aqui. Nesse trecho, a tradução de Galindo supera a de Bernardina, que optou por destrinchar o texto pros nossos leitores de TV. De mais a mais, o texto original é inalcançável pelas traduções. Provocador, Joyce não deixa de lembrar em Ulysses que o idioma foi imposto à Irlanda a ferro e fogo. Mesmo assim, a língua inglesa é a musa da obra. Ao longo dos três capítulos do livro, Joyce parece querer desvendar cada segredo, desvão, da língua de Sheakspeare e pretende usá-la como ponto de apoio para alavancar o mundo. Amar apaixonadamente a língua do colonizador não deixa de ser uma forma de subversão. Atitude sheakspeareana, sem dúvida. (Assistindo a Brasil X Inglaterra, me surgiu um enlace com o fato de termos nos apropriado do jogo bretão e nos tornando seu mestre.) Hoje à tarde, depois que os meninos saírem pra escola, vou começar a ler o capítulo II, quando Leopold Bloom inicia o dia preparando o chá da manhã de sua esposa Molly. Depois, bonachão, senta-se na latrina, e abre o jornal sobre os joelhos nus. Num canto escondido do jornal, Mr. Bloom encontra um conto que o próprio Joyce teria escrito na juventude. "A vida devia ser assim. Nada o agitava nem o emocionava mas era alguma coisa rápida e limpa. Continuou a ler sentado calmamente sobre o próprio cheiro que se elevava" (traduçãozinha minha). Como diz o professor Declan Kiberd, em Ulysses and Us: "trata-se de uma experiência original de como pensar, de como viver, ler, aprender e... ...morrer."/>
James Joyce e tempo sem pressa
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James Joyce e tempo sem pressa
É bom ter tempo de sobra para longas leituras de Ulysses. Tardes a fio, passo na companhia desses personagens de vida comum, transcorrida segundo a segundo, de forma solitária, triste, mas cordial. Alterno a leitura do original com a tradução mastigada da professora Bernardina da Silveira Pinheiro e outra mais recente, publicada no ano passado pelo jovem Caetano Galindo. A tradução do Houaiss também está à mão. Mas dessa vez ainda não a abri. Pra falar a verdade, aquele tijolo sempre me aterrorizou. Saltava aos olhos quando eu entrava na biblioteca do meu pai. Tinha uma aparência de cara fechada como se avisasse: “Mantenha-se ao largo”. (O original sempre me pareceu mais leve.) Na internet, tem amplo material para desatar os nós que o autor amarrou no texto. Tudo disponível com alguns cliques. No entanto muitas vezes opto por não interromper a leitura. Quando Dedalus caminha com suas botas pela praia de Dublin (como Caetano vagando de tênis pelas areias de Botafogo), deixando o pensamento solto, refletindo sobre a história da Irlanda e o conhecimento do mundo, o texto torna-se árido, fugidio, esparso. (Creio que é nessa hora que a maioria das pessoas desiste de Ulysses – desiludidas com um texto pouco factual, fora das regras de causa e efeito das novelas de televisão.) Como não quero ser especialista na história de Irlanda nem nas engrenagens da Máquina do Mundo, simplesmente deixo a narrativa correr. Me ligo no ritmo e nas belas imagens tecidas minuciosamente. O cachorro correndo na areia é epifania pura, veja ensaio em http://www.bc.edu/publications/newarcadia/archives/3/epiphaniesinjoyce/">aqui. Nesse trecho, a tradução de Galindo supera a de Bernardina, que optou por destrinchar o texto pros nossos leitores de TV. De mais a mais, o texto original é inalcançável pelas traduções. Provocador, Joyce não deixa de lembrar em Ulysses que o idioma foi imposto à Irlanda a ferro e fogo. Mesmo assim, a língua inglesa é a musa da obra. Ao longo dos três capítulos do livro, Joyce parece querer desvendar cada segredo, desvão, da língua de Sheakspeare e pretende usá-la como ponto de apoio para alavancar o mundo. Amar apaixonadamente a língua do colonizador não deixa de ser uma forma de subversão. Atitude sheakspeareana, sem dúvida. (Assistindo a Brasil X Inglaterra, me surgiu um enlace com o fato de termos nos apropriado do jogo bretão e nos tornando seu mestre.) Hoje à tarde, depois que os meninos saírem pra escola, vou começar a ler o capítulo II, quando Leopold Bloom inicia o dia preparando o chá da manhã de sua esposa Molly. Depois, bonachão, senta-se na latrina, e abre o jornal sobre os joelhos nus. Num canto escondido do jornal, Mr. Bloom encontra um conto que o próprio Joyce teria escrito na juventude. "A vida devia ser assim. Nada o agitava nem o emocionava mas era alguma coisa rápida e limpa. Continuou a ler sentado calmamente sobre o próprio cheiro que se elevava" (traduçãozinha minha). Como diz o professor Declan Kiberd, em Ulysses and Us: "trata-se de uma experiência original de como pensar, de como viver, ler, aprender e... ...morrer.
Curated by Luiz da Motta
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