Com o aumento da colaboração internacional em projetos de tecnologia de ponta, as instituições suíças de pesquisa estão se instalando em campus fora do país, embora por razões diferentes.
O que acontece quando a maioria faz uso de uma IA para realizar suas atividades laborais? E, no caso dos estudantes, quando os trabalhos passam a ser produzidos com o apoio de uma IA generativa? Luciano Sathler É PhD em administração pela USP e membro do Conselho Deliberativo do CNPq e do Conselho Estadual de Educação de Minas Gerais As diferentes aplicações de Inteligência Artificial (IA) generativa são capazes de criar novos conteúdos em texto, imagens, áudios, vídeos e códigos para software. Por se tratar de um tipo de tecnologia de uso geral, a IA tende a ser utilizada para remodelar vários setores da economia, com impactos políticos e sociais, assim como aconteceu com a adoção da máquina a vapor, da eletricidade e da informática. Pesquisas recentes demonstram que a IA generativa aumenta a qualidade e a eficiência da produção de atividades típicas dos trabalhadores de colarinho branco, aqueles que exercem funções administrativas e gerenciais nos escritórios. Também traz maior produtividade nas relações de suporte ao cliente, acelera tarefas de programação e aprimora mensagens de persuasão para o marketing. O revólver patenteado pelo americano Samuel Colt, em 1835, ficou conhecido como o "grande equalizador". A facilidade do seu manuseio e a possibilidade de atirar várias vezes sem precisar recarregar a cada disparo foram inovações tecnológicas que ampliaram a possibilidade individual de ter um grande potencial destrutivo em mãos, mesmo para os que tinham menor força física e costumavam levar desvantagem nos conflitos anteriores. À época, ficou famosa a frase: Abraham Lincoln tornou todos os homens livres, mas Samuel Colt os tornou iguais. Não fazemos aqui uma apologia às armas. A alegoria que usamos é apenas para ressaltar a necessidade de investir na formação de pessoas que sejam capazes de usar a IA generativa de forma crítica, criativa e que gerem resultados humanamente enriquecidos. Para não se tornarem vítimas das mudanças que sobrevirão no mundo do trabalho. A IA generativa é um meio viável para equalizar talentos humanos, pois pessoas com menor repertório cultural, científico ou profissional serão capazes de apresentar resultados melhores se souberem fazer bom uso de uma biblioteca de prompts. Novidade e originalidade tornam-se fenômenos raros e mais bem remunerados. A disseminação da IA generativa tende a diminuir a diversidade, reduz a heterogeneidade das respostas e, consequentemente, ameaça a criatividade. Maior padronização tem a ver com a automação do processo. Um resultado que seja interessante, engraçado ou que chama atenção pela qualidade acima da média vai passar a ser algo presente somente a partir daqueles que tiverem capacidade de ir além do que as máquinas são capazes de entregar. No caso dos estudantes, a avaliação da aprendizagem precisa ser rápida e seriamente revista. A utilização da IA generativa extrapola os conceitos usualmente associados ao plágio, pois os produtos são inéditos – ainda que venham de uma bricolagem semântica gerada por algoritmos. Os relatos dos professores é que os resultados melhoram, mas não há convicção de que a aprendizagem realmente aconteceu, com uma tendência à uniformização do que é apresentado pelos discentes. Toda Instituição Educacional terá as suas próprias IAs generativas. Assim como todos os professores e estudantes. Estarão disponíveis nos telefones celulares, computadores e até mesmo nos aparelhos de TV. É um novo conjunto de ferramentas de produtividade. Portanto, o desafio da diferenciação passa a ser ainda mais fundamental diante desse novo "grande equalizador". Se há mantenedores ou investidores sonhando com a completa substituição dos professores por alguma IA já encontramos pesquisas que demonstram que o uso intensivo da Inteligência Artificial leva muitos estudantes a reduzirem suas interações sociais formais ao usar essas ferramentas. As evidências apontam que, embora os chatbots de IA projetados para fornecimento de informações possam estar associados ao desempenho do aluno, quando o suporte social, bem-estar psicológico, solidão e senso de pertencimento são considerados, isso tem um efeito negativo, com impactos piores no sucesso, bem-estar e retenção do estudante. Para não cair na vala comum e correr o risco de ser ameaçado por quem faz uso intensivo da IA será necessário se diferenciar a partir das experiências dentro e fora da sala de aula – online ou presencial; humanizar as relações de ensino-aprendizagem; implementar metodologias que privilegiem o protagonismo dos estudantes e fortaleçam o papel do docente no processo; usar a microcertificação para registrar e ressaltar competências desenvolvidas de forma diferenciada, tanto nas hard quanto soft skills; e, principalmente, estabelecer um vínculo de confiança e suporte ao discente que o acompanhe pela vida afora – ninguém mais pode se dar ao luxo de ter ex-alunos. Atenção: esse artigo foi exclusivamente escrito por um ser humano. O editor, Michael França, pede para que cada participante do espaço "Políticas e Justiça" da Folha sugira uma música aos leitores. Nesse texto, a escolhida por Luciano Sathler foi "O Ateneu" de Milton Nascimento.
O mesmo levantamento mostra que a África concentrou 29 dos 65 conflitos armados envolvendo Estados, mais do que qualquer outra região do mundo. O Oriente Médio atingiu seu maior número de conflitos desde 1946. A Ásia viveu o nível mais elevado desde 1994. E o Haiti, praticamente ausente do debate internacional, viu as mortes em conflitos saltarem de cerca de 200 para mais de 1.200 em um ano.
Em "Os Condenados da Terra", Frantz Fanon mostra como o racismo subjuga determinados corpos, reduzindo ou retirando completamente sua humanidade como justificativa da violência e da exploração. Determinadas vidas são reconhecidas como humanas, e as vidas consideradas "outras" não têm o mesmo valor.
A Guerra da Ucrânia produz mobilização diplomática imediata, cobertura diária detalhada da imprensa internacional e sucessivas análises estratégicas. O massacre de El Fasher, no Sudão, que se estima ter chegado a quase 60 mil mortos em uma única semana de outubro de 2025, permaneceu praticamente invisível no debate internacional.
Na última sexta os EUA proibiram o uso do modelo de IA mais poderoso da Anthropic por "estrangeiros". Você não leu errado. O critério da proibição é nacionalidade, algo inédito nesse contexto. Mesmo quem mora nos EUA mas não tem cidadania está proibido de usar o modelo. Estão banidos também os próprios funcionários estrangeiros da empresa. Dada a impossibilidade de cumprir uma ordem assim, já que não é fácil determinar a cidadania de cada usuário, a Anthropic decidiu suspender o acesso do seu modelo mais avançado para todo mundo, indiscriminadamente. A decisão de Washington acendeu um alerta global. E de quebra mostrou o que "soberania tecnológica" significa na prática (já volto a isso). As empresas do setor de IA gostam de dizer que a inteligência artificial é a "nova eletricidade": a nova infraestrutura em cima da qual pessoas, organizações e países vão construir suas atividades, fluxos de trabalho, estudo e até a gestão de serviços públicos. Só que os EUA não têm o poder de cortar a eletricidade de "estrangeiros". Com a IA esse poder não só existe como acaba de ser usado. A consequência é que pessoas, organizações e países vão precisar pensar muitas vezes antes de construir em cima de uma IA que pode ser suspensa. Usar inteligência artificial requer investimento, tempo, capacitação. Nada disso se justifica se a plataforma pode deixar de funcionar a qualquer momento de forma repentina, mesmo que você dependa dela. A proibição dos EUA repercutiu fortemente na China. Lá a ação foi chamada de qiabozi (卡脖子), que em mandarim significa "estrangular o pescoço". O termo foi usado em sentido duplo: a confirmação de que depender das IAs americanas implicaria o risco de ser estrangulado a qualquer momento. E a constatação de que a estratégia chinesa de apostar em modelos locais estava certa. Se a geopolítica continuar interferindo na tecnologia como aconteceu desta vez, vai ser necessário pensar soberania digital em quatro níveis. O primeiro, mais elementar, é ter controle local sobre os dados no país. O segundo é ter independência na cadeia de software, auditando e mitigando a possibilidade de interferências externas. O terceiro é exigir que a infraestrutura de hardware e software seja controlada por cidadãos do próprio país. E o quarto, é ser capaz de desenvolver de forma autônoma sua própria tecnologia, incluindo modelos de inteligência artificial. Não tirei esses níveis da minha cabeça. Essa é a classificação que a Comissão Europeia lançou no último dia 3 de junho no seu "Pacote de Soberania Tecnológica". Dadas as circunstâncias, esse sim é um modelo europeu que o Brasil poderia almejar. Nosso país copiou a Europa para fazer sua lei de IA, em tramitação no Congresso. Mas copiou a Europa de 2019. De lá para cá a lei europeia de IA foi drasticamente simplificada. Os europeus perceberam que regulação divorciada de política industrial tem como consequência apenas atrasar as capacidades locais e gerar ainda mais dependência externa. E vale lembrar que o Brasil não alcança sequer o nível 1. Hoje, 60% da carga digital do país está hospedada em data centers no estado da Virgínia nos EUA. Isso inclui sites, aplicativos, comércio eletrônico, operações bancárias, Pix e até serviços públicos como o SUS. As possibilidades de "qiabozi" são enormes. E em inteligência artificial, o principal projeto público para desenvolver um modelo de IA local e soberano foi feito no Piauí, o "SoberanIA.ai". Estive em Teresina nesta semana e lá ouvi o seguinte vaticínio: "o Ministério da Defesa ainda vai precisar do SoberanIA". Talvez esse momento chegue antes do que imaginamos. Já era - "Teoria do Domínio do Fato", em voga na Lava Jato Já é - "Constitucionalismo abusivo", usar causas justas para passar por cima da Constituição Já vem - "Relativismo Jurídico", aplicar a Constituição de forma diferente dependendo da causa que estiver defendendo
Plugados diariamente na internet, milhões de brasileiros passam horas se comunicando, buscando informações e se divertindo. Em 2025, segundo a pesquisa TIC Domicílios, 86% da população com dez anos ou mais estava conectada. O avanço tem sido rápido e contínuo. Se os benefícios da web são inegáveis, os riscos também são cada vez mais visíveis. Incluem a produção e difusão de mentiras e informações incorretas, golpes financeiros e o uso compulsivo do telefone celular. Mas, entre os problemas, a manipulação algorítmica de sentimentos como a raiva e o medo não tem merecido a devida atenção. Pesquisas realizadas na Europa indicam que ao amplificar conteúdos que causam irritação ou amedrontam, as redes sociais obtêm mais atenção e engajamento. Ao dificultar a distinção entre o que é fato e ficção, conteúdos criados com recursos de Inteligência Artificial Generativa (IAG) complicam ainda mais as coisas. Nosso déficit educacional também agrava este quadro. Também em 2025, o Índice de Alfabetismo Funcional (Inaf) indicou que apenas 10% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são proficientes em leitura, interpretação de textos e cálculos matemáticos elementares. Já a pesquisa Retratos da Leitura mostrou que entre 2015 e 2024 houve uma redução de 11 milhões de leitores de livros de qualquer gênero, tanto no meio impresso como online. Enquanto milhões de alunos têm acesso a disciplinas de educação midiática na escola, quem nunca teve —seja porque já se formou, interrompeu os estudos ou nunca se matriculou no ensino formal— está mais indefeso. Vale lembrar que os papéis da escola incluem o estímulo ao pensamento crítico e à reflexão. Aliás, o direito à informação integra a Declaração de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU). Não existe solução rápida ou simples. Mas a educação e o acesso à informação qualificada despontam como uma resposta consistente. Para que esteja a serviço da verdade factual, da democracia e do bem-estar de todos, a educação midiática e informacional deve ser apartidária, condição ainda mais indispensável numa sociedade polarizada como a nossa. Conforme a Unesco, o órgão da ONU para a educação, ciência e cultura, trata-se de uma iniciativa de aprendizagem colaborativa ao longo da vida. Logo, precisa contar com a sociedade civil, diversos níveis de governo, plataformas tecnológicas, organizações midiáticas e instituições doadoras. Quando se trata de um esforço focado na educação informal, é importante que inclua espaços como bibliotecas, com a participação de bibliotecários. Dada sua presença em grande parte do território brasileiro e a proximidade com pessoas não matriculadas na escola, as bibliotecas oferecem oportunidades educativas em atividades como rodas de conversa. Como boa parte dos riscos está ligada aos sentimentos, é preciso que a aprendizagem socioemocional ajude os internautas a reconhecer, refletir e saber lidar com as próprias emoções, fazendo uma pausa antes de reagir. É um caminho para uma sociedade mais justa e civilizada.
Trocas de mensagens vistas pela Folha indicam que pode ter ocorrido um problema de automação do sistema, que é operado com inteligência artificial e pode ter preenchido o nome Nubank. Essas mensagens vistas pela reportagem estavam em um canal do Slack do banco digital voltado à discussão de falhas. Na noite de sexta, havia 217 respostas. O Nubank não comentou essa informação sobre a potencial falha relacionada a IA.
No entanto, a sabedoria prática, diz-nos Aristóteles, é o mesmo estado da alma que a ciência política, diferindo apenas na sua orientação: a sabedoria prática visa o bem do indivíduo; a ciência política, o bem da cidade. Mas, como os seres humanos são animais políticos – animais que só prosperam na vida como parte de uma comunidade política – as duas orientações sobrepõem-se necessariamente.
Agora, concentre-se não em sermos reféns de desejos que podem distorcer nossa percepção de valores, mas em sermos reféns de especialistas científicos que podem distorcer nosso conhecimento sobre o que é realmente bom para nós. As virtudes de caráter nos libertam do primeiro, desde que a sabedoria prática nos liberte do segundo. Mas como a sabedoria prática pode fazer isso?
É aqui que entra em cena a pessoa bem-educada. Trata-se de alguém que estuda um assunto não para adquirir conhecimento científico sobre ele, mas para se tornar um juiz criterioso: "Não ser bem-educado é simplesmente a incapacidade de discernir, em cada assunto, quais argumentos lhe pertencem e quais lhe são estranhos", diz Aristóteles. Assim, uma pessoa bem-educada em medicina, por exemplo, é capaz de julgar se alguém tratou uma doença corretamente, e a "pessoa incondicionalmente bem-educada", que é bem-educada em todos os assuntos ou áreas, "busca a exatidão em cada área na medida em que a natureza do seu objeto de estudo o permite".
Cerca de 86% das crianças e adolescentes americanas entre 9 e 17 anos utilizam ou interagem com ferramentas de inteligência artificial, e aproximadamente 24% fazem isso diariamente, de acordo com o relatório “Uso de IA por Pré-adolescentes e Adolescentes”, elaborado pela organização Common Sense Media. Embora o relatório tenha sido realizado nos Estados Unidos, pode servir como referência para outros países onde a IA seja usada por boa parte da população. Entre crianças de 9 a 12 anos, 81% utilizam IA; entre adolescentes de 13 a 15 anos, 89%; e, entre os jovens de 16 e 17 anos, 92%. ″É evidente que a tecnologia já é uma parte muito importante da infância”, apontou Michael Robb, chefe de pesquisa da organização sem fins lucrativos, à rede CNBC.
Iniciativa da empresa pretende esterilizar machos da espécie Culex quinquefasciatus, transmissora do vírus do Nilo Ocidental e da a encefalite de Saint Louis; técnica já é utilizada no Brasil contra o Aedes Aegypti
Na era da IA, em que respostas são geradas em segundos, a capacidade humana de formular perguntas torna-se o motor essencial da criatividade e inovação
O cérebro humano não foi projetado para processar múltiplas tarefas cognitivas simultaneamente. O que chamamos de multitasking é, na verdade, task switching, uma alternância rápida entre tarefas que consome energia mental e reduz a eficiência Assumi meu primeiro time em 2007, quase vinte anos atrás. E posso dizer, com a clareza de quem viveu as duas eras: liderar hoje é incomparavelmente mais difícil do que era há uma década, e muito mais do que há vinte anos. Não é só uma percepção, é uma transformação estrutural na forma como as pessoas trabalham, se comunicam e, principalmente, prestam atenção. Na última semana, em uma apresentação de desdobramento de metas e OKRs da empresa, precisei pontuar algumas pessoas que estavam desatentas. Não era uma reunião informal, era um momento de alinhamento estratégico e ainda assim, parte da equipe estava respondendo Slack, e-mail e WhatsApp enquanto discutíamos as prioridades do trimestre. Esse cenário se repete. Quase toda reunião que faço com grupos maiores, preciso pontuar alguém que estava distraído no momento em que tínhamos um conteúdo relevante sendo apresentado. O mais curioso e preocupante é que essas mesmas pessoas acreditam que estão sendo produtivas. Acham que conseguem fazer duas coisas ao mesmo tempo, que estão otimizando o tempo, que são multitasking. Não são, ninguém é. O cérebro humano não foi projetado para processar múltiplas tarefas cognitivas simultaneamente. O que chamamos de multitasking é, na verdade, task switching, uma alternância rápida entre tarefas que consome energia mental e reduz a eficiência. Os dados são inequívocos. Segundo a American Psychological Association, pessoas que tentam fazer múltiplas tarefas ao mesmo tempo experimentam uma queda de até 40% na produtividade e levam 50% mais tempo para completar cada tarefa individual. Um estudo da Universidade da Califórnia, em Irvine, mostrou que, após uma única interrupção, levamos em média 23 minutos para recuperar o foco completo. Vinte e três minutos, para cada vez que alguém responde uma mensagem no meio de uma reunião. E as interrupções não param de aumentar. Pesquisas recentes indicam que funcionários são interrompidos, em média, a cada dois minutos durante o horário de trabalho, cerca de 275 vezes por dia. A pesquisadora Gloria Mark, da Universidade da Califórnia, vem medindo há anos o tempo que as pessoas conseguem manter atenção em uma única tela. Em 2004, eram dois minutos e meio. Depois, caiu para 75 segundos. Hoje, são apenas 47 segundos. Quarenta e sete segundos antes de mudar para outra coisa. A ilusão de produtividade O problema é que a sensação de estar ocupado se confunde com a sensação de estar produzindo. Responder mensagens rapidamente parece eficiente. Estar presente em múltiplos canais parece necessário. Alternar entre tarefas parece ágil. Mas os números contam outra história. Segundo relatório da Insightful, 79% dos trabalhadores não conseguem passar uma hora inteira sem se distrair. 59% não conseguem nem meia hora. E mais de 70% apontam que interrupções de colegas são o maior obstáculo para completar tarefas, um sintoma de uma cultura de trabalho que confunde disponibilidade com valor. Isso tem um custo real. A Atlassian estima que a perda de produtividade por context switching custa à economia global cerca de 450 bilhões de dólares por ano. Nos Estados Unidos, as distrações no ambiente de trabalho custam às empresas 588 bilhões de dólares anuais em produtividade perdida. Mas o custo não é só financeiro. É cognitivo, emocional e humano. Quando comecei a liderar, não existia Slack, WhatsApp ou Teams. O e-mail era a principal ferramenta de comunicação assíncrona, e as pessoas ainda faziam reuniões presenciais onde o único dispositivo na mesa era o bom e velho papel e caneta. Hoje, um profissional médio usa mais de dez ferramentas diferentes para gerenciar seu trabalho. Alterna entre e-mail, mensagens instantâneas, videoconferências, sistemas de gestão de projetos, redes sociais corporativas, cada uma com suas notificações, cada uma competindo pela atenção. E as reuniões se multiplicaram. O número de reuniões triplicou desde 2020, segundo a Microsoft. Funcionários remotos participam de 50% mais reuniões do que quem trabalha presencialmente. Mais da metade dos trabalhadores admite fazer outras coisas durante reuniões online. Estão lá, mas não estão presentes. Não aprendem, não participam, não contribuem. E depois reclamam que não têm tempo para o "trabalho de verdade". O impacto nos negócios: quando a desatenção encontra o cliente Observo isso de perto acompanhando times que interagem com clientes. Pessoas que não conseguem ficar 30 ou 45 minutos integralmente conectadas em uma reunião. Que perguntam coisas que acabaram de ser explicadas. Que não compreendem o que está sendo solicitado. O resultado é previsível: uma experiência estranha e com resultado mediano. Uma proposta completamente desalinhada com o que o cliente pediu. Uma passagem de bastão ruidosa, cheia de lacunas, para outros times que vão trabalhar no mesmo projeto. Dúvidas que ficam sem resposta pela simples falta de presença cognitiva. E a linguagem corporal comunica o que as palavras tentam esconder. A pessoa do outro lado está rindo de algo na tela enquanto o cliente fala. Ou com o olhar desviado, claramente digitando, conversando com outra pessoa. A mensagem que chega é clara: você não é a prioridade agora. Isso corrói a confiança, compromete relacionamentos e gera retrabalho. E o mais irônico é que, no fim do dia, fica aquela sensação de sobrecarga. De que se faz muito, o tempo todo. Mas a eficiência, essa não encontra meios de existir. Porque não há como ser eficiente quando a atenção está permanentemente fragmentada. Não há como entregar excelência quando metade da mente está em outro lugar. Para quem lidera, essa epidemia de desatenção adiciona camadas de complexidade ao trabalho. Não basta definir estratégia, comunicar diretrizes, desenvolver pessoas. É preciso, a cada momento, competir com um universo de estímulos que está a um toque de distância. Uma mensagem no celular ativa os mesmos circuitos de dopamina que evoluíram para nos alertar sobre novidades no ambiente. É literalmente viciante. Estudos de neuroimagem mostram que até a simples antecipação de uma notificação já libera dopamina no cérebro. Estamos programados para checar. E cada vez que checamos, fortalecemos o ciclo. Liderar nesse contexto exige mais do que competência técnica ou visão estratégica. Exige criar ambientes onde a atenção seja protegida. Exige modelar comportamentos. Exige ter conversas difíceis sobre o que significa estar presente. Mas também exige reconhecer que o problema não é individual, é sistêmico. As ferramentas que usamos, a cultura que construímos, as expectativas que criamos, tudo conspira para fragmentar a atenção. E culpar as pessoas por não conseguirem se concentrar em um ambiente desenhado para distraí-las é, no mínimo, injusto. Além do trabalho: a desatenção como modo de vida O desafio não está só no ambiente corporativo. A epidemia de desatenção invadiu todos os espaços da vida. Vamos a um show e passamos boa parte do tempo filmando para postar nas redes sociais, em vez de simplesmente curtir. Quem nunca viu a cena de milhares de celulares apontados para o palco, gravando um trecho de uma melodia famosa? Estamos lá, mas não estamos presentes. Estamos documentando uma experiência que não estamos vivendo de verdade. Às vezes vou a um restaurante e observo casais jovens distraídos, cada um no seu celular. Não conversam e não se olham. Cada um no seu mundo, compartilhando o mesmo espaço físico, mas habitando universos paralelos. E o que mais me assusta é quando esses casais estão acompanhados de filhos pequenos, igualmente distraídos por telas. Crianças que estão aprendendo, desde cedo, que a atenção é algo fragmentado. Que o mundo real compete, e perde, para o mundo digital. Não existe solução simples, mas existem escolhas que fazem a diferença. A primeira é reconhecer que atenção é um recurso finito e precioso. Tratar tempo de foco como algo a ser protegido, não como luxo. Criar espaços físicos e temporais onde interrupções não são permitidas. A segunda é questionar a cultura da disponibilidade permanente. Nem toda mensagem precisa de resposta imediata. Nem toda reunião precisa acontecer. Nem toda notificação precisa estar ativada. Empresas que implementam "horários de foco" ou "dias sem reunião" relatam ganhos significativos de produtividade e redução de absenteísmo. A terceira é modelar o comportamento que esperamos ver. Se eu, como líder, respondo e-mails durante reuniões, estou sinalizando que isso é aceitável. Se eu exijo disponibilidade 24 horas, estou criando uma cultura de atenção fragmentada. Liderar pelo exemplo nunca foi tão importante. A quarta é ter conversas honestas sobre o tema. Falar abertamente sobre o impacto da desatenção. Criar acordos de equipe sobre como e quando se comunicar. Normalizar a ideia de que desligar notificações não é descompromisso, é profissionalismo. O paradoxo do nosso tempo Vivemos o paradoxo de estar mais conectados e menos presentes do que nunca. Temos mais ferramentas de comunicação e menos qualidade nas conversas. Mais acesso à informação e menos capacidade de processá-la com profundidade. A atenção se tornou o recurso mais escasso do ambiente de trabalho. E, ironicamente, é também o mais necessário. Porque as habilidades que mais importam — pensamento crítico, criatividade, resolução de problemas complexos — exigem foco sustentado. Exigem presença. Exigem a capacidade de ficar com uma ideia o tempo suficiente para que ela amadureça. Estou a poucas semanas de me tornar mãe. E confesso que penso muito em como proteger a Lara desse comportamento. Não tenho respostas prontas, mas sei que começa pelo exemplo. Pelo que ela vai ver em mim. Pela presença que eu escolher oferecer a ela , não a presença distraída, com o celular na mão, mas a presença inteira. Talvez esse seja o maior desafio da liderança hoje, seja no trabalho ou em casa. Não é só sobre gerenciar times ou entregar resultados. É sobre reaprender a estar presente, e ensinar, pelo exemplo, que a atenção é a forma mais genuína de respeito que podemos oferecer a alguém. Depois de quase vinte anos liderando times, aprendi que a atenção das pessoas é um presente. Não pode ser exigida. Precisa ser conquistada. E, cada vez mais, precisa ser protegida, inclusive de nós mesmos.
“Muitas práticas agrícolas em larga escala prejudicam as redes de fungos”, disse Stewart. “A forma mais evidente é com técnicas como a aração, em que se penetra no solo e literalmente o revolve.”
Ele acrescentou que fertilizantes ou fungicidas também podem “interromper a simbiose entre as plantas e os fungos”.
Conforme alertado pelos pesquisadores, redes fúngicas de menor densidade reduzem a capacidade do solo de armazenar carbono e distribuir nutrientes e de protegerem os cursos d'água do nitrogênio, fósforo e outros produtos químicos.
“Se eles desaparecerem, haverá muito mais produtos químicos nos cursos d'água”, apontou a autora Toby Kiers. “Em última análise, o objetivo da pesquisa é ajudar cientistas e tomadores de decisão a entender onde os ecossistemas fúngicos estão prosperando e onde estão ameaçados.”
Desenvolvido para missões de inteligência, vigilância e reconhecimento, Black Hornet é usado por tropas para observar áreas de risco sem expor soldados na linha de frente
A distribuição desigual de alunos por escolas é um espelho da desigualdade geral do país: os mais pobres, com piores notas, filhos de pais em geral com baixa escolaridade, ficam concentrados nas de pior qualidade. Pesquisas internacionais apontam que o Brasil é altamente segregado no campo educacional, e especialistas descrevem como essa prática, a longo prazo, desestimula alunos e professores, piora o aprendizado dos mais desfavorecidos e amplia o fosso que os separa dos mais ricos e escolarizados.
Carandiru. A escola, dedicada à educação de crianças e adolescentes a partir dos 11 anos, era conhecida assim, pelo apelido que evocava os horrores do sistema prisional.
O economista Leandro Anazawa ouviu o nome pela primeira vez em um horário de aula, quando a algazarra dos alunos nos corredores havia diminuído, durante uma visita a instituições de ensino em Sertãozinho, cidade de 150 mil habitantes no interior paulista.
Anazawa sabia que a Carandiru figurava entre as instituições de pior resultado nas provas aplicadas aos alunos do sistema público local, mas nem por isso deixou de se surpreender com a alcunha pejorativa, enunciada com naturalidade pela diretora de uma outra escola, com quem conversava.
Ilustração de Adams Carvalho - Adams Carvalho Em meados da década passada, o pesquisador era aluno de mestrado da Faculdade de Economia e Administração da USP em Ribeirão Preto. Havia feito a graduação na capital paulista, mas se mudara para o interior após receber um convite para se associar ao Lepes, o Laboratório de Estudos e Pesquisas em Economia Social, centro de referência no campo de economia da educação, abrigado no campus interiorano da universidade.
Em 2017, enquanto escrevia a dissertação, Anazawa fora encarregado de coordenar uma pesquisa de campo em Sertãozinho, distante 20 minutos de carro de Ribeirão Preto.
Todo dia de manhã, no campus arborizado da USP de Ribeirão, o economista se reunia com a sua equipe: cerca de 20 estudantes de graduação, um pelotão mobilizado para fazer entrevistas com alunos do ensino fundamental e médio. O grupo, quando completo, embarcava em duas vans providenciadas pelo Lepes e partia rumo à cidade vizinha.
Nessas visitas, que duraram um mês e meio, Anazawa foi apresentado ao minucioso sistema de segregação escolar que opera em muitos municípios brasileiros. Uma segregação que vai além da divisão entre escolas públicas e privadas —e que, mesmo dentro do sistema público, separa alunos a partir de critérios socioeconômicos e de desempenho.
Primeiro, Anazawa notou a clara hierarquia que havia entre as escolas públicas do município. As de melhor desempenho, que ficavam nos melhores bairros e reuniam os alunos mais ricos, tinham infraestrutura bem cuidada. "A melhor delas tinha ar-condicionado em todas as salas, banheiros limpos, impecáveis. E uma merenda que eu nunca vi na vida." Era lá também que os melhores professores davam aula.
Na outra ponta, escolas como a Carandiru, onde havia arame farpado nos muros, e as janelas eram gradeadas.
Mas a segregação não parava aí. Havia separação entre os alunos, de acordo com o seu desempenho, por turnos. "No diurno, no período matutino, você coloca os alunos que vão bem. O que tem pior desempenho, quem é repetente, vai sendo jogado para a tarde, depois noite. Os gestores vão agrupando esses alunos no noturno, e meio que ficam esperando que eles desistam da escola."
Dentro de cada turno, por fim, os alunos são separados por turma. Nas de menor número ou letra (1A, 101) são alocados os melhores alunos. Nas classes subsequentes (1B, 1C etc.), os de desempenho pior. Nas classes "piores", no fim da fila, "o rótulo social é muito forte", explica Anazawa, o que cria desestímulos ao aprendizado e, no fim, à própria permanência na escola.
1 4 Professores idealizam projetos que levam escolas públicas a concorrer entre melhores do mundo
VOLTARFacebookWhatsappXMessengerLinkedinE-mailCopiar link Carregando... O que ele descobriria em seguida, no doutorado, é que a realidade de Sertãozinho não era uma exceção. Há estudos que revelam procedimentos idênticos nas duas maiores redes públicas de ensino, Rio e São Paulo, e relatos de segregação em municípios de todo o país.
A prática, comum, em parte até automática, decorrente da desigualdade brasileira, contribui segundo especialistas para ampliar o fosso que separa os mais pobres do restante da sociedade.
A segregação escolar é definida como a distribuição desigual de alunos —em escolas, turnos ou turmas— que compartilham uma determinada característica ou vulnerabilidade —socioeconômica, étnico-racial ou de desempenho nos estudos.
Há segregação escolar se grande parte das crianças mais pobres estudam com outras crianças pobres, como é grosso modo o caso brasileiro.
Assim como é possível medir a desigualdade econômica —com o uso do índice de Gini, por exemplo—, também há índices de segregação, que permitem comparação entre diferentes sistemas educacionais. Os dois índices mais comuns são o D (inicial de dissimilaridade) e o GS (Gorard Segregation Index, em referência ao seu inventor, o pesquisador britânico Stephen Gorard).
À semelhança do Gini, ambos variam entre 0 e 1. Um índice de segregação igual a 0 significa ausência completa de segregação. Se a medida for de segregação econômica, um resultado 0 corresponde a distribuir algum grupo (como os 20% mais pobres, por exemplo) de maneira homogênea entre todas as escolas.
Alternativamente, um índice D ou GS igual a 1 equivaleria à máxima segregação possível, com todos os alunos do grupo mais pobre reunidos nas mesmas escolas.
São raros os estudos que usam esses índices para o caso brasileiro. Alguns dos poucos trabalhos que permitem comparações amplas, entre países, foram feitos pelos pesquisadores espanhóis Francisco Javier Murillo e Cynthia Martínez-Garrido.
1 17 Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar mostra a realidade dos estudantes brasileiros
VOLTARFacebookWhatsappXMessengerLinkedinE-mailCopiar link Carregando... Em um desses estudos, que usa informações sobre crianças no 3º e no 6º ano do ensino fundamental, o Brasil aparece como país altamente segregado quando se considera a distribuição dos 25% mais pobres entre as escolas.
O índice D calculado para o Brasil, de 0,59, indica que seria necessário redistribuir 59% desses alunos para outras escolas, para que todas as unidades do sistema educacional tivessem igual composição socioeconômica.
No mesmo artigo, os autores comparam a segregação escolar socioeconômica média da América Latina (com D igual a 0,6) com a de países ricos, como Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido (0,41, 0,37 e 0,36, respectivamente). "A América Latina é a região mais desigual do mundo, e os dados que temos indicam que seus sistemas educacionais estão entre os mais segregados", escrevem Murillo e Martínez-Garrido. "A relação entre ambos os fenômenos não é casual."
A segregação contribui para a desigualdade ao oferecer um ensino de pior qualidade para os estudantes mais vulneráveis. O economista Daniel Santos, coordenador do Lepes, observa que vários mecanismos contribuem para que a segregação de estudantes pobres esteja associada a resultados escolares piores.
Um deles tem a ver com a distribuição de professores nas redes de ensino. "É um mecanismo que está nos próprios concursos. Em muitas redes, os primeiros a passar escolhem a escola para que irão. Possivelmente são os melhores professores. Eles vão para onde? Para a escola central, no bairro legal. Você tem uma dificuldade enorme de induzir pessoas a darem aula nas periferias. São Paulo até tem gratificações, ainda assim não são suficientes. A rotatividade na periferia é muito maior, os horários sem professores são muito maiores, os alunos ficam sem aula por muito mais tempo."
Além disso, "ensinar uma criança com vulnerabilidade exige mais esforço, não menos", lembra Santos. "Para atingir a mesma meta, você já precisava de mais esforço. Se, além disso, faz o oposto, então a desigualdade aumenta. E vários estudos mostram que, na educação infantil, a desigualdade aumenta ao longo do tempo."
Embora ainda pouco investigada, a segregação escolar aparece no centro de um estudo macroeconômico publicado recentemente em uma das melhores revistas de economia do mundo, o Journal of Political Economy.
O artigo "Of Cities and Slums" (Sobre Cidades e Favelas), de autoria dos economistas Pedro Cavalcanti Ferreira, Luciene Torres de Mello Pereira e Alexander Monge-Naranjo, faz uso de um modelo que ajuda a explicar por que as possibilidades de ascensão social são, em muitos casos, bloqueadas para os moradores de áreas mais pobres das cidades brasileiras.
1 5 Policiais militares retiram barricadas do PCC em Paraisópolis, zona sul de SP
VOLTARFacebookWhatsappXMessengerLinkedinE-mailCopiar link Carregando... A partir de um modelo de equilíbrio geral, em que as famílias escolhem onde viver pesando o custo da moradia, o acesso ao mercado de trabalho e (aqui aparece a segregação escolar) a oferta de escolas de qualidades distintas no meio rural, nas favelas e na cidade formal, os autores conseguem explicar por que as favelas cresceram tanto nas cidades brasileiras e, além disso, por que persistem no tempo.
Afinal, por que as fotos de muitas cidades brasileiras parecem congeladas no tempo, com contrastes imutáveis, há décadas, entre São Conrado e Rocinha, Morumbi e Paraisópolis?
Cavalcanti Ferreira e Mello Pereira, hoje ambos professores de economia na FGV, a Fundação Getulio Vargas (ele no Rio, ela em São Paulo), começaram a levantar os dados que dariam origem ao artigo uma década atrás, quando a jovem economista ainda era aluna de doutorado do pesquisador carioca.
O acesso a um censo de moradores de favelas da cidade do Rio de Janeiro, realizado em 2010 pelo governo fluminense, mostrou que as crianças dessas localidades de modo geral frequentavam escolas na própria comunidade: 72% estudavam na favela ou a menos de 1 km de distância dela.
Não chegava a ser uma descoberta contraintuitiva. Os municípios brasileiros tendem a alocar os alunos perto de casa, uma solução que facilita a vida dos pais. O problema surgia por causa de um outro conjunto de dados, também levantados pela dupla, que revelava a desvantagem das escolas da favela em relação às dos demais bairros da cidade.
É que os filhos de moradores da cidade formal, eles descobriram, possuem chances muito maiores de ascender educacionalmente —e, como consequência, também socialmente— do que filhos de moradores das favelas.
Entre os filhos de pais analfabetos que moravam na cidade formal no final dos anos 1980, mais de 40% iriam conseguir ir além dos 5 anos de estudo. Logo ao lado, na favela, cerca de 20% dos filhos de analfabetos conseguiriam ter 5 ou mais anos de escolaridade. Ou seja, aproximadamente 80% iriam ter educação mínima ou inexistente, assim como seus pais.
Na cidade formal, entre os filhos de pais com alta escolaridade (12 anos ou mais de estudos), 61% conseguiriam manter o mesmo nível educacional. Nas favelas, entre os filhos de famílias altamente escolarizadas, apenas 27% teriam essa mesma escolaridade. Ao que tudo indicava, a educação segregada por vizinhança estava bloqueando a ascensão social das crianças que moravam na favela, enquanto ajudava as crianças dos bairros formais a subir na vida.
Por outro lado, na comparação com a escola rural, a da favela oferecia maiores possibilidades de ascensão escolar para os filhos de pais com baixa escolaridade.
A favela servia, assim, como um ímã para a migração rural-urbana, ao permitir rendas maiores para quem vinha do campo, bem como perspectivas de mais educação para os seus filhos. Simultaneamente, ela bloqueava as possibilidades de ascensão dos filhos de pais com maior escolaridade.
Há dois mecanismos em funcionamento para a escola segregada oferecer um ensino pior, argumentam os autores do artigo. Uma primeira causa é institucional: gestão pior, professores piores, infraestrutura idem.
A outra tem a ver com o que eles chamam de "efeitos dos pares". Quando se agregam alunos com maiores vulnerabilidades, cada um deles acaba tendo um desempenho pior do que teria se pudesse estudar com colegas menos vulneráveis.
Naercio Menezes Filho, professor do Insper e da USP, afirma que as suposições fazem sentido. É razoável acreditar que "uma criança que teria mais facilidade nos estudos possa ser prejudicada ao ser colocada entre outras que têm mais dificuldade".
É assim por várias razões, ele diz, ligadas aos comportamentos coletivos da turma, alguns deles mais comuns entre alunos com problemas de aprendizagem. "Porque o professor tem que explicar mais vezes, porque as crianças têm menos autocontrole, são mais indisciplinadas, fazem bagunça etc."
Tudo somado, Cavalcanti Ferreira, Mello Pereira e Monge-Naranjo são capazes de falar sobre a história da urbanização do país tanto quanto sobre as consequências da segregação escolar. Se em 1980, eles dizem, as escolas rurais tivessem a qualidade das urbanas, as favelas teriam crescido 40% menos nas décadas seguintes.
Alternativamente, se em 2010 as crianças da favela tivessem acesso ao pacote completo de qualidade das escolas da cidade formal, é possível estimar que o analfabetismo cairia 46% nas três décadas seguintes (descendo a meros 2,8% no total), e a fração da população brasileira com 12 anos ou mais de escolaridade cresceria 21%, passando de 32% para 39% do total.
O estudo mostra que erramos no passado, ao não oferecer escolas de qualidade para quem morava no campo, ajudando assim a criar enormes áreas segregadas nas cidades. E que continuamos a errar, no presente, ao oferecer uma escola pior para quem veio morar nessas áreas.
Mayara dos Santos, 21, negra, é moradora do Conjunto Esperança, uma reunião de dezenas de edifícios, construídos no início dos anos 1980, no complexo de favelas da Maré, no Rio.
Mayara conta que cresceu no conjunto habitacional, onde, antes dos seus pais, já moravam os seus avós maternos. O pai é motorista de caminhão, e a mãe, dona de casa. O ensino fundamental, do 1º ao 9º ano, foi todo feito em escolas próximas de casa.
Mayara dos Santos no Complexo da Maré, no Rio - Eduardo Anizelli/Folhapress Ainda nos anos iniciais, Mayara se acostumou a perder dias de aula quando havia operação policial na favela —e trocas de tiros nas ruas perto de casa. A estudante não se lembra da primeira vez que teve que conviver com tiros durante as aulas: as duas coisas, de certa forma, sempre andaram juntas.
Um levantamento da ONG Redes da Maré informa que, entre 2016 e 2025, as escolas desse conjunto de favelas ficaram 163 dias fechadas (quase um ano letivo completo) devido a intensos conflitos armados.
Nas duas escolas do ensino fundamental que Mayara frequentou havia segregação por turmas. A estudante conseguia ficar sempre na primeira classe, 401, 501, as dos alunos "bons". No sétimo ano, por algum motivo que não entendeu, foi transferida para uma das últimas turmas, a 711.
"Foi a época mais difícil da escola para mim", ela diz. A turma era indisciplinada. "Como eles colocam essa imagem de que são alunos inferiores, acaba influenciando no nosso modo de pensar. Até porque nós éramos crianças. A gente já tinha aquela fama de ser a turma ruim, então ficava nisso de vamos ser a turma ruim, mesmo."
Com bom desempenho, Mayara foi novamente transferida de classe, antes do fim do ano. "Eles me passaram para a 702. E, a partir do oitavo ano, eu fui para a turma 01."
Os constantes tiroteios deixaram sequelas, ela diz. Não apenas pelos dias perdidos e pelo conteúdo que deixou de aprender, em sala de aula, mas também porque passou a ter "dificuldade de estudar". Mesmo lendo e tentando se concentrar, "parecia que eu não estava aprendendo, estava só gravando o conteúdo para repetir na hora da prova", descreve. "Estou conseguindo melhorar isso, mas essa dificuldade me prejudicou a longo prazo."
Roberta Costa, 35, branca, nasceu e cresceu em Jacarepaguá, bairro da zona oeste do Rio. A família era pobre. O pai trabalhava como motorista de Kombi, e a mãe, como camelô. Moravam em um segundo andar construído sobre a casa dos avós. Mas não era favela. "Tinha rua na frente, asfaltada", lembra Roberta.
É verdade que, de vez em quando, podiam ouvir trocas de tiros na Cidade de Deus, favela da vizinhança. Mas à distância —e operações policiais nunca fecharam as escolas que Roberta frequentava.
Havia também, nos fundos da casa, uma região um pouco mais pobre, "uma área com atividade criminal". Certo dia, quando Roberta era criança, um sujeito pulou o muro do quintal, tentando fugir da polícia. "Eu e meu tio estávamos em casa. Aí o cara passou, assim, pela gente. Parou e falou: ‘Boa noite’. A gente respondeu: ‘Boa noite’. E ele seguiu, foi embora."
Roberta Costa no Rio - Eduardo Anizelli/Folhapress Roberta sempre foi boa aluna. Na sexta série, os dois melhores estudantes tinham direito a bolsas de estudo de uma escola de inglês, que havia feito parceria com a Prefeitura do Rio. Roberta ganhou a bolsa e não parou mais de estudar inglês, língua que fala fluentemente, sem ter morado fora do país.
Nas duas escolas que frequentou, os estudantes também eram separados por desempenho, e ela sempre foi alocada na classe 01. A regra vigorou até a oitava série, quando a escola resolveu inovar, misturando alunos de desempenhos diferentes. Roberta passou a estudar na 805. "A minha mãe foi à escola, porque ficou revoltada. ‘Como assim, minha filha foi para a turma ruim?’, ela dizia."
Leandro Anazawa é filho de bancários e estudou em escola pública até o sexto ano do ensino fundamental. Em Flórida Paulista, onde cresceu, os alunos também eram separados por turma como resultado do seu desempenho.
O pesquisador argumenta que provavelmente o agrupamento por turmas seja uma tentativa, improvisada, de resolver o problema maior da segregação socioeconômica. Ele usa o exemplo da escola que ganhou o apelido de Carandiru, em Sertãozinho, para explicar a lógica do procedimento.
"Eles já recebiam alunos expulsos de outras escolas. Era o pessoal repetente, que não ia bem. E tinha muito problema de violência. Então, para atrair alguns bons professores, criavam essas turmas com alunos que tinham notas maiores ou que se comportavam melhor."
Anazawa argumenta que, dentro da escola, os melhores professores poderiam escolher as turmas que acompanhariam durante o ano. A criação de turmas "premium" talvez ajudasse a atrair professores um pouco melhores para essas escolas –mesmo para a Carandiru.
Em sua tese de doutorado, o economista pesquisou a prática de "enturmação" no município de São Paulo, utilizando os resultados de uma prova de desempenho aplicada aos estudantes do ensino fundamental.
Ele observou as notas que os alunos das turmas do 5º ano haviam obtido naquele teste dois anos antes. Se houvesse agrupamento, alunos com resultados parecidos nas provas de 2017, quando estavam no 3º ano, deveriam aparecer juntos nas classes de 2019, no 5º ano.
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VOLTARFacebookWhatsappXMessengerLinkedinE-mailCopiar link Carregando... Em muitos casos, foi o que aconteceu. Anazawa encontrou indícios de que os agrupamentos de estudantes com notas parecidas não eram obra do acaso na faixa de 15% a 49% dos casos, a depender da altura da barra de exigência para a comparação entre as médias das turmas. Ou seja, provavelmente resultaram da enturmação.
Essa prática, além de prejudicar os alunos reunidos nas turmas de pior desempenho, também se mostrou contraproducente para o conjunto da escola. Na tese, Anazawa observou que as escolas que agrupavam estudantes tiveram um ganho de aprendizado menor entre o 3º e o 5º anos do que aquelas que não segregavam alunos.
O método de divisão também foi constatado no Rio. Fábio Waltenberg, professor da UFF (Universidade Federal Fluminense), orientou uma pesquisa que encontrou indícios de enturmação no ensino fundamental da rede pública carioca. Observando dados de desempenho escolar entre 2012 e 2017, o estudo da UFF constatou que as médias das turmas de número mais baixo eram frequentemente maiores do que as demais.
Um dos objetivos do estudo foi avaliar os "efeitos de pares", que os autores do artigo "Sobre Cidades e Favelas" imaginaram estar entre os mecanismos deletérios da segregação
A pesquisa descobriu que, se a média das notas de uma determinada turma for mais alta, o bom desempenho coletivo é benéfico para qualquer aluno daquela turma. Estar em um grupo de média mais alta melhora o desempenho escolar de cada um de seus integrantes: uma boa notícia para quem está em uma escola, turno ou turma "melhor", e uma péssima notícia para quem foi alocado entre os "piores".
Mas o trabalho também revelou que uma grande variação de notas, entre o melhor e o pior desempenho, dentro de uma mesma turma, pode ser prejudicial para quem tem nota menor.
A heterogeneidade se converte em problema provavelmente porque os professores organizam a exposição de conteúdo segundo as capacidades dos alunos médios, sem dar atenção às necessidades das crianças de notas muito abaixo da média, que têm maior dificuldade. Esse achado, por si só, ajudaria a justificar a enturmação, projetada para promover habilidades mais homogêneas por classe.
Ainda assim, quem fez o estudo avalia que é melhor não agrupar por resultado, se o objetivo for melhorar o desempenho escolar dos alunos com notas mais baixas. Participar de uma turma com média maior os beneficia, e o efeito negativo da turma com grande variação de desempenho pode ser combatido se os professores forem treinados para dar atenção maior a quem mais precisa.
Ouvidas pela Folha, as secretarias de Educação dos municípios do Rio e de São Paulo disseram não praticar políticas de enturmação em suas redes de ensino.
Quando estava no 9º ano, Mayara dos Santos fez uma prova para tentar entrar na escola de ensino médio mantida pela Fiocruz, nas proximidades da Maré. A instituição tem ótima reputação e oferece formação técnica na área de saúde.
O pai ajudou, pagando um curso preparatório para a filha. Por um único ponto, em matemática, Mayara não conseguiu se habilitar para o sorteio final que definiria os novos alunos da escola.
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VOLTARFacebookWhatsappXMessengerLinkedinE-mailCopiar link Carregando... Roberta Costa passou a fazer curso técnico em contabilidade, no ensino médio, por insistência da mãe, preocupada com o futuro da filha.
A situação econômica da família, nessa época, tinha melhorado. O pai se tornara taxista. A mãe trabalhava no comércio formal. Mesmo assim, a vida era incerta, e o ensino técnico parecia trazer alguma segurança. "Se tudo der errado, você não vai fritar hambúrguer no McDonald's", disse a mãe de Roberta.
Mayara tentou cursar direito e não conseguiu. Fez uma única tentativa e mudou de ideia. Hoje estuda serviço social na Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro).
Ao se formar, ela fará parte de um grupo seleto: apenas 1,5% dos moradores da Maré com 25 anos ou mais possuíam o ensino superior completo em 2013, data do levantamento mais recente, feito pela ONG Redes da Maré. Naquele ano, cerca de 15% dos brasileiros tinham terminado a faculdade.
Roberta fez vestibular para economia. Entrou na UFF, onde se desenvolve boa pesquisa em economia da educação. "Eu fui a primeira pessoa da minha família a ir para a faculdade." Depois fez mestrado, doutorado, defendido em 2023, e segue pesquisando o tema, com trabalhos apresentados em seminários internacionais (nos quais faz uso do inglês que aprendeu com a bolsa da prefeitura).
Roberta Costa, economista, é a autora da tese de doutorado defendida na UFF, orientada por Fábio Waltenberg, que encontrou indícios de enturmação no ensino fundamental do Rio e que procurou avaliar os efeitos de pares sobre o desempenho escolar das crianças.
Sentada em um café em Botafogo, na zona sul do Rio, bairro onde hoje mora com o marido (ele, também, oriundo de Jacarepaguá), Roberta Costa fez questão de dizer como não gostaria de ser retratada na reportagem da Folha: como um exemplo de alguém que venceu na vida, por esforço, ou como um caso de bom funcionamento da meritocracia.
Um bom sistema educacional deveria produzir muitas Robertas. Não é o que acontece. As escolas no Brasil, ela diz, "produzem, em média, uma outra coisa", diferente da sua história. Como Mayara dos Santos, Roberta Costa é uma exceção —e não apenas por seu talento.
Devemos tentar regular a tecnologia apesar da grande probabilidade de fracasso Um pacto de desarmamento tecnológico entre os EUA e a China já faria todos se sentirem mais seguros
Em fevereiro de 2025, o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) aprovou uma resolução regulamentando o uso de IA no Judiciário, que passou a ser permitido, desde que mantida a supervisão humana e que o processo decisório não fosse delegado à tecnologia, entre outras regras.
Um caso recente mostrou os tipos de riscos envolvidos na hipótese de uso inadequado dessa tecnologia.
A notícia de que advogados estão incluindo comandos ocultos nos processos para tentar manipular as ferramentas usadas pelos magistrados, com intuito de obter pareceres favoráveis, acendeu um alerta e fez com que diferentes órgãos emitissem notas sobre o assunto. Entre as estratégias estão a inclusão de metadados em imagens anexadas ou comandos na cor branca —imperceptíveis a olho nu, mas legíveis pela IA.
Na última semana, o CNJ aprovou um protocolo a respeito. Entre as medidas, estão a adoção de salvaguardas nos comandos e procedimentos adotados para que esse tipo de manipulação seja evitada, além de supervisão atenta.
Um novo modelo de importação de produtos e equipamentos fundamentais para a realização de pesquisas científicas, criado pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), deve abrir caminho para mudar radicalmente um entrave das universidades públicas do país: a limitação da cota de compras no exterior com isenção de impostos, que costuma se esgotar em poucos meses do ano causando colapso de insumos.
Com base em novas legislações vindas da reforma tributária, a instituição fluminense conseguiu parecer favorável da Receita Federal para fazer as importações. A UFRJ argumentou seu direito constitucional de não pagar impostos, permitindo que terceiros realizem compras internacionais em seu nome sem perder a isenção.
Laboratório de Neurociência da UFRJ; instituição é um dos expoentes nacionais de pesquisa na área - Zanone Fraissat - 24.ago.17/Folhapress Pela via tradicional, os pesquisadores recorrem à cota de isenção, um mecanismo ligado ao CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Eles fazem a aquisição de material para suas atividades —desde maquinário até itens mais simples— sem pagar as taxas de importação. Mas há um teto para essa cota.
De acordo com Fernando Peregrino, pró-reitor de gestão da UFRJ, há uma mudança de paradigma em curso.
"Não temos mais um limite econômico para as compras de pesquisadores, o que vai agilizar muito os processos. Também não há impactos fiscais para o país. Agora, é preciso que a Receita Federal anuncie um efeito vinculante da medida para beneficiar outras instituições públicas, o que faz todo o sentido", diz.
Os casos de estelionato na Justiça de São Paulo vêm crescendo ano após ano e mais do que dobraram desde que as plataformas de inteligência artificial generativa começaram a ser disponibilizadas, no fim de 2022. O dado consta de um levantamento feito pela plataforma Jusbrasil a pedido da Folha.
O crime de estelionato engloba as fraudes cometidas via Pix, que a Polícia Federal costuma classificar como "cangaço digital". No total das decisões dadas pelo TJ-SP (Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo) sobre estelionato em 2025, os números saltaram de 1.073 para 2.270, um aumento em linha com o avanço no registro de boletins de ocorrência por fraudes bancárias.
Embora não seja possível estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre a IA e o aumento dos crimes na internet, empresas renomadas de cibersegurança, como Kaspersky e Crowdstrike, dizem detectar sinais claros do uso da tecnologia nas ações criminosas.
Tim Berners-Lee, conhecido como o pai da World Wide Web (www), defendeu que a inteligência artificial (IA) preserve os princípios que orientaram a criação da internet e permita que usuários tenham maior controle sobre os dados pessoais compartilhados com grandes empresas de tecnologia.
Em entrevista à AFP durante o festival de tecnologia SXSW, em Londres, o cientista da computação britânico afirmou que a predominância "da pessoa, do indivíduo" esteve no centro da criação da web e deveria orientar também o desenvolvimento da IA.
— É importante que as pessoas utilizem essa tecnologia (IA) para garantir que seus clientes, seus cidadãos, tenham controle sobre seus próprios dados — afirmou.
Berners-Lee criou a World Wide Web em 1989, enquanto trabalhava no Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (CERN), inicialmente como uma ferramenta para facilitar a comunicação e o compartilhamento de informações entre cientistas.
Segundo ele, os modelos de inteligência artificial representam uma nova camada da internet e dependem diretamente do vasto volume de informações disponíveis na web.
— Os modelos de IA são uma camada diferente [dentro da internet], eles aproveitam o fato de que a web contém tantos dados para se treinarem — disse.
Embora considere a tecnologia um avanço "empolgante", Berners-Lee avalia que ela poderia se beneficiar de maior coordenação e regulamentação.
Criador da web vê falta de padrões globais para IA O cientista destacou que a inteligência artificial ainda não possui uma estrutura equivalente ao World Wide Web Consortium (W3C), organização internacional fundada por ele para estabelecer padrões técnicos da internet.
Segundo Berners-Lee, a ausência de um organismo semelhante limita a colaboração entre os desenvolvedores da tecnologia.
Como resultado, os pioneiros da IA não "se beneficiam da colaboração que obteriam se contassem com algo assim", afirmou.
A World Wide Web foi criada para permitir que pesquisadores de diferentes países compartilhassem informações sobre suas descobertas. Em 1990, Berners-Lee desenvolveu o projeto ao lado do engenheiro belga Robert Cailliau.
A tecnologia se baseou em dois elementos fundamentais: a linguagem HTML, utilizada para criar páginas da internet, e o protocolo HTTP, que permite a troca de informações entre navegadores e servidores.
Ao optar por não patentear sua invenção, Berners-Lee garantiu que a web pudesse ser utilizada livremente, fator considerado decisivo para sua rápida expansão global.
Startup desenvolve sistema para proteger dados em interações com IA Nos últimos anos, o cientista transformou a proteção de dados pessoais em uma de suas principais bandeiras. Em 2018, ele cofundou a startup Inrupt, voltada ao desenvolvimento de ferramentas que devolvam aos usuários o controle sobre suas informações.
— Sem dados, eles (os modelos de IA) não podem existir. E agora tiveram acesso irrestrito aos dados de todos e, se não estivermos atentos, vamos chegar a uma situação realmente grave — afirmou John Bruce, cofundador da empresa.
A Inrupt trabalha com sistemas de armazenamento em que os dados permanecem sob controle dos próprios usuários. A companhia também desenvolve um assistente de inteligência artificial chamado Charlie.
Segundo Berners-Lee, a ferramenta funcionará como intermediária entre o usuário e sistemas como ChatGPT ou Claude.
— Quando você faz uma pergunta (...) ele analisa qual é a pergunta (...) e decide quais informações enviar [para a ferramenta de IA] — explicou.
Se houver dados pessoais envolvidos, o sistema os "modificará" para que a ferramenta de IA "tenha uma ideia (...) mas depois não possa realmente utilizá-las para identificá-lo", acrescentou.
— Charlie tem como objetivo preservar os valores originais da web — afirmou.
O T1, da Booster Robotics de Pequim, venceu o RoboCup 2025 no Brasil e viralizou com chutes que geram alertas sobre os limites de segurança dos robôs humanoides
O presidente russo Vladimir Putin tem 73 anos, uma obsessão conhecida com a própria saúde e, agora, um programa científico de US$ 26 bilhões (R$ 131 bilhões) para tentar viver mais, segundo reportagem do Wall Street Journal. O programa, batizado de "Novas Tecnologias de Preservação da Saúde" e lançado em 2024, inclui terapia gênica, impressão de órgãos em laboratório, criação de tecidos humanos dentro de porcos e sessões de crioterapia a 170 graus negativos Fahrenheit (cerca de -112 °C).
A iniciativa promete salvar 175.000 vidas russas até o fim da década, um número que, segundo críticos, coincide, de forma incômoda, com as estimativas independentes de baixas do exército russo na guerra contra a Ucrânia.
Uma prioridade de Estado O projeto de longevidade é conduzido por dois nomes próximos de Putin. Sua filha, Maria Vorontsova, endocrinologista, supervisiona programas de genética financiados pelo Estado. Mikhail Kovalchuk, físico à frente do Instituto Kurchatov, o antigo centro de pesquisa nuclear soviético, é o arquiteto intelectual do programa. Kovalchuk, que é irmão do banqueiro e aliado de Putin Yuri Kovalchuk, defende que a ciência permitirá em breve ao ser humano reparar e substituir partes do corpo de forma indefinida.
Em abril, o vice-ministro de Ciência russo, Denis Sekirinsky, anunciou o desenvolvimento de um tratamento de terapia gênica voltado a desacelerar o envelhecimento celular, descrito como um dos caminhos mais promissores da medicina atual.
Cientistas estatais russos afirmam ter conseguido imprimir tecido cartilaginoso humano e uma glândula tireoide de camundongo usando bioimpressão, técnica que produz tecido vivo em impressoras 3D. A meta é substituir órgãos humanos por esse método até 2030. Um prazo semelhante é discutido para o uso de miniporcos geneticamente compatíveis com humanos como incubadores de órgãos para transplante, técnica conhecida como xenotransplantação.
Ciência ou aspiração? O entusiasmo oficial contrasta com a ausência de publicações científicas em periódicos internacionais de prestígio. Alexander Ostrovskiy, o cientista russo que pioneirou a bioimpressão no país e deixou a Rússia após a invasão à Ucrânia, disse que, sem publicações, não há resultados concretos, apenas declarações que devem ser tratadas como aspirações. Segundo ele, as sanções ocidentais isolaram a pesquisa russa do restante do mundo científico, o que torna o trabalho em condições de rigor praticamente inviável. "Eles provavelmente estão dizendo a Putin o que ele quer ouvir para garantir financiamento", disse ao WSJ.
O contraste com iniciativas similares no Ocidente é evidente. Bilionários como Jeff Bezos, Sam Altman e Peter Thiel também financiam pesquisas antienvelhecimento, mas por meio de empresas que publicam resultados e submetem seus achados à revisão científica independente.
A obsessão de Putin com a longevidade não é novidade no Kremlin. Na década de 1920, o polímata soviético Alexander Bogdanov conduziu experimentos com transfusões de sangue com fins rejuvenescedores, atraiu o interesse do governo e morreu aos 55 anos em decorrência de seus próprios tratamentos. Uma década depois, o médico Oleksandr Bogomolets organizou a primeira conferência mundial sobre longevidade, conquistou o apoio de Stalin com pesquisas que prometiam vida até os 150 anos e morreu aos 65.
Outro personagem central na trajetória de Putin foi Vladimir Khavinson, gerontologista que promoveu terapias com peptídeos, cadeias curtas de aminoácidos derivadas de tecido bovino. Khavinson recebeu uma das mais altas condecorações russas de Putin e declarou, em entrevistas, que buscava prolongar a vida de um líder cuja ausência jogaria a Rússia em crise. Morreu em 2024, aos 77 anos.
Há uma ironia demográfica no centro da iniciativa. A expectativa de vida média do homem russo é de cerca de 68 anos, segundo estatísticas oficiais, contra 76 nos Estados Unidos e mais de 80 em boa parte da Europa Ocidental. A Rússia está entre os países desenvolvidos com piores indicadores de mortalidade, cenário agravado pela guerra, que retira homens em idade produtiva do país.
O programa de longevidade de Putin, portanto, opera numa direção oposta à tendência demográfica real do país: enquanto o Estado investe bilhões para estender a vida do topo do poder, a expectativa de vida média segue entre as mais baixas do mundo desenvolvido.
A Oxfam, entidade focada no combate à pobreza e à desigualdade, definiu como um "dia sombrio para a democracia" o momento em que a fortuna de Elon Musk - dono de empresas como SpaceX, Tesla e Twitter - chegou ao patamar de US$ 1 trilhão, o mais alto da História, após a abertura de capital de sua companhia de foguetes e inteligência artificial (IA) na bolsa de Nova York.
A instituição diz que o agora trilionário viu sua fortuna crescer no último ano ao ritmo de US$ 1 milhão por minuto. Com o valor de riqueza acumulado, Musk se torna mais rico que os 46% mais pobres da população mundial, ou 3,8 bilhões de pessoas, quase metade do planeta.
A concentração extrema de riqueza, segundo a Oxfam, é resultado de "décadas de políticas pró-bilionários", que permitiram aos super-ricos "moldar as regras econômicas em seu próprio benefício", disse Nabil Ahmed, diretor sênior de Justiça Econômica da Oxfam América.
"As pessoas comuns acabam pagando o preço enquanto os bilionários continuam escrevendo as regras em benefício próprio”, escreveu Ahmed, em comunicado.
A entidade traça alguns comparativos para dar dimensão da riqueza acumulada por Musk. Se ele gastasse US$ 1 milhão por dia, ainda levaria 2.740 anos para gastar o US$ 1 trilhão.
Com esse valor acumulado, o empresário poderia dar US$ 100 para cada pessoa do planeta e ainda assim continuaria entre os dez bilionários mais ricos do mundo, com mais de US$ 184 bilhões restantes.
A nova promessa da cultura do desempenho é aprender a “hackear” as emoções. Respirar melhor, dormir melhor, medir batimentos, acompanhar a variabilidade da frequência cardíaca, tomar sol pela manhã, mergulhar em água fria, usar aplicativos de meditação, ajustar alimentação, testar suplementos e transformar o próprio corpo em laboratório cotidiano. O nome que ganhou força para esse conjunto de práticas é biohacking emocional.
Mas o que significa “hackear” as emoções? Antes da informática, hack indicava cortar, abrir caminho ou intervir sobre algo. Depois, em ambientes como o MIT, passou a nomear soluções criativas, lúdicas e engenhosas. Só mais tarde ganhou, no uso popular, o sentido negativo de invasão digital. Por isso, em saúde, biohacking emocional não é invadir a mente, mas usar hábitos e tecnologia para ampliar autorregulação e cuidado com a vida, fazendo pequenas mudanças, comprovadas cientificamente, no seu estilo de vida e ambiente para otimizar seu desempenho físico e mental.
A expressão é sedutora, mas exige cuidado. Emoções não são defeitos de programação. Medo, tristeza, raiva, alegria, vergonha e entusiasmo são sinais neuropsicofisiológicos que informam como o organismo lê o mundo, os vínculos, os riscos e as possibilidades, um gps natural e aperfeiçoado por milhões de anos de evolução biológica. O problema começa quando esses sinais ficam cronicamente desregulados: ansiedade persistente, insônia, irritabilidade, exaustão, pensamento fixo, ruminação mental, impulsividade ou perda de sentido e oscilação de humor.
Nesse ponto, a ciência pode trabalhar a favor da vida: ampliar a consciência emocional, fortalecer a autorregulação e melhorar decisões. O biohacking emocional, quando bem compreendido, não controla as emoções; ajuda a percebê-las antes que elas dominem nossas respostas e gerem custos relacionais, profissionais, reputacionais e financeiros.
A base biológica é clara: corpo e mente não funcionam separados. Respiração, sono, luz, movimento, alimentação, inflamação, eixo intestino-cérebro, sistema nervoso autônomo e vínculos modulam como sentimos, pensamos e decidimos. Sem sono, um executivo ou juiz decide pior. Sob excesso de telas, um jovem tolera menos a frustração. Em estresse crônico, um profissional confunde urgência com importância. Na ansiedade, sinais neutros parecem ameaça. Aos poucos, pessoas e organizações ficam presas em ciclos de sofrimento e desgaste.
Por isso, algumas práticas simples têm valor real. Técnicas de respiração estruturada, como “cheirar a flor e soprar a vela” — ajudam a reduzir o estresse, excitação corporal e melhoram humor.
A luz natural pela manhã organiza o relógio biológico e protege o sono. A atividade física regular, a visão panorâmica e o contato com a natureza favorecem saúde mental, cognição e prevenção de doenças. Aquela caminhada na praia ou no parque confirma isso na prática.
Reaprender os limites do corpo — fome, suor, respiração, cansaço e frio — também faz parte da autorregulação. Na ciência, os sinais de perigo mostram que o organismo reconhece alertas e responde a eles. Na vida cotidiana, essa escuta ajuda a calibrar o alarme interno: respeitar limites reais sem transformar todo desconforto em ameaça.
Menos tela, menos ruído. Reduzir notificações, redes sociais, notícias em excesso e celular antes de dormir protege sono, foco e saúde emocional. Leitura, música, pausas, natureza e vínculos continuam sendo tecnologias sofisticadas de autorregulação. O detox digital não exige aplicativo, se constrói no cotidiano e é gratuito.
Mas a palavra “hacking” também revela um risco cultural: a ilusão de que toda emoção precisa ser otimizada. A tristeza pode expressar perda; a oscilação de humor, adaptação; a queda de produtividade, cansaço; e a angústia, uma informação ética, afetiva ou existencial. Há dias em que o corpo pede descanso, não protocolo. Transformar toda experiência humana em métrica pode empobrecer a vida que se pretende melhorar — e fazer o sofrimento aumentar.
Esse é um ponto central para empresas, líderes e profissionais de inovação. A saúde mental não pode virar mais uma tarefa de performance individual. Não basta dizer ao colaborador para respirar, meditar e melhorar sua pontuação de sono, se a cultura organizacional produz excesso de cobrança, insegurança, solidão, competição tóxica e disponibilidade permanente. A autorregulação é necessária, mas não substitui ambientes saudáveis. Biohacking emocional sem ética social vira adaptação elegante ao adoecimento.
Há riscos concretos. Banhos gelados e imersões em água fria podem provocar resposta cardiovascular intensa, com aumento súbito da respiração, da frequência cardíaca e da pressão arterial. Técnicas respiratórias intensas, se mal executadas, causam tontura, hiperventilação e desmaio. Suplementos, estimulantes e automedicações podem interagir com medicamentos, alterar sono, humor, pressão arterial ou função hepática.
Wearables e aplicativos ajudam, mas também podem gerar obsessão por dados. O relógio passa a ter mais autoridade que o corpo: a pessoa acorda bem, mas se sente mal porque o aplicativo disse que sua noite foi ruim. Esse fenômeno é descrito como orthosomnia, a busca ansiosa por um sono perfeito guiado por rastreadores. Além das métricas, observe o sono. Sonhar é um indicador neurocognitivo ligado à memória, à criatividade e à elaboração emocional. Ao acordar, note se houve sonho, reparação, clareza e estabilidade.
Há ainda um risco mais grave: mascarar sofrimento clínico. Depressão, ansiedade persistente, pânico, trauma, transtornos alimentares — incluindo ortorexia, jejuns excessivos e exigências rígidas sobre alimentação —, dependência química, uso abusivo de fármacos, estimulantes para ficar acordado ou emagrecer e ideação suicida não devem ser tratados apenas com rotinas de otimização. Biohacking emocional pode apoiar prevenção e autocuidado, mas não substitui diagnóstico, acompanhamento médico e psicoterapia.
Um sinal amarelo aparece quando pessoas próximas começam a notar repetição obsessiva do mesmo assunto, rigidez alimentar, excesso de tecnologia, dificuldade de ouvir contraditório, abuso de álcool, comida, exercícios ou medicamentos. Quando o cuidado vira compulsão, deixou de ser saúde. O futuro promissor está justamente em superar a superficialidade do mercado wellness.
A medicina personalizada lembra que pessoas não respondem igualmente aos mesmos estímulos. Há quem melhore com banho frio e quem piore; quem se beneficie de métricas e quem se torne ansioso; quem precise de desafio e quem precise de pausa. A ciência a favor da vida não padroniza corpos como máquinas; reconhece singularidade, contexto, biografia e, sobretudo, limites.
Diante de tantos desafios emocionais que as pessoas enfrentam hoje, ainda faltam soluções que integrem medicina, psicologia, neurociência, educação e gestão. O avanço em saúde mental não virá apenas de um sensor melhor, uma pulseira mais precisa ou uma inteligência artificial mais persuasiva, mas da capacidade de transformar informação em sabedoria prática. Isso exige tecnologias que interpretem dados com segurança clínica, algoritmos transparentes e validados em populações diversas, aplicativos que encaminhem para cuidado profissional quando houver risco e wearables menos vaidosos, mais úteis à saúde pública. A boa tecnologia deve ampliar autonomia, sinalizar caminhos e reduzir culpa — não criar dependência nem impor felicidade permanente. O melhor biohacking emocional não é hackear o cérebro, mas reconciliar corpo, mente, vínculo e sentido.
O verdadeiro biohacking emocional é menos espetacular do que o mercado sugere. Começa com perguntas simples: como estou dormindo? Como respiro sob pressão? O que meu corpo faz antes de eu perder a calma? Quais ambientes me regulam? Quais relações me adoecem? Uso dados para me compreender ou para me punir? Busco saúde ou fuga do desconforto? Nas redes, posto para compartilhar algo vivo ou para alimentar uma carência?
Inspire como quem cheira uma flor. Expire como quem sopra uma vela. Espreguice. E recomece com mais presença.
Rubens Harb Bollos é médico, PhD em Ciências da Saúde e counsellor em gestão de crise e saúde, e presidente-fundador da ABMPP (Associação Brasileira de Medicina Personalizada e de Precisão)
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