O que acontece quando a maioria faz uso de uma IA para realizar suas atividades laborais? E, no caso dos estudantes, quando os trabalhos passam a ser produzidos com o apoio de uma IA generativa? Luciano Sathler É PhD em administração pela USP e membro do Conselho Deliberativo do CNPq e do Conselho Estadual de Educação de Minas Gerais As diferentes aplicações de Inteligência Artificial (IA) generativa são capazes de criar novos conteúdos em texto, imagens, áudios, vídeos e códigos para software. Por se tratar de um tipo de tecnologia de uso geral, a IA tende a ser utilizada para remodelar vários setores da economia, com impactos políticos e sociais, assim como aconteceu com a adoção da máquina a vapor, da eletricidade e da informática. Pesquisas recentes demonstram que a IA generativa aumenta a qualidade e a eficiência da produção de atividades típicas dos trabalhadores de colarinho branco, aqueles que exercem funções administrativas e gerenciais nos escritórios. Também traz maior produtividade nas relações de suporte ao cliente, acelera tarefas de programação e aprimora mensagens de persuasão para o marketing. O revólver patenteado pelo americano Samuel Colt, em 1835, ficou conhecido como o "grande equalizador". A facilidade do seu manuseio e a possibilidade de atirar várias vezes sem precisar recarregar a cada disparo foram inovações tecnológicas que ampliaram a possibilidade individual de ter um grande potencial destrutivo em mãos, mesmo para os que tinham menor força física e costumavam levar desvantagem nos conflitos anteriores. À época, ficou famosa a frase: Abraham Lincoln tornou todos os homens livres, mas Samuel Colt os tornou iguais. Não fazemos aqui uma apologia às armas. A alegoria que usamos é apenas para ressaltar a necessidade de investir na formação de pessoas que sejam capazes de usar a IA generativa de forma crítica, criativa e que gerem resultados humanamente enriquecidos. Para não se tornarem vítimas das mudanças que sobrevirão no mundo do trabalho. A IA generativa é um meio viável para equalizar talentos humanos, pois pessoas com menor repertório cultural, científico ou profissional serão capazes de apresentar resultados melhores se souberem fazer bom uso de uma biblioteca de prompts. Novidade e originalidade tornam-se fenômenos raros e mais bem remunerados. A disseminação da IA generativa tende a diminuir a diversidade, reduz a heterogeneidade das respostas e, consequentemente, ameaça a criatividade. Maior padronização tem a ver com a automação do processo. Um resultado que seja interessante, engraçado ou que chama atenção pela qualidade acima da média vai passar a ser algo presente somente a partir daqueles que tiverem capacidade de ir além do que as máquinas são capazes de entregar. No caso dos estudantes, a avaliação da aprendizagem precisa ser rápida e seriamente revista. A utilização da IA generativa extrapola os conceitos usualmente associados ao plágio, pois os produtos são inéditos – ainda que venham de uma bricolagem semântica gerada por algoritmos. Os relatos dos professores é que os resultados melhoram, mas não há convicção de que a aprendizagem realmente aconteceu, com uma tendência à uniformização do que é apresentado pelos discentes. Toda Instituição Educacional terá as suas próprias IAs generativas. Assim como todos os professores e estudantes. Estarão disponíveis nos telefones celulares, computadores e até mesmo nos aparelhos de TV. É um novo conjunto de ferramentas de produtividade. Portanto, o desafio da diferenciação passa a ser ainda mais fundamental diante desse novo "grande equalizador". Se há mantenedores ou investidores sonhando com a completa substituição dos professores por alguma IA já encontramos pesquisas que demonstram que o uso intensivo da Inteligência Artificial leva muitos estudantes a reduzirem suas interações sociais formais ao usar essas ferramentas. As evidências apontam que, embora os chatbots de IA projetados para fornecimento de informações possam estar associados ao desempenho do aluno, quando o suporte social, bem-estar psicológico, solidão e senso de pertencimento são considerados, isso tem um efeito negativo, com impactos piores no sucesso, bem-estar e retenção do estudante. Para não cair na vala comum e correr o risco de ser ameaçado por quem faz uso intensivo da IA será necessário se diferenciar a partir das experiências dentro e fora da sala de aula – online ou presencial; humanizar as relações de ensino-aprendizagem; implementar metodologias que privilegiem o protagonismo dos estudantes e fortaleçam o papel do docente no processo; usar a microcertificação para registrar e ressaltar competências desenvolvidas de forma diferenciada, tanto nas hard quanto soft skills; e, principalmente, estabelecer um vínculo de confiança e suporte ao discente que o acompanhe pela vida afora – ninguém mais pode se dar ao luxo de ter ex-alunos. Atenção: esse artigo foi exclusivamente escrito por um ser humano. O editor, Michael França, pede para que cada participante do espaço "Políticas e Justiça" da Folha sugira uma música aos leitores. Nesse texto, a escolhida por Luciano Sathler foi "O Ateneu" de Milton Nascimento.
Este artigo apresenta um panorama inédito acerca da possível “fuga de cérebros” no Brasil, examinando doutores titulados em instituições brasileiras entre 2013 e 2024 com registro de residência no exterior. A análise é feita a partir de dados extraídos das bases administrativas de discentes da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do Cadastro de Pessoas Físicas (CPF) da Receita Federal do Brasil. Os resultados apontam para um percentual reduzido (1,2%) de doutores que emigraram. A maior parte desses indivíduos concluiu o doutorado em programas de alta qualidade e nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (em inglês, science, technology, engineering and maths – STEM), tendo países desenvolvidos como principal destino de residência.
Há uma narrativa muito difundida no Ocidente sobre a ascensão industrial chinesa: Pequim teria oferecido seu mercado gigante às multinacionais, forçado joint ventures e obrigado a transferência de tecnologia. Empresas ocidentais ingênuas, deslumbradas com lucros de curto prazo, teriam entregado seu know-how de bandeja — e a China, a partir daí, construiu os campeões nacionais que hoje competem com o mundo desenvolvido.
Um artigo recém-traduzido do professor Feng Kaidong, da Universidade Tsinghua, publicado no substack The East is Read, demole essa narrativa com evidências fascinantes. E a história verdadeira é muito mais interessante — e muito mais útil — para quem pensa desenvolvimento produtivo no Brasil.
Desde o lançamento do ChatGPT da OpenAI, há três anos e meio, o mundo se familiarizou com os grandes modelos de linguagem (LLM, na sigla em inglês). A tecnologia vem acelerando e ampliando atividades que vão desde tarefas administrativas do dia a dia e pesquisa até diagnósticos médicos. O verdadeiro potencial da inteligência artificial, porém, vai muito além dos sofisticados chatbots. Além de gerar conteúdo digital, máquinas equipadas com IA podem executar de forma autônoma ações físicas no mundo real, usando câmeras e sensores. Exemplos de aplicações incluem equipamentos inteligentes, veículos autônomos e robôs humanoides. Eles usam os chamados “modelos de mundo” (world models) - sistemas capazes de entender como os objetos se movem, interagem e respondem - ao contrário dos LLMs, que se assemelham mais a mecanismos de texto preditivos, e são treinados com dados reais e simulados. Nas economias do mundo desenvolvidos, orientadas para o setor de serviços, é compreensível que grande parte da atenção e dos investimentos tenha se concentrado na aplicação da IA a tarefas cognitivas. Mas explorar essa tecnologia no mundo físico - especialmente no chão de fábrica - promete trazer retornos econômicos ainda maiores. Em primeiro lugar, os potenciais ganhos de produtividade poderão ser significativos. “Os LLMs podem proporcionar benefícios mais rápidos no curto prazo, mas, em teoria, a IA aplicada ao mundo físico tem um potencial maior de elevar a produtividade no longo prazo, porque ataca gargalos materiais”, diz Daniela Rus, diretora do Laboratório de Ciência da Computação e IA do Massachusetts Institute of Technology (MIT). “Afinal, a maior parte das horas de trabalho ainda é dedicada a movimentar átomos, e não bits” Os países desenvolvidos da Europa e Ásia já avançam na integração de robôs às linhas de montagem para impulsionar o crescimento econômico. Mas a IA permite que esses robôs também aprendam e se adaptem a ambientes complexos de produção, construção e logística, aumentando a eficiência e a qualidade e reduzindo muito o tempo necessário para reconfigurar processos entre a fabricação de diferentes produtos. As primeiras implementações já dão uma ideia desse potencial. A Foxconn, que produz equipamentos eletrônicos complexos como o iPhone, constatou que braços robóticos guiados por visão computacional capazes de se autoajustar melhoraram os tempos dos ciclos de montagem em até 30%, ao mesmo tempo que reduziram as taxas de erro em 25%. A adoção dessa tecnologia pela Amazon em um centro de distribuição nos EUA mostrou que frotas de robôs de transporte de encomendas equipadas com IA aprenderam a se deslocar em meio a trabalhadores e obstáculos em movimento, reduzindo em 10% o tempo gasto em seus trajetos. A robótica movida por IA pode ainda ajudar a aliviar a escassez de mão de obra nos países ricos. Há oferta abundante de profissionais com formação universitária para empregos intensivos em conhecimento no setor de serviços, que agora parecem estar na linha de frente do impacto dos LLMs. E os fabricantes frequentemente apontam a falta de trabalhadores como entrave à produção. Em uma pesquisa feita este ano pela consultoria Capgemini, mais de 50% dos executivos industriais consultados disseram que a escassez de mão de obra, custos e regulamentação estão entre os cinco motivos para adotar a chamada IA física. (Máquinas autônomas também podem realizar reparos sob medida em ambientes e condições perigosas para seres humanos) Para os países ricos a maior oportunidade está em aplicar a IA à produção. Afinal, as maiores transformações tecnológicas tendem a não reproduzir o que os seres humanos já conseguem fazer, e sim tornar possível aquilo que eles não conseguem As tensões políticas envolvendo a imigração, o envelhecimento da população e a mudança de atitude em relação ao trabalho manual reforçam, no longo prazo, os argumentos a favor do investimento em robótica aprimorada por IA. Embora a tecnologia elimine alguns postos de trabalho, ela também criará funções de maior valor agregado no chão de fábrica, onde o conhecimento dos processos produtivos continuará sendo necessário para supervisionar, reconfigurar e treinar robôs. (Nos países ricos, onde cresce a preocupação com os efeitos da IA sobre os empregos de colarinho branco, uma migração do foco da tecnologia para a manufatura talvez seja relativamente menos perturbadora do ponto de vista político). Por fim, a IA física complementa os esforços dos governos para aumentar a resiliência das cadeias de abastecimento internas em setores estratégicos. De fato, as máquinas capazes de realizar múltiplas tarefas poderiam reduzir a necessidade de grandes linhas de montagem, permitindo que a produção ocorra localmente a um custo marginal mais baixo. Há, portanto, um claro argumento econômico e político para que os formuladores de políticas dos países desenvolvidos deem apoio à adoção da IA física na indústria. A China já fez avanços significativos na aplicação da tecnologia no mundo real e o mais recente plano quinquenal de Pequim inclui uma reorientação estratégica em direção à chamada “IA incorporada” (embodied AI”). A transição levará tempo no Ocidente. São necessários capital, avanços adicionais nos modelos de mundo e enormes volumes de dados para treinamento. Também são indispensáveis as cadeias de abastecimento necessárias para a fabricação do hardware robótico. Além disso, as fábricas e centros de distribuição terão de ser redesenhados. Mas o capital de risco demonstra um interesse crescente por aplicações ligadas à robótica. Há, é claro, aplicações mais amplas para a chamada IA incorporada. O uso de veículos autônomos, como os robotáxis, está aumentando. Robôs humanoides são frequentemente apontados como o futuro dos cuidados a idosos e das tarefas domésticas. E os avanços na robótica cirúrgica também parecem promissores. Ainda assim, o setor manufatureiro provavelmente oferece o caminho mais rápido para alcançar escala. Em comparação com estradas, moradias ou hospitais, as fábricas são ambientes mais controlados, que podem ser projetados em função das máquinas. Em vez de desenvolver tecnologias que imitem os humanos, as empresas podem criar robôs especializados capazes de atingir níveis de velocidade, precisão e resistência muito além dos limites humanos. Os LLMs demonstraram a capacidade da IA de processar informações. Mas, para os países ricos que buscam mais crescimento econômico e maior resiliência, a maior oportunidade está em aplicar essa inteligência à produção. Afinal, as maiores transformações tecnológicas tendem a não reproduzir aquilo que os seres humanos já conseguem fazer, e sim tornar possível aquilo que eles não conseguem.
O Ministério da Educação (MEC) publicou, nesta segunda-feira, dia 6, a Portaria nº 591/2026, que autoriza o funcionamento de 24 novos campi de Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IFs) localizados em 12 estados brasileiros. Com o acréscimo dos 24 campi, a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica passa a contar com 754 unidades.
O ensaísta nova-iorquino afirma que nos países desenvolvidos existe um descontentamento generalizado com as redes sociais e que as empresas não deveriam ter acesso a conteúdo que vicie crianças.
Jonathan Haidt (Nova Iorque, 62 anos) acredita que a psique humana é composta por um grande elefante — os processos emocionais, libidinais e intuitivos — e um pequeno cavaleiro (a razão) que tenta guiá-lo e age como seu assessor de imprensa: sua função é racionalizar e justificar suas posições perante o mundo. Com base nessa ideia, ele buscou compreender o conflito entre posições políticas em um mundo cada vez mais polarizado, como escreve em "A Mente Justa: Por que a Política e a Religião Dividem as Pessoas Sensatas" (Deusto, 2012).
Haidt é psicólogo moral e professor da Universidade de Nova York. Seu primeiro livro, "A Hipótese da Felicidade" (Deusto, 2006), busca resgatar o conceito de bem-estar dentro de uma psicologia focada no tratamento do sofrimento, explorando doutrinas como o budismo e o estoicismo, muitos cujos princípios são aplicáveis a pessoas à deriva no mal-estar contemporâneo. Seu livro mais recente, "A Geração Ansiosa: Por que as Mídias Sociais Estão Causando uma Epidemia de Doenças Mentais entre Nossos Jovens" (Deusto, 2024), causou grande repercussão ao confirmar o que muitos suspeitavam: que a tecnologia está arruinando a psique e a socialização dos jovens.
Haidt veio a Madri para falar sobre esses assuntos na Fundação Rafael del Pino. Ele aproveitou a oportunidade para visitar alguns políticos de alto escalão: o primeiro-ministro, Pedro Sánchez, e o líder da oposição, Alberto Núñez Feijóo. “Ambos concordam que é necessário aumentar a idade de acesso às redes sociais”, afirma Haidt, que defende a proibição do uso dessas plataformas antes dos 16 anos.
A entrevista é de Sérgio C. Fanjul, publicada por El País, 04-07-2026.
Eis a entrevista. Você é um tecnocético?
Sim, comecei como um tecno-otimista, um produto do século XX. Uma das minhas primeiras lembranças é a da chegada do homem à Lua. Sempre quis ser astronauta ou cientista. Como psicólogo social, tenho me interessado por como a tecnologia muda a forma como vivemos, pensamos e nos relacionamos uns com os outros: surgiram problemas, mas nós os resolvemos. Portanto, estou aberto à ideia de que a tecnologia pode melhorar o mundo.
Mas?
Acredito que tecnologias como redes ou IA podem ter efeitos tão profundos que talvez não sejamos capazes de nos adaptar.
Parece que hoje em dia a tecnologia nos controla, e não o contrário.
Exatamente. Quando o iPhone foi lançado, era um incrível canivete suíço com lanterna e calculadora, mas não foi projetado para ser usado o tempo todo. Aí vieram as redes sociais e as notificações, e o que era uma ferramenta incrível se tornou a peça central da economia da atenção. Foi aí que se tornou prejudicial para a humanidade.
Eles nos venderam isso como liberdade, mas era uma corrente muito longa.
É uma invenção da qual você não consegue escapar, mesmo que tente; você se sente compelido a retornar para o benefício de alguém. Parece servidão ou escravidão.
Antes, não vivíamos conectados à internet.
Steve Jobs disse que os computadores eram bicicletas para a mente. A internet em seus primórdios parecia um milagre: vimos que ela podia derrubar tiranos na Primavera Árabe.
Mas?
Mas o lado sombrio veio à tona. Com o caso Cambridge Analytica, vimos que as redes sociais podiam ser usadas para manipulação. Percebemos que estavam se tornando prejudiciais e começamos a nos perguntar: o que fizemos com os jovens e conosco mesmos? Hoje, existe um sentimento de descontentamento com as redes sociais e a tecnologia nos países desenvolvidos.
As crianças de hoje não saberão como era o mundo sem a internet; elas podem pensar que o vício em celulares é algo normal.
A infância foi reprogramada. Os humanos evoluíram para viver na savana e na floresta, subindo em árvores, em um mundo natural. Não é bom para as crianças crescerem com uma tela; elas precisam explorar, tocar, correr e olhar as pessoas nos olhos.
Você se concentrou no efeito da tecnologia sobre as crianças, mas não deveríamos também limitar o uso das redes sociais aos adultos?
Os adultos também são prejudicados, é claro. Mas eu me concentrei nos jovens por dois motivos. O primeiro é que o dano é maior durante a puberdade, e é por isso que adiar o uso das redes sociais pode trazer enormes benefícios. Segundo, os adultos precisam das redes sociais; elas são úteis para eles, mas os jovens não precisam delas. Eles não perderiam nada. Há um terceiro motivo: as empresas não deveriam ter acesso a crianças. Se os adultos optam por jogar ou usar drogas, essa é a escolha deles. Deixamos que tomem decisões ruins. Mas não devemos permitir que as empresas viciem as crianças.
Inteligência artificial?
No início, o ChatGPT era divertido; não escrevia muito bem. Esperávamos que crescesse gradualmente, mas cresceu cada vez mais rápido, dobrando sua capacidade a cada três ou quatro meses. A possibilidade de ele lidar com a maior parte do trabalho é muito real. É por isso que está causando resistência: as sociedades ocidentais costumavam ser amigáveis à tecnologia, mas não mais. Os EUA são a sociedade mais antitecnologia de todas, mesmo entre estudantes universitários; eles sempre apoiaram essas inovações.
Às vezes me irrita ver pais dando smartphones para crianças muito pequenas, só para se livrarem da responsabilidade. O que devo fazer?
Você não pode dizer nada para eles. Mas eu sempre digo às autoridades governamentais que regulamentações e campanhas de saúde pública contra a "chupeta digital" são urgentemente necessárias. Temos evidências dos danos que a tecnologia causa às crianças pequenas, e ainda assim consideramos normal dar tablets para crianças menores de cinco anos e carrinhos de bebê com telas acopladas. Isso não permite que o cérebro se desenvolva adequadamente.
A emoção importa mais do que o pensamento racional hoje em dia?
Sempre foi assim. Existem apenas algumas condições muito específicas em que isso não é verdade. Você conhece aquelas máquinas gigantescas em laboratórios de física que criam plasma? É possível criar outras formas de matéria sob condições muito específicas. As universidades priorizam o pensamento racional, assim como os fundos de investimento. Fora desse contexto, as emoções são o que movem o mundo.
Algo semelhante ao efeito de cancelamento à esquerda está acontecendo à direita hoje em dia?
Sim, com ideias que se originaram na extrema esquerda, como o conceito de microagressão: acadêmicos que estudaram o conceito alertaram que ele poderia ser adotado pela direita. E foi exatamente o que aconteceu.
Parece que as expressões religiosas e espirituais estão voltando à moda. Por quê?
Eu sei que, entre os jovens, especialmente os homens, e pelo menos nos EUA, estamos vendo esse retorno. Os homens não estão escolhendo alguma forma de protestantismo progressista, mas sim o catolicismo ou a Igreja Ortodoxa — opções mais difíceis e restritivas que exigem mais sacrifício. Acho que isso acontece porque os jovens estão perdidos em um abismo de anomia e falta de sentido, desesperados por orientação moral, algo que dê estrutura ao mundo para eles.
Os dados fazem parte do Relatório Nacional da Semana da Escuta das Adolescências nas Escolas, que traz a visão de 2,3 milhões de jovens de todos os estados do país sobre aprendizagem, clima escolar e participação. O levantamento foi realizado pelo MEC (Ministério da Educação) em parceria com o Itaú Social, Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação) e Undime (União dos Dirigentes Municipais de Educação).
“Com elementos do cotidiano e criatividade, professores planejam atividades mais significativas, que engajam adolescentes de múltiplas formas. Essas abordagens tornam as aulas mais atrativas. Seja arte ou matemática, esportes ou língua portuguesa, estudantes valorizam professores que os estimulem a pensarem coletivamente e a se sentirem confiantes em aplicar o que aprendem em contextos variados”, explica a superintendente do Itaú Social, Patricia Mota Guedes.
Na prática, o que muda com a criação do ECA Digital em relação ao que já era previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente?
O Estatuto da Criança e do Adolescente, como foi concebido originalmente, já garante a proteção integral de crianças e adolescentes em qualquer contexto da vida. A grande questão é que ele foi criado antes da chegada da internet e, por esse motivo, não se tinha normas de proteção para este contexto específico.
O que o chamado “ECA Digital” faz é justamente atualizar essa proteção para a realidade das plataformas e da vida online, trazendo mais clareza sobre as responsabilidades. Na prática, ele reforça o dever de prevenção por parte das empresas de tecnologia, o que compete aos pais, amplia mecanismos de denúncia e resposta a violações, e reconhece que o ambiente digital não é um espaço à parte, mas parte da vida cotidiana. Portanto, deve ser igualmente protegido. É menos uma criação de novos direitos e mais um detalhamento de como garantir direitos já existentes no contexto digital.
O Brasil tem hoje 63,9 milhões de pessoas com 15 anos ou mais que abandonaram a escola antes de concluir a educação básica, mostra o estudo “ População de 15+ fora da escola, demanda potencial por EJA e transições para o trabalho: diagnóstico e evidências para políticas públicas”. O contingente é equivalente a 37,3% da população nessa faixa etária, maior que a população de países como Itália ou África do Sul.
O relatório, apresentado nesta terça-feira durante o lançamento da Rede EJA e Inclusão Produtiva, é uma iniciativa que reúne 16 organizações da sociedade civil em torno de um compromisso de longo prazo para ampliar o acesso à Educação de Jovens e Adultos (EJA) e promover a inclusão produtiva no Brasil. O estudo foi realizado por Fundação Roberto Martinho, Fundação Bradesco, Fundação Itaú/ Itaú Educação e Trabalho e Fundação Arymax, com a cooperação da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).
A rede tem como objetivo dois compromissos de longo prazo: ampliar o acesso à Educação de Jovens e Adultos (EJA), e impulsionar a inclusão produtiva no país.
O relatório produzido pelo grupo mostra que esse número de brasileiros que não concluíram a educação básica vem diminuindo, mas não pelo avanço de políticas públicas, e sim pela mortalidade desse público. Os dados apontam que 51% da redução da demanda por Educação de Jovens e Adultos (EJA) desde 2012 ocorreu não pela escolarização dessa população, mas em razão da mortalidade. Em contrapartida, 8% dessa queda é explicada pelo programa.
Em outras palavras, para cada pessoa que concluiu a educação básica pela EJA nesse período, mais de seis morreram sem terminar os estudos. “A queda da demanda não significa que o problema está sendo resolvido. Indica que essa população está envelhecendo e morrendo antes de ser alcançada. E que os próximos 10 a 15 anos representam a última janela de oportunidade para alcançar as gerações nascidas entre 1960 e 1980”, alerta o relatório.
Para a superintendente de Conhecimento da Fundação Roberto Marinho, Rosalina Soares, é necessário fortalecer e ampliar políticas como o EJA para chegar a melhores resultados na educação brasileira.
— A descontinuidade produz retrocessos profundos. Quando uma política é interrompida, leva muito tempo para mobilizar novamente os estudantes e recuperar esses casos. Não é por acaso que as matrículas do EJA estão caindo há anos — disse a especialista, que também ressaltou o impacto da pandemia de Covid-19. — A pandemia também afastou muitas pessoas da escola, porque essa população teve que enfrentar desafios enormes de sobrevivência. Rosalina ressalta que a educação é um "direito básico", que não pode ser um desafio apenas do Ministério da Educação (MEC).
— Uma sociedade em transformações permanentes precisa criar possibilidades permanentes de aprender. Uma das grandes transformações que o Brasil precisa fazer passa pelo EJA, que tem um enorme potencial de transformar o Brasil A diretora da Educação da Unicef Brasil, Mônica Pinto, destacou que ainda é necessário avançar na garantia de direitos a este público, que não teve acesso à educação básica.
— No caso do EJA, temos que pensar na população como um todo, que luta, trabalho, e acredita, mas que também não tem seus direitos garantidos — disse Mônica durante a apresentação do estudo. A superintendente de Gestão Acadêmica do Itaú, Silvana Oliveira, afirma que, para aumentar as matrículas do EJA, é necessário oferecer mais flexibilidade, e mostrar ao público-alvo que a educação pode ser um meio de melhoria de vida.
— A escola precisa caber na vida desse estudante e, para isso, flexibilidade curricular e de organização são fundamentais. Se esse estudante percebe que a educação gera ou oportuniza inserção produtiva, aumento de renda e mobilidade social, o retorno para a escola deixa de ser uma segunda oportunidade de escolarização. Desde 2012, o contingente de brasileiros sem educação básica caiu 16%. Mas, ao acompanhar gerações nascidas entre 1930 e 1994 com base nos dados da Pnad Contínua do IBGE, os pesquisadores chegaram à conclusão de que o encolhimento da demanda não decorre da expansão da escolarização, mas do envelhecimento dessa população.
A explicação aparece na baixa capacidade da principal política pública voltada para esse público. Hoje, a Educação de Jovens e Adultos atende apenas 1,5% da demanda potencial do país. A cobertura varia entre as etapas:
1,4% nos anos iniciais do Ensino Fundamental; 1,1% nos anos finais; 2,3% no Ensino Médio. Alagoas é o estado que registra a maior taxa de atendimento (4,1%), enquanto Mato Grosso do Sul tem a menor (0,7%).
A oferta da modalidade também encolheu. Entre 2008 e 2024, o número de municípios brasileiros sem nenhuma turma de EJA mais que dobrou, passando de 493 para 1.092. Das 122.469 escolas que oferecem educação básica no país, 24,6% mantêm turmas da modalidade. Na prática, três em cada quatro escolas brasileiras não oferecem essa oportunidade para jovens e adultos que desejam retomar os estudos.
Os pesquisadores atribuem esse cenário a anos de baixa prioridade da modalidade. Durante 16 anos, a EJA recebeu o menor fator de ponderação do Fundeb entre todas as etapas da educação básica — distorção corrigida apenas em 2023. O último material didático específico foi distribuído em 2014, deixando uma década sem atualização. Além disso, segundo diagnóstico do próprio Ministério da Educação citado pelo estudo, há oferta reduzida de formação de professores voltada ao ensino de jovens e adultos.
Custo de R$ 66 bilhões O estudo ainda calculou o custo da incompletude educacional da população, estimado em R$ 66 bilhões em renda perdida. O valor considera que renda domiciliar per capita de quem está fora da escola sem concluir a educação básica é de R$ 1.427, pouco mais da metade dos R$ 2.777 recebidos, em média, por quem concluiu essa etapa de ensino. Entre esse grupo:
56,5% vivem em domicílios com renda de até um salário mínimo; 32,8% vivem abaixo da linha de pobreza adotada para países de renda média-alta; a taxa de pobreza é 1,8 vez maior do que entre quem concluiu a educação básica. Para estimar o impacto econômico da baixa escolaridade, os pesquisadores simularam o que aconteceria caso metade dessa população — cerca de 32,5 milhões de pessoas — concluísse a educação básica. O resultado aponta um ganho potencial equivalente a 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB).
"É uma perda que ocorre todo ano — não por ausência de demanda, mas por ausência de política", afirma o relatório.
Motivos do abandono escolar O levantamento também aponta que as razões para abandonar a escola e para nunca voltar são distintas entre homens e mulheres. Entre eles, o trabalho é o principal fator citado em todas as etapas. Foi o motivo que levou 53,9% dos homens a abandonarem os estudos quando jovens e continua sendo a principal barreira ao retorno para 61,7%.
Entre as mulheres, o cuidado com a família é o mais citado. Hoje, 34,9% afirmam que não conseguem voltar à escola por causa dos filhos, das responsabilidades domésticas e das tarefas de cuidado. A gravidez, sozinha, foi responsável pela interrupção dos estudos de 22,9% delas.
Para os pesquisadores, oferecer vagas sem garantir creches, horários flexíveis e condições reais para conciliar estudo, trabalho e família significa ignorar justamente os fatores que afastaram essa população da escola. Atualmente, três em cada quatro matrículas da EJA no ensino fundamental ocorrem no período noturno — horário que dificulta o acesso de trabalhadores informais, profissionais que trabalham à noite e mulheres responsáveis pelo cuidado de crianças pequenas.
Principais motivos alegados entre homens para ter interrompido o ensino:
Trabalho: 53,9% Desinteresse: 26,8% Completou o nível desejado: 6,1% Principais motivos alegados entre mulheres para ter interrompido o ensino:
Trabalho: 25,8% Gravidez: 22,9% Desinteresse: 22,5% Perfil de quem não concluiu os estudos Os quase 64 milhões de brasileiros sem educação básica concluída não formam um grupo homogêneo. Pessoas pretas e pardas representam 63,9% desse contingente. As maiores concentrações estão nas regiões Norte e Nordeste, onde, em muitos estados, mais da metade da população adulta não concluiu a educação básica. O fenômeno, porém, também é observado em áreas do interior do Sudeste e do Centro-Oeste.
O grupo se divide em três perfis. Os 19 milhões de brasileiros que não concluíram sequer os anos iniciais do ensino fundamental são, em sua maioria, idosos que cresceram em um período em que o acesso à escola ainda era reduzido. Outros 25,6 milhões interromperam os estudos durante o Ensino Fundamental e hoje concentram-se principalmente entre 30 e 59 anos. Já os 19,3 milhões que deixaram a escola no Ensino Médio são mais jovens, em geral entre 18 e 39 anos.
Essa composição etária cria o que o estudo define como uma janela demográfica que está se fechando. As gerações nascidas entre 1960 e 1980, que concentram a maior parte da demanda remanescente, têm hoje entre 46 e 66 anos. Nos primeiros anos de vigência do novo Plano Nacional de Educação, sancionado em abril, ainda será possível alcançá-las em idade economicamente ativa. Em cerca de uma década, boa parte já terá ultrapassado os 65 anos, tornando essa política progressivamente menos efetiva.
Entenda os números:
44,7 milhões não concluíram o ensino fundamental; 19,3 milhões suspenderam os estudos antes de terminar o ensino médio; 63,9% são pessoas pretas ou pardas; 49,2% são mulheres, indicando participação semelhante entre os dois sexos. Propostas para mudar o cenário O relatório da Rede EJA e Inclusão Produtiva apresenta sete diretrizes para reverter esse cenário. Entre elas estão a definição de metas em números absolutos de concluintes, já que metas percentuais tendem a cair automaticamente com o envelhecimento da população, a concentração de recursos nas regiões com maior déficit educacional e a adoção de um modelo de EJA compatível com a realidade dos estudantes, com oferta de creches, horários flexíveis e integração entre estudo, trabalho e família.
As sete direções de ação propostas são:
Metas de progresso real. Formular indicadores em números absolutos de conclusão, não apenas dinâmica demográfica. Certificação com formação. Garantir que a certificação por exame não substitua a escolarização — acompanhando-a de oferta presencial ou híbrida robusta. Busca ativa e priorização. Fortalecer estratégias de busca ativa e priorização de públicos vulneráveis — a demanda é massiva, mas invisível para as redes de ensino. Inversão territorial. Direcionar recursos para onde o déficit é maior. Governança intersetorial. Articular educação, proteção social e trabalho em itinerários integrados. Conciliação como padrão. Criar condições concretas de conciliação entre estudo, trabalho e família — creches, horários flexíveis e percursos integrados como desenho padrão da EJA. Blindagem contra descontinuidade. Garantir financiamento estável, materiais didáticos atualizados e formação docente permanente. Além disso, o estudo recomenda duas outras práticas para que os objetivos possam ser atingidos: assegurar que certificações como o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja) complementem, e não substituam a escolarização efetiva; e garantir financiamento permanente e contínuo para a EJA.
Para os pesquisadores, o desafio deixou de ser apenas ampliar vagas. Agora, a corrida é contra o tempo. "O novo Plano Nacional de Educação (PNE) e o ciclo político que se abre em 2026 representam, possivelmente, a última oportunidade de alcançar as gerações que mais precisam dessa política — antes que a passagem do tempo resolva o problema da pior forma possível", conclui o relatório.
O PNE estabelece, pela primeira vez, um objetivo específico para a Educação de Jovens e Adultos. As metas incluem elevar a alfabetização para 97% em cinco anos, garantir oferta para toda a demanda em cada ente federativo e ampliar para 25% a participação da EJA integrada à educação profissional. O plano anterior previa a mesma meta de integração, mas o país alcançou apenas 2,5% das matrículas, com somente o Piauí atingindo o objetivo.
O levantamento contou com parcerias técnicas, incluindo o Centro para o Estudo da Riqueza e da Estratificação Social/Iesp-UERJ (Ceres), o Laboratório de Monitoramento e Avaliação de Políticas e Eleições /Iesp-UERJ (Mapes) e o Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp-Uerj).
Fazem parte da Rede EJA e Inclusão Produtiva Ação Educativa a organização não governamental Ashoka, a consultoria Conhecimento Social - Estratégia e Gestão, o Conselho Nacional do SESI, a Fundação Arymax, a Fundação Bradesco, a Fundação Itaú - Itaú Educação e Trabalho, a Fundação Roberto Marinho, a GIFE- Grupo de Instituições Fundações e Empresas, o Instituto Rodrigo Mendes, o Pacto Global da ONU, as ONG Redes da Mar, a Todos Pela Educação, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), a United Away Brasil - Juventudes Potentes, além de especialistas em educação, gestores públicos e convidados.
O macrossetor TIC (Tecnologia da Informação e Comunicação) no Brasil projeta a criação de 33 mil novos empregos formais, no formato CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), em 2026. A maioria das vagas do segmento, no entanto, realizam contratações de PJs (pessoas jurídicas) no regime MEI (Microempreendedor Individual). As infromações são de pesquisa da Brasscom, associação das empresas de TIC. Segundo a pesquisa, a criação de vagas formais se concentrará no segmento de serviços e software, enquanto os outros cinco operam em estagnação ou retração. A formalização é um dos principais desafios do setor, na visão da organização. Os principais obstáculos para mais contratações CLT, segundo a Brasscom, são o ambiente regulatório e o custo de contratação. A entidade elenca a reoneração gradual da folha de pagamento como um dos fatores detratores da criação de vagas formais na área. Em 2025, o número de novas vagas CLT na tecnologia foi menor do que a projeção da Brasscom. Foram 23,7 mil vínculos criados, enquanto a projeção classificada pela organização como "conservadora" previa mais de 30 mil postos. Houve desaceleração de 39% no crescimento do emprego CLT em 2025 na área —terminou 2024 com 51,8 mil novas vagas CLT e 2025 com 31,4 mil A associação também aponta aumento de dificuldade de entrada de profissionais jovens e recém-formados, enquanto o mercado tem maior apetite por candidatos com experiência.
A divulgação dos resultados do Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica) trouxe números que confirmam uma preocupação antiga: o Brasil ampliou o número de escolas médicas e de estudantes sem garantir condições adequadas de formação. O resultado é alarmante. Somente em 2025, cerca de 13 mil formandos apresentaram desempenho insatisfatório e estão prestes a iniciar a prática médica. A pergunta inevitável é simples: quem assumirá o risco dessa formação deficiente? A resposta também é simples: a sociedade.
A maior parte desses novos médicos atuará em clínicas vinculadas a planos de saúde ou no Sistema Único de Saúde (SUS), onde o paciente não escolhe o profissional que o atenderá. Em muitos casos, resta apenas aceitar o médico disponível. As consequências tendem a aparecer rapidamente. Consultas menos resolutivas aumentam a solicitação de exames complementares, elevando os custos do sistema de saúde. Falhas no exame físico e no raciocínio clínico favorecem erros diagnósticos e tratamentos inadequados. O impacto não é apenas econômico, mas também humano.
Estudantes do curso de medicina analisam material de estudo na faculdade Estácio, em Juazeiro (BA) 04.jun.2025 - Rafaela Araújo/Folhapress Compreender o problema exige reconhecer que a responsabilidade não é exclusiva das faculdades. A medicina tornou-se um curso altamente atrativo não apenas por vocação, mas também pela segurança de inserção profissional imediata. Diferentemente de outras carreiras, o médico recém-formado encontra ampla oferta de trabalho, especialmente em plantões e de imediato atinge a remuneração média da classe, mesmo sem especialização ou avaliação formal de suas competências.
No Brasil, basta possuir o diploma para exercer a medicina. Na prática, quem consegue pagar uma faculdade garante acesso ao mercado de trabalho. Nesse ambiente, reduz-se o incentivo para que instituições aprimorem o ensino e para que alunos se comprometam com o aprendizado.
Ensino e aprendizagem não são conceitos equivalentes: o ensino corresponde à transmissão de conhecimentos; a aprendizagem, por sua vez, é o processo individual de internalização desse conteúdo. O ensino constitui o meio e depende da instituição; a aprendizagem é o objetivo final e depende do aluno.
Por isso, ganha força a defesa de um exame nacional obrigatório de proficiência como requisito para o exercício profissional. A medida estimularia estudantes a assumirem responsabilidade pelo próprio aprendizado e compeliria escolas médicas a garantirem formação efetiva.
Críticos afirmam que tal exame penalizaria somente o aluno que não conseguiu aprender, e não a instituição que não ofereceu ensino adequado. No entanto, avaliações progressivas ao longo do curso permitiriam identificar dificuldades precocemente, oferecendo tempo para correção da trajetória acadêmica. O estudante poderia reforçar sua formação, estudar mais, mudar de instituição ou até reconsiderar sua escolha profissional antes da conclusão do curso.
1 7 Saiba o que é e como funciona o Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica)
VOLTARFacebookWhatsappXMessengerLinkedinE-mailCopiar link Carregando... Portanto, para solucionar o problema, não é possível excluir a responsabilidade dos estudantes no processo de formação.
Atualmente o Brasil forma médicos, mas não garante que saibam exercer a medicina. O governo regula prédios, vagas, carga horária e currículos, mas ignora o resultado final do processo educacional. Confunde ensino com aprendizagem. Ensinar é oferecer conteúdo; aprender é adquirir competência. O sistema brasileiro fiscaliza o primeiro e presume, sem evidência, o segundo. É necessário garantir algo muito mais essencial: que o aluno tenha aprendido a ser médico de fato e não somente por direito.
Esses fatos clandestinos, ocorridos no início do ano passado e conhecidos só agora, lançam nova luz sobre um evento público do primeiro quadrimestre deste ano: a operação de destruição reputacional de Malu Gaspar promovida por jornalistas militantes e veículos alternativos do meio digital, depois ampliada por um ecossistema de comunicação política composto por influenciadores, juristas, políticos, canais e páginas militantes. O que hoje se vê com mais clareza é que um aparelho clandestino de coação, vigilância e compra de influência encontrou, um ano depois, nas redes, um ambiente já predisposto, por razões próprias, a atacar os jornalistas que investigavam o banqueiro. Vorcaro, portanto, não precisou encomendar toda a campanha. Bastou que seus interesses encontrassem uma rede política e midiática disposta a destruir a credibilidade de quem o investigava. A campanha contra Malu Gaspar percorreu todo o espectro da deslegitimação. Disseram que tudo não passava de jornalismo a serviço da "guerra na Faria Lima", que as reportagens eram movidas por "vazamentos seletivos", que o documento central era um "contrato fantasma", que Malu Gaspar e Lauro Jardim deveriam ser tratados com maior severidade jurídica, que a apuração reeditava os métodos da Lava Jato.
A ecologia midiática de esquerda instrumentalizou o jargão político para interditar o debate factual. Ao rotularem furos de reportagem legítimos como "guerra corporativa da Faria Lima" ou "sabotagem contra o STF", esses canais criaram uma blindagem retórica para o poder econômico.
1 12 A ligação do STF com o Banco Master
VOLTARFacebookWhatsappXMessengerLinkedinE-mailCopiar link Carregando... Quando isso já não bastou, passou-se a insinuar crime de imprensa, a especular sobre prisão e, no auge do delírio, a espalhar a mentira de que a própria Malu teria recebido R$ 3 milhões de Vorcaro.
A operação de comunicação política teve divisão de trabalho. Uns ofereciam a racionalização pseudo-técnica: falavam em minutas sem assinatura, em fontes interessadas em manipular os jornalistas, em sigilo violado, em provas inconclusivas. Outros forneciam o enquadramento político: a imprensa estaria servindo à direita, ao bolsonarismo, a uma conspiração contra Alexandre de Moraes. Outros ainda forneciam o escárnio, os memes, os rótulos, a linguagem de linchamento. No fim, tudo convergia para o mesmo ponto: não responder ao que o jornalismo revelava, mas tornar suspeitos os jornalistas que o revelavam.
Essa máquina não ficou confinada a blogs e canais. Transbordou para perfis de militância partidária, para mandatos, para comentaristas de rede e até para o circuito cultural. Até Kleber Mendonça Filho, conferindo prestígio simbólico à mesma operação de desqualificação, falou em "mídia lavajatista e bolsomasterista" e acusou a imprensa de "torcer contra o país". Nessa narrativa, o jornalismo que investigava Vorcaro e mostrava sua relação com o poder era quem atacava a democracia, as instituições e o Brasil.
Quem serviu aos interesses de Vorcaro atacando a credibilidade de Malu Gaspar e colegas o fez por motivações diversas: adesão ideológica, ressentimento contra a imprensa tradicional, convicção de que qualquer constrangimento ao STF favoreceria o bolsonarismo ou, em alguns casos, interesse material. Todos, entretanto, contribuíram para o mesmo efeito: desacreditar a imprensa, atacar a reputação dos jornalistas e elevar o custo pessoal de investigar o poder. A ironia é que muitos fizeram, de graça e por ideologia, o trabalho que Vorcaro estava disposto a pagar milhões para obter.
O episódio deixa, espero, ao menos uma lição útil sobre o que ainda separa jornalismo de propaganda. Não é o rótulo de "independente", "alternativo" ou "corporativo" que importa, mas a disposição de apurar e publicar honestamente o que se apurou. O jornalismo de apuração rigorosa, que resiste ao suborno e à intimidação, mas tampouco sacrifica sua honestidade no altar da militância, continua sendo o único antídoto contra a captura mafiosa ou partidária do debate público.
Parte dos vídeos é agregada em hashtags sem sentido, com referências a carros e aeronaves e outros assuntos sem ligação com a temática sexual.
Uma hashtag sobre um filme chinês de aviação tinha mais de cem vídeos pornográficos. Alguns deles acumulavam mais de 1 milhão de visualizações e eram visíveis por uma conta de adolescente acessada pela reportagem.
Outro vídeo verificado, que ficou no ar de março a julho, mostrava um homem ejaculando no rosto de uma jovem que dormia. O material só foi retirado do ar depois que a Folha o enviou ao Instagram.
Desde 2025, o conglomerado da Meta (que também inclui Facebook e WhatsApp) fez mudanças sutis em suas regras da comunidade para dificultar a remoção de conteúdo.
A empresa também reforçou o uso de IA na moderação e mudou sua revisão para o estado do Texas, nos Estados Unidos, onde as leis são mais brandas.
Uma edição das regras de 28 de agosto passado flexibilizou o que a Meta considera como "partes do corpo sexualizadas" ao retirar lábios e boca da lista. Também passou a permitir a reprodução de imagens sexualizadas, desde que as pessoas estejam vestidas.
Qual é a proporção das pessoas formalmente empregadas em 2022 que já apareciam nos registros da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) a cada ano desde 2004? Como essas proporções variam entre grupos de pessoas e entre características de seus empregos mais recentes? A partir dessas questões, o artigo investiga desigualdades na acumulação de tempo de serviço formal entre diferentes perfis de pessoas e postos de trabalho. Os grupos de empregados formais de 2022 que menos permaneceram na Rais ao longo dos anos anteriores são mulheres, de cor preta ou parda, nos postos de menor remuneração, do comércio, da agropecuária e da construção.
Antonio Guterres classifica armas autônomas letais como "moralmente repugnantes", reacendendo uma questão que foi central no conflito da Anthropic com o Pentágono
As tuition soars past crisis levels and AI reshapes the classroom, students are rationally optimizing for diplomas over discovery. Call it the degree trap.
Especialistas alertam que a prática de "embrulhar em plástico-bolha" (proteger excessivamente) os funcionários, mais comum entre as lideranças femininas, priva as pessoas de feedbacks cruciais para a resiliência e o sucesso. A prática acaba prejudicando as líderes, que são vistas como inseguras e ineficientes
Em outras palavras, a pesquisa mostrou que a maior barreira para ensinar os estudantes a escrever com inteligência artificial não é a tecnologia em si, mas as suposições dos estudantes sobre o que é escrever.
"Escrever com IA não elimina o trabalho de escrever," disse Anders. "[A IA] o transforma. Os alunos muitas vezes esperam que a IA funcione como um atalho, mas a verdade é que a escrita assistida por IA exige mais reflexão dos alunos, não menos. Como ferramenta, a IA lida apenas com a escrita superficial, e o trabalho realmente árduo - a formação de ideias, o julgamento, a estratégia de revisão e o controle de qualidade - permanece com o aluno."
Os pesquisadores argumentam que, à medida que ferramentas de IA se tornam comuns na escrita acadêmica, profissional e cotidiana, os estudantes precisarão não apenas de proficiência técnica, mas de uma compreensão mais profunda de como a escrita funciona. Estudantes que vencerem os limiares irão se tornar mais reflexivos, mais críticos e mais intencionais em suas escolhas, usando as ferramentas para avaliar ideias e fortalecer argumentos - uma habilidade que, segundo os pesquisadores, continuará relevante muito depois que as ferramentas mudarem.
Conceitos limiares
No início do curso, os estudantes carregavam suposições como "ferramentas melhores devem exigir menos esforço" e "IA fará o trabalho por mim". A realidade rapidamente desafiou essas crenças: Um aluno refletiu que "teve que aprender a pensar sobre seu próprio pensamento".
O primeiro conceito limiar é que escrever com IA é experimental, exige tentativa, erro, teste e revisão, e não uma única consulta vaga.
O segundo é que a escrita com IA ainda requer conhecimento e entendimento humanos: A fluência e a confiança do texto gerado pela ferramenta podem enganar os estudantes a confiar cegamente na IA, mesmo quando ela está errada, é superficial ou mesmo sem sentido, um fenômeno que os pesquisadores chamam de "armadilha da fluência". Os estudantes precisam aprender a interrogar o que a IA produz, verificar afirmações, refinar a lógica e garantir que o texto atenda às expectativas disciplinares - tudo trabalho que exige julgamento humano.
O terceiro conceito limiar é que escrever com IA deve, em última análise, aumentar a agência humana, não substituí-la. A IA pode gerar texto, mas não pode gerar propósito, só o escritor pode decidir o que está sendo argumentado, o que importa e por que a escrita existe. Os pesquisadores descrevem essa mudança como a transição de "terceirizar o trabalho" para "orquestrar o trabalho": Os estudantes passam a usar IA para explorar possibilidades, testar ideias e refinar o pensamento, em vez de evitar a carga cognitiva da escrita.
"A IA muda o fluxo de trabalho, mas não muda o fato de que escrever é pensar. Os estudantes ainda precisam tomar decisões, definir direções e moldar o significado," ponderou Anders.
De que forma programas de pré-aprendizagem, como o Desponta, contribuem para uma inserção mais qualificada e digna de adolescentes e jovens no mundo do trabalho? Que tipo de habilidades essas iniciativas ajudam a desenvolver? Alzira: Programas de pré-aprendizagem cumprem um papel fundamental ao preparar os jovens antes mesmo do ingresso formal no mundo do trabalho. Eles funcionam como uma ponte estruturada entre a escola e o universo profissional, ampliando o repertório dos participantes e fortalecendo sua autonomia.
No Desponta, por exemplo, temos uma intenção explícita de não apenas apresentar conteúdos, mas criar experiências de aprendizagem que ajudem os jovens a compreender e explorar o mundo do trabalho. Nessa solução, estruturamos um conjunto de 16 roteiros de atividades, pensados para educadores em diferentes contextos.
Esse material favorece o entendimento sobre as diferentes oportunidades de estudo e trabalho, ao mesmo tempo em que engaja os jovens no exercício de projetar seus futuros. Saber que existe um panorama amplo de possibilidades, incluindo carreiras técnicas, criativas, digitais e empreendedoras, é fundamental para orientar escolhas mais conscientes e ampliar horizontes. O Desponta também trabalha habilidades essenciais, como comunicação, colaboração, pensamento crítico, resolução de problemas, responsabilidade e autogestão.
Ao articular repertório, experimentação e reflexão, programas como o Desponta ampliam as condições de uma inserção produtiva mais qualificada e digna, especialmente para jovens que historicamente tiveram menos acesso a esse tipo de informação.
O Brasil tem 63,9 milhões jovens e adultos fora da escola sem educação básica completa — 37,3% da população com 15 anos ou mais — mais do que a população de muitos países. Desse total, 44,7 milhões não concluíram o ensino fundamental e 19,3 milhões pararam antes de completar o ensino médio (valores arredondados independentemente). São desproporcionalmente pretos ou pardos (63,9%), com participação equilibrada entre homens e mulheres (49,2% de mulheres).
O Conselho de Educação e Treinamento da FIEMG realizou, nesta terça-feira (7/7), na sede da Federação, em Belo Horizonte, reunião com foco no tema “ECA Digital: o papel das escolas”. A exposição foi conduzida pelo CEO da CertifikEDU, Luciano Sathler, que também é membro do Conselho Estadual de Educação de Minas Gerais.
Durante a apresentação, Sathler abordou os impactos do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital) para o ambiente escolar, destacando as novas responsabilidades de instituições de ensino, famílias, plataformas digitais e órgãos públicos na proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais.
Entre os pontos apresentados, o especialista explicou que “a legislação estabelece deveres de prevenção, proteção, informação e segurança para produtos e serviços digitais que possam ser acessados por menores de 18 anos”. No contexto das escolas, o tema envolve desde a revisão de contratos com plataformas educacionais até a criação de protocolos para prevenção e resposta a situações como cyberbullying, exposição indevida de imagem e voz de estudantes, riscos digitais e uso inadequado de ferramentas tecnológicas.
Sathler também chamou atenção para a “importância da governança digital escolar, com mapeamento das plataformas utilizadas pelas instituições, auditoria de fornecedores, adoção de mecanismos de controle e verificação, proteção de dados, segurança por padrão e produção de evidências capazes de demonstrar conformidade com a legislação”.
Outro aspecto tratado foi o papel pedagógico das escolas na formação para o uso consciente, ético e seguro das tecnologias. Segundo a abordagem apresentada, as instituições de ensino não substituem as famílias nem as plataformas, mas têm função estratégica na educação digital, na promoção do letramento midiático e digital e na orientação de estudantes, educadores e responsáveis.
A educação parental também foi abordada por Sathler, que destacou “a necessidade de diálogo contínuo com as famílias, orientação sobre riscos digitais, acompanhamento do tempo de uso de telas e incentivo à criação de planos familiares para o uso saudável de dispositivos digitais”.
Após a apresentação, integrantes do Conselho de Educação e Treinamento da FIEMG participaram de um debate sobre os desafios práticos da implementação do ECA Digital nas escolas e sobre caminhos para fortalecer a cultura de segurança, responsabilidade e cidadania no ambiente online.
A discussão reforçou a importância de preparar gestores, professores, estudantes e famílias para as mudanças legais e comportamentais que envolvem a presença cada vez maior da tecnologia na educação básica.
As micro e pequenas empresas empregam proporcionalmente mais mulheres e registram uma diferença salarial entre homens e mulheres inferior à observada nas médias e grandes companhias, segundo o Sebrae. Os dados estão no estudo Panorama do Emprego 2026, com base em dados da Rais (Relação Anual de Informações Sociais).
No fim de 2024, elas representavam 43% dos trabalhadores nas MPE, o equivalente a cerca de 8,5 milhões de empregos formais, acima da participação feminina nas empresas de maior porte (38%) e da média do mercado de trabalho brasileiro (41%).
Há ainda uma dimensão essencial de interesse público. A medicina é uma profissão cujas decisões afetam diretamente a vida e a segurança das pessoas, e a sociedade tem o direito de esperar que todo novo médico tenha demonstrado, em um parâmetro nacional comum, o domínio mínimo necessário para iniciar sua trajetória profissional. Não se trata de reduzir a formação a uma única prova, nem de substituir as avaliações práticas e longitudinais realizadas pelas escolas médicas, mas de acrescentar uma referência objetiva, transparente e verificável em todo o país. A verdadeira inovação da medida provisória não está na criação de uma nova prova. Está em reconhecer que uma avaliação nacional já estabelecida e reconhecida pode e deve cumprir plenamente seu papel. Quando um instrumento é capaz de avaliar a formação médica, faz sentido que também possa certificar a proficiência necessária para os próximos passos da carreira.
Muse Spark Image será integrado ao chatbot de IA da empresa e ao aplicativo do Instagram CEO cortou postos de trabalho e intensificou gastos em infraestrutura para alcançar rivais na corrida da IA
Em 2024, um estudo da S&P Global, compiladora de índices, constatou que a participação feminina em cargos executivos em empresas americanas listadas em Bolsa caiu pela primeira vez em 2023, após quase 20 anos de crescimento ininterrupto.
Em 2025, as mulheres conquistaram 38% das novas vagas em conselhos de administração de empresas do índice S&P500, que reúne grandes empresas americanas, abaixo dos 42% do ano anterior e prolongando o recuo em relação ao pico de 2020.
Na última rodada de promoções a sócios, em 2024, o Goldman Sachs nomeou uma proporção menor de sócias mulheres do que na ciclo anterior, a primeira vez em mais de uma década.
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