A professora brasileira Marcia Barbosa, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), foi laureada nesta sexta-feira com um dos cinco prêmios L'Oréal-Unesco para Mulheres na Ciência 2013. Marcia foi premiada por ter descoberto uma anomalia na água "que poderia levar a uma melhor compreensão" de uma grande diversidade de fenômenos no mecanismo de dobramento de proteínas, que é essencial para o tratamento de certas doenças, destacaram a Unesco e a multinacional francesa de cosméticos em comunicado.
As ganhadoras de 2013 procedem dos cinco continentes e receberão o prêmio de US$ 100 mil (cerca de R$ 200 mil) no dia 28 de março, na sede central da Unesco, em Paris. Os responsáveis pelo prêmio L'Oréal-Unesco, criado há 15 anos para promover os trabalhos pioneiros na ciência, disseram que todas as homenageadas foram selecionadas pela dedicação ao trabalho e "por pesquisas inovadoras e fundamentais em diferentes campos científicos".
As outras ganhadoras do prêmio são Francisca Nneka Okeke, da Universidade da Nigéria, Pratibha Gai, da Universidade britânica de York, Reiko Kuroda, da Universidade das Ciências de Tóquio, e Deborah Jon, do National Institute of Standards and Technology da Universidade do Colorado.
O que acontece quando a maioria faz uso de uma IA para realizar suas atividades laborais? E, no caso dos estudantes, quando os trabalhos passam a ser produzidos com o apoio de uma IA generativa? Luciano Sathler É PhD em administração pela USP e membro do Conselho Deliberativo do CNPq e do Conselho Estadual de Educação de Minas Gerais As diferentes aplicações de Inteligência Artificial (IA) generativa são capazes de criar novos conteúdos em texto, imagens, áudios, vídeos e códigos para software. Por se tratar de um tipo de tecnologia de uso geral, a IA tende a ser utilizada para remodelar vários setores da economia, com impactos políticos e sociais, assim como aconteceu com a adoção da máquina a vapor, da eletricidade e da informática. Pesquisas recentes demonstram que a IA generativa aumenta a qualidade e a eficiência da produção de atividades típicas dos trabalhadores de colarinho branco, aqueles que exercem funções administrativas e gerenciais nos escritórios. Também traz maior produtividade nas relações de suporte ao cliente, acelera tarefas de programação e aprimora mensagens de persuasão para o marketing. O revólver patenteado pelo americano Samuel Colt, em 1835, ficou conhecido como o "grande equalizador". A facilidade do seu manuseio e a possibilidade de atirar várias vezes sem precisar recarregar a cada disparo foram inovações tecnológicas que ampliaram a possibilidade individual de ter um grande potencial destrutivo em mãos, mesmo para os que tinham menor força física e costumavam levar desvantagem nos conflitos anteriores. À época, ficou famosa a frase: Abraham Lincoln tornou todos os homens livres, mas Samuel Colt os tornou iguais. Não fazemos aqui uma apologia às armas. A alegoria que usamos é apenas para ressaltar a necessidade de investir na formação de pessoas que sejam capazes de usar a IA generativa de forma crítica, criativa e que gerem resultados humanamente enriquecidos. Para não se tornarem vítimas das mudanças que sobrevirão no mundo do trabalho. A IA generativa é um meio viável para equalizar talentos humanos, pois pessoas com menor repertório cultural, científico ou profissional serão capazes de apresentar resultados melhores se souberem fazer bom uso de uma biblioteca de prompts. Novidade e originalidade tornam-se fenômenos raros e mais bem remunerados. A disseminação da IA generativa tende a diminuir a diversidade, reduz a heterogeneidade das respostas e, consequentemente, ameaça a criatividade. Maior padronização tem a ver com a automação do processo. Um resultado que seja interessante, engraçado ou que chama atenção pela qualidade acima da média vai passar a ser algo presente somente a partir daqueles que tiverem capacidade de ir além do que as máquinas são capazes de entregar. No caso dos estudantes, a avaliação da aprendizagem precisa ser rápida e seriamente revista. A utilização da IA generativa extrapola os conceitos usualmente associados ao plágio, pois os produtos são inéditos – ainda que venham de uma bricolagem semântica gerada por algoritmos. Os relatos dos professores é que os resultados melhoram, mas não há convicção de que a aprendizagem realmente aconteceu, com uma tendência à uniformização do que é apresentado pelos discentes. Toda Instituição Educacional terá as suas próprias IAs generativas. Assim como todos os professores e estudantes. Estarão disponíveis nos telefones celulares, computadores e até mesmo nos aparelhos de TV. É um novo conjunto de ferramentas de produtividade. Portanto, o desafio da diferenciação passa a ser ainda mais fundamental diante desse novo "grande equalizador". Se há mantenedores ou investidores sonhando com a completa substituição dos professores por alguma IA já encontramos pesquisas que demonstram que o uso intensivo da Inteligência Artificial leva muitos estudantes a reduzirem suas interações sociais formais ao usar essas ferramentas. As evidências apontam que, embora os chatbots de IA projetados para fornecimento de informações possam estar associados ao desempenho do aluno, quando o suporte social, bem-estar psicológico, solidão e senso de pertencimento são considerados, isso tem um efeito negativo, com impactos piores no sucesso, bem-estar e retenção do estudante. Para não cair na vala comum e correr o risco de ser ameaçado por quem faz uso intensivo da IA será necessário se diferenciar a partir das experiências dentro e fora da sala de aula – online ou presencial; humanizar as relações de ensino-aprendizagem; implementar metodologias que privilegiem o protagonismo dos estudantes e fortaleçam o papel do docente no processo; usar a microcertificação para registrar e ressaltar competências desenvolvidas de forma diferenciada, tanto nas hard quanto soft skills; e, principalmente, estabelecer um vínculo de confiança e suporte ao discente que o acompanhe pela vida afora – ninguém mais pode se dar ao luxo de ter ex-alunos. Atenção: esse artigo foi exclusivamente escrito por um ser humano. O editor, Michael França, pede para que cada participante do espaço "Políticas e Justiça" da Folha sugira uma música aos leitores. Nesse texto, a escolhida por Luciano Sathler foi "O Ateneu" de Milton Nascimento.
Rafaella Steenhagen, de 28 anos, é formada em Relações Internacionais, mas não atua na área. Fluente em quatro idiomas, trabalha como assistente administrativa. Apesar de empregada, não teve o retorno financeiro que esperava do grande investimento que fez em educação. O mal-estar aumenta quando ela compara sua situação financeira com a dos pais, ambos advogados.
Empresas brasileiras taxadas agora por Trump têm dificuldades de vender para outros países: veja a diferença do 1º tarifaço A partir de setembro: UE formaliza restrição a carnes e produtos de origem animal do Brasil Ela se vê distante do que eles já tinham conquistado perto dos 30 anos, a começar pela casa própria para criar dois filhos. Solteira, Rafaella ainda mora com os pais e usa essa base para sua nova jornada universitária: está cursando Direito.
— Eu me sinto frustrada quando vejo que ainda não alcancei o padrão de vida e a estabilidade que planejava, apesar de trabalhar em uma ótima empresa, que oferece salário e benefícios acima do mercado para a função em que atuo — diz. — É como se diz nas redes sociais: na minha vez de ser adulto, está tudo bem mais caro do que há 30 anos. Apesar de eu ter tido maior acesso a educação e tecnologia, meus pais tiveram mais conquistas financeiras na minha idade.
A decepção de Rafaella é comum entre brasileiros na faixa dos 30 anos, em todas as classes. A educação avança, mas a renda não cresce o suficiente para que eles superem o padrão de vida dos pais. A sensação de não sair do lugar é respaldada por números.
Guinada com IA? Mercado de trabalho se vira para profissionais de nível mais sênior Um estudo realizado pelos pesquisadores do Insper Daniel Duque, Michael França e Fillipi Nascimento comparou a situação econômica e o acesso a bens das gerações X (nascidos entre 1965 e 1980 ) e Millennial (de 1981 a 1996 ) no Brasil aos 30. Concluiu que a geração que chega à fase adulta agora tem renda maior que a anterior nessa idade, mas o avanço é aquém do esperado e insuficiente para que os trabalhadores se sintam num degrau acima.
Para a análise, os pesquisadores isolaram um grupo de integrantes da geração X nascidos entre 1967 e 1969 e outro de Millennials no intervalo entre 1992 e 1994. Então compararam dados socioeconômicos por faixa de renda dos dois grupos aos 30, idade que o primeiro atingiu entre 1997 e 1999, e o segundo, entre 2022 e 2024. Dos mais pobres aos mais ricos, nenhum segmento de Millennials teve alta da renda acima de 2% ao ano em relação à geração anterior.
Melhora maior na base Os maiores avanços foram na base da pirâmide social, principalmente entre os 25% mais pobres. Nessa faixa, Millenials tiveram um avanço de 2% ao ano em média. Já entre os 5% mais pobres, o avanço anual ficou em torno de 1,3%.
Inércia intergeracional — Foto: Criação O Globo Na classe média alta, os ganhos foram ainda menores. Entre os 25% mais ricos, a renda cresceu menos de 0,5% ao ano, enquanto nos 10% mais ricos o avanço foi próximo de zero. Por outro lado, quando se isolam os 5% no topo, há alguma diferença: melhora pouco acima de 0,5% ao ano.
Para Duque, um dos autores do estudo, a variação em geral é pequena, retrata a baixa mobilidade social no país. Mesmo os grupos que tiveram maior avanço na renda não conseguiram mudar de status, e a evolução de seu nível de consumo foi menor que o previsto.
Pesquisa: Pais com ensino superior passam menos tempo trabalhando e mais cuidando dos filhos Segundo o pesquisador, para haver mobilidade efetiva entre gerações, seria necessária uma alta em torno de 3% ao ano — variando entre 2% e 4% — na comparação da renda de X e Millennials, acompanhada por um avanço nas camadas mais baixas em ritmo ao menos duas vezes o observado entre os mais ricos da geração anterior. A estagnação tem relação com os ciclos econômicos do país, explica Duque:
— Nesse período, entre a fase adulta da geração X e a dos Millennials, passamos por vários momentos de crise no mercado de trabalho, tanto a crise de 2015 e 2016, quanto a pandemia, e tudo isso comprimiu muito os rendimentos.
Além da conjuntura, Duque ressalta que há questões estruturais que impedem maior mobilidade socioeconômica entre as gerações no Brasil, o que explica a frustração atual. Presidente do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) e colunista do GLOBO, Paulo Tafner concorda.
Pix e Zelle: qual é a diferença entre os sistemas de pagamentos brasileiro e americano que incomoda os EUA O economista defende políticas públicas para dinamizar a economia e fortalecer a competitividade das indústrias brasileiras no mercado global, como forma de impulsionar o crescimento do país e, consequentemente, a mobilidade:
— O nosso processo econômico não está sendo capaz de gerar mobilidade social e eliminação da pobreza. Significa que temos que fazer um esforço monumental de transferir renda. Mas o melhor jeito é no processo de desenvolvimento econômico, ter oportunidades para todo mundo.
Para Bruno Imaizumi, economista da 4intelligence, o Brasil dá menos atenção que deveria a reformas estruturais para elevar a produtividade e a renda e melhorar as perspectivas das próximas gerações:
Perto dos 30, Rafaella Steenhagen é formada em Relações Internacionais e fala quatro idiomas. Apesar de ter estudado mais que os pais, ela ainda vive com eles porque não conseguiu um trabalho equivalente à graduação e não tem uma renda suficiente para ter o próprio apartamento — Foto: Guito Moreto/Agência O Globo — Não adianta só melhorar a composição da economia pelo lado do trabalho. Deveríamos estar olhando pelo lado do capital, do investimento, das tecnologias. Nisso, o Brasil peca e sempre pecou.
O economista pontua que, embora a geração X tenha vivido a hiperinflação no início dos anos 1990, quando chegou aos 30 anos o Plano Real já havia trazido estabilidade aos preços. Naquela época, a população era menor e havia menos formados no ensino superior, o que reduzia a concorrência para cargos de renda mais alta.
Ele destaca avanços em indicadores sociais e de saúde que melhoraram a qualidade de vida no país ao longo de décadas, permitindo inclusive que trabalhadores de gerações mais antigas permaneçam mais tempo no mercado.
Serasa: Total de empresas inadimplentes cresce 1,5 milhão em um ano no Brasil — Eles continuam sendo os principais nas vagas mais seniores, que tendem a ser mais bem remuneradas, não abrem espaço para que os jovens consigam se inserir como gostariam — diz o economista, para quem o acesso mais amplo ao ensino superior veio acompanhado de um descompasso entre as habilidades adquiridas e as exigidas pelo mercado de trabalho, dificultando ainda mais a inserção dos jovens.
A economia brasileira cresceu nos últimos anos e o mercado de trabalho está aquecido, mas a geração de vagas é de baixa remuneração. Imaizumi observa que mudanças nos padrões de consumo, impulsionadas pelas novas tecnologias, e o nível elevado dos preços, que não voltaram ao patamar pré-pandemia, minam o poder de compra e a qualidade de vida, ainda que, em valores absolutos, a renda tenha subido.
Acesso a bens aumentou Ainda assim, o estudo do Insper aponta aumento do acesso a bens duráveis, como carros, motos e eletrodomésticos em todas as faixas de renda, com destaque para itens como geladeira, fogão e máquina de lavar. O avanço intergeracional foi mais forte entre as famílias de faixa intermediária de renda, onde o acesso subiu de pouco mais de 30% para cerca de 75%.
Duque explica que bens duráveis ficaram relativamente mais baratos nas últimas décadas com o avanço tecnológico e a produção em escala. Além disso, a ampliação do crédito favoreceu o acesso. Mas isso não é indicativo de um maior status social.
Se necessário: Paramount pode vender canais infantis para obter aval da União Europeia em compra da Warner Bros — Hoje, o acesso, por exemplo, a motocicletas deixou de ser um ponto de distinção social e passou a ser quase um bem de fácil acesso — diz.
Outro aspecto é que entre os “trintões” da geração X, quanto mais alta fosse a classe, maior era a chance de morarem fora da casa dos pais. A independência residencial ia de 30% entre os de menor renda para mais de 80% entre os mais ricos, e a propriedade da casa crescia com a renda.
Entre Millennials, o padrão se inverte. Aos 30, deixar o lar da família e ter um imóvel são fatores mais prevalentes entre os de menor renda, enquanto os mais ricos tendem a ficar mais tempo com os pais, possivelmente para investir em estudos diante do alto custo de moradia. Em famílias mais pobres, a possibilidade é mais limitada, o que se torna mais um fator de desigualdade.
— Mudaram as estratégias de investimentos da vida adulta. Para as populações de renda média e os mais vulneráveis, ter moradia própria é considerado um investimento importante. Crédito e programas sociais ajudaram. Antes, quem não tinha uma renda maior não tinha acesso nem a financiamento. Não conseguiam casa própria, a não ser que construíssem do zero, o que acontecia muito — diz Duque.
Desigualdades históricas Outras estruturas que impedem avanços são as desigualdades raciais e de gênero. Embora tenham diminuído, a renda dos homens brancos da geração X aos 30 anos era maior que a de todos os outros grupos identitários de Millennials hoje. Para Tafner, é reflexo da dinâmica econômica do país, moldada para manter a distinção dos grupos hegemônicos:
— O crescimento econômico não é capaz de gerar emprego e renda para aqueles que estão mais abaixo na pirâmide e há, entre os mais pobres, uma concentração maior de pardos e pretos. Então obviamente que isso vai se refletir.
O Atlas Econômico, plataforma desenvolvida pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com a Receita Federal do Brasil (RFB), traz informações sobre o encadeamento entre setores econômicos das 27 Unidades da Federação brasileiras, permitindo identificar setores-chave, direcionar investimentos e planejar políticas de desenvolvimento.
O Atlas é composto por Tabelas de Recursos e Usos (TRUs), Matrizes de Insumo-Produto (MIPs) e de Absorção de Investimentos (MAIs), que são ferramentas usadas para entender como os diferentes setores de uma economia se relacionam. Além dos dados, que podem ser baixados, a ferramenta traz simulações e análises que ajudam gestores na tomada de decisão.
Este relatório apresenta uma revisão sistemática da literatura nacional e internacional sobre a integração entre gestão do conhecimento (GC) e gestão de processos (GP) no setor público. Elaborado no âmbito do Subprograma de Pesquisa para o Desenvolvimento Nacional (PNPD), o estudo tem como objetivo consolidar fundamentos conceituais, evidências empíricas e lacunas de pesquisa que orientem estratégias futuras de modernização administrativa. A revisão nacional contemplou repositórios do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), da Escola Nacional de Administração Pública (Enap) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), identificando sete trabalhos com abordagens aplicadas em órgãos públicos. Os resultados indicam que a integração entre GC e GP permanece incipiente, embora haja evidências de complementaridade, como a utilização da GC para transformar conhecimentos tácitos em práticas institucionais e o papel da GP na formalização e padronização de processos. A revisão internacional, conduzida por estudo bibliométrico na base Web of Science (WoS), resultou em 460 publicações analisadas, das quais 23 foram selecionadas para síntese qualitativa. Os achados apontam padrões, barreiras (resistência cultural, informalidade e limitações tecnológicas), fatores facilitadores (apoio da liderança, uso de tecnologia da informação – TI e governança clara) e condições de êxito (padronização, aprendizagem organizacional e transparência). A análise integrada evidencia que a GC orientada a processos fortalece a preservação da memória organizacional, a inovação e a geração de valor público. Conclui-se que a institucionalização da integração entre GC e GP é estratégica para ampliar a eficiência, a transparência e a sustentabilidade da ação estatal, ao mesmo tempo em que abre oportunidades para pesquisas futuras sobre metodologias de documentação, frameworks de integração e impactos da GC em processos críticos da gestão pública.
Este artigo apresenta um panorama inédito acerca da possível “fuga de cérebros” no Brasil, examinando doutores titulados em instituições brasileiras entre 2013 e 2024 com registro de residência no exterior. A análise é feita a partir de dados extraídos das bases administrativas de discentes da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do Cadastro de Pessoas Físicas (CPF) da Receita Federal do Brasil. Os resultados apontam para um percentual reduzido (1,2%) de doutores que emigraram. A maior parte desses indivíduos concluiu o doutorado em programas de alta qualidade e nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (em inglês, science, technology, engineering and maths – STEM), tendo países desenvolvidos como principal destino de residência.
Há uma narrativa muito difundida no Ocidente sobre a ascensão industrial chinesa: Pequim teria oferecido seu mercado gigante às multinacionais, forçado joint ventures e obrigado a transferência de tecnologia. Empresas ocidentais ingênuas, deslumbradas com lucros de curto prazo, teriam entregado seu know-how de bandeja — e a China, a partir daí, construiu os campeões nacionais que hoje competem com o mundo desenvolvido.
Um artigo recém-traduzido do professor Feng Kaidong, da Universidade Tsinghua, publicado no substack The East is Read, demole essa narrativa com evidências fascinantes. E a história verdadeira é muito mais interessante — e muito mais útil — para quem pensa desenvolvimento produtivo no Brasil.
Desde o lançamento do ChatGPT da OpenAI, há três anos e meio, o mundo se familiarizou com os grandes modelos de linguagem (LLM, na sigla em inglês). A tecnologia vem acelerando e ampliando atividades que vão desde tarefas administrativas do dia a dia e pesquisa até diagnósticos médicos. O verdadeiro potencial da inteligência artificial, porém, vai muito além dos sofisticados chatbots. Além de gerar conteúdo digital, máquinas equipadas com IA podem executar de forma autônoma ações físicas no mundo real, usando câmeras e sensores. Exemplos de aplicações incluem equipamentos inteligentes, veículos autônomos e robôs humanoides. Eles usam os chamados “modelos de mundo” (world models) - sistemas capazes de entender como os objetos se movem, interagem e respondem - ao contrário dos LLMs, que se assemelham mais a mecanismos de texto preditivos, e são treinados com dados reais e simulados. Nas economias do mundo desenvolvidos, orientadas para o setor de serviços, é compreensível que grande parte da atenção e dos investimentos tenha se concentrado na aplicação da IA a tarefas cognitivas. Mas explorar essa tecnologia no mundo físico - especialmente no chão de fábrica - promete trazer retornos econômicos ainda maiores. Em primeiro lugar, os potenciais ganhos de produtividade poderão ser significativos. “Os LLMs podem proporcionar benefícios mais rápidos no curto prazo, mas, em teoria, a IA aplicada ao mundo físico tem um potencial maior de elevar a produtividade no longo prazo, porque ataca gargalos materiais”, diz Daniela Rus, diretora do Laboratório de Ciência da Computação e IA do Massachusetts Institute of Technology (MIT). “Afinal, a maior parte das horas de trabalho ainda é dedicada a movimentar átomos, e não bits” Os países desenvolvidos da Europa e Ásia já avançam na integração de robôs às linhas de montagem para impulsionar o crescimento econômico. Mas a IA permite que esses robôs também aprendam e se adaptem a ambientes complexos de produção, construção e logística, aumentando a eficiência e a qualidade e reduzindo muito o tempo necessário para reconfigurar processos entre a fabricação de diferentes produtos. As primeiras implementações já dão uma ideia desse potencial. A Foxconn, que produz equipamentos eletrônicos complexos como o iPhone, constatou que braços robóticos guiados por visão computacional capazes de se autoajustar melhoraram os tempos dos ciclos de montagem em até 30%, ao mesmo tempo que reduziram as taxas de erro em 25%. A adoção dessa tecnologia pela Amazon em um centro de distribuição nos EUA mostrou que frotas de robôs de transporte de encomendas equipadas com IA aprenderam a se deslocar em meio a trabalhadores e obstáculos em movimento, reduzindo em 10% o tempo gasto em seus trajetos. A robótica movida por IA pode ainda ajudar a aliviar a escassez de mão de obra nos países ricos. Há oferta abundante de profissionais com formação universitária para empregos intensivos em conhecimento no setor de serviços, que agora parecem estar na linha de frente do impacto dos LLMs. E os fabricantes frequentemente apontam a falta de trabalhadores como entrave à produção. Em uma pesquisa feita este ano pela consultoria Capgemini, mais de 50% dos executivos industriais consultados disseram que a escassez de mão de obra, custos e regulamentação estão entre os cinco motivos para adotar a chamada IA física. (Máquinas autônomas também podem realizar reparos sob medida em ambientes e condições perigosas para seres humanos) Para os países ricos a maior oportunidade está em aplicar a IA à produção. Afinal, as maiores transformações tecnológicas tendem a não reproduzir o que os seres humanos já conseguem fazer, e sim tornar possível aquilo que eles não conseguem As tensões políticas envolvendo a imigração, o envelhecimento da população e a mudança de atitude em relação ao trabalho manual reforçam, no longo prazo, os argumentos a favor do investimento em robótica aprimorada por IA. Embora a tecnologia elimine alguns postos de trabalho, ela também criará funções de maior valor agregado no chão de fábrica, onde o conhecimento dos processos produtivos continuará sendo necessário para supervisionar, reconfigurar e treinar robôs. (Nos países ricos, onde cresce a preocupação com os efeitos da IA sobre os empregos de colarinho branco, uma migração do foco da tecnologia para a manufatura talvez seja relativamente menos perturbadora do ponto de vista político). Por fim, a IA física complementa os esforços dos governos para aumentar a resiliência das cadeias de abastecimento internas em setores estratégicos. De fato, as máquinas capazes de realizar múltiplas tarefas poderiam reduzir a necessidade de grandes linhas de montagem, permitindo que a produção ocorra localmente a um custo marginal mais baixo. Há, portanto, um claro argumento econômico e político para que os formuladores de políticas dos países desenvolvidos deem apoio à adoção da IA física na indústria. A China já fez avanços significativos na aplicação da tecnologia no mundo real e o mais recente plano quinquenal de Pequim inclui uma reorientação estratégica em direção à chamada “IA incorporada” (embodied AI”). A transição levará tempo no Ocidente. São necessários capital, avanços adicionais nos modelos de mundo e enormes volumes de dados para treinamento. Também são indispensáveis as cadeias de abastecimento necessárias para a fabricação do hardware robótico. Além disso, as fábricas e centros de distribuição terão de ser redesenhados. Mas o capital de risco demonstra um interesse crescente por aplicações ligadas à robótica. Há, é claro, aplicações mais amplas para a chamada IA incorporada. O uso de veículos autônomos, como os robotáxis, está aumentando. Robôs humanoides são frequentemente apontados como o futuro dos cuidados a idosos e das tarefas domésticas. E os avanços na robótica cirúrgica também parecem promissores. Ainda assim, o setor manufatureiro provavelmente oferece o caminho mais rápido para alcançar escala. Em comparação com estradas, moradias ou hospitais, as fábricas são ambientes mais controlados, que podem ser projetados em função das máquinas. Em vez de desenvolver tecnologias que imitem os humanos, as empresas podem criar robôs especializados capazes de atingir níveis de velocidade, precisão e resistência muito além dos limites humanos. Os LLMs demonstraram a capacidade da IA de processar informações. Mas, para os países ricos que buscam mais crescimento econômico e maior resiliência, a maior oportunidade está em aplicar essa inteligência à produção. Afinal, as maiores transformações tecnológicas tendem a não reproduzir aquilo que os seres humanos já conseguem fazer, e sim tornar possível aquilo que eles não conseguem.
O Ministério da Educação (MEC) publicou, nesta segunda-feira, dia 6, a Portaria nº 591/2026, que autoriza o funcionamento de 24 novos campi de Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IFs) localizados em 12 estados brasileiros. Com o acréscimo dos 24 campi, a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica passa a contar com 754 unidades.
O ensaísta nova-iorquino afirma que nos países desenvolvidos existe um descontentamento generalizado com as redes sociais e que as empresas não deveriam ter acesso a conteúdo que vicie crianças.
Jonathan Haidt (Nova Iorque, 62 anos) acredita que a psique humana é composta por um grande elefante — os processos emocionais, libidinais e intuitivos — e um pequeno cavaleiro (a razão) que tenta guiá-lo e age como seu assessor de imprensa: sua função é racionalizar e justificar suas posições perante o mundo. Com base nessa ideia, ele buscou compreender o conflito entre posições políticas em um mundo cada vez mais polarizado, como escreve em "A Mente Justa: Por que a Política e a Religião Dividem as Pessoas Sensatas" (Deusto, 2012).
Haidt é psicólogo moral e professor da Universidade de Nova York. Seu primeiro livro, "A Hipótese da Felicidade" (Deusto, 2006), busca resgatar o conceito de bem-estar dentro de uma psicologia focada no tratamento do sofrimento, explorando doutrinas como o budismo e o estoicismo, muitos cujos princípios são aplicáveis a pessoas à deriva no mal-estar contemporâneo. Seu livro mais recente, "A Geração Ansiosa: Por que as Mídias Sociais Estão Causando uma Epidemia de Doenças Mentais entre Nossos Jovens" (Deusto, 2024), causou grande repercussão ao confirmar o que muitos suspeitavam: que a tecnologia está arruinando a psique e a socialização dos jovens.
Haidt veio a Madri para falar sobre esses assuntos na Fundação Rafael del Pino. Ele aproveitou a oportunidade para visitar alguns políticos de alto escalão: o primeiro-ministro, Pedro Sánchez, e o líder da oposição, Alberto Núñez Feijóo. “Ambos concordam que é necessário aumentar a idade de acesso às redes sociais”, afirma Haidt, que defende a proibição do uso dessas plataformas antes dos 16 anos.
A entrevista é de Sérgio C. Fanjul, publicada por El País, 04-07-2026.
Eis a entrevista. Você é um tecnocético?
Sim, comecei como um tecno-otimista, um produto do século XX. Uma das minhas primeiras lembranças é a da chegada do homem à Lua. Sempre quis ser astronauta ou cientista. Como psicólogo social, tenho me interessado por como a tecnologia muda a forma como vivemos, pensamos e nos relacionamos uns com os outros: surgiram problemas, mas nós os resolvemos. Portanto, estou aberto à ideia de que a tecnologia pode melhorar o mundo.
Mas?
Acredito que tecnologias como redes ou IA podem ter efeitos tão profundos que talvez não sejamos capazes de nos adaptar.
Parece que hoje em dia a tecnologia nos controla, e não o contrário.
Exatamente. Quando o iPhone foi lançado, era um incrível canivete suíço com lanterna e calculadora, mas não foi projetado para ser usado o tempo todo. Aí vieram as redes sociais e as notificações, e o que era uma ferramenta incrível se tornou a peça central da economia da atenção. Foi aí que se tornou prejudicial para a humanidade.
Eles nos venderam isso como liberdade, mas era uma corrente muito longa.
É uma invenção da qual você não consegue escapar, mesmo que tente; você se sente compelido a retornar para o benefício de alguém. Parece servidão ou escravidão.
Antes, não vivíamos conectados à internet.
Steve Jobs disse que os computadores eram bicicletas para a mente. A internet em seus primórdios parecia um milagre: vimos que ela podia derrubar tiranos na Primavera Árabe.
Mas?
Mas o lado sombrio veio à tona. Com o caso Cambridge Analytica, vimos que as redes sociais podiam ser usadas para manipulação. Percebemos que estavam se tornando prejudiciais e começamos a nos perguntar: o que fizemos com os jovens e conosco mesmos? Hoje, existe um sentimento de descontentamento com as redes sociais e a tecnologia nos países desenvolvidos.
As crianças de hoje não saberão como era o mundo sem a internet; elas podem pensar que o vício em celulares é algo normal.
A infância foi reprogramada. Os humanos evoluíram para viver na savana e na floresta, subindo em árvores, em um mundo natural. Não é bom para as crianças crescerem com uma tela; elas precisam explorar, tocar, correr e olhar as pessoas nos olhos.
Você se concentrou no efeito da tecnologia sobre as crianças, mas não deveríamos também limitar o uso das redes sociais aos adultos?
Os adultos também são prejudicados, é claro. Mas eu me concentrei nos jovens por dois motivos. O primeiro é que o dano é maior durante a puberdade, e é por isso que adiar o uso das redes sociais pode trazer enormes benefícios. Segundo, os adultos precisam das redes sociais; elas são úteis para eles, mas os jovens não precisam delas. Eles não perderiam nada. Há um terceiro motivo: as empresas não deveriam ter acesso a crianças. Se os adultos optam por jogar ou usar drogas, essa é a escolha deles. Deixamos que tomem decisões ruins. Mas não devemos permitir que as empresas viciem as crianças.
Inteligência artificial?
No início, o ChatGPT era divertido; não escrevia muito bem. Esperávamos que crescesse gradualmente, mas cresceu cada vez mais rápido, dobrando sua capacidade a cada três ou quatro meses. A possibilidade de ele lidar com a maior parte do trabalho é muito real. É por isso que está causando resistência: as sociedades ocidentais costumavam ser amigáveis à tecnologia, mas não mais. Os EUA são a sociedade mais antitecnologia de todas, mesmo entre estudantes universitários; eles sempre apoiaram essas inovações.
Às vezes me irrita ver pais dando smartphones para crianças muito pequenas, só para se livrarem da responsabilidade. O que devo fazer?
Você não pode dizer nada para eles. Mas eu sempre digo às autoridades governamentais que regulamentações e campanhas de saúde pública contra a "chupeta digital" são urgentemente necessárias. Temos evidências dos danos que a tecnologia causa às crianças pequenas, e ainda assim consideramos normal dar tablets para crianças menores de cinco anos e carrinhos de bebê com telas acopladas. Isso não permite que o cérebro se desenvolva adequadamente.
A emoção importa mais do que o pensamento racional hoje em dia?
Sempre foi assim. Existem apenas algumas condições muito específicas em que isso não é verdade. Você conhece aquelas máquinas gigantescas em laboratórios de física que criam plasma? É possível criar outras formas de matéria sob condições muito específicas. As universidades priorizam o pensamento racional, assim como os fundos de investimento. Fora desse contexto, as emoções são o que movem o mundo.
Algo semelhante ao efeito de cancelamento à esquerda está acontecendo à direita hoje em dia?
Sim, com ideias que se originaram na extrema esquerda, como o conceito de microagressão: acadêmicos que estudaram o conceito alertaram que ele poderia ser adotado pela direita. E foi exatamente o que aconteceu.
Parece que as expressões religiosas e espirituais estão voltando à moda. Por quê?
Eu sei que, entre os jovens, especialmente os homens, e pelo menos nos EUA, estamos vendo esse retorno. Os homens não estão escolhendo alguma forma de protestantismo progressista, mas sim o catolicismo ou a Igreja Ortodoxa — opções mais difíceis e restritivas que exigem mais sacrifício. Acho que isso acontece porque os jovens estão perdidos em um abismo de anomia e falta de sentido, desesperados por orientação moral, algo que dê estrutura ao mundo para eles.
Os dados fazem parte do Relatório Nacional da Semana da Escuta das Adolescências nas Escolas, que traz a visão de 2,3 milhões de jovens de todos os estados do país sobre aprendizagem, clima escolar e participação. O levantamento foi realizado pelo MEC (Ministério da Educação) em parceria com o Itaú Social, Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação) e Undime (União dos Dirigentes Municipais de Educação).
“Com elementos do cotidiano e criatividade, professores planejam atividades mais significativas, que engajam adolescentes de múltiplas formas. Essas abordagens tornam as aulas mais atrativas. Seja arte ou matemática, esportes ou língua portuguesa, estudantes valorizam professores que os estimulem a pensarem coletivamente e a se sentirem confiantes em aplicar o que aprendem em contextos variados”, explica a superintendente do Itaú Social, Patricia Mota Guedes.
Na prática, o que muda com a criação do ECA Digital em relação ao que já era previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente?
O Estatuto da Criança e do Adolescente, como foi concebido originalmente, já garante a proteção integral de crianças e adolescentes em qualquer contexto da vida. A grande questão é que ele foi criado antes da chegada da internet e, por esse motivo, não se tinha normas de proteção para este contexto específico.
O que o chamado “ECA Digital” faz é justamente atualizar essa proteção para a realidade das plataformas e da vida online, trazendo mais clareza sobre as responsabilidades. Na prática, ele reforça o dever de prevenção por parte das empresas de tecnologia, o que compete aos pais, amplia mecanismos de denúncia e resposta a violações, e reconhece que o ambiente digital não é um espaço à parte, mas parte da vida cotidiana. Portanto, deve ser igualmente protegido. É menos uma criação de novos direitos e mais um detalhamento de como garantir direitos já existentes no contexto digital.
O Brasil tem hoje 63,9 milhões de pessoas com 15 anos ou mais que abandonaram a escola antes de concluir a educação básica, mostra o estudo “ População de 15+ fora da escola, demanda potencial por EJA e transições para o trabalho: diagnóstico e evidências para políticas públicas”. O contingente é equivalente a 37,3% da população nessa faixa etária, maior que a população de países como Itália ou África do Sul.
O relatório, apresentado nesta terça-feira durante o lançamento da Rede EJA e Inclusão Produtiva, é uma iniciativa que reúne 16 organizações da sociedade civil em torno de um compromisso de longo prazo para ampliar o acesso à Educação de Jovens e Adultos (EJA) e promover a inclusão produtiva no Brasil. O estudo foi realizado por Fundação Roberto Martinho, Fundação Bradesco, Fundação Itaú/ Itaú Educação e Trabalho e Fundação Arymax, com a cooperação da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).
A rede tem como objetivo dois compromissos de longo prazo: ampliar o acesso à Educação de Jovens e Adultos (EJA), e impulsionar a inclusão produtiva no país.
O relatório produzido pelo grupo mostra que esse número de brasileiros que não concluíram a educação básica vem diminuindo, mas não pelo avanço de políticas públicas, e sim pela mortalidade desse público. Os dados apontam que 51% da redução da demanda por Educação de Jovens e Adultos (EJA) desde 2012 ocorreu não pela escolarização dessa população, mas em razão da mortalidade. Em contrapartida, 8% dessa queda é explicada pelo programa.
Em outras palavras, para cada pessoa que concluiu a educação básica pela EJA nesse período, mais de seis morreram sem terminar os estudos. “A queda da demanda não significa que o problema está sendo resolvido. Indica que essa população está envelhecendo e morrendo antes de ser alcançada. E que os próximos 10 a 15 anos representam a última janela de oportunidade para alcançar as gerações nascidas entre 1960 e 1980”, alerta o relatório.
Para a superintendente de Conhecimento da Fundação Roberto Marinho, Rosalina Soares, é necessário fortalecer e ampliar políticas como o EJA para chegar a melhores resultados na educação brasileira.
— A descontinuidade produz retrocessos profundos. Quando uma política é interrompida, leva muito tempo para mobilizar novamente os estudantes e recuperar esses casos. Não é por acaso que as matrículas do EJA estão caindo há anos — disse a especialista, que também ressaltou o impacto da pandemia de Covid-19. — A pandemia também afastou muitas pessoas da escola, porque essa população teve que enfrentar desafios enormes de sobrevivência. Rosalina ressalta que a educação é um "direito básico", que não pode ser um desafio apenas do Ministério da Educação (MEC).
— Uma sociedade em transformações permanentes precisa criar possibilidades permanentes de aprender. Uma das grandes transformações que o Brasil precisa fazer passa pelo EJA, que tem um enorme potencial de transformar o Brasil A diretora da Educação da Unicef Brasil, Mônica Pinto, destacou que ainda é necessário avançar na garantia de direitos a este público, que não teve acesso à educação básica.
— No caso do EJA, temos que pensar na população como um todo, que luta, trabalho, e acredita, mas que também não tem seus direitos garantidos — disse Mônica durante a apresentação do estudo. A superintendente de Gestão Acadêmica do Itaú, Silvana Oliveira, afirma que, para aumentar as matrículas do EJA, é necessário oferecer mais flexibilidade, e mostrar ao público-alvo que a educação pode ser um meio de melhoria de vida.
— A escola precisa caber na vida desse estudante e, para isso, flexibilidade curricular e de organização são fundamentais. Se esse estudante percebe que a educação gera ou oportuniza inserção produtiva, aumento de renda e mobilidade social, o retorno para a escola deixa de ser uma segunda oportunidade de escolarização. Desde 2012, o contingente de brasileiros sem educação básica caiu 16%. Mas, ao acompanhar gerações nascidas entre 1930 e 1994 com base nos dados da Pnad Contínua do IBGE, os pesquisadores chegaram à conclusão de que o encolhimento da demanda não decorre da expansão da escolarização, mas do envelhecimento dessa população.
A explicação aparece na baixa capacidade da principal política pública voltada para esse público. Hoje, a Educação de Jovens e Adultos atende apenas 1,5% da demanda potencial do país. A cobertura varia entre as etapas:
1,4% nos anos iniciais do Ensino Fundamental; 1,1% nos anos finais; 2,3% no Ensino Médio. Alagoas é o estado que registra a maior taxa de atendimento (4,1%), enquanto Mato Grosso do Sul tem a menor (0,7%).
A oferta da modalidade também encolheu. Entre 2008 e 2024, o número de municípios brasileiros sem nenhuma turma de EJA mais que dobrou, passando de 493 para 1.092. Das 122.469 escolas que oferecem educação básica no país, 24,6% mantêm turmas da modalidade. Na prática, três em cada quatro escolas brasileiras não oferecem essa oportunidade para jovens e adultos que desejam retomar os estudos.
Os pesquisadores atribuem esse cenário a anos de baixa prioridade da modalidade. Durante 16 anos, a EJA recebeu o menor fator de ponderação do Fundeb entre todas as etapas da educação básica — distorção corrigida apenas em 2023. O último material didático específico foi distribuído em 2014, deixando uma década sem atualização. Além disso, segundo diagnóstico do próprio Ministério da Educação citado pelo estudo, há oferta reduzida de formação de professores voltada ao ensino de jovens e adultos.
Custo de R$ 66 bilhões O estudo ainda calculou o custo da incompletude educacional da população, estimado em R$ 66 bilhões em renda perdida. O valor considera que renda domiciliar per capita de quem está fora da escola sem concluir a educação básica é de R$ 1.427, pouco mais da metade dos R$ 2.777 recebidos, em média, por quem concluiu essa etapa de ensino. Entre esse grupo:
56,5% vivem em domicílios com renda de até um salário mínimo; 32,8% vivem abaixo da linha de pobreza adotada para países de renda média-alta; a taxa de pobreza é 1,8 vez maior do que entre quem concluiu a educação básica. Para estimar o impacto econômico da baixa escolaridade, os pesquisadores simularam o que aconteceria caso metade dessa população — cerca de 32,5 milhões de pessoas — concluísse a educação básica. O resultado aponta um ganho potencial equivalente a 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB).
"É uma perda que ocorre todo ano — não por ausência de demanda, mas por ausência de política", afirma o relatório.
Motivos do abandono escolar O levantamento também aponta que as razões para abandonar a escola e para nunca voltar são distintas entre homens e mulheres. Entre eles, o trabalho é o principal fator citado em todas as etapas. Foi o motivo que levou 53,9% dos homens a abandonarem os estudos quando jovens e continua sendo a principal barreira ao retorno para 61,7%.
Entre as mulheres, o cuidado com a família é o mais citado. Hoje, 34,9% afirmam que não conseguem voltar à escola por causa dos filhos, das responsabilidades domésticas e das tarefas de cuidado. A gravidez, sozinha, foi responsável pela interrupção dos estudos de 22,9% delas.
Para os pesquisadores, oferecer vagas sem garantir creches, horários flexíveis e condições reais para conciliar estudo, trabalho e família significa ignorar justamente os fatores que afastaram essa população da escola. Atualmente, três em cada quatro matrículas da EJA no ensino fundamental ocorrem no período noturno — horário que dificulta o acesso de trabalhadores informais, profissionais que trabalham à noite e mulheres responsáveis pelo cuidado de crianças pequenas.
Principais motivos alegados entre homens para ter interrompido o ensino:
Trabalho: 53,9% Desinteresse: 26,8% Completou o nível desejado: 6,1% Principais motivos alegados entre mulheres para ter interrompido o ensino:
Trabalho: 25,8% Gravidez: 22,9% Desinteresse: 22,5% Perfil de quem não concluiu os estudos Os quase 64 milhões de brasileiros sem educação básica concluída não formam um grupo homogêneo. Pessoas pretas e pardas representam 63,9% desse contingente. As maiores concentrações estão nas regiões Norte e Nordeste, onde, em muitos estados, mais da metade da população adulta não concluiu a educação básica. O fenômeno, porém, também é observado em áreas do interior do Sudeste e do Centro-Oeste.
O grupo se divide em três perfis. Os 19 milhões de brasileiros que não concluíram sequer os anos iniciais do ensino fundamental são, em sua maioria, idosos que cresceram em um período em que o acesso à escola ainda era reduzido. Outros 25,6 milhões interromperam os estudos durante o Ensino Fundamental e hoje concentram-se principalmente entre 30 e 59 anos. Já os 19,3 milhões que deixaram a escola no Ensino Médio são mais jovens, em geral entre 18 e 39 anos.
Essa composição etária cria o que o estudo define como uma janela demográfica que está se fechando. As gerações nascidas entre 1960 e 1980, que concentram a maior parte da demanda remanescente, têm hoje entre 46 e 66 anos. Nos primeiros anos de vigência do novo Plano Nacional de Educação, sancionado em abril, ainda será possível alcançá-las em idade economicamente ativa. Em cerca de uma década, boa parte já terá ultrapassado os 65 anos, tornando essa política progressivamente menos efetiva.
Entenda os números:
44,7 milhões não concluíram o ensino fundamental; 19,3 milhões suspenderam os estudos antes de terminar o ensino médio; 63,9% são pessoas pretas ou pardas; 49,2% são mulheres, indicando participação semelhante entre os dois sexos. Propostas para mudar o cenário O relatório da Rede EJA e Inclusão Produtiva apresenta sete diretrizes para reverter esse cenário. Entre elas estão a definição de metas em números absolutos de concluintes, já que metas percentuais tendem a cair automaticamente com o envelhecimento da população, a concentração de recursos nas regiões com maior déficit educacional e a adoção de um modelo de EJA compatível com a realidade dos estudantes, com oferta de creches, horários flexíveis e integração entre estudo, trabalho e família.
As sete direções de ação propostas são:
Metas de progresso real. Formular indicadores em números absolutos de conclusão, não apenas dinâmica demográfica. Certificação com formação. Garantir que a certificação por exame não substitua a escolarização — acompanhando-a de oferta presencial ou híbrida robusta. Busca ativa e priorização. Fortalecer estratégias de busca ativa e priorização de públicos vulneráveis — a demanda é massiva, mas invisível para as redes de ensino. Inversão territorial. Direcionar recursos para onde o déficit é maior. Governança intersetorial. Articular educação, proteção social e trabalho em itinerários integrados. Conciliação como padrão. Criar condições concretas de conciliação entre estudo, trabalho e família — creches, horários flexíveis e percursos integrados como desenho padrão da EJA. Blindagem contra descontinuidade. Garantir financiamento estável, materiais didáticos atualizados e formação docente permanente. Além disso, o estudo recomenda duas outras práticas para que os objetivos possam ser atingidos: assegurar que certificações como o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja) complementem, e não substituam a escolarização efetiva; e garantir financiamento permanente e contínuo para a EJA.
Para os pesquisadores, o desafio deixou de ser apenas ampliar vagas. Agora, a corrida é contra o tempo. "O novo Plano Nacional de Educação (PNE) e o ciclo político que se abre em 2026 representam, possivelmente, a última oportunidade de alcançar as gerações que mais precisam dessa política — antes que a passagem do tempo resolva o problema da pior forma possível", conclui o relatório.
O PNE estabelece, pela primeira vez, um objetivo específico para a Educação de Jovens e Adultos. As metas incluem elevar a alfabetização para 97% em cinco anos, garantir oferta para toda a demanda em cada ente federativo e ampliar para 25% a participação da EJA integrada à educação profissional. O plano anterior previa a mesma meta de integração, mas o país alcançou apenas 2,5% das matrículas, com somente o Piauí atingindo o objetivo.
O levantamento contou com parcerias técnicas, incluindo o Centro para o Estudo da Riqueza e da Estratificação Social/Iesp-UERJ (Ceres), o Laboratório de Monitoramento e Avaliação de Políticas e Eleições /Iesp-UERJ (Mapes) e o Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp-Uerj).
Fazem parte da Rede EJA e Inclusão Produtiva Ação Educativa a organização não governamental Ashoka, a consultoria Conhecimento Social - Estratégia e Gestão, o Conselho Nacional do SESI, a Fundação Arymax, a Fundação Bradesco, a Fundação Itaú - Itaú Educação e Trabalho, a Fundação Roberto Marinho, a GIFE- Grupo de Instituições Fundações e Empresas, o Instituto Rodrigo Mendes, o Pacto Global da ONU, as ONG Redes da Mar, a Todos Pela Educação, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), a United Away Brasil - Juventudes Potentes, além de especialistas em educação, gestores públicos e convidados.
O macrossetor TIC (Tecnologia da Informação e Comunicação) no Brasil projeta a criação de 33 mil novos empregos formais, no formato CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), em 2026. A maioria das vagas do segmento, no entanto, realizam contratações de PJs (pessoas jurídicas) no regime MEI (Microempreendedor Individual). As infromações são de pesquisa da Brasscom, associação das empresas de TIC. Segundo a pesquisa, a criação de vagas formais se concentrará no segmento de serviços e software, enquanto os outros cinco operam em estagnação ou retração. A formalização é um dos principais desafios do setor, na visão da organização. Os principais obstáculos para mais contratações CLT, segundo a Brasscom, são o ambiente regulatório e o custo de contratação. A entidade elenca a reoneração gradual da folha de pagamento como um dos fatores detratores da criação de vagas formais na área. Em 2025, o número de novas vagas CLT na tecnologia foi menor do que a projeção da Brasscom. Foram 23,7 mil vínculos criados, enquanto a projeção classificada pela organização como "conservadora" previa mais de 30 mil postos. Houve desaceleração de 39% no crescimento do emprego CLT em 2025 na área —terminou 2024 com 51,8 mil novas vagas CLT e 2025 com 31,4 mil A associação também aponta aumento de dificuldade de entrada de profissionais jovens e recém-formados, enquanto o mercado tem maior apetite por candidatos com experiência.
Entre as despesas discricionárias estão as bolsas e os auxílios da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), cujo orçamento é de R$ 2,8 bilhões. O Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) tem previsão de R$ 1,9 bilhão, e o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), R$ 373,6 milhões.
Do total de despesas discricionárias, o Novo PAC conta com R$ 4,9 bilhões. Os valores são destinados à infraestrutura educacional. Despesas com água, energia elétrica e manutenção das instalações das instituições federais também são consideradas discricionárias.
Além das despesas discricionárias, o orçamento é composto pelas chamadas despesas de execução obrigatória, como as emendas parlamentares e a complementação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb).
A ideia de que cada geração viveria melhor que a anterior, e de que o estudo seria o instrumento dessa passagem, não descreve uma regularidade natural da economia. Corresponde a uma expectativa socialmente construída, formada em condições históricas determinadas e sustentada por arranjos de trabalho, salário e proteção que tornaram plausível, para parte da população brasileira, projetar autonomia adulta a partir do diploma. Tomar essa expectativa como objeto, e não como pressuposto, permite comparar dois grupos concretos. De um lado, integrantes da geração X que chegaram aos 30 anos entre 1997 e 1999. De outro, millennials que atingiram a mesma idade entre 2022 e 2024. O que está em jogo não é um juízo moral sobre esforço individual, mas a investigação das condições materiais que organizam a entrada na vida adulta e decidem se a escolaridade se converte, ou não, em renda, moradia e estabilidade.
A economia analisada como instituição socialmente organizada oferece o primeiro fio dessa investigação. A obra clássica de Karl Polanyi sobre a sociedade de mercado mostra que a economia de mercado só se realiza plenamente quando trabalho, terra e dinheiro são incorporados ao mecanismo mercantil, o que subordina a própria substância social às exigências do mercado.[1] O trabalho, tratado como mercadoria, corresponde na verdade à vida das pessoas, e, por isso, a sua mercantilização exige contrapesos institucionais capazes de conter os efeitos destrutivos do mercado.[2] Quando os mecanismos de proteção que ancoravam o trabalho se afrouxam, a relação entre esforço educacional e segurança material deixa de ser estável. O ponto interessa de modo direto ao caso brasileiro. A escolarização ampliada dos millennials ocorreu num mercado de trabalho que multiplicou formas de contratação e transferiu risco ao trabalhador. A promessa de mobilidade pressupunha proteção, e é a erosão dessa proteção que ajuda a explicar por que o diploma passou a render menos.
O segundo fio vem da sociologia da reprodução. A análise de Pierre Bourdieu sobre a distinção social indica que a posse de diplomas perde valor relativo à medida que se generaliza, num processo em que a expansão do acesso à educação convive com a desvalorização dos títulos. A escolaridade que antes distinguia passa a ser condição mínima de entrada, sem garantir a posição que prometia. Aplicada ao Brasil, a observação desfaz a leitura ingênua segundo a qual mais anos de estudo produziriam, por si, mobilidade. A geração mais escolarizada disputa postos num mercado que incorporou a escolaridade como exigência básica e deslocou para outros recursos, herança, redes e capital econômico de origem, a diferenciação efetiva. O resultado é uma escolaridade ampla em quantidade e deprimida em retorno.
A sociologia econômica acrescenta que os resultados no mercado de trabalho não derivam apenas de atributos individuais de qualificação. A formulação de Mark Granovetter sobre o enraizamento da ação econômica sustenta que o acesso a oportunidades depende de redes e posições sociais que distribuem informação e confiança de modo desigual, de sorte que quem parte de posições subalternas encontra menos pontes para empregos protegidos e mais bem remunerados. No caso brasileiro, a pesquisa de Nadya Araujo Guimarães sobre desemprego e mercados de trabalho evidencia que o ingresso e a permanência no emprego se organizam por segmentações que reservam estabilidade a alguns e rotatividade a muitos. A mesma escolaridade gera, assim, retornos distintos conforme a posição social de origem, o que recoloca a desigualdade no centro da explicação.
A formação histórica brasileira deu a essa segmentação contornos particulares. Maria Sylvia de Carvalho Franco identificou uma formação social peculiar de homens livres e expropriados, que não estavam submetidos ao trabalho forçado nem integrados como proletariado moderno.[3] Nessa ordem, a posição social se reproduzia por mecanismos de dominação pessoal que definiam de antemão os alvos de ascensão e bloqueavam o caminho de quem vivia do próprio trabalho.[4] Virgínia Fontes mostrou que a produção social de trabalhadores livres, isto é, expropriados, é condição e resultado da expansão das relações capitalistas, qualquer que seja a forma jurídica assumida pela atividade laboral.[5] A autora associa, ademais, a expropriação de direitos, a mercantilização de bens antes garantidos e o uso da força de trabalho sem contrato a formas contemporâneas de superexploração.[6] Marcelo Badaró Mattos reconstituiu a trajetória dos trabalhadores e de suas organizações e mostrou que conquistas sociais resultaram de conflito, e não de concessão automática do crescimento. Lidas em conjunto, essas contribuições afastam a tese de uma escada social que subiria sozinha com a escolaridade e indicam uma estrutura que reitera desigualdade enquanto incorpora parcelas da população ao consumo.
Gênero e raça atravessam essa estrutura e não funcionam como acréscimos posteriores. Helena Hirata e Danièle Kergoat (2007) demonstram que a divisão sexual do trabalho organiza de modo persistente quem ocupa as funções menos remuneradas e mais precárias, hierarquia que se atualiza mesmo quando cresce a escolaridade das mulheres. A discussão proposta por Nancy Fraser e Axel Honneth sobre redistribuição e reconhecimento oferece um modo de articular essas dimensões sem reduzir a desigualdade racial e de gênero a um efeito secundário da renda. A partir desse quadro, a comparação entre as duas gerações deixa de ser exercício estatístico isolado e exige leitura simultânea de classe, raça e gênero. É com esse instrumental que os dados da seção seguinte podem ser interpretados sem se transformarem em descrição de médias.
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil Renda, moradia e direitos diante da vida adulta adiada Os resultados do estudo conduzido por Daniel Duque, Michael França e Fillipi Nascimento, do Insper, divulgados por Castro e Fernandes em O Globo, fornecem a base empírica para examinar esse processo.[7] A análise compara integrantes da geração X nascidos entre 1967 e 1969 com millennials nascidos entre 1992 e 1994, observados todos aos 30 anos, e conclui que a geração mais nova chegou a essa idade com renda superior à da anterior, porém com avanço insuficiente para alterar posições. Em nenhuma faixa de renda o crescimento anual dos millennials, em relação à geração X, ultrapassou 2%, patamar que os autores associam à baixa mobilidade social do país. O dado central não é a ausência de ganho, e sim a sua insuficiência para converter escolaridade em mudança de status.
A distribuição desses ganhos por faixa de renda revela um avanço limitado no seu alcance. Os ganhos concentraram-se na base da pirâmide, com crescimento próximo de 2% ao ano entre os 25% mais pobres e cerca de 1,3% ao ano entre os 5% mais pobres, enquanto no topo o movimento foi quase nulo, inferior a 0,5% ao ano entre os 25% mais ricos e próximo de zero entre os 10% mais ricos. Os próprios autores indicam que a mobilidade efetiva exigiria crescimento da ordem de 3% ao ano, com variação entre 2% e 4%, e avanço das camadas inferiores em ritmo ao menos duas vezes superior ao dos estratos mais altos da geração anterior. As crises de 2015 e 2016 e a pandemia comprimiram rendimentos e ajudam a explicar por que mesmo os grupos com maior avanço não mudaram de posição. A Tabela 1 sistematiza esses números, todos aproximados, e sua leitura.
Tabela 1 – Renda e mobilidade intergeracional por faixa de renda
Faixa de renda Ganho médio anual de renda dos millennials em relação à geração X (aprox.) Interpretação sociológica Implicação jurídica/social 5% mais pobres Aprox. 1,3% ao ano Ganho concentrado na base, insuficiente para alterar a posição relativa Tensiona a erradicação da pobreza (art. 3º, III) 10% mais pobres Aprox., abaixo de 2% ao ano Melhora modesta, sem ruptura do padrão de origem Mantém distância do trabalho digno (arts. 1º, IV, e 7º) 25% mais pobres Aprox. 2% ao ano Maior avanço relativo, ainda abaixo do limiar de mobilidade Reduzir desigualdade exigiria ganho superior (art. 170, VII) Mediana da população Aprox. 1,5% ao ano Estagnação do centro da distribuição Fragiliza a valorização do trabalho na ordem econômica (art. 170) 25% mais ricos Aprox., abaixo de 0,5% ao ano Quase ausência de avanço no estrato superior O teto não se moveu, sem efeito redistributivo 10% mais ricos Aprox., próximo de zero Imobilidade no topo da distribuição Estagnação geral, não convergência entre faixas 5% mais ricos Aprox., pouco acima de 0,5% ao ano Avanço residual no topo Confirma ausência de dinamismo capaz de sustentar mobilidade Valores aproximados (“aprox.”), extraídos da reportagem e dos gráficos do anexo.
Fonte: resultados do estudo de Duque, França e Nascimento (Insper), divulgados por Castro e Fernandes (O Globo, 7 jun. 2026).
O paradoxo se enuncia com clareza quando se cruzam escolaridade e retorno. A geração que mais estudou na história do país obteve, na faixa etária analisada, ganhos de renda que não acompanham o esforço educacional acumulado. A desvalorização relativa dos diplomas, discutida na primeira seção, opera num mercado que generalizou a exigência de escolaridade sem ampliar na mesma proporção os postos capazes de remunerá-la. O diploma deixou de ser instrumento de distinção e tornou-se condição de elegibilidade, deslocando a competição para credenciais adicionais, idiomas, pós-graduações e estágios pouco ou nada remunerados, que dependem de tempo e dinheiro disponíveis sobretudo a quem já parte de melhor posição. A escolaridade ampliada, nesse arranjo, redistribui credenciais sem redistribuir oportunidades.
A moradia expõe outra face do mesmo processo, e nela aparece uma inversão significativa. Entre a geração X, a probabilidade de constituir domicílio fora da casa dos pais crescia com a renda, de cerca de 30% entre os mais pobres a mais de 80% entre os mais ricos, de modo que a autonomia residencial funcionava como marca de ascensão. Entre os millennials, o padrão se inverte, com a saída do domicílio familiar mais forte nos estratos de menor renda e a permanência prolongada na casa dos pais difundindo-se inclusive entre setores de renda mais alta.
A reportagem associa parte da maior saída entre os mais pobres a programas habitacionais, sem que isso configure ascensão, enquanto a permanência no topo sinaliza que constituir domicílio próprio se tornou mais custoso e mais adiado. A Tabela 2 reúne os indicadores de moradia disponíveis, todos aproximados, e registra os pontos que o gráfico do anexo não permite estimar com segurança.
Tabela 2 – Moradia, autonomia residencial e propriedade aos 30 anos
Indicador Geração X (aprox.) Millennials (aprox.) Sentido da mudança Leitura crítica Morar fora da casa dos pais entre os mais pobres aprox. 30% Maior do que entre os mais ricos da própria geração; valor exato não estimado com segurança a partir do gráfico Inversão do gradiente A saída deixa de indicar ascensão e passa a refletir necessidade Morar fora da casa dos pais entre os mais ricos mais de 80% Tende a permanecer mais tempo na casa dos pais; valor exato não estimado com segurança a partir do gráfico Queda da autonomia no topo Constituir domicílio próprio fica adiado mesmo com renda mais alta Gradiente da autonomia residencial pela renda Cresce com a renda Invertido, mais forte na base Inversão estrutural A renda deixa de ser a via principal para a casa própria Imóvel próprio por quantil de renda aos 30 anos não estimado com segurança a partir do gráfico não estimado com segurança a partir do gráfico Não aplicável O anexo não permite leitura segura da propriedade imobiliária por quantil; indicador tratado qualitativamente no texto Valores aproximados (“aprox.”), extraídos visualmente dos gráficos do anexo, com arredondamento aproximado. Pontos sem leitura segura no gráfico foram assinalados.
Fonte: resultados do estudo de Duque, França e Nascimento (Insper), divulgados por Castro e Fernandes (O Globo, 7 jun. 2026).
O acesso a bens duráveis cresceu no mesmo período, mas não deve ser lido como prova de mobilidade. Entre famílias de renda intermediária, o acesso a itens como geladeira, fogão e máquina de lavar subiu de pouco mais de 30% para cerca de 75%, movimento que reflete a queda relativa de preços desses produtos, a produção em escala e a expansão do crédito, e não a reorganização das posições sociais. Possuir eletrodomésticos tornou-se comum sem que a renda, a moradia ou a estabilidade acompanhassem o mesmo ritmo. As desigualdades raciais e de gênero tornam ainda mais nítida essa dissociação, pois o estudo registra que homens brancos da geração X, aos 30 anos, dispunham de renda superior à de todos os demais grupos identitários entre os millennials, o que significa que mulheres e pessoas negras da geração mais nova e mais escolarizada não alcançaram, na média, o patamar ocupado três décadas antes pelo grupo socialmente favorecido.
O ordenamento constitucional tratou como direitos justamente aquilo que os dados mostram comprometido. A Constituição de 1988 inscreveu entre os direitos sociais a educação, o trabalho e a moradia, no art. 6º, fixou como objetivo da República reduzir as desigualdades sociais e erradicar a pobreza, no art. 3º, III, e organizou a ordem econômica sobre a valorização do trabalho humano, a função social da propriedade, a redução das desigualdades e a busca do pleno emprego, no art. 170, caput e incisos III, VII e VIII.[8] O direito ao trabalho digno encontra base no art. 1º, IV, e no art. 7º, e a educação, no art. 205, enquanto o Estatuto da Juventude reconheceu a condição juvenil como objeto de políticas próprias. Confrontados com os números, esses dispositivos funcionam menos como descrição da realidade e mais como medida da distância entre a promessa normativa e as condições materiais de quem chega aos 30 anos sem moradia autônoma, sem retorno proporcional à escolaridade e diante de uma igualdade material que a hierarquia de raça e gênero contradiz. A defasagem não é retórica, e sim social.
Desigualdade, trabalho e futuro social O conjunto dos dados desautoriza a leitura que atribui à geração mais nova acomodação ou falta de esforço. A frustração que a acompanha tem origem estrutural, e não psicológica. Uma geração foi formada para esperar que o estudo abrisse caminho de autonomia e chegou à vida adulta num arranjo que reorganizou as condições de entrada, encarecendo a moradia, fragmentando o trabalho e diluindo as proteções que tornavam previsível a passagem para a vida independente. O descompasso entre o que foi prometido e o que se realizou não mede um defeito de caráter coletivo. Mede a transformação das bases materiais sobre as quais a vida adulta se constrói.
No centro dessa transformação está o mundo do trabalho. A renda que não cresce o suficiente expressa um mercado que multiplicou vínculos instáveis, transferiu ao trabalhador riscos antes partilhados e fez da rotatividade a norma para grande parte da população. Quando o emprego protegido se torna exceção e a remuneração estagna, a escolaridade adicional não encontra onde se converter em ganho material proporcional. O trabalho deixou de funcionar como ponte segura entre o esforço educacional e a estabilidade e passou a operar como filtro que reserva as posições melhores a quem já dispõe de recursos anteriores. A insuficiência de renda, longe de ser acidente conjuntural, é efeito de uma forma de organizar o trabalho que distribui de modo desigual segurança e remuneração.
A moradia condensa esse adiamento de maneira especialmente nítida. Sair da casa dos pais, constituir domicílio próprio e projetar alguma permanência deixaram de ser etapas previsíveis e passaram a depender de uma combinação de renda, crédito e preço que escapa ao controle de quem trabalha. A inversão observada, com a autonomia residencial deslocando-se de marca de ascensão para resultado da necessidade entre os mais pobres e adiamento entre os mais ricos, mostra que o acesso ao espaço próprio se desorganizou como horizonte comum. Permanecer mais tempo na casa de origem não é escolha geracional por conforto. É consequência de um custo de vida adulta que cresceu mais rápido do que a capacidade de financiá-lo pelo próprio trabalho.
O acesso ampliado a bens duráveis não corrige esse quadro e pode encobri-lo. Possuir geladeira, fogão ou máquina de lavar tornou-se comum porque esses itens ficaram relativamente mais baratos e o crédito se expandiu, não porque as posições sociais se reorganizaram em favor de quem trabalha. Confundir consumo de bens com mobilidade social leva a subestimar o problema, porque um domicílio pode acumular eletrodomésticos e seguir sem renda estável, sem moradia própria e sem proteção diante do desemprego ou da doença. A ausência de uma rede sólida de proteção material é o elo que falta para transformar escolaridade em autonomia. Sem ela, o diploma rende credencial, e não segurança.
A desigualdade que estrutura esse processo não é neutra quanto a raça e gênero. O fato de o grupo socialmente favorecido de uma geração anterior ainda superar, em renda, os demais grupos da geração seguinte e mais escolarizada revela uma hierarquia que o tempo não desfez. Mulheres e pessoas negras carregam, sobre a estagnação geral, um peso adicional que antecede o mercado de trabalho e se reproduz dentro dele. Reconhecer isso impede que a frustração geracional seja tratada como experiência homogênea. Há quem chegue aos 30 anos com escolaridade acumulada e ainda ocupe o lugar que a estrutura reservou de antemão, e há quem encontre menos obstáculos por partir de uma posição que a própria desigualdade preservou.
O que os números brasileiros descrevem guarda relação com um movimento mais amplo, em que gerações mais escolarizadas, em diferentes países, enfrentam crescimento lento, encarecimento da vida adulta e proteção social em recuo, mas é no caso brasileiro que esse movimento encontra uma estrutura que reiterou desigualdade enquanto incorporava parcelas da população ao consumo. O resultado é uma escolaridade que cresceu sem a correspondente expansão das condições materiais de autonomia. Encarar o problema exige tratá-lo onde ele se produz, na organização do trabalho que estagna a renda, no custo da moradia que adia a independência, na proteção social insuficiente que não converte estudo em segurança e na reprodução das hierarquias de raça e gênero que distribuem de modo desigual os poucos ganhos disponíveis. A frustração de quem estudou mais e alcançou menos não pede consolo nem exortação ao esforço. Pede o reconhecimento de que a passagem para a vida adulta foi reorganizada contra a maioria, e de que devolver sentido à promessa de mobilidade depende de decisões sobre trabalho, renda, moradia e proteção, e não da resignação de uma geração diante daquilo que não escolheu.
Erik Chiconelli Gomes é doutor em História Econômica pela USP. Pós-doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito (FDUSP) e em Economia (IE/Unicamp). Coordenador Acadêmico da Escola Superior de Advocacia da OAB/SP.
Referências BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. Tradução de Daniela Kern e Guilherme J. F. Teixeira. São Paulo: Edusp; Porto Alegre: Zouk, 2007.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Senado Federal, 1988.
BRASIL. Emenda Constitucional nº 26, de 14 de fevereiro de 2000. Altera a redação do art. 6º da Constituição Federal, para incluir o direito à moradia. Brasília, DF: Senado Federal, 2000.
BRASIL. Lei nº 12.852, de 5 de agosto de 2013. Institui o Estatuto da Juventude e dispõe sobre os direitos dos jovens, os princípios e diretrizes das políticas públicas de juventude e o Sistema Nacional de Juventude. Brasília, DF: Presidência da República, 2013.
FONTES, Virgínia. O Brasil e o capital-imperialismo: teoria e história. 2. ed. Rio de Janeiro: EPSJV/Editora UFRJ, 2010.
FRANCO, Maria Sylvia de Carvalho. Homens livres na ordem escravocrata. 4. ed. São Paulo: Editora UNESP, 1997.
FRASER, Nancy; HONNETH, Axel. Redistribution or recognition? a political-philosophical exchange. London: Verso, 2003.
GRANOVETTER, Mark. Economic action and social structure: the problem of embeddedness. American Journal of Sociology, Chicago, v. 91, n. 3, p. 481-510, 1985.
GUIMARÃES, Nadya Araujo. Desemprego, uma construção social: São Paulo, Paris, Tóquio. Belo Horizonte: Argvmentvm, 2009.
HIRATA, Helena; KERGOAT, Danièle. Novas configurações da divisão sexual do trabalho. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, v. 37, n. 132, p. 595-609, set./dez. 2007. DOI: 10.1590/S0100-15742007000300005. Disponível em: https://publicacoes.fcc.org.br/cp/article/view/344. Acesso em: 15 jun. 2026.
MATTOS, Marcelo Badaró. Trabalhadores e sindicatos no Brasil. São Paulo: Expressão Popular, 2009.
POLANYI, Karl. A grande transformação: as origens de nossa época. Tradução de Fanny Wrobel. 2. ed. Rio de Janeiro: Campus, 2000.
[1]Para a crítica da economia de mercado como forma de subordinação da vida social, cf. POLANYI, Karl. A grande transformação: as origens de nossa época. Tradução de Fanny Wrobel. 2. ed. Rio de Janeiro: Campus, 2000, p. 93-94. Nessa passagem, o autor sustenta que a economia de mercado só se realiza plenamente quando trabalho, terra e dinheiro são incorporados ao mecanismo mercantil, subordinando a própria substância social às exigências do mercado.
[2]Sobre a necessidade de proteção social diante dos efeitos destrutivos do mercado de trabalho, cf. POLANYI, Karl. A grande transformação: as origens de nossa época. Tradução de Fanny Wrobel. 2. ed. Rio de Janeiro: Campus, 2000, p. 99-100. O argumento é especialmente útil para sustentar que a mercantilização do trabalho exige contrapesos institucionais, pois as vantagens econômicas do mercado livre não eliminam seus custos sociais.
[3]Para a formação histórica dos homens livres e pobres na sociedade escravista, cf. FRANCO, Maria Sylvia de Carvalho. Homens livres na ordem escravocrata. 4. ed. São Paulo: Editora UNESP, 1997, p. 14. A autora identifica uma formação social peculiar de homens livres e expropriados, desprovidos dos meios de produção, não plenamente submetidos ao trabalho forçado e tampouco integrados como proletariado moderno.
[4]Sobre os mecanismos de dominação pessoal e os limites de ascensão dos homens livres pobres, cf. FRANCO, Maria Sylvia de Carvalho. Homens livres na ordem escravocrata. 4. ed. São Paulo: Editora UNESP, 1997, p. 18. A autora indica que sua análise busca apreender como se definiam os alvos de ascensão social, as possibilidades de realização desses sujeitos e as forças que bloqueavam seu caminho, revelando o princípio de dominação pessoal.
[5]Para a relação entre expropriação e produção de trabalhadores disponíveis ao capital, cf. FONTES, Virgínia. O Brasil e o capital-imperialismo: teoria e história. 2. ed. Rio de Janeiro: EPSJV/Editora UFRJ, 2010, p. 44. A autora mostra que a produção social de trabalhadores “livres”, isto é, expropriados, constitui condição e resultado da expansão das relações capitalistas, independentemente da forma jurídica assumida pela atividade laboral.
[6]Sobre precarização contemporânea, descontratação e expropriação de direitos sociais, cf. FONTES, Virgínia. O Brasil e o capital-imperialismo: teoria e história. 2. ed. Rio de Janeiro: EPSJV/Editora UFRJ, 2010, p. 356. A autora associa a expropriação de direitos, a mercantilização de bens antes garantidos como direitos e o uso da força de trabalho sem contrato a formas contemporâneas de superexploração.
[7]Resultados do estudo de Daniel Duque, Michael França e Fillipi Nascimento, do Insper, divulgados por Mayra Castro e Julia Fernandes em O Globo, em 7 de junho de 2026. A reportagem informa que o estudo utilizou microdados das pesquisas domiciliares do IBGE, a saber, PNAD, PNAD Contínua e POF, sem que essas bases tenham sido consultadas diretamente nesta análise. Os percentuais por faixa de renda foram extraídos da reportagem e dos gráficos do anexo e, por terem origem visual em gráfico, são tratados como aproximações. Disponível em: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/06/07/millenials-estudam-mais-que-os-pais-mas-nao-superam-padrao-de-vida-da-geracao-x.ghtml. Acesso em: 15 jun. 2026.
[8]Constituição Federal de 1988: art. 1º, IV (valores sociais do trabalho); art. 3º, III (redução das desigualdades sociais e erradicação da pobreza e da marginalização); art. 6º (direitos sociais à educação, ao trabalho e à moradia, esta incluída pela Emenda Constitucional nº 26/2000); art. 7º (direitos dos trabalhadores urbanos e rurais); art. 170, caput e incisos III, VII e VIII (valorização do trabalho humano, função social da propriedade, redução das desigualdades regionais e sociais e busca do pleno emprego); art. 205 (educação como direito de todos e dever do Estado e da família). Estatuto da Juventude: Lei nº 12.852, de 5 de agosto de 2013.
Todas as escolas públicas do país que alcançaram as 30 maiores notas no Enem 2025 contam com processo seletivo para a entrada dos alunos no ensino médio. Algumas delas chegam a ter concorrência mais alta do que o curso de medicina da USP.
ENEM 2025
Confira a nota de sua escola pelo buscador da Folha Considerando todas as escolas, apenas uma da rede pública ficou na lista das 30 com maiores notas: o Colégio Naval, em Angra dos Reis (RJ). A instituição, ligada às Forças Armadas, tem um processo seletivo rigoroso de estudantes, com teste de aptidão física que conta até mesmo com prova de natação. Ela aparece com a 21ª maior nota do país.
A EPCAr (Escola Preparatória de Cadetes do Ar) tem a terceira maior nota entre as escolas públicas do país - Sgt Johnson Barros/Divulgação/FAB Ao considerar apenas as instituições públicas de ensino, o levantamento indica que todas elas possuem processo seletivo. Ou seja, já selecionam os que têm melhor desempenho, o que, segundo especialistas e estudos, favorece a exclusão de estudantes mais pobres e com deficiência.
Das 30 escolas públicas com maior nota, 12 são escolas militares, ou seja ligadas às Forças Armadas ou às Polícias Militares dos estados. Nenhuma delas é cívico-militar, modelo em que militares (em geral aposentados) vão atuar em escolas regulares.
Outras 16 escolas são ligadas a universidades públicas e contam com processo seletivo. É o caso, por exemplo, do Colégio de Aplicação da UFV (Universidade Federal de Viçosa), em Minas Gerais, que obteve a segunda maior nota entre as escolas públicas.
A terceira maior nota entre as públicas é da EPCAr (Escola Preparatória de Cadetes do Ar), em Barbacena (MG), que possui um processo seletivo com avaliação do conteúdo escolar, além de testes de aptidão física e psicológica e um período de experiência para os aprovados.
TREINE SUA REDAÇÃO PARA O ENEM
Conheça o Folha de Redação, ferramenta de IA da Folha que ajuda com temas e correção O último processo seletivo da escola teve mais de 21 mil inscritos para as 130 vagas ofertadas para ingressar no ensino médio. Ou seja, uma concorrência de 161 candidatos para cada vaga —mais do que o curso de medicina da USP, com 90 candidatos por vaga.
Os alunos que se candidatam para EPCAr são avaliados em uma prova com questões de português, matemática, inglês e uma redação. Eles também são submetidos a teste de aptidão física, com exigências como fazer 21 flexões para os meninos e 13 para as meninas.
O Sudeste tem 15 escolas na lista de 30 escolas com melhores notas e é seguido pelo Nordeste, com 11. Em seguida aparece o Norte (3) e Centro-Oeste (1). Nenhuma escola do Sul ficou nessa lista.
Fortaleza é a cidade com mais escolas na liderança. Das 30 com maior nota, seis estão na capital cearense, que também ocupa os três primeiros lugares com os colégios Ari de Sá Cavalcante (sede Mário Mamede), Farias Brito (Aplicação) e Christus (Pré-Universitário). todos particulares.
ENTENDA O LEVANTAMENTO A lista de escolas foi feita pela média dos estudantes de cada instituição no exame, utilizando os microdados divulgados pelo Inep, órgão responsável pelo exame, em 22 de junho.
O levantamento foi construído com base na nota média da prova de redação e das provas objetivas (de matemática, linguagens, ciências da natureza e ciências humanas). As escolas consideradas deveriam ter dez ou mais inscritos entre seus estudantes e taxa de participação na prova deveria ser maior do que 50%.
Na ferramenta, é possível pesquisar pelo nome da instituição ou filtrar por estado, cidade e bairro. Também é possível ordenar por nota da redação ou da prova objetiva.
Caso determinado colégio não apareça, é possível que não se enquadre na metodologia (veja ao fim do texto). Algumas instituições também não preencheram a informação sobre o bairro em que estão localizadas.
Foram incluídas no levantamento somente escolas com mais de dez estudantes inscritos e comparecimento de ao menos 50%.
Provas invalidadas ou com nota zero não foram levadas em consideração, seguindo uma metodologia do Inep.
Escolas divulgadas como municipais, estaduais e federais foram colocadas na categoria pública, e as privadas permaneceram com o mesmo nome.
Qual é a proporção das pessoas formalmente empregadas em 2022 que já apareciam nos registros da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) a cada ano desde 2004? Como essas proporções variam entre grupos de pessoas e entre características de seus empregos mais recentes? A partir dessas questões, o artigo investiga desigualdades na acumulação de tempo de serviço formal entre diferentes perfis de pessoas e postos de trabalho. Os grupos de empregados formais de 2022 que menos permaneceram na Rais ao longo dos anos anteriores são mulheres, de cor preta ou parda, nos postos de menor remuneração, do comércio, da agropecuária e da construção.
Antonio Guterres classifica armas autônomas letais como "moralmente repugnantes", reacendendo uma questão que foi central no conflito da Anthropic com o Pentágono
As tuition soars past crisis levels and AI reshapes the classroom, students are rationally optimizing for diplomas over discovery. Call it the degree trap.
Especialistas alertam que a prática de "embrulhar em plástico-bolha" (proteger excessivamente) os funcionários, mais comum entre as lideranças femininas, priva as pessoas de feedbacks cruciais para a resiliência e o sucesso. A prática acaba prejudicando as líderes, que são vistas como inseguras e ineficientes
Em outras palavras, a pesquisa mostrou que a maior barreira para ensinar os estudantes a escrever com inteligência artificial não é a tecnologia em si, mas as suposições dos estudantes sobre o que é escrever.
"Escrever com IA não elimina o trabalho de escrever," disse Anders. "[A IA] o transforma. Os alunos muitas vezes esperam que a IA funcione como um atalho, mas a verdade é que a escrita assistida por IA exige mais reflexão dos alunos, não menos. Como ferramenta, a IA lida apenas com a escrita superficial, e o trabalho realmente árduo - a formação de ideias, o julgamento, a estratégia de revisão e o controle de qualidade - permanece com o aluno."
Os pesquisadores argumentam que, à medida que ferramentas de IA se tornam comuns na escrita acadêmica, profissional e cotidiana, os estudantes precisarão não apenas de proficiência técnica, mas de uma compreensão mais profunda de como a escrita funciona. Estudantes que vencerem os limiares irão se tornar mais reflexivos, mais críticos e mais intencionais em suas escolhas, usando as ferramentas para avaliar ideias e fortalecer argumentos - uma habilidade que, segundo os pesquisadores, continuará relevante muito depois que as ferramentas mudarem.
Conceitos limiares
No início do curso, os estudantes carregavam suposições como "ferramentas melhores devem exigir menos esforço" e "IA fará o trabalho por mim". A realidade rapidamente desafiou essas crenças: Um aluno refletiu que "teve que aprender a pensar sobre seu próprio pensamento".
O primeiro conceito limiar é que escrever com IA é experimental, exige tentativa, erro, teste e revisão, e não uma única consulta vaga.
O segundo é que a escrita com IA ainda requer conhecimento e entendimento humanos: A fluência e a confiança do texto gerado pela ferramenta podem enganar os estudantes a confiar cegamente na IA, mesmo quando ela está errada, é superficial ou mesmo sem sentido, um fenômeno que os pesquisadores chamam de "armadilha da fluência". Os estudantes precisam aprender a interrogar o que a IA produz, verificar afirmações, refinar a lógica e garantir que o texto atenda às expectativas disciplinares - tudo trabalho que exige julgamento humano.
O terceiro conceito limiar é que escrever com IA deve, em última análise, aumentar a agência humana, não substituí-la. A IA pode gerar texto, mas não pode gerar propósito, só o escritor pode decidir o que está sendo argumentado, o que importa e por que a escrita existe. Os pesquisadores descrevem essa mudança como a transição de "terceirizar o trabalho" para "orquestrar o trabalho": Os estudantes passam a usar IA para explorar possibilidades, testar ideias e refinar o pensamento, em vez de evitar a carga cognitiva da escrita.
"A IA muda o fluxo de trabalho, mas não muda o fato de que escrever é pensar. Os estudantes ainda precisam tomar decisões, definir direções e moldar o significado," ponderou Anders.
De que forma programas de pré-aprendizagem, como o Desponta, contribuem para uma inserção mais qualificada e digna de adolescentes e jovens no mundo do trabalho? Que tipo de habilidades essas iniciativas ajudam a desenvolver? Alzira: Programas de pré-aprendizagem cumprem um papel fundamental ao preparar os jovens antes mesmo do ingresso formal no mundo do trabalho. Eles funcionam como uma ponte estruturada entre a escola e o universo profissional, ampliando o repertório dos participantes e fortalecendo sua autonomia.
No Desponta, por exemplo, temos uma intenção explícita de não apenas apresentar conteúdos, mas criar experiências de aprendizagem que ajudem os jovens a compreender e explorar o mundo do trabalho. Nessa solução, estruturamos um conjunto de 16 roteiros de atividades, pensados para educadores em diferentes contextos.
Esse material favorece o entendimento sobre as diferentes oportunidades de estudo e trabalho, ao mesmo tempo em que engaja os jovens no exercício de projetar seus futuros. Saber que existe um panorama amplo de possibilidades, incluindo carreiras técnicas, criativas, digitais e empreendedoras, é fundamental para orientar escolhas mais conscientes e ampliar horizontes. O Desponta também trabalha habilidades essenciais, como comunicação, colaboração, pensamento crítico, resolução de problemas, responsabilidade e autogestão.
Ao articular repertório, experimentação e reflexão, programas como o Desponta ampliam as condições de uma inserção produtiva mais qualificada e digna, especialmente para jovens que historicamente tiveram menos acesso a esse tipo de informação.
O Brasil tem 63,9 milhões jovens e adultos fora da escola sem educação básica completa — 37,3% da população com 15 anos ou mais — mais do que a população de muitos países. Desse total, 44,7 milhões não concluíram o ensino fundamental e 19,3 milhões pararam antes de completar o ensino médio (valores arredondados independentemente). São desproporcionalmente pretos ou pardos (63,9%), com participação equilibrada entre homens e mulheres (49,2% de mulheres).
O Conselho de Educação e Treinamento da FIEMG realizou, nesta terça-feira (7/7), na sede da Federação, em Belo Horizonte, reunião com foco no tema “ECA Digital: o papel das escolas”. A exposição foi conduzida pelo CEO da CertifikEDU, Luciano Sathler, que também é membro do Conselho Estadual de Educação de Minas Gerais.
Durante a apresentação, Sathler abordou os impactos do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital) para o ambiente escolar, destacando as novas responsabilidades de instituições de ensino, famílias, plataformas digitais e órgãos públicos na proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais.
Entre os pontos apresentados, o especialista explicou que “a legislação estabelece deveres de prevenção, proteção, informação e segurança para produtos e serviços digitais que possam ser acessados por menores de 18 anos”. No contexto das escolas, o tema envolve desde a revisão de contratos com plataformas educacionais até a criação de protocolos para prevenção e resposta a situações como cyberbullying, exposição indevida de imagem e voz de estudantes, riscos digitais e uso inadequado de ferramentas tecnológicas.
Sathler também chamou atenção para a “importância da governança digital escolar, com mapeamento das plataformas utilizadas pelas instituições, auditoria de fornecedores, adoção de mecanismos de controle e verificação, proteção de dados, segurança por padrão e produção de evidências capazes de demonstrar conformidade com a legislação”.
Outro aspecto tratado foi o papel pedagógico das escolas na formação para o uso consciente, ético e seguro das tecnologias. Segundo a abordagem apresentada, as instituições de ensino não substituem as famílias nem as plataformas, mas têm função estratégica na educação digital, na promoção do letramento midiático e digital e na orientação de estudantes, educadores e responsáveis.
A educação parental também foi abordada por Sathler, que destacou “a necessidade de diálogo contínuo com as famílias, orientação sobre riscos digitais, acompanhamento do tempo de uso de telas e incentivo à criação de planos familiares para o uso saudável de dispositivos digitais”.
Após a apresentação, integrantes do Conselho de Educação e Treinamento da FIEMG participaram de um debate sobre os desafios práticos da implementação do ECA Digital nas escolas e sobre caminhos para fortalecer a cultura de segurança, responsabilidade e cidadania no ambiente online.
A discussão reforçou a importância de preparar gestores, professores, estudantes e famílias para as mudanças legais e comportamentais que envolvem a presença cada vez maior da tecnologia na educação básica.
As micro e pequenas empresas empregam proporcionalmente mais mulheres e registram uma diferença salarial entre homens e mulheres inferior à observada nas médias e grandes companhias, segundo o Sebrae. Os dados estão no estudo Panorama do Emprego 2026, com base em dados da Rais (Relação Anual de Informações Sociais).
No fim de 2024, elas representavam 43% dos trabalhadores nas MPE, o equivalente a cerca de 8,5 milhões de empregos formais, acima da participação feminina nas empresas de maior porte (38%) e da média do mercado de trabalho brasileiro (41%).
To get content containing either thought or leadership enter:
To get content containing both thought and leadership enter:
To get content containing the expression thought leadership enter:
You can enter several keywords and you can refine them whenever you want. Our suggestion engine uses more signals but entering a few keywords here will rapidly give you great content to curate.