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Diferença entre dinheiro e crédito eletrônico

 "Tanto o dinheiro como o crédito são meios de pagamento e valores. Há entre eles, porém, uma diferença de nível: na ordem monetária nacional, que tem a característica de uma estrutura, o dinheiro é hierarquicamente superior ao crédito. Ou, dito de outra forma: o dinheiro é o fundamento de validade do crédito.  Ou, ainda: o dinheiro é o valor fundamental do sistema monetário considerado."

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Dinheiro para uma revolução


Em 1999, o americano Shawn Fanning, então um universitário de 18 anos, criou o Napster, serviço que permitia que pessoas trocassem arquivos de músicas entre si, pela internet, em vez de comprar CDs. Acuado por processos judiciais, o Napster durou apenas dois anos, mas seu legado, a tecnologia P2P ("peer to peer", em inglês, equivalente, basicamente, a cooperação entre pessoas com os mesmos interesses), sobreviveu em outros serviços de "torrent", como Kazaa, eMule e BitTorrent, que acabaram fazendo da troca de arquivos (músicas, filmes, livros, qualquer coisa) um hábito comum na internet.

Satoshi Nakamoto é candidato ao posto de Fanning. Com o mesmo princípio de troca de arquivos do Napster, sua criação, o bitcoin, é hoje a moeda digital de maior aceitação. Pizzarias nos Estados Unidos, bares na Alemanha e pequenos serviços no Brasil, além de uma infinidade de opções na internet, já recebem o dinheiro eletrônico como forma de pagamento. Um bitcoin chegou a valer US$ 256 (R$ 581) em abril, no auge de uma bolha especulativa.

Há resistências, especialmente por parte de órgãos reguladores americanos, à expansão das transações com moedas virtuais. Mas também há iniciativas com que se pretende validar essa espécie de dinheiro alternativo, como a dos irmãos Cameron e Tyler Winkle - conhecidos por terem processado Mark Zuckerberg, a quem acusam de lhes ter roubado a ideia do Facebook -, que na semana passada deram entrada a pedido de autorização, junto a órgãos reguladores americanos, para criarem um fundo de investimentos lastreado em bitcoins. Calcula-se que eles possuam US$ 11 milhões em bitcoins. E a maior corretora de bitcoins do mundo, a japonesa Mt.Gox, apresentou ao Departamento do Tesouro dos EUA pedido de registro como empresa de serviços financeiros, para submeter-se, assim, à legislação sobre lavagem de dinheiro.

"O bitcoin libera o dinheiro mais do que o Napster liberou a música", diz o inglês Amir Taaki, de 25 anos, um dos programadores que trabalhou na melhoria do código do bitcoin a convite de Nakamoto. "É uma ferramenta de revolução. As pessoas fazem negócios diretamente umas com as outras, sem impostos ou taxas de bancos."

Dinheiro digital não é uma novidade. Há dez anos, dólares linden circulam no mundo virtual Second Life. Na China, milhões de pessoas compram no comércio com os QQ coins, do gigante de internet Tencent. No entanto, assim como os créditos do Facebook e alguns programas de pontos, como o dotz, sempre há alguma empresa no controle. A diferença para o bitcon, que Nakamoto criou em 2009, é sua essência anárquica. Não há banco central ou governos envolvidos. O mercado é livre.

Trata-se de códigos, transmitidos diretamente de usuário para usuário. Uma forma de obter bitcoins é participar da sua "mineração", baixando um software e cedendo processamento do computador para ajudar a decifrar um bloco de códigos. Quem decifra primeiro o enigma recebe um lote de 25 bitcoins (equivalentes a R$ 5 mil, pela cotação média dos últimos 30 dias). Também é possível comprar de outra pessoa ou em corretoras que negociam a moeda virtual.

O dinheiro fica guardado em uma carteira virtual, seja numa corretora ou no próprio computador do usuário. Como as notas em papel, cada bitcoin tem um código que o identifica como verdadeiro. Quando alguém quer vender, negocia direto com o comprador e o bitcoin sai da carteira de um para a do outro assim que o pagamento é confirmado. Cada operação é registrada em um livro-caixa virtual, que é aberto, para evitar fraudes, mas compradores e vendedores permanecem anônimos.

Criar algo assim era o que os "cyberpunks" (algo como punks fãs da criptografia) buscavam nos primeiros anos da internet: um dinheiro virtual confiável, impossível de rastrear, livre para circular em um mundo conectado e sem controle de governos ou taxas bancárias. Nos anos 1990, surgiu o ecash, que até hoje é usado. Houve ainda o bit gold, o b-money e o RPOW. Todas as iniciativas fracassavam, no entanto, em resolver o problema do "duplo gasto". Se o dinheiro virtual é só um arquivo, como impedir que seja copiado e usado infinitas vezes sem alguém no controle?

Em janeiro de 2009, quando a moeda surgiu, 10 mil bitcoins, que hoje valem R$ 2 milhões, serviam para comprar uma pizza

Nakamoto surgiu com a solução: uma rede de computadores produzindo bitcoins sem interferência de ninguém e um livro-caixa que elimina a necessidade de uma autoridade: todos podem consultá-lo e saber a situação de cada arquivo negociado. Ninguém havia ouvido falar dele até que, em 2008, publicou numa lista de e-mails sobre criptografia um artigo com os fundamentos do bitcoin. O sobrenome é tão comum no Japão quanto Silva no Brasil. Por isso, ninguém acredita que seja verdadeiro. Nem mesmo seria só uma pessoa e sim a equipe que criou a moeda digital. Ou uma empresa - o Google é sempre citado - interessada numa forma de dinheiro que circule facilmente no mundo todo.

Jornalistas e fãs tentam resolver o mistério. Fóruns sobre o bitcoin interpretam o inglês dos e-mails de Nakamoto em busca de sua nacionalidade.

No caso de ser uma só pessoa, oculta sob pseudônimo, o principal suspeito é Jed McCaleb, criador do serviço de compartilhamento de arquivos eDonkey e ex-dono da corretora japonesa Mt. Gox, que concentra 60% das transações de bitcoins no mundo. McCaleb também é criador do ripple, moeda virtual que muitos consideram uma provável substituta do bitcoin. Outro suspeito, pelas expressões britânicas nos e-mails de Nakamoto, é o irlandês Michael Clear, estudante de ciência da computação do Trinity College, em Dublin. Dois anos atrás, a revista americana "New Yorker" apostou nele.

Um terceiro suspeito, segundo Ted Nelson, criador do termo "hyperlink", é o professor Shinichi Mochizuki, do Instituto de Pesquisa em Ciências Matemáticas da Universidade de Kyoto, no Japão. Em 2009, Mochizuki, um acadêmico excêntrico que escreve apenas no próprio blog, publicou um artigo, "Curvas elípticas aritméticas na posição geral", com os pressupostos teóricos que o bitcoin veio provar. Os dois primeiros negam ser Nakamoto. Mochizuki não respondeu aos pedidos de entrevista.

O primeiro lote de bitcoins foi produzido em 11 de janeiro de 2009. Eram necessários 10 mil bitcoins, que hoje valem R$ 2 milhões, para comprar uma pizza pela internet. Desde então, a moeda passou por duas bolhas especulativas, em 2011 e no primeiro trimestre deste ano. Na última, suspeita-se que tudo começou com o boato de que o governo do Chipre iria congelar contas bancárias para conseguir pagar a dívida do país. Houve uma corrida ao bitcoin por europeus, preocupados com a possibilidade de seus governos fazerem o mesmo. Um bitcoin, que valia US$ 10 em janeiro, chegou a US$ 256 em 4 de abril, quando houve o estouro da bolha. Nos últimos três meses, a cotação de um bitcoin se manteve na faixa entre US$ 100 e US$ 120.

A cada dez minutos, um novo lote de bitcoins é distribuído. São 150 (R$ 30 mil) por hora ou 3,6 mil (R$ 720 mil) por dia. No início, qualquer pessoa com um computador comum podia resolver o enigma e ganhar seu lote da moeda. Hoje, o grosso dos novos bitcoins vai para garimpeiros profissionais e sua grandes máquinas - torres de processadores vendidas por até R$ 50 mil - criadas só para a "mineração". E ainda há a concorrência dos botnets, vírus que fazem computadores trabalharem em rede para ganhar bitcoins.

O planejado é que em 2140 haverá 21 milhões de bitcoins e então a produção cessará. Esse é um aspecto do projeto que empolga economistas. O bitcoin foi criado para ser escasso e imune à inflação. "Não é uma moeda no sentido convencional. É mais como um ativo, como se fosse ouro, uma TV ou qualquer mercadoria", diz Rodrigo Batista, sócio da Mercado Bitcoin, uma das poucas corretoras no Brasil a negociar o dinheiro digital. "Não há uma garantia no mundo real, como no caso do ouro ou qualquer outro metal. Mas o lastro de todo o dinheiro, não só o virtual, é cada vez mais etéreo".

"O mais incrível é que funciona", explica Taaki. "O bitcoin é mais do que dinheiro. É um sistema de contratos." A ideia é mais ou menos o que sustenta qualquer moeda desde que os Estados Unidos renunciaram ao padrão-ouro, que atrelava o dólar às reservas do metal, em 1971. Dinheiro é um contrato em que todos concordam que vale alguma coisa, sem nenhum lastro senão a garantia - e uma série de regras que combatem a volatilidade e a fraude - dos governos e da sociedade de que o portador de determinada quantia tem direito ao equivalente em mercadorias e serviços. O bitcoin retira os governos da equação. A confiança é entre indivíduos, sem intermediários.

O bitcoins é virtual, mas também têm representação física (foto): chegou a valer US$ 256 em abril, no auge de uma bolha especulativa, e hoje se mantém entre US$ 100 e US$ 120
Para Taaki, isso significa "revolução". Fora atacar o Estado, ele vê na moeda a chance de democratizar o acesso ao dinheiro a países em guerras e conflitos. "O PayPal bloqueia o acesso ao seu sistema em mais de 80 países, porque estão em guerra ou são ditaduras. Nossa meta é incluir as pessoas, não bloqueá-las", diz Taaki, enfant terrible da causa bitcoin que vem se tornando conhecido pelas declarações incendiárias. Já sugeriu que o bitcoin deixa a lavagem de dinheiro ao alcance dos cidadãos comuns, não só os mais importantes.

Em Kreuzberg, bairro de Berlim, essa utopia chegou ao mundo real. Fãs de tecnologia e ativistas podem pagar a conta com bitcoins em bares como Room 77. Os pagamentos costumam ser feitos via aplicativos de smartphones. Com 0,2 bitcoin, é possível, por exemplo, comprar um hambúrguer chamado Fidel Castro. "Quase todo dia alguém vem ao bar e paga com bitcoins", diz Joerg Platzer, dono da casa noturna.

Bitcoins também são o que o canadense Taylor More pede em troca de sua casa com vista para as montanhas na província de Alberta. "Minha casa está à venda por bitcoins", comunicou em um anúncio na internet. Ele pede 5.362 bitcoins (algo como R$ 10,6 milhões, pela cotação média do bitcoin nos últimos 30 dias). "Espero que seja o primeiro imóvel vendido com bitcoins. Isso talvez ajude a moeda a ser mais aceita", diz More.

Em abril, um americano, morador do Texas, vendeu seu Porsche por 300 bitcoins (R$ 60 mil). No início do mês, foi a vez de um casal de americanos pagar com a moeda a clínica que congelou seus embriões.

Além de Satoshi Nakamoto, que, especula-se, possui US$ 300 milhões em bitcoins, outros nomes têm-se se destacado no mercado da moeda virtual, nos últimos tempos, com apostas de vulto em suas perspectivas. É o caso dos irmãos Cameron e Tyler Winklevoss, com seus presumidos US$ 11 milhões em bitcoins, adquiridos quando cada unidade valia US$ 7. Pretendem agora criar um fundo de investimentos lastreado em bitcoins, para venda de cotas de participação. Peter Thiel, co-fundador do PayPal, lidera um grupo de investidores que pôs dinheiro no BitPay, serviço de pagamentos em bitcoins.

Essa investida de grandes interesses no mercado de bitcoins, que já vale US$ 1,3 bilhão, segundo estimativas, desafia sua essência anarquista. "Se poucas pessoas controlarem a maior parte dos bitcoins, isso tiraria da moeda [provavelmente supervalorizada e submetida a circulação restrita] a liberdade de oscilar", diz Batista, da Mercado Bitcoin. Seria o contrário do que se espera do dinheiro."

Se a maioria das pessoas pode ver tudo isso como um experimento econômico interessante ou ficção científica, para os governos é perturbador. Quando os Estados Unidos tentaram fechar o site Wikileaks, após o vazamento de informações sobre a guerra no Iraque, em 2010, e os bancos e empresas de cartões de crédito aceitaram não repassar dinheiro para Julian Assange, doações em bitcoins permitiram a sobrevivência do site. Grupos de hackers como o LulzSec, que vaza informações de governos, bancos e corporações, também se financiam com bitcoins.

Numa situação-limite, o bitcoin põe em xeque a capacidade de Estados se financiarem. Sem o controle do dinheiro, não há como cobrar impostos. Ou fazer guerras. E também não há como oferecer serviços. A reação, nos Estados Unidos, é ver o bitcoin como uma ameaça. O FBI cita o risco de a moeda ser usada na lavagem de dinheiro. No Silk Road, um mercado on-line situado na "deep web" - endereços na internet que não aparecem nas buscas de serviços como o Google -, drogas são negociadas livremente. Os preços estão em bitcoin e as transações são anônimas. Bitcoins também são a forma de pagamento mais aceita nos sites que oferecem todo tipo de crimes: de senhas roubadas do PayPal a assassinatos por encomenda.

Os irmãos Cameron e Tyler Winklevoss, donos de presumidos US$ 11 milhões em bitcoins, pretendem instituir um fundo de investimentos lastreados na moeda virtual
"As redes internacionais estão infestadas de hackers e crackers e, assim como no mercado futuro de derivativos ou na área de saúde hospitalar, há 'lixo tóxico' no sistema", explica o professor Gilson Schwartz, da Escola de Comunicação e Artes da USP. Em sua opinião, governos deveriam combater os crimes sem combater o bitcoin, cujo caráter libertário elogia.

É o sinal dado pela Commodity Futures Trading Commission (CFTC), dos EUA, que estuda aplicar regras ao bitcoin. Mesmo que um integrante da comissão tenha chamado a moeda de "dinheiro das sombras", a regulação seria uma forma de reconhecimento da importância do dinheiro digital e afastaria parte dos criminosos.

Ainda não se falou nos ladrões. Ataques a serviços de armazenamento de carteiras virtuais aumentam no ritmo da valorização dos bitcoins. Vírus, se instalados no computador, roubam as carteiras virtuais, transferindo-as para outras pessoas, que permanecem anônimas. É possível acompanhar essas transações, mas a identidade dos ladrões permanece desconhecida.

"Quando você tem uma moeda altamente valiosa, completamente virtual e impossível de rastrear, naturalmente haverá roubos", admite Mikko Hypponen, pesquisador-chefe da empresa F-Secure e especialista em segurança na internet. "Se eu roubo uma carteira de bitcoins, não há maneira de o dono recuperar seu dinheiro. É como roubar dinheiro vivo." As falhas de segurança, ele acredita, acabarão resolvidas. O importante é que o código bitcoin em si até hoje não foi quebrado. "Minha aposta é de que as criptomoedas serão um sucesso".

No fim de março, o Mercado Bitcoin, principal serviço brasileiro de armazenamento de bitcoins, registrou o primeiro roubo no país. A empresa, que conta com cerca de 2 mil clientes, só voltou a operar em 7 de junho. Garantiu a devolução dos bitcoins a seus donos e anunciou a entrada de novos sócios no negócio. Em geral, as corretoras devolvem apenas uma parte do dinheiro roubado.

Mesmo o anonimato das transações não é totalmente garantido. Em 2011, investigando um roubo de 25 mil bitcoins, Fergal Reid e Martin Harrigan, pesquisadores da Universidade College Dublin, cruzaram dados e descobriram o ladrão. Reid e Harrigan mapearam redes de usuários e de transações e, usando outras informações, como doações feitas em bitcoins a um grupo anarquista e ao site Wikileaks, descobriram que tanto o ladrão como a vítima faziam parte do mesmo fórum. "O bitcoin não é inerentemente anônimo. É possível fazer transações de modo a esconder identidades, mas em muitos casos usuários e suas transações podem ser identificados", garante Reid.

Recentemente, o investidor Warren Buffet disse que não poria um centavo de sua fortuna na moeda. Paul Krugman, ganhador do Nobel de Economia, assegura que o furor em torno do bitcoin serviu de lição sobre como as pessoas têm concepções equivocadas em relação ao dinheiro. "Em especial, sobre como se deixam enganar devido a seu desejo de divorciar o valor do dinheiro da sociedade à qual o dinheiro serve", escreveu em sua coluna no "New York Times".

Mesmo que venha a durar, o bitcoin pode simplesmente ser substituído por uma versão mais avançada. Ideias não faltam. Moedas como a litecoin e o ripple, criadas a partir do código bitcoin, resolvem alguns problemas, como a quantidade limitada da moeda. Mas até os críticos reconhecem: o bitcoin valer algo já é um sucesso.

12.07.13
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