança “silenciosa", um processo “invisível" e um problema sempre "oculto”. Isso sem falar na insistência por alguns recursos estilísticos — o querido travessão levou a má fama, mas não é só ele.
Quer um exemplo? A frase logo abaixo desse título (no jargão do jornalismo, a linha fina). Essa é uma tentativa humana de demonstrar o "puro suco" de IA: "Não é apenas sobre usar inteligência artificial para escrever. É sobre o impacto disso na nossa forma de se expressar — mesmo sem perceber. E com consequências silenciosas". Se soa familiar, não é um acaso.
O padrão ‘IA’ de escrever
Em março, uma publicação da Nature com algumas pesquisas científicas sobre o tema sugeriu que estaríamos diante de uma “padronização” ou "pasteurização da escrita humana, que influencia também quem não usa IA. A lógica é a de que a repetição torna determinadas expressões e padrões socialmente aceitos e comuns. A tendência das pessoas, então, seria reproduzi-los.
Um dos estudos citados mapeou palavras que a IA mais repete ao revisar textos em inglês. Depois, as rastreou em mais de 360 mil vídeos e 771 mil podcasts, e comparou a incidência delas antes e depois de 2022 (ou seja, pré e pós-ChatGPT). O resultado é que mais pessoas têm adotado termos que são parte do “dicionário anglófono da IA", mas que antes não eram tão comuns.
Na língua inglesa, um dos casos mais conhecidos é o da palavra “delve" ("mergulhar", em português). Em artigos científicos na área médica, a presença da expressão que é uma das preferidas do ChatGPT aumentou 1.500% entre 2022 e 2024.
Professora de sociolinguística da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Raquel Freitag lembra que a IA costuma reproduzir fórmulas que aprendeu com humanos. Esse é o caso da argumentação por inclusão (não é apenas X, é também Y) e por contraste (não é X, é Y). É por isso que o Linkedin às vezes parece um “grande pacote de redações de vestibulandos", brinca ela.
— Para quem é proficiente na escrita e na leitura, a IA pode ampliar capacidades. O grande gargalo é de quem não é fluente. A pessoa fica estagnada quando não tem a ferramenta— afirma Freitag, que avalia que há uma tendência de “pasteurização”, mas de forma desigual.
De quem é esse texto?
Além da forma mais direta de copiar e colar um texto completamente gerado por uma IA, a produção com essas ferramentas assume formatos variados. Há o texto que é feito pela inteligência artificial a partir de alguns comandos e depois editado e adaptado pelo usuário, e também o contrário — o rascunho humano que é lapidado pela IA.
Diogo Cortiz, professor da PUC-SP e pesquisador do NIC.br., ressalta que ferramentas mais personalizáveis, capazes de imitar o estilo de escrita de cada usuário, tendem a dificultar a separação do que é um texto escrito com inteligência artificial ou não. Para ele, esse é um dos motivos pelos quais ferramentas de detecção de IA tendem a se tornar obsoletas:
— Esse é um barco que já partiu. A gente vai ter que aceitar que não vai conseguir afirmar com segurança se um texto é de IA ou não. Com a personalização, isso só vai ficar mais difícil. Acho que a questão maior é discutir a autoria, o que é o ato de escrever — sugere o pesquisador.
Na semana passada, um caso no Reino Unido expôs esse impasse. Depois de levantar a suspeita de leitores pelas metáforas estranhas e frases que se repetiam, o romance de terror “Shy Girl” foi avaliado em detectores que apontaram que 78% da obra tinha sido gerada por IA. A editora retirou o livro de circulação enquanto a autora negou o uso de ferramentas e alegou que eventuais intervenções com IA poderiam ter sido feitas por um editor.
Escrever é humano
Em “Escrever é humano: Como dar vida à sua escrita em tempo de robôs” (Companhia das Letras), o escritor e jornalista Sérgio Rodrigues define a produção das máquinas como uma antiliteratura, o oposto da arte feita com palavras. Mesmo que a inteligência artificial seja capaz de produzir resumos, legendas, relatórios, manuais, sinopses ou dissertações.
— A IA não escreve. Ela copia e matraqueia uma pasta de linguagem. Isso é escrever? Não, é produzir um texto. Escrever é se expressar, descobrir coisas, interagir no mundo, assumir responsabilidade por uma ideia, divulgar essa ideia, ter uma intenção — diz ele.
Desde que lançou o livro, o escritor mantém a avaliação de que máquinas não produzem arte, mesmo que romances feitos com robôs enganem leitores menos exigentes e que IAs estejam mais eficientes em imitar humanos. Fora da literatura, em contextos utilitários, ele vê uma batalha perdida:
— É uma vitória da IA que me parece incontestável e inevitável. Cada vez mais gente terceiriza. O que não era possível ver àquela altura (em que o livro foi escrito) é o quanto isso vai provocar uma atrofia na nossa espécie, com as atividades cognitivas que até hoje eram humanas sendo feitas pela inteligência artificial.
Em um artigo recente no The New York Times, o professor de ciência da computação na Georgetown University, Cal Newport, chama o momento atual de uma “crise cognitiva”, que começou com interrupções constantes de e-mails e mensagens, degringolou com as redes sociais e agora se aprofunda com a IA. O resultado é que cada vez menos conseguimos pensar com profundidade e manter a concentração em algo.
Contra isso, uma das propostas dele é: escreva. Produzir um texto claro equivale a um treino mental, diz Newport, não a um problema a ser eliminado.

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April 3, 6:48 AM
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Estratégia Nacional de CT&I impulsiona novo ciclo de desenvolvimento e soberania no Brasil —

Estratégia Nacional de CT&I impulsiona novo ciclo de desenvolvimento e soberania no Brasil — | Inovação Educacional | Scoop.it
Construída a partir das diretrizes da 5ª Conferência Nacional de CT&I, um amplo processo participativo, que contou com contribuições de mais de 100 mil pessoas, a estratégia define como missão transformar conhecimento em soluções tecnológicas a serviço da sociedade, orientando um projeto nacional baseado em inclusão, sustentabilidade e soberania. A ENCTI destaca que o Brasil vive um momento decisivo diante de transformações como a digitalização acelerada, a crise climática e disputas geopolíticas por domínio tecnológico. Nesse contexto, o documento reforça a necessidade de fortalecer o Sistema Nacional de CT&I, ampliar investimentos em pesquisa e inovação e transformar capacidades científicas consolidadas em competitividade e desenvolvimento social.  
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