Crítica da Folha de São Paulo
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Crítica: Bienal revela delírios contidos e brilha pelo conjunto da obra
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AS ARTES DE ARTHUR BISPO DO ROSÁRIO

 

Arthur Bispo do Rosário perambulou numa delicada região entre a realidade e o delírio, a vida e a arte. No refúgio de sua cela no Hospital Nacional dos Alienados, na Praia Vermelha, o paciente psiquiátrico produziu mais de mil obras consagradas no mercado internacional de arte contemporânea. Criou um universo lúdico de bordados, assemblages, estandartes e objetos durante os mais obscuros períodos da psiquiatria – época dos eletrochoques, lobotomias e tratamentos violentos aplicados para o controle de crises. Sem se dar conta, Bispo não só driblou os mecanismos de poder no manicômio como utilizou sobras de materiais dispensados no hospital para criar suas obras, inventando um mundo paralelo, feito para Deus.

Dizia-se um escolhido do todo-poderoso, encarregado de reproduzir o mundo em miniaturas. Eram suas “representações”, afirmava. Paradoxalmente, as obras, que deveriam representar tudo o que havia na Terra acabariam reconhecidas como peças de vanguarda, incluídas por críticos em importantes movimentos artísticos. Sua arte genial chegou a representar o Brasil na prestigiada Bienal de Veneza, além de correr museus pelo mundo, a exemplo do Jeu de Paume, em Paris. Curiosamente, em vida, Bispo recusava o rótulo de “artista”, dado o caráter divino de sua tarefa. Mas a potência de sua obra ignora limites e até hoje atravessa fronteiras, transgredindo convenções e levando espectadores de todo o mundo ao encantamento.

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Crítica: Bienal revela delírios contidos e brilha pelo conjunto da obra

 

FABIO CYPRIANO
CRÍTICO DA FOLHA

 

A elegante montagem da 30ª Bienal de São Paulo, "A Iminência das Poéticas", funciona como uma espécie de camisa de força para grande parte dos 111 selecionados dessa edição.

É como se as paredes brancas buscassem comprimir as obsessões de cada um desses artistas, que reordenam o mundo em distintas formas. Aí está um dos méritos da mostra: na contenção, revela o delírio.

É de se notar, contudo, que os trabalhos do brasileiro Arthur Bispo do Rosário (1909-1989) não se encaixam nas salas e estão dispostos numa espécie de corredor, um lugar de passagem.

Figura chave dessa Bienal, Bispo construiu sua obra dentro de um hospital psiquiátrico, mapeando o mundo ao seu redor e o reinventando, crente que cumpria uma missão divina.

Pois é a partir dessa fúria arquivista que se pode compreender o conceito da mostra, condensado em seu título um tanto hermético.

"Iminência das Poéticas" seria a forma como artistas ou pessoas comuns como Arthur Bispo do Rosário estruturam uma nova possibilidade de olhar a realidade, um típico procedimento da arte contemporânea.

É assim que se entende a presença de Alair Gomes (1921-1992), que registrou por anos os garotos de praia cariocas e com essas fotos criou séries estruturadas como se fossem peças musicais.

Ou ainda é assim que se pode observar "Pessoas do Século 20", a monumental série de August Sander (1876-1964) com 600 imagens que criam um catálogo tipológico do ser humano.

Com isso, o curador Luiz Pérez-Oramas organizou uma Bienal que evita o espetacular, no sentido do apelativo, para revelar o espetacular nas ações cotidianas, recriadas por uma intensão artística ou simplesmente paranoica.

Afinal, só assim se pode definir a obra do alemão Horst Ademeit (1937-2010), que documentava por meio de centenas de polaroides radiações invisíveis que prejudicariam a vida na Terra e em cada uma dessas imagens escrevia de forma obcecada.

Obsessiva também seria a atividade de um artista como o brasileiro Cadu, que por meses controlou o gasto de energia de sua casa, para criar desenhos com gráfico de consumo de sua conta de luz, na obra exposta "12 Meses" (2004/2005).

Arte contemporânea, segundo o curador, seria então um procedimento conduzido por um artista ou qualquer outro.

Bom exemplo também é o venezuelano Alfredo Cortina (1903-1988), um jornalista que por anos fotografou sua mulher, a poetisa Elizabeth Schön, em paisagens inusitadas, obra nunca comercializada.

Aliás, trabalhos feitos à margem do mercado são um eixo digno de nota da mostra.

Ao apresentar conjuntos significativos de obras de cada selecionado, Oramas também demonstra um efetivo respeito pelos artistas, já que não se trata de ilustrar um tema, mas revelar pensamentos.

Com eixos tão bem estruturados, que o curador aponta como constelações, as chamadas estrelas não fazem falta. Quem brilha de fato é o conjunto, com obras meticulosamente armazenadas em caixas, que ressoam, de fato, a loucura do Bispo.

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