Para especialistas, a baixa ocupação do programa demonstra um erro de concepção da política por ter critérios que excluem parcela significativa daqueles que ingressam nas licenciaturas e ainda por ser insuficiente para atrair jovens com bom desempenho para a docência. Em nota, o MEC disse que abriu uma segunda chamada para tentar incluir novos estudantes no programa. A pasta informou, no entanto, que o número de matriculados em licenciaturas presenciais com nota maior do que 650 é de pouco mais de 9.000 estudantes —o que ainda representa apenas 75% das bolsas ofertadas. O Pé de Meia Licenciaturas foi lançado em janeiro pelo presidente Lula (PT) dentro do programa Mais Professores, que prevê uma série de outras ações para aumentar a valorização dos docentes da educação básica. A bolsa prevê o pagamento de um auxílio mensal de R$ 1.050, dividido em duas parcelas, uma de R$ 700 para saque imediato e outra de R$ 350 que ficará reservada como em uma poupança. Ao fim da graduação e ao ir trabalhar em alguma escola pública, o beneficiário pode sacar o valor acumulado. Além da pontuação mínima no Enem, a bolsa também é voltada apenas para quem fizer licenciatura em cursos presenciais e tiver sido aprovado pelo Sisu (Sistema de Seleção Unificada), Prouni (Programa Universidade para Todos) ou pelo Fies (Financiamento Estudantil). Dos 6.532 selecionados para receber a bolsa, apenas 14 entraram nos cursos pelo Prouni. Dos beneficiários do Fies, nenhum foi selecionado. Esses dois programas dão acesso a vagas em faculdades particulares. Rodrigo Capelato, diretor do Semesp (sindicato dos donos de instituições de ensino privadas), diz que o programa erra ao excluir a maior parcela dos alunos desses cursos, que estudam na modalidade a distância.
O que acontece quando a maioria faz uso de uma IA para realizar suas atividades laborais? E, no caso dos estudantes, quando os trabalhos passam a ser produzidos com o apoio de uma IA generativa? Luciano Sathler É PhD em administração pela USP e membro do Conselho Deliberativo do CNPq e do Conselho Estadual de Educação de Minas Gerais As diferentes aplicações de Inteligência Artificial (IA) generativa são capazes de criar novos conteúdos em texto, imagens, áudios, vídeos e códigos para software. Por se tratar de um tipo de tecnologia de uso geral, a IA tende a ser utilizada para remodelar vários setores da economia, com impactos políticos e sociais, assim como aconteceu com a adoção da máquina a vapor, da eletricidade e da informática. Pesquisas recentes demonstram que a IA generativa aumenta a qualidade e a eficiência da produção de atividades típicas dos trabalhadores de colarinho branco, aqueles que exercem funções administrativas e gerenciais nos escritórios. Também traz maior produtividade nas relações de suporte ao cliente, acelera tarefas de programação e aprimora mensagens de persuasão para o marketing. O revólver patenteado pelo americano Samuel Colt, em 1835, ficou conhecido como o "grande equalizador". A facilidade do seu manuseio e a possibilidade de atirar várias vezes sem precisar recarregar a cada disparo foram inovações tecnológicas que ampliaram a possibilidade individual de ter um grande potencial destrutivo em mãos, mesmo para os que tinham menor força física e costumavam levar desvantagem nos conflitos anteriores. À época, ficou famosa a frase: Abraham Lincoln tornou todos os homens livres, mas Samuel Colt os tornou iguais. Não fazemos aqui uma apologia às armas. A alegoria que usamos é apenas para ressaltar a necessidade de investir na formação de pessoas que sejam capazes de usar a IA generativa de forma crítica, criativa e que gerem resultados humanamente enriquecidos. Para não se tornarem vítimas das mudanças que sobrevirão no mundo do trabalho. A IA generativa é um meio viável para equalizar talentos humanos, pois pessoas com menor repertório cultural, científico ou profissional serão capazes de apresentar resultados melhores se souberem fazer bom uso de uma biblioteca de prompts. Novidade e originalidade tornam-se fenômenos raros e mais bem remunerados. A disseminação da IA generativa tende a diminuir a diversidade, reduz a heterogeneidade das respostas e, consequentemente, ameaça a criatividade. Maior padronização tem a ver com a automação do processo. Um resultado que seja interessante, engraçado ou que chama atenção pela qualidade acima da média vai passar a ser algo presente somente a partir daqueles que tiverem capacidade de ir além do que as máquinas são capazes de entregar. No caso dos estudantes, a avaliação da aprendizagem precisa ser rápida e seriamente revista. A utilização da IA generativa extrapola os conceitos usualmente associados ao plágio, pois os produtos são inéditos – ainda que venham de uma bricolagem semântica gerada por algoritmos. Os relatos dos professores é que os resultados melhoram, mas não há convicção de que a aprendizagem realmente aconteceu, com uma tendência à uniformização do que é apresentado pelos discentes. Toda Instituição Educacional terá as suas próprias IAs generativas. Assim como todos os professores e estudantes. Estarão disponíveis nos telefones celulares, computadores e até mesmo nos aparelhos de TV. É um novo conjunto de ferramentas de produtividade. Portanto, o desafio da diferenciação passa a ser ainda mais fundamental diante desse novo "grande equalizador". Se há mantenedores ou investidores sonhando com a completa substituição dos professores por alguma IA já encontramos pesquisas que demonstram que o uso intensivo da Inteligência Artificial leva muitos estudantes a reduzirem suas interações sociais formais ao usar essas ferramentas. As evidências apontam que, embora os chatbots de IA projetados para fornecimento de informações possam estar associados ao desempenho do aluno, quando o suporte social, bem-estar psicológico, solidão e senso de pertencimento são considerados, isso tem um efeito negativo, com impactos piores no sucesso, bem-estar e retenção do estudante. Para não cair na vala comum e correr o risco de ser ameaçado por quem faz uso intensivo da IA será necessário se diferenciar a partir das experiências dentro e fora da sala de aula – online ou presencial; humanizar as relações de ensino-aprendizagem; implementar metodologias que privilegiem o protagonismo dos estudantes e fortaleçam o papel do docente no processo; usar a microcertificação para registrar e ressaltar competências desenvolvidas de forma diferenciada, tanto nas hard quanto soft skills; e, principalmente, estabelecer um vínculo de confiança e suporte ao discente que o acompanhe pela vida afora – ninguém mais pode se dar ao luxo de ter ex-alunos. Atenção: esse artigo foi exclusivamente escrito por um ser humano. O editor, Michael França, pede para que cada participante do espaço "Políticas e Justiça" da Folha sugira uma música aos leitores. Nesse texto, a escolhida por Luciano Sathler foi "O Ateneu" de Milton Nascimento.
A ideia de aposentadoria como sinônimo de descanso tem ficado para trás com o aumento da longevidade no país. O brasileiro vive mais, chega à maturidade com melhores condições de saúde e segue cada vez mais presente no mercado de trabalho, seja por necessidade, realização financeira ou desejo pessoal.
O número de profissionais acima dos 50, 60 e 70 anos que buscam novas ocupações formais vem crescendo. Em 2024, o Brasil registrou o maior nível de ocupação de pessoas com 60 anos ou mais desde o início da série histórica do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística): 24,4%. Na prática, uma em cada quatro pessoas nesta idade estava trabalhando.
Dados da Receita Federal indicam que a receita das empresas de apostas online licenciadas dobrou nos quatro primeiros meses deste ano em relação ao mesmo período de 2025. Isso ocorreu apesar de restrições do governo e da Justiça a apostas feitas por beneficiários de programas sociais e endividados.
A arrecadação com impostos sobre apostas saltou de R$ 2,2 bilhões nos primeiros quatro meses do ano passado para R$ 4,5 bilhões em igual intervalo de 2026. O montante arrecadado neste ano já fica próximo às contribuições feitas pela indústria do tabaco e pela agricultura, que pagam cerca de R$ 1 bilhão por mês em impostos cada.
Levando em consideração que a contribuição das casas de apostas ao fisco representa 37% da receita delas, as bets tiveram uma receita de R$ 12,2 bilhões no primeiro quadrimestre deste ano.
When workers become overreliant on AI, there’s a risk of significant skills collapse. Workers may fall victim to “AI gravity” — the constant pressure to outsource more thinking to AI in order to become more efficient. Individuals and organizations can take specific actions to protect cognitive capital and preserve institutional knowledge, says MIT Sloan School of Management professor Eric So.
A partir das narrativas dessas participantes, buscamos compreender não apenas a ausência paterna como um fato biográfico, mas seus efeitos subjetivos. Isto é, como ela é sentida, interpretada e elaborada ao longo do tempo.
Os relatos mostram que a ausência do pai raramente é vivida apenas como distância física. Nos relatos, ela ganha o significado de abandono, especialmente quando associada à sensação de não ter sido escolhida ou desejada.
A Operação Fluxo Oculto apontou que 6 empresas do setor movimentaram R$ 26 bilhões para organizações criminosas. Papel crescente do setor financeiro nos negócios das facções acende alerta entre autoridades e mobiliza o próprio mercado financeiro após os EUA classificarem PCC e CV como terroristas.
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“Há muita gente que entende que a democracia está sendo atingida por uma crise. Não é essa a minha convicção. Acho que a democracia está em transformação.” A opinião é de Vitalino Canas, jurista, professor e presidente do Fórum de Integração Brasil Europa (FIBE).
Em entrevista à Revista Problemas Brasileiros e ao Canal UM BRASIL — ambas realizações da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) —, gravada em Lisboa, Canas explica que a dinâmica própria do funcionamento democrático está passando por mudanças que estão impactando quase todos os sistemas de governo mundo afora, inclusive no Brasil.
“O que acontece é que a fragmentação do sistema partidário, que não vem de hoje — trata-se de uma característica própria do sistema político brasileiro —, agora se traduz em menores condições de governabilidade”, acredita o jurista.
*crédito foto: Carolina Ferreira
Confira o que você vai encontrar nesta entrevista:
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1:03 - Quais os problemas de governabilidade do Brasil e as alternativas de revisão?
6:56 - O conceito "Presidentes Governantes" supera a divisão clássica de sistemas de governo?
12:21 - Como a personificação excessiva do poder no Executivo corrói a democracia?
19:12 - Como a Europa e Portugal lidam com o aumento da imigração brasileira?
25:08 - Como o relacionamento entre Brasil e Portugal pode ser aprimorado?
28:04 - Como a digitalização ameaça os direitos fundamentais nas relações de trabalho?
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O mundo está vivendo um momento de ascensão de líderes autoritários que se aproveitam do próprio jogo democrático. A origem desse fenômeno pode estar na insatisfação da população quanto às instituições. É o que explica Germano Almeida, analista de política internacional e autor do livro O colapso da verdade, lançado em Portugal no ano passado.
Em entrevista ao Canal UM BRASIL e à Revista Problemas Brasileiros — ambas realizações da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) —, Almeida analisa, ainda, os rumos da nova ordem internacional e as pressões sobre o multilateralismo.
*crédito foto: Carolina Ferreira
O que você vai encontrar nessa entrevista:
0:00 - Abertura
1:00 - O mundo se tornou um lugar mais complexo de entender nos últimos 20 anos?
6:58 - Por que o Brasil e o Sul Global devem prestar mais atenção aos desdobramentos da guerra na Ucrânia?
14:01 - A unidade da União Europeia está em risco diante das recentes instabilidades internas e geopolíticas?
19:10 - O que o novo cenário de poder das grandes potências mundiais significa para o futuro do Brasil e do Sul Global?
21:30 - Existe ainda espaço para o centro moderado ou as democracias falharam em oferecer uma alternativa à polarização?
25:49 - Como enfrentar as mentiras e o messianismo na política atual?
Em última análise, não é necessário enquadrar o trabalho autônomo no vínculo empregatício para que os trabalhadores desfrutem de proteções que, de resto, são oferecidas pelo sistema previdenciário. Uma discussão decisiva para a construção de modelos de trabalho mais inclusivos.
– Content (Conteúdo) abrange os riscos decorrentes da exposição a materiais inadequados ou prejudiciais à faixa etária, como conteúdos violentos, sexualizados ou discriminatórios;
– Contact (Contato) refere-se aos riscos associados a interações potencialmente danosas com terceiros, incluindo assédio, aliciamento e perseguição;
– Conduct (Conduta) envolve os riscos relacionados ao comportamento dos próprios usuários ou às interações entre pares, como cyberbullying, discursos de ódio e práticas que possam gerar danos físicos ou psicológicos;
– Contract (Contrato) compreende os riscos derivados das relações contratuais e comerciais mediadas por plataformas, como exploração econômica, jogos de azar, práticas publicitárias predatórias e coleta excessiva de dados.
Nesse sentido, uma das premissas centrais do ECA Digital é a imposição de mecanismos de aferição de idade, sendo vedada a autodeclaração para conteúdos vedados por lei aos menores de idade, como pornografia e apostas. Isso cria um dilema regulatório inevitável. Para proteger esse público vulnerável, plataformas precisam distingui-lo de adultos, mas mecanismos rígidos de verificação podem ampliar a coleta de dados (inclusive sensíveis) e aumentar riscos de vigilância. Por isso, o estatuto não impõe tecnologia única e remete à regulamentação a definição de critérios proporcionais.
O ponto de equilíbrio para as empresas está em entender que transparência não significa abrir o algoritmo, mas explicar a lógica da decisão. Para tanto, isso inclui indicar quais categorias de dados pessoais foram usadas e os fatores que pesaram mais no resultado (por exemplo, histórico de crédito, padrão de uso de serviço e comportamento de direção), além de como, em linhas gerais, a decisão é tomada (“quanto menor o score, maior a chance de recusa”) e quais são as principais consequências para o titular. As seguradoras que simulam perfis fictícios e mostram como hábitos de direção impactam o valor do prêmio são um bom exemplo de transparência que não viola segredo comercial.
O cenário regulatório europeu aponta na mesma direção ao adotar uma abordagem baseada em risco, agora consolidada no EU AI Act (regulação da União Europeia sobre a IA). Sistemas de baixo risco, como chatbots de atendimento, exigem transparência mais simples — por exemplo, ao informar que o usuário está interagindo com uma IA. Já sistemas de alto risco, como aqueles usados em emprego, crédito e infraestruturas críticas, exigem nível de explicabilidade maior.
Apesar dos avanços, há um ponto sensível e potencialmente problemático: a lei pode, mais uma vez, conferir vantagens às plataformas privadas. Isso ocorre porque atribui a essas empresas a obrigação de verificar a idade dos usuários e de desenvolver mecanismos para restringir o acesso de crianças a determinados conteúdos. Na prática, isso pode levar à criação de sistemas técnicos como reconhecimento facial, análise biométrica, estimativa de idade por inteligência artificial e até cruzamento de dados com bases externas, implicando a coleta de dados altamente sensíveis de crianças. E deixando, mais uma vez, na mão de empresas privadas (basicamente bigtechs norte-americanas) cujos donos são capitalistas bilionários interessados em lucrar.
Traduções literárias correm o risco de serem executadas apenas, ou majoritariamente, pelas IAs, em um cenário movido pela mentalidade mercadológica de economizar tempo e dinheiro. Até mesmo nos meios acadêmicos esses recursos são celebrados como exemplos de inovação, palavra que parece ser o mantra de nosso tempo. A agilidade das máquinas, contudo, tem nos levado a um cenário menos diverso no contato com outras culturas, com pouco entendimento sobre o que faz do trabalho de um tradutor uma forma de arte. Ao proferir palestra em um congresso sobre tradução, em 1982, o escritor e ensaísta italiano Italo Calvino afirmou: "Traduzir é uma arte: a passagem de um texto literário, qualquer que seja seu valor, para outra língua requer a todo instante uma espécie de milagre. Todos nós sabemos que a poesia em versos é intraduzível por definição; mas a autêntica literatura, inclusive em prosa, trabalha justamente na margem intraduzível de toda a língua. O tradutor literário é aquele que se põe inteiramente em jogo para traduzir o intraduzível" (tradução de Maurício Santana Dias). Calvino não propõe, na sua fala, uma definição de arte. Como lembrou o escritor americano Leonard Koren, em 2018: "Ninguém realmente precisa de arte. Ou pelo menos é o que alguns cínicos dizem. Assim, se os artistas quiserem que seus trabalhos sejam reconhecidos, eles precisam encontrar um jeito de tornar o valor de suas criações perceptível e convincente para os outros. Isso implica, primeiramente, que as pessoas prestem atenção e, depois, transformem essa atenção em algo duradouro" (tradução de Alice Sant’Anna). Ambas as citações suscitam perguntas. Entre outras, quantas pessoas consideram a tradução uma arte? Quantas ainda têm tempo para prestar atenção em artefatos estéticos? Prestar atenção requer parar para apreciar e refletir sobre o que se vê/lê. Atualmente, no universo das artes, tão importante quanto ver é ser visto. Na área da literatura, muitos influenciadores se dedicam a postar, praticamente todos os dias, os livros que estão lendo, que leram no mês, na semana, no dia anterior ou que lerão a seguir. Se considerarmos que nesse frenesi de leitura eles mal têm tempo para percorrer a obra na totalidade, é de supor que, nos casos de autores estrangeiros, pouca atenção deem à tradução. Nem falo em analisar a tradução, mas sim em tomar o cuidado de pelo menos citar o nome do tradutor. Às vezes, eles nem parecem se dar conta de que comentam uma obra traduzida! Mas não se pode apontar o dedo apenas para alguns influenciadores literários. Recentemente, a equipe do governo petista que elaborou o projeto MEC Livros, que oferece acesso gratuito, em formato digital, a obras da literatura nacional e mundial, tampouco levou em conta "a arte de traduzir". No site oficial do MEC Livros não consta, nas informações que detalham os livros para o leitor, pelo menos na grande maioria dos consultados por mim, o nome do tradutor. Citarei dois casos exemplares. "Poesia Completa", da americana Maya Angelou, parece ter sido escrita diretamente em português, pois o nome da tradutora, Lubi Prates, foi desconsiderado. Já nas informações do estojo James Joyce, com "Um Retrato do Artista Quando Jovem" e "Epifanias", o destaque é para o texto da especialista italiana Ilaria Natali, que acompanha a publicação, enquanto o nome do tradutor, Tomaz Tadeu, bastante respeitado no universo dos livros, não é mencionado. Poderia citar muitos outros exemplos de livros sem os nomes de seus respectivos tradutores, no site oficial do programa do governo. Terá isso ocorrido porque a equipe não teve tempo para refletir sobre o papel da tradução na cultura brasileira? Sabe-se que, na luta contra governos autoritários, xenófobos etc., a troca cultural com outras nações é algo fundamental. Nunca é demais lembrar que a tradução é uma ponte entre culturas, épocas, visões de mundo… No recém-lançado "Anacronismos: Ensaios de Arte, Literatura e Filosofia de Exceção", Davi Pessoa, professor de língua e literatura italianas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e tradutor prolífero, ao discorrer sobre grandes escritores da Itália que se tornaram tradutores, destaca a posição de Cesare Pavese. Em 1932, Pavese "expressou seu desejo de enfrentar o monolinguismo da ideologia fascista e, para isso, se dispôs à escuta de uma poderosa voz multilíngue vinda da imensidão do oceano. Essa voz, porém, é um corpo, e todo corpo é habitado por muitas vozes". O escritor italiano se lançou então na aventura de traduzir "Moby Dick", de Herman Melville, contra "o mito fascista da unidade totalizante", ou seja, ele buscou o "contato e o contágio com diversas mitologias", colocando-se à escuta do estrangeiro, "rompendo com fronteiras geográficas, políticas e culturais pretensamente determinadas pelo poder". Pavese teria aprendido também que traduzir é "saber habitar as soleiras", não se transformar no outro, nem transformar o outro, mas permitir que a porta fique aberta para novas escutas e conversas. A arte da tradução, por mais enigmática que seja o sentido dessa expressão, tem, assim, um papel político importante, mas parece que hoje ninguém precisa dela, e não se trata de cinismo, como afirmou Koren na citação acima, mas, antes, de absoluta impossibilidade de prestar atenção na arte em geral, qualquer que seja ela. Hoje, já se delega às inteligências artificiais (IAs) a atividade de traduzir, restando ao antigo tradutor o papel, talvez inesperado, de revisor, uma função que já foi considerada quase extinta, mas parece cada dia mais necessária. Toda nova tecnologia, como ninguém ignora, é uma conquista definitiva. Mas me parece que a inteligência artificial, no campo da tradução e da criação literárias, precisaria ser recebida e empregada com mais cautela. Contudo, a pressa, imposta pelo mercado, e a tendência ao "cult" impõem o seu uso sem maiores indagações e regulamentações. No caso da tradução, mesmo nas universidades, as IAs têm sido por vezes festejadas pelos professores, por isso não espanta que o Ministério da Educação destaque, em praticamente todos os editais, a palavra "inovação", seja lá o que ela signifique. A academia talvez precise se mostrar atualizada para a sociedade e se sinta pressionada a seguir os passos ágeis de um mundo regido pelo pós-capitalismo. Se por um lado é cult hoje falar das traduções feitas pelas IAs, por outro é espantoso o fato de que não se costuma discutir o enorme impacto ambiental de seu uso indiscriminado. Cult também é inovar sempre, trocar lâmpadas velhas por novas, mesmo que nas novas não exista gênio algum. O que importa, nesse caso, é que seja atraente para o mercado e desperte o desejo dos consumidores. Recentemente, a Autêntica Contemporânea decidiu publicar um livro de uma autora turca, conforme foi divulgado por este jornal. A editora Rafaela Lamas optou, segundo a matéria, por uma tradução indireta, a partir do inglês, já que "não tinha relação de confiança com nenhum tradutor de turco". Podemos fazer as seguintes perguntas: como é possível não confiar em um falante nativo como tradutor e confiar cegamente em uma tradução indireta feita com a ajuda de inteligência artificial? Por que não contratar o tradutor que conhece o idioma turco e fazê-lo trabalhar com algum outro nome mais experiente, mesmo que não saiba essa língua? Adriana Lisboa ficou responsável pela tradução, na qual se valeu da ajuda da IA para tirar dúvidas sobre o texto original em turco. Ela também contou com o auxílio, talvez para ganhar legitimidade, do diplomata Marcus Vinícius Marinho, conhecedor da língua e da cultura da Turquia. Quem afinal deveria assinar a tradução? Seria esse procedimento inusitado apenas uma jogada de marketing, a fim de vender a ideia de que não precisamos mais enfrentar o monolinguismo do ideário fascista? Parece-me que, ao buscar a novidade a qualquer preço, estaríamos, isso sim, dando uns bons passos para trás no quesito tradução. Em meados do século passado, nos anos 1950, Paulo Rónai, grande intelectual e tradutor húngaro radicado no Brasil, escreveu um ensaio que deveria ser relido com atenção, "Traduções Indiretas". Nele, conta que um editor, muito amigo seu, ao escolher um tradutor, preferia um escritor experiente a um estudioso do idioma de partida que escrevesse um português enviesado. Para Rónai, o escritor e o estudioso deveriam formar uma parceria, cujas habilidades e conhecimentos se completariam. Ganharíamos muito se conhecêssemos mais e melhor as ideias cada dia mais atuais desse precursor dos estudos da tradução no Brasil. Sobre as traduções indiretas, a partir de uma outra versão, e não do original, Rónai nos lembra que, na sua época, inexistindo "uma classe de tradutores", muitas eram feitas do francês, mas esse procedimento levou a um engessamento da escrita, o que, em consequência, impedia o estilo de se "adaptar às sinuosidades do pensamento concebido em qualquer outra língua". No Brasil, o Sintra (Sindicato Nacional dos Tradutores) foi fundado em 1988, quando se reconheceu oficialmente a profissão de tradutor. Como se lê na página do sindicato, desde sua inscrição no Ministério do Trabalho e Previdência Social, este é "o órgão que representa os tradutores e intérpretes em todo o território nacional". Mais recentemente, em 2023, surgiu o Quem Traduziu, coletivo de tradutoras que defende a ideia de que "a tradução literária é um trabalho autoral, criativo e artístico, que envolve uma série de escolhas e reflete a sensibilidade e a ética de quem traduz". O coletivo tem feito publicamente, desde então, uma série de justas reivindicações, merecendo espaço generoso em feiras e festivais literários. No entanto, diante do panorama que tentei traçar aqui, pergunto quão efetiva tem sido a luta de todos os tradutores deste país em favor da tradução como arte, sem abrir mão da visibilidade dos profissionais dessa área. Retomo o primeiro parágrafo e a ideia de "milagre" de que fala Calvino ao tratar a passagem de um texto de uma língua para outra. Essa opinião parece dialogar com a do seu conterrâneo, o filósofo Giorgio Agamben, para quem a "felicidade" é crer no divino e não aspirar alcançá-lo. Diria que o tradutor, na minha concepção, crê no milagre e no divino sabendo que são inalcançáveis, uma vez que sua matéria-prima é a escrita, a qual, como lembra Agamben, se move "conscientemente entre o dizível e o indizível" (tradução de Selvino José Assmann). O fato de termos certeza de que não alcançaremos por intermédio da palavra outra cultura, mesmo conhecendo sua língua ou usando a IA, nos leva a seguir dialogando com ela. No início do século 21, Giorgio Agamben afirmou que o capitalismo, como religião moderna por excelência, se tornou o "improfanável absoluto para todos nós". É disso que falamos quando fechamos cursos considerados "inúteis", quando delegamos a tradução de outra cultura à máquina em nome da rapidez exigida pelo mercado etc. Por isso, o "dever político da próxima geração" é seguir profanando, conforme defendeu o filósofo italiano.
A Revolução Industrial foi movida a carvão. O século 20 rodou a petróleo. O recurso definidor do século 21 é algo muito menos visível: o token, a menor unidade de linguagem consumida cada vez que um modelo de inteligência artificial pensa, escreve ou decide. Estamos entrando em uma nova era, e suas restrições são surpreendentemente antigas: energia, minerais e geografia.
Em minha última coluna abordei os efeitos da IA sobre o mercado de trabalho e o potencial de ganhos de eficiência para o setor público. A evidência não é especulativa: a IA tem sido um dos motores da economia, e as empresas estão incorporando crescentemente a tecnologia em seus processos.
A proporção de empresas que usam IA saltou de 20% em 2017 para 88% em 2025, de acordo com a McKinsey. A adoção de IA não está no horizonte; ela já remodela a economia global em alta velocidade.
Ilustração de mãos robóticas sobre um teclado, com a mensagem "inteligência artificial" ao fundo - Dado Ruvic/REUTERS Nos últimos meses, observamos uma grande transformação. O que chamamos de text coding —a capacidade de produzir programas e projetos por meio de linguagem simples— democratizou a programação. Pessoas sem formação técnica profunda agora entregam projetos com eficiência próxima à de desenvolvedores experientes.
As empresas correm para se tornar AI First: organizações verdadeiramente lideradas pela inteligência artificial. O que começou como automatização de fluxos de trabalho evolui rapidamente para um novo patamar: a IA como geradora de ideias, não apenas executora de tarefas. Quem acompanha esse movimento de perto já vê isso claramente no dia a dia.
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Pobre, rico ou classe média? Calculadora mostra sua posição na distribuição da renda no Brasil Crianças aprendem mais sobre dinheiro com mesada sem obrigações, diz pesquisa Uma mudança cultural revela a profundidade dessa transformação. Em Palo Alto, quando se contrata alguém, a negociação não gira mais apenas em torno do bônus ou do pacote de benefícios. O candidato pergunta quantos tokens poderá gastar. A produtividade passou a depender diretamente do volume de tokens disponíveis.
O token tornou-se a nova unidade monetária da inteligência, o equivalente ao barril de petróleo do século passado. As entidades capazes de produzi-lo de forma barata e em escala dominarão o comércio global, a ciência, a defesa e a economia. Empresas e países que não compreenderem essa lógica a tempo pagarão o preço da dependência.
Diante desse avanço e do consumo explosivo de tokens, há duas grandes barreiras que definirão o futuro: energia e poder computacional. O consumo global de eletricidade por data centers chegou a 415 TWh em 2024. A IEA (Agência Internacional de Energia) projeta que alcançará 945 TWh em 2030.
Nos Estados Unidos, data centers de IA podem demandar 123 gigawatts de capacidade até 2035, cerca de 30 vezes mais do que em 2024. As cinco maiores empresas de tecnologia destinaram mais de US$ 400 bilhões em investimentos de capital em 2025, alta de 72% em um ano, com previsão de crescimento adicional expressivo em 2026.
Jensen Huang, da Nvidia, foi categórico: "A receita de IA é limitada pela energia". O gargalo não é mais o código. São os quilowatts.
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Opinião: Um guia para quem está perplexo com a IA Além da energia, os minerais completam o binômio por trás dessa corrida. Para produzir semicondutores — o substrato físico da IA — são necessários elementos de terras raras. A China controla hoje cerca de 60% da mineração mundial e 90% da capacidade global de refino.
Em outubro de 2025, Pequim impôs controles de exportação sobre minerais críticos, provocando aumento de preços na Europa e cortes de produção. A revolução da IA colidiu com um ponto de estrangulamento geopolítico de fornecedor único. A resposta foi imediata: os EUA formaram uma coalizão de nações para garantir cadeias de suprimento de minerais críticos. A corrida por recursos que definiu os impérios coloniais retornou, desta vez impulsionada pelo silício, não pelo vapor. O petróleo continua importante, mas saímos do debate exclusivo sobre ele para tratar de energia e minerais como um todo.
Nesse novo mapa geopolítico, o Brasil ocupa uma posição que poucos países no mundo possuem. O país detém a segunda maior reserva mundial de minerais de terras raras, estimada em 21 milhões de toneladas, atrás apenas da China. Fornece cerca de 90% da demanda global de nióbio, mineral crítico para supercondutores, baterias avançadas e ligas metálicas usadas em infraestrutura de IA.
E possui o outro ingrediente essencial: energia limpa, abundante e barata. Quase 90% da matriz elétrica brasileira provêm de fontes renováveis (como hidro, eólica, solar e biomassa), ante uma média global de aproximadamente 32%, de acordo com a IEA. Em um mundo onde data centers consomem tanta eletricidade quanto nações de porte médio, isso não é detalhe. É vantagem competitiva decisiva.
O mercado já percebeu e começa a precificar esse reposicionamento. A Microsoft anunciou US$ 2,7 bilhões em expansão de data centers no Brasil. A Amazon Web Services (AWS) planeja US$ 1,8 bilhão. Esse é um fluxo de capital que se traduz em empregos, renda e receita fiscal.
Os ativos energéticos e minerais brasileiros estão se valorizando. O país tem posição estratégica super-relevante. O Brasil está diante de uma nova rodada de vantagens comparativas —desta vez não baseadas em commodities agrícolas, mas em energia limpa e minerais estratégicos que o mundo desenvolvido precisa e não tem.
Nesta semana, Bruno Coimbra fala sobre a Portaria Capes nº 246/2026, que moderniza as regras para a criação de novos cursos de mestrado e doutorado no país. O texto detalha avanços em transparência, governança e segurança jurídica, como os novos prazos de funcionamento e regras para propostas similares. Por fim, o autor destaca que a aprovação dependerá de um planejamento estratégico institucional rigoroso e alinhado aos documentos orientadores.
Especialistas dizem que posts podem ser entendidos como publicidade e que divulgação de imagens expõe crianças a riscos como deep fake, manipulação por IA e pedofilia
As editoras brasileiras registraram crescimento nas vendas ao mercado em 2025, consolidando um cenário de recuperação do setor. Segundo a pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro – Ano-base 2025, coordenada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), com apuração da Nielsen BookData, as vendas ao mercado apresentaram alta nominal de 7,7%, com expansão de 6,5% no volume de exemplares comercializados. Descontada a inflação, o setor teve crescimento real de 3,3%, indicando avanço consistente na demanda por livros no país. Clique aqui e confira a pesquisa completa.
Todos os subsetores apresentaram crescimento nas vendas ao mercado em 2025, o principal destaque foi Obras Gerais, com alta nominal de 8,7% (4,3% em termos reais), consolidando-se como o segmento de maior dinamismo no período. Os demais subsetores também registraram desempenho positivo: em Didáticos houve um crescimento de 3,2%, em Religiosos, de 2,4% e em CTP, de 1,9% em termos reais, o que evidencia uma recuperação disseminada entre os diferentes perfis editoriais.
Mais da metade dos brasileiros de 16 a 24 anos se define como conservadora. O percentual, porém, não supera o observado entre as faixas etárias mais velhas, em contraste com o que estudos internacionais recentes têm sugerido.
A diretora da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), Miriam Wimmer, destaca que o novo estatuto traz uma inovação ao estabelecer regras específicas para o ambiente digital. “O ECA Digital traz a grande novidade de ser uma norma calibrada especificamente para o ambiente digital, no qual crianças e adolescentes passam cada vez mais tempo”, afirma. Vainzof acrescenta que, embora a LGPD seja relevante, o novo estatuto tem alcance mais amplo. “Ele busca prevenir e diminuir riscos não apenas relacionados a dados, mas também à exposição, recomendação de conteúdos, interações e facilitação de contato com pessoas ou conteúdos potencialmente prejudiciais”, detalha.
Não são problemas exclusivos do Brasil. Mas o País, por ter um passado colonial e escravagista, tem certas mazelas extremamente aguçadas. É evidente que o nosso principal problema é o desalinhamento entre a fé professada e a prática das pessoas. Um país onde 90% das pessoas se declaram cristãs deveria aderir aos preceitos do Evangelho — partilha, compaixão, amor e solidariedade. No entanto, não acontece de fato, e a maior parte da população vive em condições muito precárias. Existe um grande desacerto. Por que estamos vivendo tão mal? Por que não conseguimos, num país com tantas riquezas naturais, humanas e culturais, compartilhar desses benefícios? Isso tem a ver com o achatamento, o massacre, do mundo interno, do mundo do imaginário, da construção das nossas florestas internas. Então, precisamos reflorestar nossas mentes, que estão desertificadas pela adoração ao dinheiro. Quando as maiores aspirações das pessoas são coisas, elas começam a ser tratadas como coisas e as coisas, valorizadas como pessoas. Precisamos decifrar esse enigma, porque, afinal de contas, as melhores coisas da vida são grátis ou muito baratas. O que a gente realmente precisa para viver bem é de amor, partilha, conforto e acolhimento. Se conseguirmos “desneurotizar” a sociedade, isso estará ao alcance das mãos. Apesar de todas as mazelas, os brasileiros têm uma imensa alegria, um prazer de viver que, na verdade, é um reservatório para o planeta. Mas precisamos ser capazes de transformar bom humor em bem-viver para todos.
Mirando o futuro do Brasil e a competitividade das organizações nacionais, é notório que precisamos urgentemente de uma estratégia de médio e longo prazos que nos posicione nesse novo cenário, com redução do peso regulatório e comprometimento sério em investimentos em tecnologia, inovação e defesa. E não há como fazer isso sem um debate sério e profundo sobre gastos públicos, Reforma Administrativa e Pacto Federativo.
Um posicionamento institucional consistente passa por três eixos centrais. Primeiro, o uso responsável de algoritmos, com transparência, critérios auditáveis e supervisão humana efetiva. Segundo, a adaptação dos modelos contratuais às realidades econômica e tecnológica, conciliando flexibilidade, proteção social e competitividade. Terceiro, uma regulação equilibrada, que evite tanto o vácuo normativo quanto soluções que engessem a organização do trabalho e afastem o Brasil da inevitável inovação global.
Ao mesmo tempo, pesquisas internacionais sobre gestão algorítmica laboral apontam para ferramentas que alocam tarefas, monitoram jornadas ou avaliam desempenho com base em dados, as quais já estão presentes em uma parte crescente das relações de trabalho — incluindo ambientes formais e tradicionais, não somente plataformas digitais.
Isso cria entraves práticos para empresas e reguladores sobre transparência, equidade e direitos laborais, pois, se não houver supervisão humana clara, decisões automatizadas poderão intensificar ritmos de trabalho e obscurecer critérios de avaliação.
A realidade brasileira, com um mercado formal em expansão, mas ainda fortemente marcado pela informalidade, impõe a urgência de alguns debates: como alinhar proteção social, competitividade e uso ético de IA nos processos de gestão? Como realizar uma transição justa? Ao responder a essas perguntas, instituições como empresas, sindicatos e formuladores de políticas públicas definem não apenas o futuro da CLT, mas o papel efetivo da tecnologia no trabalho.
O custo da inação é elevado e multifacetado. A NR-1 exige que os empregadores identifiquem, analisem e administrem fatores que possam comprometer o bem-estar do trabalhador, incluindo a hiperconexão. O descumprimento dessa diretriz acarreta custos humanos substanciais, como aumento do absenteísmo, queda na produtividade, alta rotatividade e dificuldades na atração de talentos. Além disso, há custos legais e financeiros significativos, como multas, autuações e ações trabalhistas. A reputação da empresa no mercado também é prejudicada. A chave está no uso responsável da tecnologia.
As oportunidades concentram-se em três eixos. O primeiro é o Agro e a Bioeconomia, nos quais a incorporação de IA — por meio de modelos preditivos, sensores, drones e sistemas de gestão — pode ampliar a produtividade e reduzir riscos climáticos. O segundo envolve a indústria verde e os minerais críticos. A crescente demanda mundial por lítio, níquel, cobre e terras raras, estimulada pela transição energética, abre espaço para estratégias de agregação de valor além da exportação de minério bruto. O terceiro eixo é o de serviços digitais, nos quais a IA generativa pode atenuar gargalos históricos em áreas como Saúde, Educação e Gestão Pública, elevando o potencial de crescimento.
O quadro internacional, portanto, oferece uma janela de oportunidade rara. A captura desses ganhos dependerá da combinação entre disciplina fiscal, estabilidade institucional e uma agenda consistente de produtividade que incorpore tecnologia, qualificação da força de trabalho e mais integração comercial. A ferramenta de IA deve ser tratada como política de Estado, orientada a elevação da eficiência, redução de custos e ampliação da competitividade. Em última instância, o futuro econômico do Brasil estará condicionado à sua capacidade de transformar vantagens naturais em tecnológicas e institucionais. Em um mundo em rápida reorganização, a escolha é entre o protagonismo e a irrelevância relativa.
Em razão disso, governança, transparência e auditabilidade tornam-se elementos indispensáveis. Empresas devem ser capazes de esclarecer quais variáveis influenciaram determinada pontuação, o que levou um colaborador a receber certo resultado e de que forma eventuais inconsistências podem ser contestadas. Essa obrigação de explicabilidade, além de fortalecer a confiança interna, atende às exigências jurídicas relacionadas à prevenção de discriminação e ao dever de diligência organizacional.
A decisão final, sobretudo em temas sensíveis como promoções, sanções ou desligamentos, não deve ser delegada integralmente à automação. Algoritmos podem identificar padrões de desempenho, mas não captam integralmente nuances contextuais, como situações excepcionais, limitações estruturais do posto ou fatores pessoais que impactam a produtividade.
Assim, a adoção de algoritmos na gestão de pessoas não constitui uma ameaça, mas uma oportunidade de modernização responsável. A combinação entre critérios objetivos, práticas como blind hiring, avaliação por IA e revisão humana qualificada fortalece a neutralidade e torna decisões mais consistentes, inclusivas e auditáveis.
O desafio contemporâneo não é rejeitar a tecnologia, mas integrá-la de forma consciente, equilibrada e alinhada com os princípios da dignidade e da igualdade no trabalho. A tecnologia orienta; o ser humano valida. Esse duplo controle é o que garante equilíbrio entre eficiência e justiça.
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