«A vida, Marianinha, todas as vidas
são como aquele corgo do Fornelo
que sai da minha terra de má-pelo
a percorrer as Sete Partidas.
O lugar onde tem a mãe
no sopé do bravio monte,
qual é, não se sabe bem…
Brota aqui uma fonte, ali outra fonte,
um borbulhão de água mais além.
Quando se chega a fazer reparo
ei-lo, lá vai ligeirinho,
e, como se diz do pobrete alegrete,
a falar para cada seixinho
ou a rir-se com eles em falsete.
Assim levado e fazendo balsa,
ouve os trilos do rouxinol,
vê das libelinhas a valsa.
E não cessa de progredir e engrossar
até volver ao seio de que saíu, o mar.
Outro rio, que corre e não se vê correr,
é o rio do Tempo. Banha o mundo,
não tem margem nem fundo,
e, desprovido de balizas e lindes,
roça os astros como berlindes,
deixando a esvanecente espuma
dos dias e noites – brancura ou bruma.
[…]»
in O Livro de Marianinha, Aquilino Ribeiro (Ed. Bertrand, 2010, p. 65 e 66)
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Aquilino Ribeiro nasceu no dia 13 de setembro de 1885.
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